O jornalista e escritor Philippe Jaenada (Flammarion/Reprodução)

Prêmios literários,

Romance inspirado em caso real de modelo assassinada vence o Goncourt 2026

Ganhador do principal prêmio literário da França, Philippe Jaenada mescla investigação e narrativa histórica ao revisitar um crime sem solução na Paris de 1949

03nov2026

Maior prêmio da Academia Francesa, o Goncourt anunciou nesta terça-feira (3) o vencedor da premiação deste ano: Philippe Jaenada, por L’inconnue du quai de Javel, publicado em agosto pelo selo Flammarion. O romance resgata a história do assassinato da modelo Louise Cansot, ocorrido em Paris em setembro de 1949.

Uma das modelos mais famosas de sua época, Cansot foi encontrada morta no bairro de Montparnasse. Após a descoberta do corpo, quatro suspeitos surgiram, mas o caso foi arquivado por falta de provas. No romance, Jaenada reabre o caso — revisitando as anotações de policiais da época, que classificavam a modelo como uma mulher de “má reputação” —, e sugere uma solução, misturando investigação e narrativa histórica. 

Nascido em 1964, Jaenada é jornalista e começou a carreira publicando romances autobiográficos, como Le Chameau sauvage (1997) e Le Cosmonaute (2002), inéditos no Brasil.

Em 2013, o autor passou a se dedicar à ficção de crimes reais, publicando Sulak (2014), sobre Bruno Sulak, ladrão de joalherias da década de 1980; La Petite femelle (2015), sobre Pauline Dubuisson, acusada em 1953 de ter assassinado seu amante; e La Serpe (2017), em que analisa a acusação de triplo homicídio do escritor Georges Arnaud em 1941, pelo qual ganhou o prêmio Femina. 

Suas obras, ainda inéditas no Brasil, são marcadas pelo olhar irônico e uma prosa segura, segundo o jornal francês Le Monde.

Philippe Jaenada na cerimônia de anúncio do Prêmio Goncourt 2026 (Alexandre Marchi/Reprodução)

Autor de treze romances, o escritor havia sido indicado outras três vezes ao Goncourt. Além de Jaenada, outros três escritores disputavam o prêmio: Yannick Haenel, por La solitude des professeurs est infinie; Clémentine Mélois, por Choses que je croyais perdues; e Sylvain Prudhomme, por De l’autre côté du lac.

Percalços

Em 2025, o vencedor do Goncourt foi Laurent Mauvignier, premiado por La maison vide, no qual reconstitui a história da sua família na zona rural francesa.

A premiação enfrentou percalços em 2026. Em agosto, Didier Decoin, roteirista francês e presidente do Goncourt de 2020 a 2024, morreu em decorrência de um câncer, reduzindo o júri para nove membros em vez dos dez usuais.

Depois, em setembro, o romance C’était ça ou mourir, do canadense-haitiano Thélyson Orélien, foi removido da seleção inicial do comitê por acusações de plágio e uso de inteligência artificial. Orélien reconheceu o plágio e disse que usou IA para pesquisa e traduções. A editora canadense Boréal admitiu que ferramentas de inteligência artificial foram usadas no processo de escrita e rompeu o contrato com o escritor.

Desde a primeira entrega do Goncourt, em 1903, apenas treze mulheres venceram a categoria principal. Em 2009, a francesa-senegalesa Marie NDiaye foi a primeira mulher negra a levar para casa o prêmio literário mais prestigioso da França.