Arte,

Pintando à beira do abismo

Morta em Auschwitz aos 26 anos, Charlotte Salomon começa a ter seu lugar reconhecido em meio aos grandes nomes da arte do século 20

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Uma mulher desce a escadaria vermelha de um prédio alto e sem telhado. Seu vestido é quase preto. Seu cabelo está preso, os braços estão cruzados para protegê-la do frio, seu rosto é melancólico. Ela passa por árvores desfolhadas numa rua escura, vira em outra rua e em mais outra. O vento parece forçá-la adiante, ela é puxada por ele de todos os lados até que seu cabelo acaba se soltando e seu vestido rodopia. A luz dos postes confere às ruas o azul de um mar tempestuoso. A mulher se aproxima e seu caminho se delineia num vermelho-sangue, até que o vermelho a domina, e faz dela uma figura que se afoga em um lago enegrecido.  

No dia seguinte, os jornais trazem a manchete: “Suicídio de jovem de dezoito anos! Charlotte vai ao encontro da morte no lago Schlachten!”. A mulher, que agora conhecemos por Charlotte, aparece exposta numa placa roseada, flutuando como uma noiva de Chagall. Os enlutados se reúnem. São apenas três: um homem rijo, de barba, e outras duas figuras miseráveis e retraídas, uma mãe e uma filha adulta. 

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Estas são as duas primeiras pinturas de uma série de 871 guaches extraordinários que a jovem artista alemã Charlotte Salomon criou entre os anos de 1940 e 1942. Não é a mesma Charlotte que aparece nas imagens de abertura — as duas são apenas xarás. Mas essa jovem mulher também sentia os puxões incessantes da morte, que a chamavam para o mesmo abraço suave que engoliu tantos membros de sua família, inclusive sua tia, em homenagem a quem foi nomeada. 

Charlotte Salomon nasceu em Berlim, em 1917, e morreu grávida nas câmaras de gás de Auschwitz, em 1943. Suas pinturas, produzidas sob imensa pressão interna e externa, compõem uma sequência que evoca sua vida e época. Seu livro Leben? oder Theater?  — Ein Singespiel [Vida? ou teatro? — um drama musical; nunca publicado em  vida], mais um compilado de memórias do que uma autobiografia — é uma narrativa carregada de conteúdo emocional, que analisa ao mesmo tempo que descreve. Ele nos leva em uma viagem épica cheia de imagens, palavras e música, que atravessa duas décadas e meia de história, e culmina numa tragédia. Essa transformação da história em Gesamtkunstwerk [termo alemão para a ideia de obra de arte total] é uma criação de Charlotte, feita a partir de recortes da própria memória. Mas é também algo muito maior do que uma vida individual. Salomon nos oferece um ponto de vista raro sobre as angústias dos judeus alemães burgueses e cultos; um grupo assimilado e marginalizado ao mesmo tempo, vivendo no momento em que a República da Weimar — contaminada por sonhos nostálgicos e convicções patriarcais — se estilhaçava sob o regime nazista.

Salomon concebeu o próprio livro como uma performance que levantava uma questão fundamental da existência: Vida ou teatro? Em meio a tantas máscaras (algumas para esconder a hipocrisia, outras para guardar segredos, ou ainda para que se passe despercebido — item necessário para qualquer judeu vivendo em um mundo cada vez mais antissemita), onde estaria a vida de verdade? É a pergunta de uma jovem angustiada: talvez não exista nenhuma resposta possível, mas é explorando essa questão que certas realidades se revelam.

O livro é estruturado como um Singspiel, drama musical experimental, ou um cabaré impresso, em três atos e três cores. Em alguns momentos, parece uma produção de Piscator e Brecht, e traz para dentro de si os barulhos das ruas e das marchas nazistas. Em outros, é uma ópera de morte e renascimento, pintada nos tons do Orfeu e Eurídice de Gluck. Ou ainda, o livro às vezes se vê atravessado, pungentemente, pela veia lírica do ciclo de canções de Schubert.

O livro às vezes se vê atravessado, pungentemente, pela veia lírica das canções de Schubert

Nas páginas introdutórias, escritas com suas típicas letras garrafais, Salomon elenca uma lista de personagens que inclui todas as pessoas de seu círculo íntimo. Cada um recebe um nome que faz ressoar sua personalidade. Dr. e sra. Knarre — um tipo de rangido que contém também uma palavra para “tolo” — representam seus avós maternos, dr. Ludwig e Marianne Grunwald, pessoas ricas, rígidas e que sentem desdém por tudo e por todos. Dr. Kann assume o lugar do pai da artista, dr. Albert Salomon, que chegou a ser um importante cirurgião oncologista. Como todos os outros profissionais judeus, foi demitido do cargo quando os nazistas assumiram o poder. Trabalhou como chefe do Hospital Judaico de Berlim até 10 de novembro de 1938, o dia depois da Noite dos Cristais, quando foi detido e enviado ao campo de concentração de Sachsenhausen. Paulinka Bimbam é a madrasta da artista, Paula Salomon-Lindberg, uma contralto dedicada e carismática que, num primeiro momento, é idolatrada pela jovem Charlotte, que se tornou triste, solitária e teimosa depois da morte da mãe.

Um homem cantarola

Antes das cortinas do teatro se abrirem, Salomon descreve a maneira como o trabalho se deu: “A criação das páginas a seguir deve ser imaginada do seguinte modo: um homem está sentado diante do mar. Ele está pintando. De repente, uma melodia lhe vem à mente. Enquanto começa a cantarolar, percebe que a música corresponde exatamente àquilo que tentava colocar no papel. Um texto se forma em sua cabeça, e ele canta essa canção sem parar, em voz alta, até que a pintura pareça estar completa. Vez ou outra, novos textos ganham corpo, e o resultado é um dueto ou, senão, cada um dos personagens canta um texto diferente, e o resultado é um coro”. 

Essa descrição de um pintor que cantarola enquanto trabalha, em um estado de total concentração, quase de transe, pode muito bem ter sido o que deu vida à casa de Charlotte: sua madrasta cantava e ensaiava o tempo todo — a certa altura com um instrutor de canto que viria a ter um papel importante na vida da própria pintora.

Um prólogo, uma seção principal e um epílogo compõem os três atos do livro. A primeira parte — 211 imagens separadas por papel vegetal em que estão escritos, à mão, os textos que descrevem as ações ilustradas — nos introduz à sua família, rica e culta, bem como à sua infância e à morte de sua mãe, Franziska. A história já seria intrigante mesmo sem as imagens maravilhosas de Salomon.

O sofrimento do mundo

Decidida a virar enfermeira depois de vivenciar o suicídio da irmã, Franziska se alista no Exército e lá conhece um jovem médico, Albert. Eles se casam, apesar da desconfiança dos pais da noiva. Charlotte nasce em 1917, quando seu pai retorna do front. Uma série de guaches coloridos detalha alegremente os primeiros anos de sua infância e vida em família — o berçário branco, as brincadeiras, os abraços. Mas, assim que se inicia a segunda cena, Franziska já está tomada de angústias. A assombrosa imagem de uma janela que se abre para um vazio azulado anuncia sua morte. E então, sobreposto a um fundo de pinceladas laranjas, verdes e amarelas cheias de urgência, seu corpo amarrotado aparece empilhado sobre si mesmo numa linha vertical enquanto uma de suas pernas se projeta retorcida no ar. Na página ao lado, sua mãe, a sra. Knarre, se acocora como uma deusa ctônica em seu pranto materno. O texto diz: “O luto se espalhou por seu corpo. Ele transcende o sofrimento dela. É o sofrimento do mundo”.

O suicídio não é revelado a Charlotte, então com oito anos, que permanece à espera da carta que sua mãe prometera lhe enviar do Céu. Ela se transforma numa criança tímida, complicada e solitária, que se anima apenas durante as viagens que faz com os avós às montanhas Dolomitas, a Veneza e a Roma. O teto da Capela Sistina deixa nela uma marca indelével.

Tudo muda com a chegada de uma madrasta que ela adora, e que a adora também. É uma mulher loira, dona de uma beleza destemida. Suas raízes judaicas provêm da cidadezinha onde seu pai era um “rabino cantor”, que se apresentava, junto com a filha, em sinagogas e igrejas. A Paulinka, sobram energia e bom senso para confrontar os avós de Charlotte, gente intolerante e cheia de si. Ela transforma a vida de Charlotte, e, ao fazê-lo, a introduz à versão mais religiosa do judaísmo.

Mas os dias bons logo chegam ao fim. O antissemitismo força Charlotte a sair da escola de elite em que estudava e arranca de suas posições todos os membros da família. Numa imagem de 1933, Salomon retrata a ascensão dos nazistas: sobre uma massa marchando de boina e bigode voa uma bandeira com a suástica invertida. Na página ao lado, pedras são arremessadas contra vitrines — uma delas, com o nome Salomon escrito. Ao mesmo tempo, uma multidão se apinha ao redor de uma cópia gigantesca do Der Stürmer, o “órgão de iluminação popular” que fomentava o ódio aos judeus.

Além dos perigos políticos e das restrições impostas aos judeus, Charlotte sofria com as dificuldades comuns da adolescência — as incertezas, invejas, rivalidades entre amigos e, mesmo naquela época, a rebeldia, ainda que pequena, contra os pais. Nisso, Salomon é brilhante: troca constantemente de ponto de vista, de modo que quem a observa/lê não fica preso à sua perspectiva, e sim pode vê-la em todo o seu mau humor diante da beleza de suas colegas de escola ou da tranquilidade da madrasta. 

Uma sequência funesta retrata sua partida — é, ao mesmo tempo, uma separação muito dolorosa e uma deportação

Essa parte do livro acaba em 1937, quando, concluídos os dois anos de Academia Berlinense de Belas Artes e Artes Aplicadas em Charlottenburg, Charlotte é premiada, mas não diplomada, porque é judia. Na verdade, ela é a única judia remanescente na escola, aceita depois que todos os professores judeus já haviam sido demitidos. As minutas da comissão de admissão (dia 7 de fevereiro, 1936) declaram que, dada a sua “natureza reservada”, Charlotte não seria uma ameaça à pureza racial dos alunos arianos. As imagens de seus dias de academia contêm alguns dos retratos independentes mais bem-acabados do livro, sobretudo os de sua amiga Barbara, representada como se estivesse num sonho. Não têm nada da monumentalidade ou da qualidade tipicamente alemã de conto de fadas que a escola — purgada de todas as artes degeneradas — incentivava.

Vida? ou teatro? em seguida se concentra sobre Amadeus Daberlohn (Alfred Wolfsohn), um instrutor de canto sem um tostão furado, mas que tem inclinações filosóficas, é apaixonado por música e cinema, e que foi o primeiro amor de Charlotte. Embora Daberlohn esteja, na verdade, apaixonado pela madrasta da autora, ele incentiva Charlotte em sua arte. Nesta segunda seção da obra, o papel vegetal é substituído por letras garrafais escritas diretamente na imagem. Às vezes o texto faz oposição à cena retratada, oferecendo comentários cáusticos. Às vezes descreve a ação visual ou as vicissitudes da vida interior dos personagens.

Numa sequência mais longa, a filosofia romântica de Daberlohn, de inspiração nietzschiana, aparece escrita como legenda para 1.387 closes dele enquanto fala. Em outros, num deslocar radical da representação visual, ele palestra deitado com um cigarro na mão. Pode ser puro mansplaining, mas é Charlotte quem lhe dá voz. Fica evidente que ela extrai uma força criativa a partir de Daberlohn, que, como o Orfeu que tantas vezes aparece nas ideias dele, sobreviveu a um encontro com a morte, tendo sido jogado junto com cadáveres em uma trincheira na Primeira Guerra Mundial. Amnésia e afonia acompanharam seu “renascimento”: quando voltou a ter voz, foi com a convicção de que o canto era a maior das artes. As restrições ao trabalho impostas pelos nazistas o reduziram à penúria. Ele propõe a hipótese de que as forças destrutivas e criadoras circulam no inconsciente e alimentam o artista — que é, na sua opinião, uma criatura andrógina. A ideia de um gênero misto é libertadora para Charlotte.

O epílogo de Salomon conduz a ação do teatro para a Riviera Francesa, em 1939: a heroína escapou da Alemanha nazista para se reencontrar com seus avós, que se mudaram para lá em 1934. Ela viaja sozinha. O pai de Charlotte conseguiu, graças aos esforços da madrasta, ser solto do trabalho forçado em Sachsenhausen. Mas ainda não chegaram os bilhetes com documentos falsificados, e Charlotte precisa sair do país antes do seu aniversário de 21 anos, quando seria necessário tirar novos documentos. Uma sequência funesta retrata sua partida — é, ao mesmo tempo, uma separação muito dolorosa e uma deportação.

É em meio a esses azuis intensos e verdes luxuriantes do Mediterrâneo que Salomon decide criar seu Sing-spiel. Sua avó, ao saber da eclosão da guerra, sucumbe ao desespero que tantas vezes a afligiu — “aquela dor horrível que a persegue por toda a sua vida”. Ela tenta se enforcar, sem sucesso. Seus gritos então se inscrevem em letras enormes, numa série de imagens violentas em que figuras precariamente desenhadas se movem contra um fundo de cores como as de Edvard Munch, mas rarefeitas. “Ah, me deixe morrer, me deixe morrer… eu não aguento mais viver.”

O avô de Charlotte, sempre insensível e autocentrado, decide que esse é um bom momento para revelar à neta a história secreta — e, para ele, vergonhosa — dos suicídios que assolaram, de tantos modos, a atordoada família de sua esposa. É a primeira vez que Charlotte ouve falar da causa autoinfligida dessas mortes, inclusive a da sua mãe. Ela usa as ideias de Daberlohn para tentar, bravamente, fazer a avó — cada vez mais desorientada — mudar de ideia. Mas a avó é dominada pela própria angústia: sofre de uma loucura culpada, como se fosse ao mesmo tempo responsável pelos suicídios da família e vítima de uma mortandade hereditária inelutável. Ela também deseja estrangular o marido, que sempre menosprezou e quis esconder sua dor, olhando apenas o lado bom da vida. Novamente encontramos uma janela que se abre para o vazio e, na página seguinte, um corpo rosa verticalizado, com uma perna estranhamente suspensa e ondulada — uma repetição do suicídio materno.

Ter que cuidar do avô doente e cada vez mais senil ao mesmo tempo que lida com a experiência brutal de Gurs, a colônia penal nos Pireneus para onde os inimigos estrangeiros eram enviados em trens superlotados, quase leva Charlotte a sucumbir ao comportamento padrão da família. Ela se sente condenada. Um abismo se abre. O médico a aconselha a retomar a pintura: a arte pode ajudá-la a voltar a si. Ela se lembra de seu mentor, seu amante real ou imaginário e, com a voz de Daberlohn ressoando na cabeça, começa a “recriar o mundo desde as profundezas”.

A narrativa se reencontra com o próprio começo e chega ao fim. Como se fosse filha de Proust, Charlotte se vê impelida a retomar o tempo desperdiçado e redimir o tempo perdido. Assim nasce Vida? ou teatro?.

Vermelho, amarelo e azul

Todas as imagens e textos do livro são pintados em três cores: vermelho, amarelo e azul. Salomon mescla as tintas para criar tons radiantes e vivos ou sombrios e morrediços. Nunca saberemos se a paleta restrita foi uma escolha deliberada ou um acaso das circunstâncias empobrecidas. O que fica claro, porém, é que, com a precariedade material, a artista de 23 anos criou um trabalho híbrido, surpreendentemente inovador, parte livro, parte roteiro para um filme mudo, com o acompanhamento musical indicado a cada cena (às vezes, porém, é um filme falado, com planos abertos e closes); parte, também, poderosa história em quadrinhos avant la lettre, que incorpora algumas das maravilhosas técnicas usadas nos cartazes da República de Weimar.

Muitas de suas imagens também surgem como obras vibrantes e independentes, e caberiam numa galeria. Há um jogo de perspectiva complexo, que remete às Cenas de rua de Ernst Ludwig Kirchner ou às descrições que George Grosz faz da discrepância entre situações urbanas que ocorrem ao mesmo tempo num só espaço pictórico. Há também um gestuário expressivo, a intensidade emocional de um Munch ou Max Beckmann e, às vezes, algo do langor de Modigliani. Tudo isso numa paleta fauvista, com tipos de pinceladas variadas e, ainda, textos que lembram pichações. Apesar de todos esses paralelos, a assinatura artística é própria dela, e inconfundível. Com tudo o que tem de energia e coragem, a série é um feito excepcional para uma artista tão jovem.

O rosto sério e jovial de Charlotte nos encara em um autorretrato na edição que a editora americana The Overlook Press fez de suas obras, publicadas em uma caixa para o centenário de seu nascimento. As reproduções têm quase o mesmo tamanho que o original — são maiores do que qualquer outra edição anterior. Essa edição contém não só o Vida? ou teatro? completo, mas também uma carta inédita, e digna de nota, endereçada a Amadeus Daberlohn. Pela primeira vez, pode-se ver com clareza, numa reprodução, os menores detalhes de suas imagens, que às vezes podem ser superlotadas. O próprio luxo da edição enfatiza o grau de aceitação que Charlotte, enfim, alcançou em meio aos maiores artistas do século 20.

A editora Taschen também publicou uma seleção, em formato octavo, de 450 guaches, mais fotos de Charlotte e das pessoas de seu círculo. O volume vem com dois excelentes ensaios sobre seu contexto, um escrito por Judith C.E. Belinfante, que tem trabalhado com a obra e a família de Salomon desde 1971, e o outro, escrito pela historiadora da arte Evelyn Benesch, que explora as fontes de inspiração formal de Salomon.

É plausível que as condições de vida de Salomon tenham feito com que seu trabalho ficasse escondido no meio da grande história do Holocausto

Na Alemanha, uma nova biografia por Margaret Greiner foi publicada em 2017: Charlotte Salomon: “Es ist mein ganzes Leben” [“Esta é toda a minha vida”]. Em comparação com To paint her life [Pintar sua vida], de Mary Lowenthal Felstiner (1994), que agora se tornou um clássico, este último parece uma versão um tanto romanceada e adocicada de sua vida. O tom não acadêmico de Greiner pode ser outro indicativo de que o trabalho de Salomon está começando a circular e ter reconhecimento junto a outros grupos. O best-seller Charlotte (Record, 2017), do francês David Foenkino, aproxima ainda mais a vida de Charlotte Salomon à de Anne Frank. O romance, que é mais o ato de um ventríloquo do que de um ficcionista, permitiu que um grande público se familiarizasse com a parte textual de Vida? ou teatro?; o principal acréscimo de Foenkino foi imaginar Charlotte em Auschwitz e inserir trechos em que seus pais descobrem suas pinturas. O livro ganhou o prêmio Goncourt des Lycéens e, com o ritmo acelerado de suas frases de uma linha só, como se fossem poemas em prosa, ele de fato parece um livro para adolescentes.

O centenário de nascimento no ano retrasado foi celebrado com uma mostra de todas as suas pinturas no Museu Histórico do Judaísmo em Amsterdã, para o qual os pais de Salomon doaram todas suas obras restantes, em 1971. Eu fui apresentada ao seu livro extraordinário pela primeira vez numa bela exposição da Royal Academy de Londres, em 1998, à qual fui convencida a ir por Darcy Buerkele, especialista em sua obra. O museu havia feito uma cuidadosa seleção de quatrocentas imagens. Exposições menores têm circulado por Alemanha, França, Estados Unidos e Israel.

Por que a importância de Salomon tem levado tanto tempo para se firmar? É possível que o interesse atual tenha algo a ver com um gosto renovado por histórias em quadrinhos. Mas é possível, também, que, após Jean-Michel Basquiat, nós tenhamos nos acostumado a ver textos irrompendo no meio de imagens. E é ainda plausível que as condições de vida de Salomon tenham feito com que seu trabalho ficasse escondido no meio da grande história do Holocausto, que se aflige com as possibilidades de sua própria representação.

No site do Museu Histórico do Judaísmo, há uma entrevista fascinante com o pai e a madrasta de Salomon, feita em 1963. Aí estão incorporados registros do final dos anos 1940, lado a lado com imagens guardadas por Ottilie Moore — americana que acolheria seus avós e, num certo momento, a própria Charlotte. Foi Moore quem a incentivou a pintar e foi ela quem comprou alguns dos primeiros trabalhos, produzidos em meio à beleza de sua casa de campo, em Villefranche.

Os pais de Charlotte fugiram para Amsterdã em março de 1939. Foram parados em Westerbork, um campo de concentração para refugiados, do qual fugiram em 1943. Viveram escondidos até o fim da guerra, quando Albert retomou os estudos e voltou a trabalhar como médico. Em 1947, viajaram a Villefranche para tentar descobrir o que havia acontecido com Charlotte em seus últimos anos de vida. Foi então que conhecem Moore, que, para a surpresa deles, os presenteia com a sequência de guaches da filha, além de outros trabalhos, atualmente perdidos. 

Outra Anne Frank

Em Amsterdã, os pais de Charlotte conhecem Otto Frank, pai de Anne Frank; e é possível que o encontro os tenha encorajado a publicar o trabalho da filha. Foi um processo lento e inevitavelmente adiado pelo luto familiar e pela vontade de esquecer — que hoje reconhecemos como a dificuldade, ou falta de vontade, que os sobreviventes têm de compartilhar assuntos doloridos. A primeira exibição de Salomon foi em 1961, no edifício Fodor do Museu Stedelijk. Seu pai escreveu um texto no catálogo da exposição, em que se refere ao livro como “um diário analítico escrito a partir da memória”. A palavra “diário”, combinada à associação do livro com o Holocausto, criou uma analogia rasa entre a comovente crônica de Anne Frank sobre seus dias no esconderijo e a investigação radical e agoniada que Charlotte Salomon fez da própria vida — bem como das vidas dos judeus berlinenses desde a Primeira Guerra Mundial até a ascensão do nazismo.

Outro fator que pode ter diminuído a reputação de Salomon é a ampla rejeição, no modernismo, pela arte entremeada com histórias, apesar de tanta arte dos séculos anteriores ter sido exatamente isso. Artistas como Paula Rego e Kara Walker têm, aos poucos, modificado nossa percepção. Mas o problema de Vida? ou teatro? é que ele não pode ser dividido e vendido como peças individuais no mundo das galerias, tão eficiente na hora de atribuir preços.

E, finalmente, há a velha questão do gênero. Para as mulheres, sempre foi mais fácil entrar num museu nua do que vestida e segurando um pincel. O desequilíbrio entre os gêneros vem mudando aos poucos, e o legado de Salomon tem ganhado peso — o que devemos, em grande parte, às pesquisadoras feministas. Algumas delas, porém, conceberam uma interpretação que não parece adequada para compreender a arte de Salomon, tampouco sua história, espelhada no racismo e na discriminação: a de que tanto ela como sua mãe e tia foram vítimas de abuso sexual por parte dos avós. 

Acrescentar abuso sexual à montanha de problemas que a linhagem materna de Salomon carregava é reduzir os impulsos suicidas de Charlotte a uma única causa hipotética

Em Berlim, o suicídio era de fato mais comum para mulheres judias do que para homens judeus, mas os protestantes e os católicos não ficavam muito atrás: os jornais falavam de uma epidemia de suicídio na sociedade urbana como um todo. Os horrores da Primeira Guerra e suas consequências — desemprego em massa, quantidade terrível de mortos, feridos circulando o tempo todo nas ruas — contribuíram para a epidemia. Para as mulheres que buscavam a liberdade, e para as quais essa busca era geradora de conflitos internos, as proibições patriarcais — manifestadas com ainda mais violência por causa da evidente crise da masculinidade — eram um fardo a mais. Acrescentar abuso sexual à montanha de problemas que as mulheres da linhagem materna de Salomon carregavam é reduzir os impulsos suicidas de Charlotte (que os homens da família também traziam consigo) a uma única causa hipotética. 

É verdade que, nas últimas páginas de Vida? ou teatro? o avô de Charlotte, recém-viúvo, entrega para ela, sem nenhum carinho, a colcha da avó e, poucas páginas depois, quando fogem de Nice, diz, vestindo apenas uma camisa: “Eu não entendo você. Qual é o problema de dividir uma cama comigo quando não temos nenhuma outra opção? Eu sou a favor do que é natural”. “Não me aborreça”, diz Charlotte. Ela já está transtornada com a fuga, a morte da avó e a revelação inoportuna que o avô faz dos suicídios da família. Acredita também que está enlouquecendo, e a fuga que a loucura oferece é sedutora.

É possível interpretar o gesto do avô como um indicativo de uma violência sexual já muito enraizada; mas também é possível entendê-lo como sinal de sua completa falta de sensibilidade com os outros. As últimas páginas de Vida? ou teatro? mostram como Charlotte é cada vez mais “esmagada pela proximidade do avô, os dois perseguidos tragicamente pelo Destino”. Ela muda o sentido das coisas e “recria o mundo desde as profundezas”. 

Na espetacular carta “perdida” que Charlotte endereçou a seu “amado amigo”, Amadeus Daberlohn, ela conta de como fez um “Veronalomelette”, uma omelete recheada com barbitúricos, para dar ao avô que ela descobrira ser “o espinheiro desse estado adoecido que há dentro de mim”. Seria isso um assassinato, uma vingança, ou a eutanásia de um velho que ela caracterizou como “um tipo fútil” — um “símbolo, para mim, das pessoas a quem tive que resistir”, um mero ator no “Teatro”, e que agora está “morto”?

Nunca saberemos. Mas a carta, traduzida com sensibilidade por Darcy Buerkle e Mary Felstiner, tem o peso de um testamento. “Meu amigo”, ela escreve, “talvez seja mesmo verdade que, com essa guerra, até o teatro que a humanidade vem encenando se encerre e, aí, toda a humanidade

colocada à prova pela dor
e experiência
se moverá em direção
a uma vida
mais
verdadeira
mais cheia de vida
”.

Ludwig Grunwald morreu no dia 12 de fevereiro, 1943. Charlotte voltou ao vilarejo l’Ermitage, onde um outro refugiado, Alexander Nagler, vivia há alguns anos. Eles se casaram no dia 17 de junho de 1943. Três meses depois, foram presos e enviados para Drancy, na periferia de Paris, de onde partiam os trens para Auschwitz.

Charlotte sobreviveu aos chamados do suicídio. Apenas seu trabalho arrebatador sobreviveu à predação do nazismo. [Tradução de Sofia Nestrovski]

Quem escreveu esse texto

Lisa Appignanesi

Escritora e ativista, é autora de O homem da memória (Record).

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.