A FEIRA DO LIVRO 2026,
A literatura de Clarice nos abre para o outro, diz Yudith Rosenbaum
Autoras de ensaios da coletânea Dá-me tua mão falaram sobre errância e linguagem na obra da escritora e sobre a importância de se abrir para a alteridade
04jun2026Uma conferência realizada na Universidade Hebraica de Jerusalém em 2018 deu origem a Dá-me tua mão: Clarice Lispector, memória, errância e sensibilidade (Peixe-elétrico), reunião de ensaios que foi tema de conversa no Tablado Literário Bubu na tarde de quinta (4).
Segundo o professor da Universidade de Princeton Pedro Meira Monteiro, um dos organizadores do volume, o tema inicial do debate acadêmico, sobre memória e pertencimento na obra de Clarice Lispector (1920-77), acabou migrando para línguas e errâncias da escritora nascida na Ucrânia, que veio muito cedo com a família para o Brasil.
Autora de um dos ensaios, a professora da USP Yudith Rosenbaum ressaltou a importância da alteridade na obra de Lispector, conforme se pode perceber no título da coletânea, Dá-me tua mão, que surgiu de uma frase da própria Lispector.
“Clarice tem uma subjetividade tão densa que precisa sair e encontrar o outro no mundo”, disse. “Esse outro pode ser gente, bicho, planta e objeto. Não é só do humano que se trata. Esse reconhecimento hoje é fundamental, já que estamos vivendo o contrário — o fechamento de fronteiras, de relações. A Clarice arromba as paredes.”
Para Rosenbaum, autora de Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector (Edusp, 2006), ir ao outro é o grande deslocamento da escritora. Em seus romances e contos, ela está sempre em busca daquilo que não pode ser dominado ou domesticado. “Clarice abre possibilidades, mas não faz isso com neologismos, como Guimarães Rosa; faz por caminhos sintáticos novos”, explicou.
A professora citou como exemplo contos como “Amor”, cujo título não remete a uma história de amor romântico, mas sim a uma narrativa permeada por náusea e ódio. Ou ainda o vanguardismo de um conto como “A fuga”, escrito nos anos 40, no qual uma mulher recém-separada diz: “eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher”. “Clarice abre o que a gente temia classificar como algo habitual. Ela nos desanestesia da vida.”
Linguagem
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Outra participante da coletânea, a professora e pesquisadora Mariana Bijotti contou da sua experiência com a obra da autora — desde o primeiro contato, ainda na escola, até o mestrado, em que se dedicou à questão da linguagem no romance A paixão segundo G.H. (1964).
“As personagens de Clarice estão sempre querendo dizer alguma coisa, seja pela linguagem ou pela arte”, disse a pesquisadora, que citou diversos exemplos de personagens da autora que são artistas, como a escultora G.H.
“Quando lemos esse romance, que é tão imagético, parece que Clarice não está só contando algo, mas dando a ver. Ela quer que o leitor entenda, veja o que ela vê, que ele tente entrar nessa experiência que é inexplicável”, observou.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.