Divulgação Científica,

Redondamente enganados

Pseudociências, charlatanismos e três séculos de um planeta com formato de panqueca congelada

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

Entre os vídeos que registraram a manifestação dos estudantes contra o governo do presidente Jair Bolsonaro no dia 13 de agosto de 2019, há um de um grupo na avenida Paulista cantando e batucando: “Ô Bolsonaro, você não me engana/ Vou te empurrar da Terra Plana!”. Por que associar o atual presidente da República e um movimento pseudocientífico que ocupa a franja das teorias da conspiração?

Desde o século 19, o movimento antiastronômico é um dos símbolos do obscurantismo e dos ataques às instituições científicas. Virou motivo de chacota nos últimos anos — rendendo reportagens, livros e documentários —, ao mesmo tempo em que cresceu, lado a lado com o medo dos fantasmas pré-modernos que assombram a sociedade contemporânea.

Na livre associação das batalhas políticas e narrativas que dominam o planeta, o terraplanismo encarna as notícias falsas, as mentiras ideológicas e um retrocesso basilar do nosso entendimento do mundo. Sua natureza é absurda, mas não deixa de ser perigosa. E, ao contrário do que o senso comum nos leva a imaginar, é um fenômeno recente.

No começo era redonda

Quem visse o diretor da Biblioteca de Alexandria, Eratóstenes (276–194 a.C.), naquele momento, poderia achar que ele havia enlouquecido. Quem, em sã consciência, sai no calor infernal do meio-dia do solstício de verão para medir a sombra de uma estaca? Alguém prestes a descobrir o tamanho do mundo.

Tempos antes, o grego havia lido que, naquela mesma hora e dia, o Sol não projetava sombra na cidade de Siena, a quase mil quilômetros dali, na nascente do rio Nilo. Foi o suficiente para atiçar a mente de Eratóstenes, que esperou o próximo solstício para provar o que precisava.

Munido de outros dados, o polímata pôde inferir uma série de conclusões, a principal sendo que a distância entre as cidades equivalia a 1/50 da circunferência terrestre. Assim, há mais de 2 mil anos, Eratóstenes constatou que o planeta era do tamanho de 250 mil estádios, o que que equivale a mais ou menos 40 mil quilômetros.

O experimento foi um triunfo da engenhosidade do mundo antigo. Seu cálculo chegou extraordinariamente perto do que sabemos hoje, 40.075 quilômetros. Mas ele só foi possível por um motivo: Eratóstenes sabia de antemão que a Terra era uma esfera.

Ainda que seja impossível cravar de onde veio a teoria do planeta esférico, é sabido que ela era plenamente aceita naquela época. Os gregos atribuíam a descoberta à escola pitagórica de filosofia, do século 6 antes de Cristo. É certo que Heródoto, Arquimedes, Euclides e Platão consideravam o tema como ponto pacífico. Aristóteles chegou a escrever um tratado, “Sobre os céus”, em que desfilou argumentos que provavam a curvatura do planeta.

A ascensão e queda de Roma, o surgimento do cristianismo e o estabelecimento do feudalismo pouco fizeram para minar a teoria. Com exceção de alguns patronos da Igreja, como João Crisóstomo (c. 347-407 d.C.), o consenso era de que a Bíblia não negava a ideia helênica.

A história da Terra Plana tem início séculos depois da confecção dos primeiros globos terrestres, da circum-navegação de Magalhães e da invenção do telescópio. Como explica a historiadora britânica Christine Garwood, em Flat Earth: the History of an Infamous Idea (Terra plana: a história de uma ideia infame), o terraplanismo surgiu na esteira do racionalismo iluminista e da Revolução Industrial no Reino Unido vitoriano. Era uma das muitas correntes pseudocientíficas da época, e gozou de certo prestígio intelectual — assim como a frenologia e a iridologia. Seu ponto de partida foi o panfleto “Astronomia Zetética: a Terra não é um Globo” (1849). Seu autor, Parallax.

Nascido em 1816, Samuel Rowbotham foi um inglês que abandonou a escola na infância e tornou-se militante em uma comuna socialista. Já adulto, autonomeou-se Parallax. Sempre inconformado com o establishment científico, que julgava elitista, Parallax teve uma revelação enquanto conduzia experimentos em um canal no interior da Inglaterra: “comprovou” que a água era plana — e, portanto, a Terra inteira também. Convertido, passou a peregrinar pelo país em uma cruzada contra as “falsas doutrinas” propagadas pela academia e pelas instituições científicas.

O terraplanista não tardou a conquistar um público. De temperamento dócil, oratória de agitador político e trato invariavelmente polido, Parallax palestrava com autoridade e era capaz de driblar os contra-argumentos apresentados por sua plateia, composta de curiosos, cientistas amadores e diletantes em geral. Publicou dezenas de artigos, livros e panfletos, sempre advogando pelo movimento que fundou: chamava a sua hipótese de “filosofia zetética”.

Um “método de livre-pensar” frouxamente inspirado nos conceitos de empirismo e indução do filósofo britânico Francis Bacon (1561-1626) e equilibrado sobre um amontoado de citações bíblicas tomadas ao pé da letra, a filosofia zetética queria desbancar os cientistas e seus métodos, que “simplesmente repetiam e perpetuavam as ilusões de seus predecessores”. Prometia que não seria mais necessário recorrer a cálculos inescrutáveis, nem mergulhar em calhamaços repletos de jargões técnicos, para compreender o mundo. A livre experimentação e o “bom senso” levariam a conclusões simples e facilmente compartilháveis.

O terraplanismo surgiu na esteira do racionalismo iluminista e da Revolução Industrial

Parallax desconsiderava os postulados de Copérnico e Newton — os pilares do modelo astronômico então vigente. Para ele, a Terra era um disco cujo centro se localizava no Polo Norte — o Polo Sul não existia. Uma gigantesca e impenetrável barreira de gelo envolvia seus oceanos, impedindo que qualquer ser humano saísse do perímetro. Nos céus, o Sol girava ao redor do planeta, completando um ciclo a cada 24 horas; a distância entre o astro rei e o chão nunca ultrapassava os mil quilômetros. A Lua, por sua vez, era dotada de luz própria.

Mas será que Parallax acreditava naquilo que pregava? Para a maioria de seus adversários, ele não passava de um golpista com aspirações robustas. Outros zetéticos, porém, abraçaram a teoria de Rowbotham e dedicaram suas vidas a espalhá-la.

Um deles, William Carpenter (1830-96) — mais conhecido como “Common Sense” —, publicou livros como A teoria astronômica de Sir Isaac Newton examinada e refutada pelo senso comum (1867) e A água não é convexa; a Terra não é um globo! (1872). Outro, John Hampden (1819-91), protagonizou um dos capítulos mais importantes na história do movimento terraplanista: a aposta do canal de Bedford — a primeira (e única) vez em que um cientista renomado topou os desafios dos zetéticos para comprovar a curvatura do planeta.

Descrita pelo New York Times em 1870 como “um choque de opiniões”, a disputa foi promovida por Hampden. Com valor de quinhentas libras esterlinas, uma soma considerável para o século 19, a aposta era de que nenhum cientista poderia negar que a Terra era plana. Hampden alardeou o desafio pela imprensa e em panfletos até que, contra a recomendação de seus colegas, o naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913) topou participar.

Lembrado como coautor da teoria da seleção natural, ao lado de Charles Darwin, Wallace seguiu caminhos avessos à academia. Embora fosse autor de obras cientificamente relevantes, tinha dificuldade de garantir uma renda estável; não vinha de uma família abastada nem ocupava cargo nos novos museus e universidades do Império Britânico. Por isso, acreditou que aceitar a aposta de Hampden poderia lhe trazer algum dinheiro — além de uma oportunidade de fazer uma defesa pública da ciência.

Assim, Wallace colocou um telescópio em uma ponta do canal e, a cinco quilômetros desse primeiro ponto, posicionou um poste na água com duas bolas suspensas ao longo de seu cabo. A cinco quilômetros do segundo ponto, onde estava o poste, havia uma ponte, e nela foi pendurada uma bandeira com um símbolo preto.

O telescópio, a bola mais alta do poste e o símbolo na bandeira estavam posicionados quatro metros acima da água. Dessa forma, se a água fosse plana a bola ficaria na frente do símbolo, impedindo que fosse visto pelo telescópio. Não foi o que aconteceu: os juízes viram as bolas acima da bandeira. Vitória para a curvatura da Terra, mas não para Wallace.

Hampden nunca aceitaria o resultado da aposta. Inconformado com a conclusão do experimento, o zetético, vivendo na pobreza (e, agora, com quinhentas libras a menos), passou a contestar Wallace. Foram milhares de panfletos, aparições públicas e artigos vexatórios, além de incontáveis cartas que chegaram a ameaçar o naturalista e sua família de morte.

Esse experimento deu alguma visibilidade à astronomia zetética. Depois de Hampden, a aristocrata Elizabeth Blount (1850-1935) fundou a Sociedade Zetética Universal, que existiu até 1971, quando seu braço americano se tornou a Sociedade da Terra Plana, existente até hoje. As figuras que carregaram essa bandeira pelas décadas seguintes foram, em geral, ressentidas com a ciência institucional, donas de retórica e canetas afiadas e plenas na certeza de compreender algo que o resto do mundo ignora.

Crença ou enganação?

O charlatanismo é uma prática nebulosa que ninguém reivindicaria para si e vem sendo associado aos terraplanistas desde o século 19. Por recusarem profundamente a ciência moderna e tudo o que se entende por método científico, não é exagero definir os zetéticos e demais terraplanistas como praticantes de uma pseudociência.

Quando escreveu Modas e falácias em nome da ciência (1952), o matemático e divulgador científico Martin Gardner (1914-2010) estava farto do crescimento e da consolidação de charlatões, enganadores e malandros em geral na seara da ciência. Segundo ele, era preciso tratá-los como tais — do contrário, o risco que apresentavam para a difusão dos saberes se tornaria muito perigoso.

Segundo Gardner, há dois traços principais que definem o pseudocientista: ele sempre trabalha completamente isolado da comunidade científica e demonstra traços de personalidade paranoica. Da paranoia deriva uma tendência a se crer genial — e esta leva diretamente a uma segunda crença: de que todos aqueles que discordam são idiotas. Cristalizado em Hampden, esse comportamento é figurinha repetida no álbum de personagens descritas por Gardner.

Outra tendência do charlatão, segundo Gardner, é a criação de uma cruzada contra quem o despreza, normalmente focada nos maiores nomes de sua área. Por fim, uma similaridade mais curiosa: o charlatão costuma usar e abusar de um vocabulário próprio, composto de palavras inventadas ou com origens remotas e arcanas. Não precisamos ir longe para observar essa “tendência neologística”: além de curioso, o termo “zetético” não é uma invenção arbitrária de Parallax. Remonta à época de Eratóstenes. É uma derivação do verbo “ztein” em grego, que significa buscar ou inquirir.

De acordo com Gardner, “se brilhante, [o charlatão] é capaz de desenvolver teorias incrivelmente complexas. Ele as defenderá em livros de vasta erudição, com observações profundas e doses de ciência verdadeira. Sua retórica é extraordinariamente persuasiva”. É o caso do Welteislehre, a teoria mundial do gelo, proposta pelo austríaco Hanns Hörbiger (1860-1931). A teoria, que ficou conhecida como wel, ditava que o gelo era a força fundadora e motriz do universo e que compunha boa parte do que existia no espaço e nos planetas. A ideia foi ignorada pela comunidade científica e teria desaparecido não tivesse se tornado a cosmogonia oficial do partido nazista da Alemanha.

Apesar da morte de seu criador em 1931, o conceito da wel chegou às fileiras do Terceiro Reich, que aproveitou a ideia de um mundo gelado para promover sua ideologia racista, baseada na “força” dos seus antepassados nórdicos. De quebra, ainda era uma oposição à pesquisa de ponta na física, associada pelo nazismo à comunidade científica judaica.

O charlatão costuma usar vocabulário próprio, de palavras inventadas ou com origens remotas e arcana

Em poucos anos, a teoria relativamente inócua de Hörbiger ganhou musculatura suficiente para se tornar parte da visão de mundo de um regime autoritário e genocida, que capitalizou a pseudociência para propagar sua ideologia. Membros do alto escalão do governo defendiam a wel. O próprio Hitler abraçou a teoria afirmando que “os três maiores conceitos cosmológicos da história” foram os de “Ptolomeu, Copérnico e Hörbiger”.

Como nota Gardner, essa ascensão não é aleatória. A paranoia do charlatão e da pseudociência é naturalmente instrumentalizada e domada por interesses escusos e predatórios —  na Alemanha do Terceiro Reich, circulava uma propaganda oficial que “demonstrava” por que a wel era verdadeira mesmo sem vir das universidades. Absolutamente anticientífica (Hörbiger a chamava de “intuição criativa” sobre a “astronomia do invisível”), caiu em desuso conforme o partido nazista se consolidou; mas a ideologia que a wel involuntariamente ajudou a legitimar mergulhava o mundo no terror e no caos.

Há cinquenta anos, a humanidade assistia apreensiva à tv enquanto os americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin desembarcavam de seu módulo lunar e caminhavam em nosso satélite. Para Armstrong, dali a Terra era uma “pequena ervilha, bonita e azul”. Por lá, deixaram pegadas, objetos e bandeiras de seu país. Oito anos antes, o cosmonauta soviético Yúri Gagárin se tornava a primeira pessoa a ver a Terra de longe. “É tão linda”, disse quando retornou. Em 1966, ainda, a Nasa fotografou a Terra vista da Lua. Era a primeira prova visual de que, afinal de contas, habitamos uma esfera suspensa em uma vasta imensidão.

Contrassensos resistentes

Milênios separam o experimento de Eratóstenes, debruçado no chão de Alexandria, e a empreitada espacial da Guerra Fria. São histórias que dão testemunho da dimensão social da ciência e da reverberação do pensamento humano através dos séculos.

Parallax, Hampden e Hörbiger viveram antes do advento das fotografias de satélite e dos astronautas. Não receberam despachos lunares ou assistiram a vídeos em alta definição nas estações espaciais. Do contrário, talvez fossem convencidos, se honestos, de que o terraplanismo é uma ficção; sendo charlatões, talvez mirassem causas mais atuais e lucrativas.

Mesmo com todo o avanço tecnológico, ainda existem casos como o de Zigurats. Com cerca de cem habitantes, essa aldeia no interior de Mato Grosso do Sul é um espaço de resistência aos axiomas da modernidade. Por lá, todos se preparam para um inevitável apocalipse, planejam construir uma pirâmide e esperam a volta do E.T. Bilu. Também têm certeza de que a Terra é plana. De acordo com eles, experimentos foram conduzidos no lago Titicaca, no Peru, para “provar” que a água não tem curvatura.

Apesar da excentricidade, Zigurats não existe sozinha: de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2019, 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana — um número até que animador se comparado ao quarto da população que não acredita na ida do homem à Lua.

No ano passado, A Terra é plana, um documentário sobre defensores da teoria, estreou na Netflix. Houve até, em novembro de 2019, a primeira convenção terraplanista em São Paulo, onde YouTubers e influencers se reuniram para debater o formato do planeta. Em fevereiro, um americano morreu em um acidente enquanto pilotava um foguete: seu objetivo era provar que a Terra era plana.

O terraplanismo ocupa posição menor entre as pseudociências, mas desde a caminhada de Armstrong não se fala tanto sobre o formato do planeta. Mergulhar nessa história, na personalidade de seus arautos e nos meandros de sua propagação não deveria servir apenas para saciar nossa curiosidade pelo insólito. Pode também ajudar a compreender como a ideia anticientífica se recusa a desaparecer. Um protótipo, talvez, para explicar como outros contrassensos ganham seguidores e se recusam a sucumbir em face da realidade. 

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira
 

Quem escreveu esse texto

Daniel Salgado

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.