Arte e fotografia, Especial Pantanal,

Destroços do presente

Seis fotógrafos revelam a devastação provocada pelo desmatamento e pelas queimadas no Pantanal

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

É desnecessário destacar a qualidade das fotos de Walter Carvalho, João Farkas, Luciano Candisani, José Medeiros, Lalo de Almeida, Araquém Alcântara. Elas se impõem ao olhar por si mesmas, não carecem de aduladores. Dividem-se em duas ordens: algumas revelam uma natureza vigorosa, outras mostram bichos mortos e matas calcinadas.

Kant observa que a arte pode nascer tanto da positividade quanto da negatividade: a primeira é o fundamento do belo, e a segunda, do sublime. O belo é um prazer positivo, que pertence à esfera do desejo e expressa a pulsão de vida. Já o sublime é um prazer negativo — alimenta-se do medo e provém da pulsão de morte. Cada gênero tangencia o real de uma perspectiva diferente: o belo expressa um dever-ser, algo a ser defendido e preservado; o sublime exprime um não-dever-ser, uma ameaça que precisa ser combatida e superada.

As fotos têm cumprido sua missão, interpelando as pessoas a fazer o que deve ser feito. Se estas permanecem inertes, o desfecho é conhecido. Em Cidades mortas (1919), Monteiro Lobato descreveu a devastação causada pelo agronegócio triunfante: 

“— Aqui foi o Breves. Colhia oitenta mil arrobas!… A gente olha assombrada na direção que o dedo cicerone aponta. Nada mais! A mesma morraria nua, a mesma saúva, o mesmo sapé de sempre. De banda a banda, o deserto”.

Esse filme é antigo. A ação se passava na Mata Atlântica. Temos agora produções mais recentes no Cerrado e na Floresta Amazônica. Porém o roteiro é o mesmo: a fronteira agrícola vai consumindo a vegetação nativa e deixando para trás a terra desolada. Ano após ano, as chuvas rareiam, os rios secam, as queimadas aumentam. O Pantanal não vê uma cheia desde 2018.

Mas se o enredo é um clichê (que sempre acaba mal), por que uma classe social empenha todo o seu poder em promover a destruição? Porque ela só mira o presente, não planeja o futuro: maximiza os lucros a curto prazo à custa dos trabalhadores e da natureza. Daí seu perfil despótico: “Nesses estados”, ensina Montesquieu, “nada se repara, nada se melhora. Constroem-se casas para apenas uma vida; não se planta árvore alguma; não se cavam fossos. Retira-se tudo da terra e nada se lhe restitui.”

Essa elite não tem projeto de nação. Moldada a partir do exterior, nunca se libertou de sua condição colonial: é um ser-para-outro que exporta matérias informes (agrícolas e minerais) e importa bens acabados e ideias prontas — desde seu discurso liberal aos formatos dos shows de TV. “Exportamos o não-ser e importamos o ser”, diz Roland Corbisier. Existindo para o outro e não para si, suas ideias sempre estão fora do lugar. Incapaz de pensar por sua conta, entendeu mal uma canção de Marcelo D2 e continua “queimando tudo até a última ponta”.

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O especial Pantanal tem o apoio de Documenta Pantanal

Quem escreveu esse texto

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.