Literatura,

Riso à russa

Entre clássicos e autores inéditos no Brasil, antologia reúne 57 textos humorísticos do país de Tolstói, Maiakóvski e Gógol

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Entre os mais ou menos privilegiados, ou seja, aqueles que não têm de lutar ferrenhamente, dia a dia, pela mera sobrevivência, costuma ser de bom-tom acusar preconceitos nos outros. Ironicamente, isso não impede a preservação de vastos territórios de preconceito socialmente aprovados e legitimados. Por exemplo, é trivial afirmar que os russos não riem ou riem muito pouco. Isso é repetido sem que se perceba que é quase tão absurdo quanto dizer que eles não espirram, não bocejam, não se coçam. Preconceitos são assim: como são fruto menos da ignorância que das determinações históricas e sociais, o que eles têm de ridículo é encoberto.

Me contaram até o caso de uma pessoa que, durante a recente Copa do Mundo, viu na tevê imagens da Rússia e do povo russo e exclamou: “Mas eles são como nós!”. A rigor, mais do que “como nós”, os russos são portadores de uma extraordinária contribuição cultural à humanidade, como bem mostra esta rara Antologia do humor russo. Organizada pela professora Arlete Cavaliere, recobre quase duzentos anos de textos de escritores russos, de 1832 a 2014, e é mais uma boa oportunidade para desfazer ideias preconcebidas. 

Trata-se de uma reunião de contos, crônicas, esboços, esquetes e piadas de 37 autores, onze deles nunca antes publicados no Brasil, o que, por si só, já faria da publicação um acontecimento. Todavia, o conceito de humor que o volume propõe, no conjunto de suas 568 páginas, é bem amplo. Há casos de um humor mal-humorado, por assim dizer, e até rancoroso, que prima pela acidez e pelo sarcasmo, e que não figuram entre os meus favoritos. Há também uma espécie de humor calcado quase por inteiro em jogos lógicos e linguísticos, ou em construções engenhosas feitas de referências externas ou de autorreferências, que tampouco fazem rir a este leitor. Há ainda o humor em que a ironia pura canaliza todo o esforço intelectual do autor, que assim resvala para a esnobação pura e simples e para pretensões tácitas de superioridade, no que eu também não consigo achar graça. 

De fato, às vezes acontece de rirmos de algo (a imagem de alguém levando um tombo), para logo desconfiarmos de alguma cilada. E então nos vem a oportuna vergonha do próprio riso, vergonha até de dedicar nossa atenção a esse tipo de entretenimento, ainda que só por um minuto. Mas esta Antologia do humor russo nos apresenta também vários exemplos de um humor realmente bem-humorado e, por assim dizer, humanizador. 

Inéditos e consagrados

Entre os nomes clássicos de Tchékhov, Gógol, Tolstói e Dostoiévski, o volume tem o mérito de incluir Saltikov-Schedrin (1826-1889), escritor muito importante e desconhecido entre nós. Trata-se de um capítulo do romance História de uma cidade (1869), a crônica de um lugar chamado Tolóvia, aqui traduzido com talento por Denise Sales, que vem há anos se dedicando ao autor. A leitura de “O orgãozinho” (título do capítulo) comporta um acertado questionamento sobre o uso da tecnologia para fins de dominação.

Outro escritor interessante e nunca publicado no Brasil é Arkádi Aviértchenko (1880-1925), que apresenta em forma de parábola suas anedotas sobre um rei condenado ao cargo pelos próprios súditos e sobre os efeitos de um sino que provoca o arrependimento geral e a confissão pública dos pecados. Ainda mais importante é a presença da dupla de escritores e humoristas soviéticos Ilf e Petrov, que, nas primeiras décadas do século 20, escreveram suas obras sempre a quatro mãos, com muita graça e largueza de visão. O irmão de Petrov, Valentin Katáiev (1897-1986), desconhecido por aqui, é outra presença de destaque no livro, com sua crônica divertida e tocante sobre o pai, o filho e as atrações dos jogos de azar.

Quem sabe o cotejo do efeito do engodo com o mecanismo desnudo do engodo não constitua a própria chave do humor, em geral?

O poeta soviético Maiakóvski surpreende com três textos divertidos e poéticos, dotados de uma força de linguagem que, curiosamente, ecoa o conto de Gógol, primeiro texto do volume. Ao lado de Maiakóvski, vem Zóschenko, ainda muito pouco publicado no Brasil, injustiça que merecia ser reparada — como provam as suas Anedotas literárias, em particular o texto “Sob o fogo da crítica”, em que toda postulação de rigor crítico e pureza estética se dissolve ao toque do sentimento humano mais simples. Outro escritor que eu não conhecia e me agradou imensamente foi Iúri Trífonov (1925-1981). Autor de grande sucesso na União Soviética da década de 1970, onde o gosto pela leitura era enorme e o nível educacional, bastante alto, parece-me um tipo de leitura que hoje nos faz muita falta, ou pelo menos a mim. Seu conto “Fiódor Kuzmitch do conservatório” tem por base situações cotidianas, sem dramas ou choques, e elabora um padrão de humor que deixa muito para trás o mero conceito de efeito cômico.

Nesse aspecto, o último texto da antologia, o conto “A pomba da paz”, de Mikhail Veller (nascido em 1948), também merece ser mencionado: dois homens que trabalham na recuperação da catedral de Kazan, em São Petersburgo, resolvem descansar no telhado na hora do almoço e, ocultos na imensa cúpula, simulam a voz de Deus, para a perplexidade das pessoas que circulam lá embaixo, numa visita guiada. Aqui, a graça consiste no cotejo do efeito do engodo com o mecanismo do engodo posto a nu. Quem sabe a concomitância dessas duas faces da realidade constitua a própria chave do humor, em geral? 

Não deve ser por acaso que o conto de Tolstói, nesta antologia, fala de um rei que, para ser moderno e respeitado, decidiu exercer a repressão e a punição mais rigorosas. Porém descobriu que isso custava tão caro que seria meramente mais lógico pagar uma pensão ao suposto criminoso e mantê-lo bem alimentado, vestido e em liberdade.

Quem escreveu esse texto

Rubens Figueiredo

É romancista e tradutor.

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.