Repertório 451 MHz,

Clarice, vale a pena ouvir de novo

Episódio reprisa a entrevista histórica feita em 1976 e revela uma escritora de humor e inteligência afiados

22dez2023 - 00h00

Está no ar o 102º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Para encerrar 2023, decidimos reprisar a entrevista histórica publicada em duas partes em julho deste ano: “A voz e o silêncio de Clarice Lispector”, agora reunida em um episódio especial de duas horas. 

A gravação revela uma voz inédita de Clarice e mostra uma escritora com humor e inteligência afiados, trazendo uma camada suplementar sobre quem ela foi. Por isso, vale a pena ouvir de novo e de novo essa entrevista realizada em 1976 pelos escritores Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e João Salgueiro para o MIS, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

Com autorização da família, o áudio foi entregue para Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, e recuperado pela revista The New Yorker. Nesse novo episódio do 451 MHz, a entrevista completa também conta com os comentários de Moser e de Mariana Delfini, editora da Tinta-da-China Brasil e uma grande leitora de Clarice. O episódio foi realizado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.

A hora da estrela

Na entrevista, Lispector comenta da sua infância, a pobreza no Recife, a relação com sua família, como começou a escrever em jornais e publicar livros. Um dos momentos curiosos é quando a autora fala que está escrevendo uma novela com uma personagem nordestina que ela “não aguenta mais”. É nada menos do que A hora da estrela, publicado em 1977, ano da sua morte.


 
      

Alguns de seus livros comentados na entrevista são Perto do coração selvagem (que marcou sua estreia), Água viva (que ela guardou por três anos pois achava tão ruim que ninguém ia querer publicar, por não ter nenhuma trama, e que se tornou um dos textos preferidos de Ariano Suassuna) e A maçã no escuro (o livro preferido de Affonso Romano de Sant’Anna); além de sua produção infantil, com destaque para O mistério do coelho pensante (que ela escreveu para os filhos).

Inconsciente 

Lispector fala ainda de como o inconsciente adentrou sua escrita e da sua atividade como tradutora, da qual não gostava. Do mesmo modo, não lhe agradava a vida como mulher de diplomata, tendo que organizar jantares e participar de eventos oficiais. Foi nesse ambiente que A maçã no escuro foi escrito — na conversa, ela comenta como esse era um dos seus livros preferidos na época.

Quando perguntada se ainda gostava de Laços de família, ela responde que está enjoada dele. Outra obra sua citada na entrevista é Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (que virou filme nas mãos de Marcela Lordy).

  

Sobre autores que a influenciaram, ela revela que dois dos livros mais marcantes da sua vida foram Crime e castigo, de Dostoiévski, e O lobo da estepe, de Hermann Hesse, cuja leitura a deixou febril.

Conversa entre amigos

Um dos aspectos que mais chamam a atenção é o tom descontraído da entrevista, com uma Lispector mais solta, falante e relaxada. Há poucos registros em áudio e vídeo da autora, sendo que a entrevista que ela concedeu para a TV Cultura em 1977, meses antes de morrer, era a única em ampla circulação. A conversa está disponível no YouTube:

VÍDEO Embedar Panorama com Clarice Lispector

A diferença de tom entre um registro e outro pode ser por causa dos entrevistadores. Na conversa para o MIS, além de João Salgueiro, estão os escritores Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna, grandes amigos de Lispector.

Essa característica é apontada nos comentários de Moser, autor de Clarice, biografia da autora lançada em 2009 pela Cosac Naify e depois reeditada pela Companhia das Letras, e Mariana Delfini, editora da Tinta-da-China Brasil. Os dois explicam o contexto em que foi feita essa entrevista do MIS na segunda parte do episódio, que sucede a conversa de Clarice com seus amigos.

Moser também comenta da importância desse áudio ter sido publicado na New Yorker, especialmente para a visibilidade internacional de um dos grandes nomes da literatura brasileira. Com isso, Clarice Lispector já entrou para o cânone literário mundial.

Mais Clarice na Quatro Cinco Um

A edição de agosto da revista dos livros trouxe, além da transcrição da entrevista, um texto de Benjamin Moser sobre os bastidores da conversa e da recuperação da gravação, além de um relato de Paulo Valente Gurgel, filho de Clarice, sobre suas memórias à época do lançamento de A maçã no escuro, e uma releitura de Macabéa, protagonista de A hora da estrela, por Conceição Evaristo

  

Lispector também foi capa da edição 21 da Quatro Cinco Um com um ensaio fotográfico feito por Claudia Andujar e texto de Thyago Nogueira

Marise Hansen falou dos laços que unem Lispector a Carolina Maria de Jesus a partir dos vazios e as subjetividades de Laços de família e Quarto de despejo sessenta anos depois de seu lançamento.

A produção infantil de Clarice Lispector foi tema de dois textos publicados na revista: “Os relevos acidentados das emoções”, assinado por Moacyr Godoy Moreira, uma resenha do livro As crianças de Clarice, de Mell Brites; e “A personalidade das flores”, em que Cristiane Tavares escreve sobre De natura florum, que traz 24 verbetes nos quais Lispector descreve variadas espécies de flores.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Luiza Silvestrini
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace e Luis Rodrigues, da Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro
Para falar com a equipe: [email protected]