Ciências Sociais, Especial Pantanal,

Guató, o povo pantaneiro

A história de uma das comunidades mais antigas da região explica a origem e a ocupação de suas terras

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

Em temporalidades longínquas havia uma comunidade Guató na área onde atualmente está a lagoa Gaíva, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Era um lugar seco e não uma grande baía, termo usado regionalmente para designar lagos e lagoas de todo tipo. Certo dia, algumas mulheres foram buscar água em uma nascente situada nas proximidades de suas casas. Ao chegarem lá, avistaram um preá branco, criatura jamais vista por aquelas paragens, chamado de meki na língua-mãe.

Ao regressarem à comunidade, tão logo anoiteceu e os adultos foram conversar ao redor do fogo, as mulheres contaram sobre o ocorrido. Um menino ouviu tudo atentamente e, na manhã seguinte, bem cedo, foi ver o bicho. Levou consigo arco e flecha e, ao avistá-lo, desferiu-lhe uma flechada certeira no peito. Antes de desfalecer, o preá disse ao jovem que não era um animal, mas o dono daquela água. Anunciou que da nascente viria tanta água que inundaria quase toda a região. Seria a punição à maldade que recebera em retribuição à bondade de oferecer água para saciar a sede das pessoas. Quem fosse mau morreria afogado, quem fosse bom deveria buscar abrigo seguro no cume dos morros.

Assim que o animal morreu, uma grande quantidade de água rompeu do lugar e a terra começou a tremer. Era grande o som do jorrar e do borbulhar. Em pânico, todos correram para se salvar. As pessoas más corriam em direção às morrarias, mas caíam no chão por causa dos tremores da terra e eram levadas pela inundação. Muitas pessoas boas correram e alcançaram o cume dos morros da Ilha Ínsua e lá ficaram a salvo. As águas eventualmente baixaram até certo ponto, mas a região jamais voltou a ser como era. O local onde a comunidade morava foi transformado na baía Gaíva e surgiu na região um mundo das águas, o Pantanal, batizado de Guadakan no idioma nativo.

O grito de guerra do xamã e escritor Davi Kopenawa Yanomami

Os sobreviventes tornaram-se hábeis canoeiros e ali continuaram a viver. Logo aprenderam com o povo mitológico Matchubé a construir aterros (ou marabohó), elevações artificiais do terreno feitas de terra e outros elementos. Em reciprocidade, os Guató ensinam-lhes as técnicas de produção e o uso da canoa feita do tronco de árvores. 

Os antigos aprenderam e passaram a ensinar aos seus que tudo tem um dono no Pantanal: rios, baías, morros, corixos ou canais que conectam cursos d’água, plantas, peixes e outros animais. Os donos são seres não humanos, sobrenaturais ou divinos que devem ser respeitados e exigem uma conduta ética por parte dos canoeiros, para que ali todos possam viver em equilíbrio com os recursos por eles oferecidos. Quando se quebram regras, como navegar em silêncio pelas águas da Gaíva ou pescar e caçar apenas o que precisam para sobreviver, punições serão proferidas.

Essa cosmologia foi contada por Francolina Rondon, conhecida por Dona Negrinha, Guató nascida na década de 1910 e que morreu em 2000. Por meio dela, é possível compreender que a história dos povos originários do Pantanal, ou Guadakan, também chamado de Chaco em quéchua e de Êxiva no idioma terena, não tem início em 1492 ou 1500. Está constituída por complexas trajetórias que começaram há pelo menos 8.400 anos. Podem ter se iniciado há mais tempo, entre 10 mil e 11 mil anos, quando a planície passou a apresentar feições ecológicas semelhantes às conhecidas hoje.

Os antigos aprenderam que tudo tem um dono no Pantanal: rios, baías, morros, plantas, animais

Durante o tempo geológico do Holoceno, quando o clima do planeta passou a ser mais quente e úmido, o Pantanal tornou-se um bioma com expressiva biodiversidade. Foi quando ali se estabeleceram as primeiras populações humanas, como os antigos canoeiros e construtores de aterros de que os Guató entendem descender. Eles são considerados o povo pantaneiro por excelência, por serem um dos grupos com maior profundidade temporal na região. Exemplos disso são a edificação de milhares de aterros, o contínuo manejo agroflorestal e a manutenção, correção ou construção de corixos e baías. Não por acaso existem depressões do terreno nas adjacências dos aterrados, apresentadas sob forma de lagoas temporárias que representam o negativo topográfico de onde foi retirada terra para a construção das estruturas monticulares.

Atualmente a tradição milenar de construir e ocupar aterros é mantida por famílias Guató no Brasil. São lugares constituídos de sedimentos, conchas de caramujos, ossos de animais e fragmentos de artefatos, dentre outras coisas. A depender das necessidades situacionais, podem ser construídos basicamente de terra, galhos e folhas. Também servem como locais para o sepultamento dos parentes. São implantados em diferentes lugares: margens de rios, ilhas lacustres e fluviais, interiores e margens de baías temporárias e permanentes, ribanceiras de corixos, campos alagáveis onde assumem a feição de ilhas de vegetação etc. Os mais antigos são elevações de terra preta favoráveis ao cultivo e manejo de plantas, à presença de animais e ao estabelecimento das famílias. Costumam ter em suas bordas palmeiras acuri ou midji, cujas raízes servem como proteção da ação das águas. 

No começo do século 16 o Pantanal era um mosaico de muitos povos indígenas. Comunidades estabelecidas ao longo dos grandes rios foram registradas a partir da década de 1540, quando expedições espanholas atingiram o município de Alto Paraguai, mas diversas populações são mencionadas por apelidos que nem sempre correspondem a diferentes etnias.

As terras baixas da planície de inundação, que possuem relevo de baixa declividade, eram majoritariamente ocupadas por populações canoeiras, como os Guató e os antigos Payaguá, povo de matriz linguística guaikuru. As terras altas, como os planaltos residuais de Urucum e Amolar, além de outros pontos elevados, eram o território preferido por populações de matriz linguística aruák, guaikuru, guarani e zamuco. A partir do século 18, outros povos ali buscaram se instalar, como os Bororo ou Boe.

O primeiro branco 

Na cosmologia Guató consta que o primeiro branco a chegar ao Pantanal estava perdido, ferido e faminto. Foi bem recebido e tratado, e com eles permaneceu até se recuperar e partir. Depois regressou com outros brancos para lhes fazer mal. Nas origens, portanto, os antigos europeus são apontados como humanos ambiciosos que costumam retribuir o bem com o mal.

O século 17 marca o fracasso dos espanhóis em anexar grande parte da bacia do Alto Paraguai a seus domínios. O insucesso é percebido com o colapso do povoado de Santiago de Xerez, em 1632, e da missão jesuítica de Nuestra Señora de la Fe del Taré, em 1659. No século 18, os bandeirantes paulistas, os portugueses e aliados começaram a explorar ouro de aluvião no vale dos rios Cuiabá e Coxipó, em Mato Grosso. O momento inaugura outra situação histórica, marcada por conflitos armados, epidemias, escravidão, estabelecimento de povoados coloniais e fortificações militares. 

Em face das disputas entre Espanha e Portugal pela região, os Guató aliaram-se aos lusitanos e luso-brasileiros e protagonizaram ações para assegurar que vastas extensões do Pantanal fossem anexadas ao território nacional do Brasil. Durante a guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (1864-70), por exemplo, enfrentaram as tropas invasoras e participaram, em 1867, da Retomada de Corumbá, cidade portuária dominada por forças paraguaias desde janeiro de 1865. Anos depois, entre as décadas de 1920 e 1970, passaram por um doloso processo de invisibilidade e foram dados como extintos. O período é marcado por várias formas de violência: exploração do trabalho análoga à escravidão, diáspora, esbulho e transformação de grande parte do território ancestral em fazendas de gado e áreas de preservação etc.

Com a (re)democratização do Brasil, os canoeiros conquistaram o reconhecimento étnico nos anos 70, mas ainda hoje lutam contra a invisibilização. Sua população deve girar ao redor de 5 mil pessoas, embora a maioria configure como “pardo” e “ribeirinho” nos censos oficiais, que estimam cerca de quinhentos aldeados. Possuem duas terras indígenas (tis) demarcadas: ti Guató (Corumbá, ms) e ti Baía dos Guató (Barão de Melgaço, MT). Outras áreas, como ti Barra do São Lourenço, na divisa entre os dois estados, aguardam a regularização.

A história aqui apresentada não faz parte da trama da novela Pantanal, produzida nos anos 90 pela antiga tv Manchete e agora refilmada pela Globo, mas precisa ser conhecida para que as trajetórias dos povos originários não sejam reduzidas à saga dos Leôncio e Marruá.

O especial Pantanal tem o apoio de Documenta Pantanal

Quem escreveu esse texto

Jorge Eremites de Oliveira

Escreveu Arqueologia pantaneira: história e historiografia (UFGD Editora).

Zaqueo Souza Ferreira

É cientista social e professor de uma escola municipal indígena na Terra Indígena Guató, em Corumbá (MS).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.