Ficção,

Não temos crise, temos Cristo

O escritor carioca publica a terceira parte de seus diários do confinamento

06ago2020 - 10h25

16.06.2020

Publico uma paráfrase de Jean Meslier usando o sobrenome dos milicianos no poder e a principal facção neo-pentecostal que os apoia e vou fazer um café, distraído. Quando volto, meia-hora depois, minha conta entrou no radar. Relinchos e grunhidos em todas as caixas. Ataque empreendido por robôs da rede, seres humanos – ou algum elo perdido entre os dois.

As criaturas invadem outras páginas. Tranco as contas para evitar me afogar no chorume das ameaças, sempre tão mal escritas. Como não podem usar os comentários, deixam centenas de sorrisos de escárnio em cada publicação. O fascismo sempre teve algo de infantil e regredido, mas hoje encontrou a ferramenta perfeita para que cada ruminante odioso exerça sua idiotia com espalhafato e a crença de que, sim, finalmente está sendo ouvido. Mesmo que seja através das caretas de um ícone amarelinho.

18.06.2020

A editora da Deutsche Welle me escreve, questionando minha citação iluminista. Ofereço explicar a metáfora, mas ela me demite rapidamente e publica um comunicado justificando minha saída por “discurso de ódio”. Seria irônico, não fosse criminoso. A cria presidencial, deputados fascistas e o gado zumbi celebram publicamente, publicam montagens com meu rosto. O tumulto nos meus perfis, que já havia diminuído depois de dois dias, explode. Escritores, jornalistas e editores demonstram solidariedade, estupefatos, e são achincalhados pela turba abominável.

Cedo ou tarde, o governo cairá. Como sempre. Mas esses indivíduos continuarão habitando o mundo, exatamente como antes.

19.06.2020

G. quer comprar um terreno com nascente de água no sul de Minas e me convida para visitar algumas propriedades com ela. Antes de ganhar a estrada na manhã de sol, compramos tapioca, pães de queijo, suco e café, mas comemos no carro – os balcões da padaria estão interditados, diz o funcionário assustado por trás da máscara. Devoro rapidamente a parte que me cabe (noite sem jantar),

tiro o telefone do bolso e mostro
um caudal de solicitações:
pastores
evangélicos
partidários do presidente
remetem fotografias
de suas facas e fuzis
me chamam de verme
comunista vagabundo
drogado verme podre
do demônio seu lixo
desgraçado do inferno
quem você pensa que é pra falar
do presidente tu vai é pra cadeia
dar esse rabo podre sujo e fedorento
 
os brasileiros dizem ter contatos
(sempre têm muitos contatos)
que vão me enforcar
retalhar estripar ensinar
atirar arrancar a língua
e fazer arrepender
 
para distrair entramos
nos perfis dos brasileiros que
solicitam minha amizade
são centenas
o número vai crescendo
enquanto vemos suas fotos
no templo no shopping no calçadão
no automóvel no aniversário
no jogo no casamento no batizado
de óculos escuros de farda
de terno de quimono
de vestido branco longo
de renda com babados na barra

O primeiro terreno que visitamos, em Extrema, fica no topo de uma colina. No mirante, uma cruz de três metros posta contra o vale. A construção principal, sem paredes, com pé-direito alto, vigas de madeira e telhas bem conservadas, abrigava um templo. Por trás do altar, com letras douradas, lê-se: JESUS.

Na piscina vazia ao lado, há um jacu morto, comido por vermes.

20.06.2020

Almoçamos um rodízio barato de fondue num dos restaurantes abertos com música ao vivo em Monte Verde: mundo normal, só que com máscaras, cheiro de álcool nas mãos e controle de temperatura. Os brasileiros caminham pelas calçadas com roupas esportivas, lotam as mesas bebendo chope ao lado de lojas de lembranças e de um cartaz: AQUI NÃO TEMOS CRISE, TEMOS CRISTO.

Decidimos pernoitar para ver outros terrenos no dia seguinte, voltar a uma propriedade de nove hectares com uma floresta de araucárias. É difícil encontrar lugar numa pousada, só há 40% dos quartos disponíveis por causa da quarentena e todas estão lotadas. Telefonamos, dirigimos, afinal conseguimos vaga perto do centro, aquela única via comercial de tema alpino.

O quarto de pedra traz um fenômeno térmico curioso: é muito mais frio que a rua. Como a pequena lareira fica longe da cama, nos cobrimos com oito cobertas. Tento dormir com G. nos meus braços, e percebo que esqueci como se faz.

No meio da madrugada, levanto com uma manta nos ombros, caminho insone até o jardim. Sento no gramado sob o céu sem estrelas e um silêncio só interrompido pelo crepitar de uma fogueira, ainda estalando num círculo de pedra. Logo o vento apaga o fogo, vejo a minha sombra trêmula na grama desaparecer no escuro.

22.06.2020

Descubro que um coletivo de teatro de Cabo Verde, o Txon-Poesia, traduziu para o crioulo o ‘Manifesto de Olhos Abertos’ (2016). Recebo imagens de uma performance baseada nele, apresentada no Mindelo e encontro, na conta de outro grupo de artistas, fotos e vídeos das frases do manifesto grafitadas em muros a cinco mil quilômetros daqui, no arquipélago de Cabo Verde.

Passo a tarde fantasiando uma vida em São Vicente ou Santiago, bebendo cervejinhas Estrela e ouvindo cabo-zouk olhando para o horizonte. No ano em que escrevi esse manifesto, estive por lá e não precisei de mais que um par de horas na Cidade Velha, uma mistura de recôncavo baiano com Caribe, para querer aprender crioulo, alugar uma casa e ficar.

Faria sentido terminar a vida (a fuga) ali, numa ilha. Sempre tive essa mesma dúvida de ilhéu: ficar ou partir? E a ilha é um território cercado por esta pergunta, sob a dupla sentença do exílio e da saudade: o projeto de buscar-se a si mesmo fora, ir para regressar – e talvez perceber-se mais à vontade no mundo que em casa.

Como há muito mais cabo-verdianos fora do país que dentro dele, talvez eu pudesse convencer alguns a interromper essa nossa maldição diaspórica, certamente herdada dos portugueses, predestinados ao desterro. E enfim projetar nossa nostalgia para o futuro daquele paraíso perdido sob o sol.

28.06.2020

de novo
acabou a paz
vai logo desamarrar
as pálpebras
ainda o mesmo dia
maciço, abaixo
o tronco, atraco
os pés
calcular a menor distância
entre uma coisa e outra
a mão e a boca
a volta à cama
no peito, uma gaiola
de vento, o longo assobio
pelas espirais, dentro
a única distância
o mínimo sopro

29.06.2020

Hoje de manhã, um jornalista perguntou ao porta-voz da Angela Merkel sobre a minha demissão. Passo a tarde conversando com diplomatas tentando arrancar alguma informação do lado de cá, sem sucesso. Funcionários e ex-empregados da DW me escrevem, da Alemanha, prestando solidariedade e informando em off que minha cabeça foi oferecida numa bandeja (e com um bilhete na testa) por ordem direta do Ministério das Relações Exteriores alemão, pressionado por Brasília.

Membros desse governo miliciano de extrema-direita ameaçam opositores de execução desde a campanha eleitoral, usam slogans nazi-fascistas em redes oficiais, e a paráfrase de um ditado iluminista feita por um escritor comuna e obscuro vira um affair d’etat numa conferência de imprensa em Berlim. É ridículo, embora não tenha graça.

02.07.2020

R. passa as coordenadas (187, 61, 39) e marca uma hora comigo. Depois de algumas mensagens trocadas pelo telefone, será nosso primeiro encontro.

Sem muita prática, demoro para entender como me teletransportar para o endereço, caminhar e voar ali dentro. Mas logo aterrisso em Le Ouvroir, uma ilha que é um monumental museu (permanente?) do Chris Marker dentro do Second Life.

A primeira coisa que vejo é uma plataforma conectada a construções flutuantes por pontilhões e formas geométricas sobre o mar. Depois uma praia, destroços, ondas, uma baleia e, no céu claro, algo que se assemelha a um balão de metal. Imagens do gato laranja de Marker, Guillaume, estão por toda a parte.

Ouço R. cantarolar uma melodia doce. Instintivamente, me guio pela sua voz e logo a encontro, diante de um monitor de TV. Ela veste uma capa de chuva, tem cabelos castanhos e os peitos à mostra, percebo quando se vira pra mim. Eu uso terno e levo uma rosa solitária na mão direita. Ela pergunta: e essa rosa? Ligo o microfone, digo que a rosa veio com o avatar, foi o primeiro que encontrei (minto), e ela de pronto começa a me guiar pelos corredores suspensos das instalações de Ouvroir, seu lugar preferido por aqui.

Porque está sempre vazio, diz, “e aqui dá pra ficar em paz”.

Clico não sei em qual dispositivo e começo a dançar sem parar. R. vai adiante, manda que eu a siga, o que faço nesse baile espasmódico por uma ladeira circular sobre o abismo. Chegamos a uma sala redonda como uma oca de Niemeyer onde monitores de vídeo passam filmes de Marker. Vemos, no escuro, o curta do rato que corre atrás do gato, e rimos juntos.

Desastrado, dou um passo em falso para fora dali e caio no mar. Alço vôo e novamente busco sua voz. Estou nervoso como um jovem, percebo, mas a voz (jovem) dela me acalma.

Vejo R. de novo na porta de uma pequena construção na paisagem arenosa, um retângulo de concreto sem janelas. Ela me espera, ali, parecendo um enigma num sonho, um quadrinho de Moebius, uma Faustine. Subimos uma escada estreita e percebo que aquilo é um lugar que conheço bem: o bar La Jetée, na Golden Gai, frequentado por Marker e que ganhou o nome de seu filme mais famoso.

Há garrafas de vodka Absolut sobre o balcão, pego uma delas, mas não sabemos como beber. Sentamos por ali e comento com R. que o bar original, em Tóquio, é ainda menor. Mas a decoração parece a mesma, com os pôsteres dos filmes no topo da parede, sobre estantes com fitas de VHS e saquê.

Saímos dali e passamos num CINEMA, conforme anuncia o néon vermelho e cinético do prédio em formato de carrossel adornado por imagens de gatos (claro), onde está passando em loop eterno uma cópia de La Jetée, mas com o áudio em inglês, percebemos diante das suas poltronas vazias. Será que o filme continuará rolando depois que deixarmos a sala? Mesmo com a sala vazia?, eu me pergunto. Depois R. nos leva até um portal que precisamos atravessar um de cada vez. Visitamos um hangar com algumas obras dispersas (móbiles, instalações de sucata, vórtices multicoloridos) e subimos até um quarto que dá para uma perfeita representação de um telhado em Paris.

Começa a chover, e R. me pede para mudar o céu para o pôr do sol. Eu a obedeço sem questionar. Vemos agora os prédios parisienses do Século XIX, suas chaminés e tetos inclinados de zinco, desaparecerem numa luz arroxeada por trás da chuva, agora torrencial. Ficamos ali sozinhos, parados um diante do outro com os pés numa calha, conversando sobre nossas lembranças no Quênia, Lisboa, Cabo Verde, Berlim, e sobre o mundo da arte, Rimbaud, planos para o futuro, Bioy Casares, o próximo carnaval e o carnaval de 1919 – o primeiro depois da gripe espanhola, quando a vida se vingou da morte no Rio de Janeiro, mais uma vez.

E, de repente, quando menos se espera, amadurecemos: ficamos em silêncio. Eu a ouço respirar, apenas. O vertiginoso silêncio de um telhado sob o martelar da tempestade nas telhas e a luz caindo em Paris. Essa é a hora em que eu pego na sua mão esquerda e a beijo, penso.

05.07.2020

O enfrentamento de uma conspiração difusa, sem fim ou começo, a cada dia vigiado por trás de toda porta: fantasia que une narcisistas, artistas inéditos e poetas de província (seriam todos?). Palavras e passos medidos no salão, mensagens cifradas enviadas pelo exército inimigo no palco de uma grande guerra – tanques entre os canapés, compassos traçando esquemas sob luz de cena. Todo o peso, toda a gravidade, tudo que brilha, tudo que rói.

A literatura (coisa que Valéry famosamente chamou de vingança do “l’esprit de l’escalier”) em especial atrai esse tipo de paranóico, cujo sentimento de auto-importância pode ser proporcional às gavetas, lotadas de originais. Não por acaso, o maior vaidoso da história da arte é um escritor, Kafka, que ordenou a queima de sua obra quando entendeu que iria morrer. Não pode haver ato de maior soberba – e o pior é que ele tinha toda a razão.

Mas até para isso é necessário certa energia, apego e apreço: guardar, apagar, não lançar. Parar na fita demo, segurar o inédito, ter ‘bloqueio de escritor’. E, depois, o robe de chambre, o cachimbo, o fular no pescoço, a crise. Comprar um gato persa ou angorá? Ostentação em tempos de miséria que pedem sobriedade: escrever e publicar como ato de modéstia, afinal. Suprema modéstia.

10.07.2020

No claustro vazio o sussurro
radinho noturno longe
outro ocidente outro hemisfério
seus bulevares e bodas abertas
e o grande teatro alto
onde a gente branca e com passaportes
se distrai das possibilidades da vida
e o tempo corre discreto e frugal
e as luzes são sépia e pastel
e tudo é escandinavo, suíço
rústico até, porém correto

Vigia a janela do exterior
abre um vapor frio
apostaria o pouco que tem
o mesmo céu apagado
por algo que não sabe o que é
mas que não está lá
tampouco aqui

17.07.2020

Estou dirigindo um carro em alta velocidade e lembro, no meio da estrada, um elevado sobre a floresta, que não sei dirigir. O trânsito engarrafa, volta a mover-se, alguém buzina, acordo em pânico na casa de M., sozinho num quarto sem móveis – o ruído da máquina de moer café ao fim do corredor. Ela coloca um palmier na minha boca, me entrega a xícara e logo procedemos à eucaristia. Volto ao sonho, os automóveis me ultrapassam.

Depois, deitamos no sofá matutino, tento explicar a seguinte situação: vendi para o meu editor, há um par de anos, a idéia de um livro de gênero, um argumento vitorioso, algo que poderia ser meu primeiro romance a ter sucesso comercial de verdade, todos concordam, até minha agente alemã, mas o fato é que não consigo escrever esse livro narrativo de êxito. Mal chego a tentar, congelo.

Enquanto isso, desenvolvo sinopses para vender uma adaptação audiovisual da coisa a algum canal – e escrevo todo o resto, que nada tem a ver com isso. Conto finalmente a história e M., como todos, acha realmente original, genial, até, e como ninguém pensou nisso antes?! Ela ordena: “escreve esse livro agora!”

Eu pego seu pés, e estalo seus dedos dos pés, e passo meu indicador dando voltas em parafuso nos espaços entre os dedos dos pés, técnica que certa vez me aplicaram no sul da Ásia e nunca esqueci, repetindo o truque sempre que posso, começo a massagear seus pés, enfim, e digo que não consigo, que preciso finalmente confessar ao editor minha incapacidade de perseguir tal sucesso, e que talvez a única forma de escrever essa idéia seja escrever sobre não conseguir escrevê-la, relatar exatamente esse diálogo que temos agora, no sofá, eu explicando a história pelo seu negativo, uma silhueta oca, enquanto pressiono o dedão nos arcos da planta dos seus pés. E que talvez eu começasse pelo sonho que tive hoje mais cedo, antes de ser acordado pelo som do moedor de café, em que eu estava dirigindo numa estrada sem lembrar – mas ela me interrompe:

“Então você precisa escrever sobre você mesmo não escrevendo a história? Por que não escrever a história logo de uma vez? Você é chato ou é burro?”

Não consigo escrever um livro que não gostaria de ler, respondo. No caso, ler enquanto o estou escrevendo, é claro, e isso não tem a ver comigo, não comigo na obra em especial, mas com um tipo de narrador mais atento à consciência de narrar e afeito a dobras ficcionais que questionem não apenas o estatuto da ficção, mas o da própria realidade, enfim, e que nada disso é novo, que Dom Quixote é leitor do Quixote e Hamlet espectador de Hamlet há séculos, como lembra Borges, o que transforma todos nós, seus leitores, em personagens de ficção, e que, sendo muito sincero, não gosto de histórias em si, que todas já foram contadas muitas vezes, e que, sim, o que me interessa é pensar em procedimentos estranhos para torcê-las nelas mesmas até que fiquem de pé vibrando sozinhas, numa espécie de moto perpétuo autorreflexivo, e que provavelmente essa minha idéia tão boa e que vendi ao meu editor nem sequer é só minha e já está sendo escrita, agora mesmo, por outra pessoa com mais fôlego para esse tipo de banalidade.

Ela me pergunta se eu já recebi o adiantamento e respondo que, sim, 50%, o resto viria bem agora – e, distraído, quase perco o retorno, derrapo na rodovia e penso em terminar o relato, assim, de volta ao sonho ou à estrada, sob o protesto de M., que acaba com a cena puxando meu freio de mão, um tapa e um beijo.
 
25.07.2020

Tiktok Tenebrae
No cristal os famosos
exibem o mármore
branco dos dentes
dançam fazem
vozes trocam
de roupa imóveis
cartolas ocas luzes
dicróicas atrás da parede
de fórmica a piscina
reflete um gordinho
espatifando-se
no fio d’água
a duzentos e quarenta
quadros por segundo
até o dedo deslizar
à próxima imagem
no banco de trás
de um milhão de peruas
as crianças voltam do
colégio da piscina
do médico a casa.
Não estão olhando.
 
Lá fora sem ar
condicionado
e o que esperar
mais que outro milhão
de crianças o sol
no asfalto o sinal
abriu.

26.07.2020

Minha tia-avó vive num palácio soviético suspenso na cobertura de um condomínio modernista. Salões ovais, chão de mármore, pé-direito de três andares – depois da cozinha, na área dos empregados, a despensa é um supermercado inteiro nas dependências da casa. No frigorífico, peças de carne do meu tamanho apodrecem alimentando moscas e poças de sangue – minha tia não tem dinheiro para pagar a conta de luz, me entrega os boletos com as mãos trêmulas.

Saio dali e entendo que sou embaixador de um país distante e tenho que correr para o despacho com o Rei. Mas logo encontro outro tipo de majestade. Na rua, acompanhada por um séquito de ogans, vejo D., que aqui é Iansã com os cabelos escuros, lisos até a cintura, o rosto coberto por pérolas e miçangas. Ela me chama (sem nada dizer), eu me ajoelho e acordo.

Estou relendo a Odisseia de Homero sempre pela manhã, antes de pegar no telefone. Quando ligo o aparelho, vejo cada vez menos notícias – é como viver em guerra, o cotidiano das batalhas não faz muita diferença até que aquilo acabe. Mas hoje, domingo, contrario meu novo hábito e vou a elas.

Há um traficante evangélico no Rio de Janeiro que aproveita a pandemia para controlar favelas na Zona Norte da cidade, criando o que chama de “Complexo de Israel”, entre Vigário Geral e Brás de Pina. É o mesmo dono de morro que destruiu terreiros de candomblé no ano passado. Pela região, estrelas de David em néon brilham no topo de caixas d’água, há peixes pintados nos muros e bloqueios com as palavras AMOR e PAZ em concreto branco no meio da rua.

Abaixo dessa notícia, o vídeo de um grupo de pagode chamado ‘Aglomerou’. Eles cantam “quando a gente ama não tem pra ninguém” na frente de uma piscina e de palmeiras imperiais em Angra dos Reis, mas logo um tiroteio interrompe a música. Os músicos se agacham, buscam abrigo fora da imagem, um homem de balaclava entra no plano correndo com um fuzil, outro aparece com uma pistola, ouvimos mais tiros, um helicóptero voa ao fundo da cena ao mesmo tempo em que aparece um sujeito de camiseta branca e chinelos, caminhando lentamente por trás de uma geladeira de cerveja Antártica.

Quem escreveu esse texto

J. P. Cuenca

Escritor e cineasta, é autor de O único final feliz para uma história de amor é um acidente (Companhia das Letras).