Ensaio,

Pais e filhos em São Petersburgo

Tradutor de “Guerra e paz” e “Anna Kariênina” registra impressões de sua segunda viagem ao país de Tolstói, realizada em maio

13nov2018 - 12h01 | Edição #6 out.2017

Pela janela do carro que nos levou do aeroporto de Púlkovo para o centro de São Petersburgo, entre os respingos de chuva colados ao vidro, eu via um extenso parque, de ambos os lados da avenida de muitas faixas. Fazia frio, mais ou menos zero grau. A primavera parecia não querer começar. As árvores esticavam seus galhos compridos para cima, pretos, angulosos, cada vez mais finos, e sem nenhuma folha. Eram muitas árvores, dava para ver, mesmo à distância. No entanto, elas deixavam espaço para a grama rasa, esparramada, antes cinzenta do que verde.

O ar muito úmido, polvilhado por um chuvisco frio, produzia o efeito de uma névoa, que ora afastava, ora aproximava os objetos. O céu branco, cor de gelo, nos envolvia por todos os lados, de horizonte a horizonte, sem nenhum morro ou elevação.

Entre as árvores, no que pareciam ser trilhas rasgadas no gramado, junto a formas que entendi, então, serem bancos, postes e, talvez, estátuas, distingui as pessoas. Elas andavam sozinhas, em duplas ou em grupos, sem guarda-chuvas, uma ou outra praticava corrida. Mas logo notei um carrinho de bebê, e depois mais um, e outro, e agora lá estavam dois juntos: duas mães passeavam com seus bebês, empurravam seus carrinhos, e cruzaram com outros dois, que vinham em sentido contrário. 

Perguntei ao homem que dirigia o carro: Mas as crianças passeiam neste tempo ruim? O homem virou para mim, admirado, balançou a cabeça e riu da minha pergunta estúpida: As crianças passeiam o ano inteiro. Até com vinte graus negativos os bebês saem para passear.

Nos dias seguintes, nas calçadas e praças, em toda parte e quase a qualquer hora, vi como os carrinhos de bebê eram numerosos. No início, eu chegava a parar para observar, pois tratava-se de verdadeiras cápsulas, providas de vários tipos de revestimento contra o frio, a umidade e qualquer intempérie. Eram diferentes dos que eu conhecia e, lá de dentro, os olhinhos espiavam o mundo através de escotilhas. Muitas vezes, ao lado dos carrinhos, vinham caminhando outras crianças, um pouco maiores, com a mão apoiada na borda.

Entre estampas coloridas e borlas com pompons felpudos, a indumentária dos bebês e das crianças bem pequenas as envolvia dos pés à cabeça, numa proteção rigorosa. Sob o olhar de mães ou pais, que me pareciam deixá-las bem livres, meninas e meninos davam seus primeiros passos trôpegos nas ruas, à imagem de pequenos cosmonautas cambaleantes. 

Assim como os carrinhos de bebê eram diferentes, logo me dei conta de que São Petersburgo não podia ser comparada a nenhuma cidade que eu conhecia. A circunstância de eu conhecer muito poucas cidades não torna a afirmação menos verdadeira. Uma dessas diferenças se escondia nos chamados “arcos”. Pois, ao atravessar um desses arcos, que a rigor não precisam ter um desenho em curva para merecerem esse nome, minha impressão era de que eu entrava em outra cidade, paralela, concomitante à principal. Um ambiente urbano oculto do visitante apressado, um lugar onde a cidade como que se dobra para dentro de si mesma. 

Pois, por trás das construções voltadas para a rua, cada quarteirão abriga, em seu centro, um espaço mais ou menos isolado e incomparável com o que se vê de fora. Ali, há residências, pequenos hotéis, lojas de flores, galerias, museus, pracinhas com árvores, bancos para sentar, até pequenas ruas e estacionamentos, e também, e por excelência, escolas e parquinhos para as crianças brincarem.

Foguetes espaciais, locomotivas, trens e peças gigantes de jogo de xadrez são elementos constantes nos parquinhos. Feitos de madeira e plástico, riscados pelas sombras finas dos galhos das árvores, que a essa altura apenas brotavam suas folhas minúsculas, os brinquedos coloridos recapitulam temas culturais e históricos centrais para o país. Contíguos a escolas ou não, em minhas incursões através dos arcos, era raro eu não topar com um desses parquinhos, e todo espaço disponível, por apertado que fosse, parecia ter sido aproveitado com esse fim.

No geral, as crianças são discretas, não me pareceram ter tanto gosto de gritar e fazer barulho. No jardim botânico, quando atravessei uma pontezinha sobre um riacho, uma menina de uns sete anos veio correndo na direção contrária, com o rosto afogueado. Parou à minha frente, apoiou-se na balaustrada, virou para a margem e, rindo, chamou outras crianças com a mão. Perguntei aonde ela ia e me respondeu, entre os dentinhos um pouco espaçados: “Vamos fazer uma sessão de fotografias”. De fato, além de fotografias, havia muitas crianças sentadas na grama, concentradas, com grandes blocos de desenhos no colo e até diante de cavaletes, telas e tintas guache, pintando a paisagem.

Mas foi num domingo, às onze horas da manhã, que vi as crianças mais de perto, reunidas num espaço fechado, no teatro de marionetes E. S. Diemenni. Fundado em 1918, foi o primeiro teatro de bonecos profissional do país e apresentou seus espetáculos mesmo durante os novecentos dias do bloqueio de Leningrado (entre 1941 e 1944) pelas tropas nazistas, italianas e finlandesas, que causaram a morte de um milhão e meio de habitantes. 

O teatro Diemenni, com recursos bem simples, é todo projetado para crianças pequenas. Percebe-se logo que elas se sentem num lugar que é seu. O cabideiro do garderrob tem as dimensões adequadas para os casacos e agasalhos das crianças. Muitas vezes, elas mesmas entregam suas roupas por cima do balcão baixo, pegam sua ficha e dão para os pais. No saguão, bonecos antigos estão expostos: crianças, velhos, animais, personagens de histórias que, a um simples olhar, se esboçam na imaginação. 

Pelas janelas do saguão, no primeiro andar do prédio de uns duzentos anos, se viam trechos da rua Sadóvaia e da avenida Niévski. Dali a pouco a avenida ia ser fechada para um desfile de milhares de ciclistas, logo seguidos por outros tantos patinadores e skatistas, em mais um dos numerosos dias de festas e desfiles, que os moradores da cidade parecem apreciar bastante. Enquanto isso, dentro do teatro, as crianças se preparavam para a peça, se acomodavam nas poltronas, providas de acessórios especiais para a sua estatura. As fileiras foram sendo ocupadas, os bancos laterais se encheram, cadeiras extras foram instaladas e a sala ficou lotada, como, aliás, todos os teatros, salas de concertos e óperas onde estive.

A diferença era que, ali, pelo menos setenta por cento da plateia era formada por crianças, e daquelas bem pequenas. Uma ou outra se levantava, chegava perto do palco e, esticando o pescoço, espiava lá dentro, antes de voltar a seu lugar, com uma corridinha, rindo. O relógio deu onze horas, elas começaram a bater palmas e seu aplauso soou diferente do aplauso de adultos, em geral. Sem dúvida, mais brando, mais líquido, um rumor fresco, que misturava gratidão e atenção. A peça era Kiem bit? (O que vou ser?), baseada no poema de mesmo título do poeta russo Vladímir Maiakóvski, escrito para crianças.¹

Durante uma hora, os versos de Maiakóvski, reproduzidos com rigor, se converteram numa narrativa que encenava as reflexões e dúvidas de uma criança em torno de seu futuro, como adulto. Quatro artistas — um homem e três mulheres —, de rosto encoberto pela pala comprida de seus bonés bufantes, pareciam capazes de materializar qualquer ideia ou emoção com a ajuda de pequenos bonecos, diminutos cenários articulados, canções curtas e luzes coloridas.

Os anos correm sem parar
E eu não paro de crescer.
Como é que vou trabalhar,
O que é que eu vou ser?
Precisa-se de operários:
Marceneiros, carpinteiros!
Fazer móvel não é moleza
Primeiro
você vai
e traz o tronco
serra as tábuas
retas e compridas.
E cada tábua
quem diria
fica presa lá na mesa
de marcenaria.
De tanto trabalhar
o serrote
fica em brasa, pega fogo.
Por baixo da serrinha
a serragem se esparrama.
Com a plaina 
em punho,
é outra história:
farpas, nós e pontas,
é a plaina quem aplaina.
E as aparas bem raspadas
Você separa pra brincar.
Mas se a gente
quiser uma bola
bem redonda,
pega o torno e gira
e roda e rola.
Pouco a pouco a gente faz
um caixote aqui
um pé de mesa ali.
Brincando, brincando,
quantas cadeiras fabricamos!
Ser marceneiro é bom, 
mas engenheiro
é melhor.
Eu construía um edifício,
é só alguém me ensinar.

Assim começa o poema, base da peça que faz parte do repertório fixo do teatro E. S. Demienni. As profissões vão se apresentando uma a uma e o incrível boneco do operário de construção civil, que caminha para um lado e outro, batendo sua marreta no chão, sobre um fundo formado por guindastes que sobem e descem, no ritmo dos versos e das luzes que projetam formas típicas dos artistas futuristas russos, ficará sempre na minha memória. Bem como a reação das crianças, sua atenção e seriedade, seus aplausos satisfeitos ao final, seus cumprimentos aos artistas, na saída, o modo como olhavam, e não paravam de olhar, para os bonecos expostos no saguão.

Óperas

De outro jeito, com outros olhos e outro tipo de surpresa, foi como fiquei olhando para o cartaz com a programação do teatro Mariínski, ao entrar na sala de bilheterias, um dia de manhã. Não era possível: havia óperas e balés variados, quase todos os dias do mês. Quando virei, atrás de mim havia outro cartaz, com outra programação tão diversificada e frequente, no teatro Mariínski novo. E, ao lado, mais cartazes com mais concertos e atividades, nas outras quatro salas anexas ao teatro principal. Às vezes, com espetáculos até de manhã.

Como uma criança, rindo, perguntei para minha esposa: “O que vamos escolher?”. Como uma criança, ela disse: “Vamos comprar todas”. E vimos muitas óperas, mais do que em toda nossa vida. Em várias, havia crianças. No palco, cantando em coros e fazendo figuração, e também entre o público. No garderrob, na entrada, elas ganhavam uma almofada para ficarem mais altas. Certa noite, antes de começar a ópera, do segundo balcão, onde eu estava, avistei lá embaixo, perto da primeira fila da plateia, um menino debruçado na amurada, olhando para o fosso da orquestra. Todo intervalo, ele fazia a mesma coisa: levantava de sua poltrona e, com as mãos apoiadas no parapeito, olhava e olhava os instrumentos, ou apenas as cadeiras e as partituras que os músicos haviam deixado para irem descansar. 

E foi justamente com uma criança que não podia olhar para nada, ou com a história de uma mocinha cega, que Piotr Tchaikóvski compôs a ópera que, talvez, mais me impressionou. Um conto de fadas em que a filha de um rei nasceu cega. Porém, para que a filha não sofresse, o pai não permitia que ela soubesse disso e a mantinha isolada, sob vigilância estrita. A menina já está crescendo e acredita que o mundo é assim mesmo, que todos os outros são como ela. Mas, às vezes, surge uma desconfiança e, olhando para o vazio, ela canta, com uma melodia que atravessa até fundo do teatro: “Não sei o que é, mas sinto que me falta alguma coisa”.

Como uma criança, perguntei a minha esposa: “O que vamos escolher?”.
Como uma criança, ela disse:
Todas. E vimos mais óperas do que em toda nossa vida

Seu nome é Iolanta, título da ópera. Os versos do libreto foram escritos por Modest Tchaikóvski, irmão do compositor, em 1891. A apresentação a que assisti ocorreu ao meio-dia, num domingo, no teatro Mariínski novo. Os conflitos da ópera em um ato logo ganham impulso, abalam o rei, que resolve chamar um famoso médico turco para curar a cegueira da filha. Ibn-Khakia, o médico, diz ao rei que, para se curar, a menina precisa saber que é cega, mas, temendo pela filha, o rei resiste. Com os braços esticados para a frente e as mãos abertas acima da menina, deitada e encolhida na cama, como num berço, Ibn-Khakia cantou, em dois minutos, talvez menos, melodia e versos de um argumento que voa bem longe.

Os dois mundos — do corpo e 
[do espírito –
Que existem em todos os seres
Estão unidos aqui com força suprema,
Como amigos inseparáveis. 
No mundo, não há impressões
Que o corpo conheça sozinho.
Como tudo na natureza, o sentido 

[da visão
Não se encerra só na visão. 
E antes de abrir para a luz
Os olhos mortos do corpo,
É preciso que a alma eterna
Conheça esse sentido.
Quando surge na mente
A consciência da grande verdade,
Então é possível,
Poderoso Soberano,
Então é possível que o desejo
Desperte a luz na treva do corpo.

Na ópera, é claro, não havia carrinhos de bebê. Mas do lado de fora, no caminho para o ponto do ônibus (a linha 24, nossa amiga fiel, do dia e da noite), sim: lá estava um deles, em sua ronda pela calçada, atravessando a rua devagar, no sinal fechado, balançando de leve, ao passar sobre as ondulações do asfalto. Trazia a capota bem coberta, pois fazia mau tempo: a primavera tardava. 

De fato, dali a pouco, antes de chegarmos ao ponto do ônibus, um vento frio correu pela rua e do céu caíram, em diagonal, umas bolinhas geladas, que não eram neve nem granizo, mas batiam duras no rosto. Empurramos as portas duplas de um supermercado e entramos para nos abrigar. Surpreso, abri a mão e, na palma da luva preta, observei duas ou três daquelas pedrinhas estranhas, cor de marfim, que já começavam a derreter.

Dias mais tarde, vi um carrinho de bebê diferente dos anteriores, de estrutura bem mais leve e comum, mas com dois cartazes presos, por trás. De um lado, a foto antiga de uma mulher. Do outro, de um homem. Os nomes e as datas vinham embaixo, junto do escudo do Exército Vermelho, no canto. Era o dia 9 de maio, o Dia da Vitória, feriado que comemora a data em que o regime nazista assinou a capitulação para a União Soviética, em 1945. Foi o fim da Grande Guerra Patriótica, a Segunda Guerra Mundial, em que o Exército Vermelho enfrentou 75 ou 80 por cento de todo o efetivo militar de Hitler. 

As estimativas de perdas humanas dos soviéticos variam de vinte até 35 milhões. E os dois cartazes com fotos do homem e da mulher mortos na guerra, espetados no carrinho de bebê, foram os primeiros que vi, naquela tarde, dos milhares de outros cartazes com fotos semelhantes, que desfilaram durante mais de três horas pela avenida Niévski, nas mãos de seus descendentes. No asfalto, entre a multidão interminável, que às vezes cantava, outras vezes erguia gritos, mas no geral se mantinha em silêncio, de vez em quando passavam carrinhos de bebê, também
com fotos expostas.

Em 1846, o grande crítico Vissarión Bielínski escreveu que a literatura russa “ainda é uma criança” e antes, em 1836, o acerbo polemista Tchaadáiev, ao refletir sobre a elite da Rússia tsarista, argumentou que “parecemos aquelas crianças a quem nunca fizeram raciocinar sozinhas”. No entanto, pelo que vi em São Petersburgo, em 2017, me parece que, como dizem os versos infantis de Maiakóvski, de 1928, os anos correm sem parar e as crianças não param de crescer. 

Nota dos editores 
1. O livro de Maiakóvski, com o título O que eu vou ser quando crescer?, acaba de ser publicado no Brasil pela Boitempo e é resenhado nesta edição

Quem escreveu esse texto

Rubens Figueiredo

É romancista e tradutor.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.