Literatura brasileira, Literatura Negra,
Gramática do cotidiano
Conceição Evaristo chega plena aos oitenta anos e promete lançamento de inéditos em 2027
01nov2026 • Atualizado em: 30out2026 | Edição #111Durou mais de um mês a negociação para encaixar uma entrevista na agenda de Conceição Evaristo. A ideia era passar algumas horas com ela na Casa Escrevivência, no Rio. Às vésperas do dia marcado, uma reviravolta. De um quarto de hotel em Belo Horizonte, mal se conecta à chamada de vídeo, a escritora dispara: “Adriana, tive de fazer essa viagem. Uma pesquisadora que trabalha a autoria negra muito antes de eu estar na mídia lança um livro hoje na Academia Mineira de Letras, onde também sou acadêmica. Precisava estar aqui”.
Conceição é assim. Entre um festival literário em Nova York e um compromisso em Duque de Caxias (RJ), ela fica com os dois, mas dá ênfase ao segundo. “Não posso estar num evento internacional e deixar de ir a um município cheio de carências”, diz ela.
Só em setembro, Conceição se apresentou a centenas de milhares de pessoas na Bienal do Livro de São Paulo; participou dos lançamentos de Escreviventes (Pallas), uma conversa entre ela e a amiga escritora Eliana Alves Cruz, e da caixa que reúne seus romances, contos e antologias poéticas, publicada pelas editoras Malê e Pallas; e recebeu homenagem na Flup (Festa Literária das Periferias), no Rio, num encontro em torno da coletânea A gente combinamos de escrever (Malê). No sábado (26/9) desta homenagem, foi à quadra do Império Serrano passar o bastão do samba-enredo, que a celebrou neste ano, à turma da UNE (União Nacional dos Estudante), próximo tema da agremiação.
“Meus livros são estudados na academia, traduzidos em inglês, francês, tcheco, árabe, espanhol, italiano, mas vê-los circular numa escola de samba, onde as classes populares exercem sua liberdade de criar e festejar, é outra coisa. O que vivi no fim de semana mostra que a literatura vale a pena.”
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Até 2027, quando ela promete fazer uma pausa para dedicar-se exclusivamente à escrita, muita festa vai rolar. Começando pelo aniversário, em 29 de novembro, marcado pela première de Conceição Evaristo: uma ópera-escrevivência, no Theatro São Pedro, na capital paulista. Haverá ainda a estreia como atriz em Se eu fosse vivo… vivia, de André Novais, que ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Brasília, e a versão em documentário de Escreviventes, de Estevão Ribeiro.
Para o que ela representa, há quem considere pouco. “Conceição Evaristo é a maior escritora contemporânea. Fosse o mundo mais justo, ela venceria o Nobel”, defende o crítico literário Luiz Mauricio Azevedo. Foi justamente a uma autora nobelizada que Angela Davis a comparou durante sua passagem pela Flip, em julho. “Coloco Conceição no mesmo nível de Nina Simone e Toni Morrison”, disse Davis, cotejando a mineira com uma das mais importantes cantoras de jazz e com a primeira mulher negra a receber o Nobel de literatura.
Black power
Mais que a reverência, anima Conceição a proximidade com a ativista e filósofa estadunidense, uma inspiração desde os anos 70. Nessa época, Conceição ostentava os cabelos num penteado afro, inspirado na foto de Angela Davis que enfeitava uma das paredes de seu quarto. “Acho que consegui a imagem com meu tio Catarino, pai de Macaé [Evaristo, ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania]”, conta. “Depois disso, parei de alisar o cabelo e comecei a usar um black power, que ficou belíssimo. Por causa dele, aqui em Belo Horizonte, fui até apedrejada. Mas ver aquela liderança sendo perseguida me fortalecia. Dizer isso a ela é certificar que, desde minha juventude, vim passeando por um caminho certo.”
O visual, que destoava da caretice belo-horizontina, estava de acordo com a atuação de Conceição na Juventude Operária Católica, substituída posteriormente pela participação no movimento negro, ao qual ela se juntou quando iniciou a carreira como professora no Rio.
Nesse contexto, sua escrita foi se tornando conhecida graças a coletivos literários como o Grupo Negrícia e o Quilombhoje. “O trabalho de Conceição somou-se ao de outras autoras aprofundando a visceralidade da escrita feminina nos Cadernos Negros, com um detalhe: muita delicadeza e forte convicção da feminilidade”, afirma o poeta Cuti, um dos fundadores do Quilombhoje.
“Conceição publicou pela primeira vez em 1990, seis poemas, entre os quais dois feministas, no número 13 de Cadernos Negros”, lembra Cuti. “Um deles traz à flor da página uma autopercepção baseada na fisiologia feminina. O outro, a relação entre três gerações de mulheres, estreitando a noção de ancestralidade militante, com mira no futuro. O eu lírico que a poeta nos apresenta não titubeia, afirma-se enquanto negra, mesmo quando trata de relação heterossexual.”
Até o ano que vem, quando deve fazer uma pausa para dedicar-se exclusivamente à escrita, muita festa vai rolar
Simultaneamente a essa colaboração, Conceição burilava o texto de Ponciá Vicêncio, romance carregado de perdas, que refletem a então recente viuvez da autora. “Nas conversas para Escreviventes, o que mais me marcou foi Conceição contando como ela conheceu e se casou com Oswaldo, pai da Ainá, sobre quem ela fala pouco”, diz Eliana Alves Cruz. “Estávamos tratando de relacionamentos, e ela soltou uma frase linda: ‘Vivi uma história de amor’. Isso diz muito a nós, porque a mulher negra é preterida. A gente sabe disso.”
Engavetado por mais de uma década, Ponciá Vicêncio se tornou “a obra-prima” de Conceição, como descreve a jornalista e escritora Yasmin Santos em Conceição Evaristo: voz insubmissa (Rosa dos Tempos). A biografia traz imagens da mineira desde a infância, incluindo um retrato em que ela e Oswaldo se beijam, no que parece ser uma praça pública.
“Ponciá Vicêncio é um romance que introduzo nas minhas aulas na USP e em Princeton, sobretudo porque Ponciá é uma história individual, mas também coletiva”, diz a historiadora, antropóloga e escritora Lilia Schwarcz. “Além do eu lírico muito bonito, é uma forma de tratar de memória, escravidão, racismo, pobreza, gênero e ancestralidade. Tudo isso, no contexto da Nova República, que prometeu igualdade e entregou desigualdade.”
Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 2024, Schwarcz exaltou Conceição, que estava na plateia, ao lembrar uma frase dita por ela: “O importante não é ser o primeiro ou a primeira, mas abrir caminhos”.
A imortal, aliás, só concorreu à cadeira número 9 da ABL após certificar-se de que Conceição não reapresentaria sua candidatura. “Sei que atuamos em áreas distintas — eu, na história e na antropologia, Conceição, sobretudo na poesia e na ficção —, mas, assim como eu, ela trata de memória e tem esse lugar imenso na literatura brasileira.”
Um lugar e um gênero criados pela própria autora. “Escrevivência é o nome que Conceição deu ao processo de resiliência de seu DNA literário num mundo de massacre e violência contínua, no qual a literatura era quase um luxo pornográfico”, diz Luiz Mauricio Azevedo.
Nas duas horas de prosa que trocou com a Quatro Cinco Um, Conceição falou de tudo um pouco, mas especialmente sobre literatura e as muitas obras que pretende lançar a partir de 2027. Confira os principais trechos.
A senhora chega aos oitenta anos com uma obra aclamada. Como avalia seu projeto literário?
Cada obra ou texto crítico que escrevo, faço com mais convicção de que sou capaz. As pessoas costumam me perguntar quando escolhi ser escritora. Não escolhi ser escritora, mas, sim, escrever. O público me dá esse status na medida em que é seduzido e se interessa por minhas histórias. Estou convencida do meu papel e o levo muito a sério. Assim como um músico não pode tocar qualquer banalidade, não se pode escrever qualquer coisa. A arte não é brincadeira. Por isso, demoro tanto [para finalizar um livro], porque leio, releio, peço aos amigos para dizer o que acham. Com o amadurecimento, a gente se torna ainda mais exigente.
Quais são suas exigências?
Desde os primeiros textos, sei que não posso criar narrativas com estereótipos de negros, gays ou lésbicas. Já se fez muito isso, inclusive em obras clássicas da literatura brasileira, repletas de ideias preconcebidas sobre indígenas, negros, mulheres… Um dos projetos que gostaria de lançar neste ano é uma antologia de poemas eróticos, mas, conversando com uma assessora, ela disse que seria melhor não usar o termo “erótico”, pois alude ao mito grego. Como não encontrei nenhuma referência nas culturas africanas, vai se chamar O gozo e seus movimentos, que remete ao título de outra obra que escrevi, Poemas da recordação e outros movimentos. Na linguagem, gosto da sutileza, das insinuações. Trato de gozo e sexo sem vulgaridades. Canção para ninar menino grande, por exemplo, é um livro de imensa sensualidade, mas as relações sexuais são descritas com leveza. Quero que o leitor se sinta contaminado, tenha desejos. Que a leitura provoque êxtase, mas com suavidade.
Uma das características de sua escrita é brincar com as palavras, dando a elas novos significados. Gostaria de ouvi-la sobre esse trabalho.
Sou uma pessoa de gestos comedidos. Portanto, essa competência herdei da oralidade, das conversas que vivi em casa, que, além da voz, envolviam o silêncio e o olhar. Minha mãe se fazia entender só com o olhar. Se eu falasse “mãe, o que a senhora está achando da proibição das bets?”, ela não diria nada, só “hum”, acompanhado por um movimento de corpo [Conceição faz um muxoxo com a boca, encara a jornalista e olha para o outro lado]. Entende?
‘Na linguagem, gosto da sutileza, das insinuações. Trato de gozo e sexo sem vulgaridades’
Sim. Meu avô fazia algo parecido.
Esse exercício me dá a competência de imaginar as palavras que posso usar. É uma linguagem marcada pelo falar mineiro, escrita na gramática do cotidiano. Sinto um prazer imenso em fazer isso. Os momentos de criação me emocionam. Me cumplicio com minhas personagens.
Como trabalha a criação das personagens?
Há uns quinze anos, estou escrevendo Flores de mulungu. Esse livro tem uma matriarca, cuja relação com o mundo se daria pelos seios. Quando o filho dela estivesse sofrendo, seus seios verteriam sangue. Não tem gente que fala “hoje vai chover porque meu calo está doendo”? Para essa mulher, os seios seriam a antena do mundo. Quando comecei a trabalhar nesse romance, passei a sentir dores no seio. Decidi mudar o rumo da prosa. Essa cumplicidade com determinadas personagens me leva a sentir dor, tesão. Há pessoas que dizem chorar ao ler meu texto. Eu chorei ao escrever.
Numa entrevista com Chimamanda [Ngozi Adichie], contei que sofri horrores lendo Hibisco roxo, e ela me disse que a intenção era essa.
A gente não pode sofrer sozinha.
Como faz para se livrar desse envolvimento emocional?
Depois que o personagem vai para o mundo, esqueço. Só lembro essa dor na leitura ou se uma pessoa discute o texto. Fora isso, não — a gente precisa pensar no próximo personagem.
A senhora releu os livros que compõem a caixa com a sua obra?
Nunca faço isso. O único livro meu que reli foi Ponciá Vicêncio, porque não gostava da narrativa. Quando me perguntavam “que história linda, como é que você fez isso?”, eu voltava ao romance para entender o que a pessoa achou de tão extraordinário. Foi assim que aprendi a gostar.
‘Quando falo de tradição, penso desde Carolina Maria de Jesus até a criação dos rappers’
Por que não gostava de Ponciá?
Tinha medo da memória de Ponciá Vicêncio, pois eu não estava bem quando o escrevi. É um livro cheio de perdas: Ponciá tem sete filhos, que vão se largando pelo caminho até se reencontrar. Trabalhei nesse romance quando meu marido fez a passagem. Ele faleceu de repente. Teve um infarto durante uma viagem aqui em Belo Horizonte, e eu fiquei sozinha com minha menina de nove anos, que, segundo a medicina, não ia viver nem três meses — e Ainá está aí com 45 anos.
Talvez tratar de tanta privação, sem falar de mim mesma, era o que precisava naquele momento. Quando acabei Ponciá, não estava tão satisfeita com o texto. Mas todo mundo gostou. Hoje, acho lindinho.
Muitos dos contos de A gente combinamos de escrever dão continuidade ou outro destino aos seus personagens. O que achou da coletânea?
Para mim, o texto literário só faz sentido se o final for aberto no plano do entendimento ou da dúvida sobre o que aconteceu, porque há oportunidade de outras ficcionalizações. Sobre Ponciá Vicêncio, várias pessoas me perguntam se ela enlouqueceu, sarou ou se jogou nas águas do rio. O final é da pessoa que lê. A narrativa tem que incomodar. Quando isso acontece, ela convocou o leitor. Há uns vinte anos, um rapaz que frequentava um curso noturno, tipo EJA [Educação de Jovens e Adultos], em São Gonçalo, falando sobre o conto “Maria” [do livro Olhos d’água], disse que não tinha gostado da morte dela. “Quem vai cuidar dos filhos da Maria?”, ele questionou. Agora, Calila das Mercês dá uma resposta a isso, assim como Cuti dá outro destino para Di Lixão [também de Olhos d’água] e Marcelino [Freire] incorpora personagens sem nome e cria outro texto.
Num trecho de Escreviventes, a senhora diz a Eliana Alves Cruz que Solitária é a história de sua gente. Como tem sido essa troca com autoras e autores de outras gerações?
Futuramente, acredito que nossos textos — não só os meus — vão criar uma vertente na literatura brasileira. Uma tradição que não se inicia agora, que incorpora procedimentos, pensamentos, estética, conteúdos, mas que também renova. O livro da Eliana, Água de barrela, me dá medo. Eu o leio aos pedacinhos para não me sentir influenciada em Flores de mulungu. As temáticas se confundem, porque as memórias do povo diaspórico se mesclam, ao mesmo tempo que se distanciam.

Em que sentido?
Ainda que parta da realidade dos Estados Unidos, tem muito de Sula, de Toni Morrison, em Ponciá Vicêncio. Existe até um estudo comparando os dois livros. O olho mais azul, por sua vez, me lembra A cor da ternura, de Geni Guimarães. Da mesma maneira, temos muito em comum com Teresa Cárdenas, de Cuba. Não se trata só da temática. A memória da escravização e nossa condição de pessoas negras têm similaridades, mesmo que a formação de cada um desses países seja diferente. A história compartilhada [que rejeita a ideia de uma história única centrada no modelo europeu], a que Édouard Glissant se refere em relação às Antilhas, vale para toda a diáspora africana. Quando a gente se encontra no texto de Morrison, Cárdenas ou de outras e outros escritores cuja ancestralidade é marcada por uma condição afrodiaspórica, cria um sistema próprio.
É possível falar de uma tradição literária?
Sim, mas ela se forma diferente de uma vertente canônica. Quando falo de tradição, penso desde Carolina Maria de Jesus até a criação dos rappers. Nós não frequentamos lugares famosos como a Confeitaria Colombo, no Rio, onde escritores se encontravam. Não tivemos tempo ou oportunidade de trocar cartas ou de discutir nossos textos. Mas nossa tradição permite que eu ponha na boca de um personagem a frase “a gente combinamos de não morrer” com plena consciência de estar subvertendo a norma culta da língua, porque quero fazer uma concordância semântica e não gramatical, assim como Emicida rima “é nóiz por nóiz” ou Carolina busca as palavras ditas bonitas para construir uma frase numa ordem perfeita, trabalhando, ao mesmo tempo, o linguajar mineiro.
Esse diálogo é ainda mais interessante quando se trata da literatura africana, não é?
Nos anos 80, época em que os movimentos sociais negros apontaram o racismo brasileiro disfarçado no discurso da democracia racial, minha geração buscava lugares em que pudéssemos afirmar nossa identidade. E o que tínhamos? O continente africano. A África foi nossa Pasárgada. Naquele momento, estavam acontecendo as lutas de libertação em Angola e Moçambique, colônias portuguesas, com as quais nos identificamos também pela língua. Fomos compondo uma didática de reconhecimento. Muitos brasileiros falam de suas origens com veemência. Assisti a uma palestra da Nélida Piñon na qual ela descreveu a emoção de conhecer a rua e o prédio na Espanha onde moravam seus antepassados. Essa é uma experiência que não terei.
Essa experiência ocorre na leitura de textos de autoras e autores africanos lançados no Brasil?
Não só. Numa visita que fiz a São Tomé e Príncipe, estava num mercado e, de repente, uma senhora vendendo peixe veio na minha direção e me abraçou, dizendo: “Você anda sumida”. Na hora, me recompus e respondi: “Tem muito tempo que não te vejo”. Quando você anda por países africanos, tem a impressão de que encontrou sua tia, entende? Claro que existe uma grande diversidade, mas nada é antagônico. São diferenças que não criam uma radicalidade em termos de distanciamento — um distanciamento que não radicaliza a ponto de ser uma diferença intransponível. Passaram-se séculos, mas África e diáspora têm um liame cujo nome eu não saberia dizer.
Neste ano, foi publicado Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade, livro com a tese de mestrado em que a senhora definiu escrevivência, conceito que afirma não ser narcísico. O que quer dizer com isso?
Chamo de escrita narcísica as narrativas que se esgotam nelas próprias, como a autoficção ou a escrita de si. É um sujeito que ficcionaliza sua história. Penso no espelho de Narciso, que morre apaixonado por si mesmo. Tenho feito um esforço para decodificar nossos textos a partir de referências africanas e afro-brasileiras. Não que a gente não possa se basear em gregos e romanos. Mas, se utilizarmos suportes teóricos a partir de nossas narrativas para determinados conceitos e produções do pensamento, como a escrevivência, ampliaremos o entendimento e a absorção desses textos.
Nesse caso, quais seriam as referências de matriz africana?
Ora, em se tratando de espelho, no de Narciso nunca coube nosso rosto. Fomos nós que afirmamos a beleza negra. O máximo que o olhar do branco conseguiu ver foi exotismo. Nas culturas africanas e afro-brasileiras, temos dois espelhos que nos conferem dignidade e poder, e revelam nossa beleza. O de Oxum, que tem uma diferença radical com o de Narciso. Enquanto este se perde contemplando o próprio reflexo, o abebé de Oxum mostra o rosto dela e os inimigos que estão vindo por trás, ou seja, é também uma arma de guerra. O outro espelho é o de Iemanjá, aquela que cria, que cuida. Por isso, digo que a escrevivência sou eu/nós. Há subjetividade, porque cada uma produz uma escrita. Mas a diferença não te isola. Ela te impele a ser responsável pelo outro.
Como a escrevivência dialoga com conceitos como o de tempo espiralar, de Leda Maria Martins?
A escrevivência trabalha com a memória, relembrança da própria ancestralidade, mas preenchendo um vazio que a gente desconhece ou esqueceu, como faz Ana Maria Gonçalves em Um defeito de cor. Já o tempo espiralar é um tempo contínuo. Uma dinâmica que não se fecha e está sempre se renovando. Nossos ancestrais sonharam com nosso porvir e, ao chegarmos ao futuro, seremos ancestrais e sonharemos com o amanhã de outros. Ambos são movimentos independentes da medição cronológica europeia, que segue uma reta. O tempo espiralar, como a memória, não tem um fim, está numa constante dinâmica para fazer do esquecimento lembrança.
A senhora já se referiu à literatura como vingança. Em que sentido?
É mais de um. Ano passado estive na Nigéria para gravar o documentário Mulheres negras em rotas de liberdade, que passa em portos de onde saíram africanos para serem escravizados. Próximo a eles, existe a “árvore do esquecimento”, em torno da qual as pessoas eram obrigadas a rodar, numa espécie de cerimonial que consagrava o esquecimento [do que viveram no passado]. Nós rodamos em torno da árvore ao contrário.
‘Minha mãe só fez a passagem quando perdeu o tesão pela vida. Quero seguir o exemplo dela’
Já em Minas, quando uma criança nasce fraca e tudo indica que ela vai morrer, mas começa a melhorar, a gente diz que ela está vingando. Então, vingar tem o sentido de explodir para a vida e de ter explodido com o silêncio. É uma imagem que semantiza o conceito de escrevivência. Se a literatura brasileira está contaminada por nossas vozes, é porque o nosso verbo floresce. E ele vinga também no sentido de romper com o silêncio imposto.
Mas a vingança também se dá no plano social. Minha mãe trabalhou para as irmãs Alaíde e Henriqueta Lisboa de Oliveira, integrantes da Academia Mineira de Letras. Quando me tornei uma acadêmica, aprendi que, se uma pessoa se distingue, você pode se referir à academia como “estou indo à casa da fulana”. Quando minha mãe dizia “vou para a casa da Alaíde”, aludia à patroa. Hoje, quando digo “vou para a casa da Alaíde”, estou indo à Academia Mineira de Letras, da qual também faço parte.
Como a senhora descreveria a chegada aos oitenta anos?
Mais uma vez, volto à minha mãe. Em Minas, a gente usa a expressão “fulana gosta de inventar moda”. Minha mãe vivia inventando moda. Até mais de sessenta anos, ela trabalhou. Num determinado momento, caiu e quebrou o fêmur. Ficou engessada seis meses — primeiro, porque o médico saiu de férias; depois, porque teve uma greve —, então a perna dela atrofiou. Enquanto estava na cadeira de rodas, ela inventou que ia vender picolé. Assim que conseguiu se levantar, usando muletas, pediu ao meu irmão para amarrar uma pá num cabo de vassoura e começou a cavoucar a terra e jogar sementes. Quando a gente se deu conta, minha mãe estava vendendo verduras. Outra hora, ela olhava para o presépio e dizia: “A gente bem podia pôr mais um carneirinho ali. Ano que vem vou renovar esse presépio”. Minha mãe só deixou de inventar moda na pandemia, quando a casa ficou vazia — ela entristeceu. Em 2021, faltando três dias para completar 99 anos, ela morreu de velhinha. Minha mãe só fez a passagem quando perdeu o tesão pela vida. Como eu gosto de viver, quero seguir o exemplo da minha mãe. A outra coisa que me move é que as pessoas não me abandonam. Já nem sei contar quantos filhos, netos, bisnetos tenho. As pessoas têm um sentimento de respeitabilidade muito grande comigo.
Falando em inventar moda: o que mais vem por aí?
Quero finalizar Flores de mulungu. Tem ainda O silencioso pranto dos homens — parte de uma trilogia que começa com Insubmissas lágrimas de mulheres e segue com uma narrativa em torno de jovens; um livro de crítica literária sobre novas autoras; uma antologia de poemas; um que se chama Em nome di mãe, com as memórias escritas por minha mãe em cartas e diários; e O segredo da velha, em que ficcionalizo tudo o que minha mãe não nos contou, inclusive a história dos homens que passaram por sua vida e deixaram filhos.
É bastante coisa…
Ah, e tem um rap! Ano que vem, pretendo escrever desde o primeiro semestre.
Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026. Com o título “Gramática do cotidiano”
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