Há exatamente cinquenta anos, no dia 20 de outubro de 1976, Clarice Lispector concedeu uma entrevista histórica aos escritores Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e João Salgueiro, no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ). Recuperada décadas depois, a gravação revela uma faceta pouco conhecida da autora de A hora da estrela: falante, descontraída e dona de um humor afiado.
A entrevista foi originalmente realizada para o MIS e, com autorização da família de Lispector, o áudio foi entregue a Benjamin Moser, autor de Clarice, (2009), que participou da publicação na revista The New Yorker.
A conversa foi resgatada pelo podcast 451 MHz em dois episódios especiais publicados em julho de 2023, reunidos, no fim daquele ano, em uma edição de duas horas. Com comentários do biógrafo Benjamin Moser e da editora Mariana Delfini, a entrevista percorre a infância da escritora, sua relação com a família, o início da carreira nos jornais, suas influências literárias e os bastidores de livros como Perto do coração selvagem, Água viva e A maçã no escuro.
A escritora também fala sobre a presença do inconsciente em sua escrita, a experiência como tradutora e o desconforto com as obrigações sociais da vida de mulher de diplomata.
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Um dos momentos mais curiosos da gravação surge quando Clarice comenta estar escrevendo uma novela com uma personagem nordestina que já não aguenta mais. Essa é Macabéa, protagonista de A hora da estrela, publicado em 1977, ano da morte da escritora.
“Quando a gente estava vindo para cá, você disse que já estava cansada da personagem da novela que você está escrevendo”, diz Marina Colasanti.
Clarice Lispector responde: “Pois é, de tanto lidar com ela”. Em seguida, Colasanti comenta que a autora “fala da personagem como se estivesse falando de uma pessoa existente, que te comanda”.
“Mas existe a pessoa, eu vejo a pessoa”, devolve Lispector. “Ela é nordestina e eu tinha que botar para fora um dia o Nordeste que eu vivi. Então estou fazendo, com muita preguiça, porque o que me interessa é anotar. Juntar é muito chato.”
A gravação integral oferece uma oportunidade de ouvir Clarice Lispector para além das páginas de seus livros e conhecer a espontaneidade de uma das vozes mais singulares da literatura brasileira.
Ouça novamente a entrevista completa no 451 MHz.
Mais Clarice na Quatro Cinco Um
A edição de agosto de 2023 da revista dos livros trouxe, além da transcrição da entrevista, um texto de Benjamin Moser sobre os bastidores da conversa e da recuperação da gravação, um relato de Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, sobre suas memórias acerca da época do lançamento de A maçã no escuro, e uma releitura de Macabéa, por Conceição Evaristo.

Clarice também foi capa da edição 21 da Quatro Cinco Um, de abril de 2019, com um ensaio fotográfico feito por Claudia Andujar e texto de Thyago Nogueira. À época, Marise Hansen escreveu sobre os laços que unem Clarice e Carolina Maria de Jesus a partir dos vazios e as subjetividades de Laços de família e Quarto de despejo.

A produção infantil de Clarice Lispector foi tema de dois textos publicados na revista: “Os relevos acidentados das emoções”, assinado por Moacyr Godoy Moreira, uma resenha do livro As crianças de Clarice, de Mell Brites; e “A personalidade das flores”, em que Cristiane Tavares escreve sobre De natura florum, que traz 24 verbetes a partir dos quais Clarice descreve variadas espécies de flores.
