Ficção,

Nada é tão antigo quanto o passado recente

O escritor carioca publica a segunda parte de seus diários do confinamento

17jun2020 - 12h45 | Edição #34 jun.2020

#28.04.2020 

Publiquei parte desse diário numa revista literária brasileira, a Quatro Cinco Um, o trecho foi logo traduzido para o espanhol, publicado na Revista de la Universidad de México. Vendi também para uma revista norte-americana, para 2021 — se houver. Fiquei nervoso, perdi uma semana de trabalho. Minha mãe escreveu: “Gostei muito, meu filho, mas me incomoda você falar da sua vida pessoal. Para todos”. Respondi que era um diário, pedi perdão — e disse que a amava, culpado. “Eu sei. Mas me dá um certo desconforto. Adorava o estilo da Clarice. Ela contava os fatos só com sentimentos. Não sei se expressei bem, mas sei que você me entende. Também te amo e sofro junto.”

Penso agora em tirar essa última frase, fica mais forte terminar com “sei que você me entende”. E ponto-final, corte seco, o peso de uma repreensão. Mas não consigo. Devo estar ficando velho. Ou doce, molenga. “Escrever é passar uma corda pelo pescoço”, me escreve D. citando Bataille. Talvez seja melhor, às vezes, dar um nó cego.

#02.05.2020

Os canais de televisão reprisam jogos antigos, decisões disputadas há décadas, a final da Copa do Mundo de 1994. Diante da TV, os brasileiros torcem por um jogo truncado cujo resultado já conhecem. Para experimentar o frisson elétrico do passado, sua leveza hoje impossível, ou ter a sensação de que podem controlar alguma coisa. 

#04.05.2020

Pizarnik: “Dizem que cada coisa tem seu substituto. Substituição que se sucede infinitamente. Mas não acredito nisso: nada se substitui”.

Aqui, cada semana é mais íngreme que a anterior — já não tenho mais posição, sentado ou deitado. Escrevo com o aparelho no colo, ele esquenta como uma torradeira sobre as minhas pernas. E agora há um mau contato, o abajur pisca e se apaga. Fico com a luz noturna, o céu púrpura-terroso de São Paulo pelas janelas, o brilho do cristal onde vejo impressas estas letras, uma após a outra, a cada martelada. Estou só, e penso em como escrever o que preciso agora. Apenas penso.

#06.05.2020

Entre a inocência e a impotência, a oposição democrática descobre novos buracos para enfiar o pescoço a cada dia. Enquanto nós, os últimos ilustrados, inventamos novas formas de conversar com o espelho. Sempre um pouco acima do chão, um pouco revolucionários – ligeiramente subversivos. 

Mas não muito.

#07.05.2020

Nunca mais ouvi o som de uma ambulância do mesmo jeito depois que descobri o radical da palavra sirene: sirena, σειρήν, seirēn — a própria sereia mitológica, que não era metade peixe, e sim pássaro. 

É o canto dela que me traz aqui, onde o chão do corredor desenha os ganchos de uma letra ‘s’ em cursiva, uma curva que demora a terminar nos alvos ziguezagues do hospital. Um grupo de homens e mulheres vestindo branco e máscaras cirúrgicas me ultrapassa, não tenho qualquer pressa, é claro — fico ainda um tempo sozinho com as sombras deformadas que eles abandonam no arco das paredes.

Logo alguém voltará. Haverá certa confusão de movimentos e intenções, cujo centro deveria ser eu, mas agora já tratam de mim como se não estivesse mais aqui. A identificação colada na minha camisa é trocada por uma pulseira. Como faixas pintadas numa estrada, as lâmpadas fluorescentes do teto deslizam para trás até a maca atravessar o umbral, ao fim de uma sequência de portas duplas, de onde muitos só conhecerão a entrada.

Digressiono, fantasio — não será dessa vez. Sou apenas um dos afortunados que, ombros encolhidos, está zanzando por ali, e penso que trocaria de lugar com ela se pudesse. Sob os percussivos sinais dos sonares espetados na pele, a roda dos familiares compartilha cafezinhos, fotografias no telefone, a conversa sobre o tempo, o mesmo pavor difuso — como diz o pássaro nos Quartetos de Eliot: a espécie humana não pode suportar muita realidade.

#12.05.2020

Faço duas chamadas de Zoom seguidas, com dois amigos que perderam o pai. Meu Facebook virou a seção de obituários de um jornal. Entre tantas perdas, em menos de trinta dias se foram os dois maiores escritores vivos do país: Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna, o segundo em ebulição criativa até o último mês.

Sobre Fonseca, a Folha do dia seguinte publicou um texto meu, desastrado, escrito em poucas horas, ainda sob o impacto da notícia. O que não consegui traduzir direito foi minha impressão juvenil de Fonseca como um espetacular reacionário-revolucionário cosmopolita e punk avant la lettre (alucinado e radical como um lou reed? um francis bacon?) que tensionou as cordas da prosa em língua portuguesa ao limite. E o sujeito que melhor herdou e amplificou essa microfonia paranoica na segunda metade do século foi mesmo o Sérgio. Sem esses dois, estaríamos ainda usando pince-nez e tocando alaúde. 

E quando penso no Sérgio, sinto que perdemos o mais contemporâneo dos contemporâneos. Escritor que compartilhava impressões sobre livros de jovens gerações adiante. Experimental e generoso, trágico e profundamente sacana. Uma combinação só possível ali. Sua partida nos deixa órfãos de presente num país que hoje parece encontrar sua vocação final naqueles versos do Yeats: “Falta fé aos melhores, já os piores se enchem de intensidade apaixonada”. Ou, como localizaria Machado em uma de suas muitas definições precisas do Brasil, “em nosso país, a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão”.

É como se essa terra estivesse se vingando de si mesma — ou talvez esses caras estejam simplesmente desistindo daqui enquanto é tempo. 

#14.05.2020

Começo a fazer um tratamento de microdosagem de Psilocybe Cubensis, cogumelo  alucinógeno. Compro 40 gramas, tomo 400 miligramas de manhã, em jejum, a cada dois dias. A dose recreativa é de uma grama em diante, mas fazer isso trancado em casa está fora de cogitação. Primeiros efeitos: leve euforia à tarde, sonhos lúcidos, aumento de concentração, envio de correios. Há algo terrivelmente conservador em tomar doses baixas de um alucinógeno poderoso para estar funcional, mas meu cérebro sonolento aceita qualquer ajuda. 

#15.05.2020

Z. me dá a ideia de escrever um conto sobre uma personagem que, irritada ao descobrir-se retratada num livro, grita ao seu autor: me esqueça! E foge, rebelde, das vistas de seu narrador para fora daquelas páginas. 

Mas logo ela se veria presa num outro livro, com outro narrador, talvez mais simpático que o primeiro e, ainda assim, após breve convivência, ela também desertaria deste volume, para logo se ver em outro, e assim repetidas vezes, pulando de estante em biblioteca, buscando, mesmo sem saber, aterrissar em algo que, sim, seria seu livro particular, o que ela finalmente escreveria de próprio punho e voz, narrando a si mesma como bem entendesse — o que a levará (e isso ela descobre do pior jeito) rápida e inexoravelmente, à morte.

#17.05.2020

aqui
onde há mais passado que futuro
e nada é tão antigo
quanto o passado recente
as pessoas fariam qualquer coisa
para ter um pouco de paz
qualquer coisa e isso é muito perigoso

qualquer coisa por um pouco mais 
de tempo e espaço espremidos
entre outros nacos de tempo, espaço 
e qualquer outra coisa
menos feroz e perigosa

que o duro fruto
da repetição dos golpes
de facão na picada
de estaca cravada

o tempo gasto para abrir
todo aquele espaço
entre o passado, o futuro 
e o aço e o mato

as pessoas fariam qualquer coisa

#25.05.2020

Desde sempre pronto a me atirar no precipício seguinte. Mesmo nos rescaldos da catástrofe amorosa, um witaparentemente inesgotável para arrolar a próxima. O joguinho ero-neurótico, a troca de fotografias, a transferência do objeto etc. Mas, hoje, uma pedra muito grande parece ter se colocado diante do sol. Sem fôlego para a pornografia emocional, me preparo para a existência sem sobressaltos de um taxidermista do amor, aposentado.  

Há quem tente romper meu celibato: a mulher com casamento aberto, a mulher recém-separada que quer um filho, a mulher artista brilhante, a mulher compreensiva que escreve no dia seguinte ao desmaio. Sempre preencho uma lacuna, um personagem que surge no segundo ato da peça escrita por elas. Para cada uma, tento improvisar as linhas certas — mas, quando subo ao palco, sob os refletores e o olhar da plateia, me falta sangue para continuar. Talvez seja uma questão de fé.

Ou de olfato. Um perdigueiro que perdeu o faro, procuro B. fugindo dela. Fujo também dos vapores da carne, do gozo, do ciúme, das promessas, do terror. E não sou capaz de sentir mais o gosto de nada — quanto mais vazio, mais enfastiado. Finalmente, um sujeito terno? 

#29.05.2020

Há quem só conseguimos conhecer à distância, a cada dia ausente. E talvez assim seja com o próprio mundo e suas pessoas. Não há luz mais cruel, mais destruidora, que o tempo — não há como desver o que ele nos oferece. 

#04.06.2020

Um deputado compilou, com a ajuda de grupos neonazis, um dossiê de mil páginas com nomes, fotografias e endereços de militantes antifascistas. A lista está circulando por grupos de milicianos e e foi anexada a um boletim de ocorrência que imputa terrorismo aos antifa. 

A. está na lista, o endereço é a casa do pai. Ela me grava um áudio: “Se tiver um golpe vou precisar sair do Brasil no mesmo dia”. Entro numa rede social, hesito, mas enxovalho o deputado antes de pedir que me inclua no cadastro. Nessa hesitação já está o golpe, no ar.

Pouco abaixo dos pulsos sinto cortes doloridos. São marcas que o aparelho fervendo deixou na pele fina do antebraço: o dia inteiro apoiado nele, na cama ou sentado, sem posição. Visto uma camisa com mangas compridas, mas as assaduras permanecem, como se fossem algemas. 

#05.06.2020

Para Georges Perec, o que nos fala é sempre o acontecimento, o extraordinário: “Os trens só começam a existir quando descarrilham, e quanto mais passageiros mortos, mais existem”. Não por acaso, hoje parecemos intoxicados de realidade: compartilhamos o mesmo equívoco. 

É que nada há de insólito nisso. Desde quando o tempo começou a ser contado, estivemos muito mais mortos que vivos — é o nosso vínculo mais profundo e fundamental etc. Talvez seja difícil admitir tal vulgaridade. Peste, putrefação, fedor, número: nós mortos somos o mesmo. 

Talvez seja um problema de linguagem. Quanto mais nos aproximamos dessa coisa, menos somos capazes de testemunhá-la. Quanto mais ostensivas, pornográficas, obscuras, sublimes ou luminosas nossas ferramentas, menos parecem dar conta do trabalho: a representação da morte a anula, como um flash sempre a superexpor completamente o filme. É inútil, um pouco como estar apaixonado por você.

Nada parece tão real e irreal ao mesmo tempo, é sempre tudo tão menor e maior ao mesmo tempo. 

Talvez o reflexo mais aproximado desse objeto pudesse ser algum tipo de repentino buraco negro (branco) que absorvesse tudo, inclusive as paredes do museu, as páginas deste diário e o espectador, numa espiral do nada ao vácuo, até a mais completa perda de sentido, obliteração, esvaimento — e, com sorte, fosse um conto de Borges ou Allan Poe, um penúltimo clarão, um ataque cardíaco, uma desistência gratificante.

#06.06.2020

Tenho pensado obsessivamente em 2013, procurando fotos, vasculhando pastas. Talvez por estarmos às vésperas de ocupar a rua em junho de novo, com efeitos novamente imprevisíveis.

Passei um 2013 irreal indo e voltando: um laboratório/residência do Festival de Veneza, uma outra residência de cinquenta dias num castelo na Umbria, e muitas viagens no meio, em festivais, lançando traduções ou simplesmente num mui bem regado dolce far nienteem Cartagena, Bogotá, Nova York, Istambul, Barcelona, Ibiza, Formentera, Buenos Aires, Paris, Berlim (na verdade uma dúzia de cidades em um par de longas viagens para a Alemanha, Brasil convidado em Frankfurt) e Salvador, onde fui curador da Bienal do Livro, um dos trabalhos mais felizes que já tive. Fui às ruas no Rio pontualmente porque estava quase o tempo inteiro fora. Acompanhei o início das jornadas pela Mídia Ninja entre as paredes de madeira da sala de leitura, grande como um hangar, da Biblioteca Pública de NY. 

E a coisa toda começa a desmoronar precisamente em junho: casamento, relações de trabalho com a mídia corporativa, estabilidade financeira, a política cá e no mundo. Isso está bem registrado no meu último romance de ficção, mas eu poderia aqui cravar a data exata do início da débâcle, se estômago tivesse para essa busca no terreno pantanoso da correspondência eletrônica. Depois disso, desse junho, jamais de novo a combinação de trabalho, felicidade, conforto material & marital. Ainda que tenha continuado a viajar com traduções e um filme, depois desse junho, sempre que conquistei a duras penas um desses fatores, perdi todos os outros. Enquanto no Brasil testemunhamos a ascensão de um fascista ao poder na esteira de um golpe.

Como há sempre um alçapão no fundo desse poço, espero — meio inutilmente — não depender da política brasileira para voltar a ser uma pessoa razoavelmente feliz. 

#08.06.2020

Saio às ruas pela primeira vez em quase três meses, para o segundo final de semana de manifestações antifascistas desde o começo da pandemia. Estranho usar sapatos.

No Largo da Batata, uma multidão de estudantes secundaristas protesta contra o genocídio do jovem negro, o terrorismo de Estado, este governo. Todos com máscaras, muitos com luvas de plástico. A todo momento, a organização distribui álcool gel. Há preocupação com o distanciamento social em parte da praça, em outra todos se concentram como se não houvesse mais Covid-19. Líderes dos movimentos discursam num tímido carro de som. Os nomes de Ágatha Felix, João Pedro Martins, Marielle Franco e George Floyd são os mais lembrados. O sol abre, gritamos palavras de ordem, compramos cervejas. As coisas até parecem que podem melhorar, mas logo passa.

Na dispersão, como de costume, o Choque atira bombas de gás e efeito moral, envelopa quarteirões, espanca manifestantes. O pretexto para a ação da PM foi dispersar um pequeno grupo que queria seguir até a avenida Paulista pela avenida Rebouças, três quilômetros adiante.

Escapo por sorte, comendotacos numa lanchonete que fechou as portas de metal. Depois os bloqueios não me deixam voltar para casa, um grupo me acolhe. No caminho, I. quase é preso, insiste em argumentar com a PM sobre o direito de ir e vir: “O senhor é um cidadão como eu”. Um sujeito de farda responde: “Isso é problema seu”.

Levamos bebida para o apartamento de N. Nunca o suficiente, ainda secamos o uísque e os cogumelos da casa. Lá fora, as bombas seguiram explodindo, até parar. 

#12.06.2020

Encontro um HD no fundo da gaveta. Mais de dez mil fotos e vídeos captados entre 2006-2014, um material que não via praticamente desde então. Uma brutalidade: choro e fico de pau duro, mais ou menos ao mesmo tempo. Vou dormir às seis da manhã, obliterado por essa produção que envolve reviravoltas amorosas, locações em quatro continentes, alguma nudez e intriga. É a vida exótica de outro personagem (um sísifo sorridente, alucinado, sem noção) num mundo que hoje parece vertiginoso – e bem guardado do outro lado desse túnel obscuro, que se estende a cada passo. 

O óleo queimando na luz frágil da lanterna, às vezes, é escrever. 

Quem escreveu esse texto

J. P. Cuenca

Escritor e cineasta, é autor de O único final feliz para uma história de amor é um acidente (Companhia das Letras).
 

Matéria publicada na edição impressa #34 jun.2020 em maio de 2020.