Deslembramentos,
um certo gozo em ver-te contente
vi muitos concertos de Jorge Palma; em todos esteve presente a sua poesia, a sua voz atravessada por alguma tristeza
13out2026sempre foi difícil apresentar, ou até mesmo aproximar, gentes de angola ou do brasil à música de Jorge Palma (cantor português). não é apenas uma deslocação geográfica, digamos. é também um longo passo em termos fonéticos. para quem não morou em lisboa (ou portugal), alguns sotaques são difíceis de frequentar.
conheço relativamente bem os universos fonéticos e afectivos desses três territórios. e muitas vezes me sinto em dificuldade para traduzir certos aspectos (nessa triangulação) que compõem uma singularidade cultural que não cede às exigências de cada um desses três territórios.
a música de Jorge Palma repousa num vértice difícil para os ouvintes não portugueses. e nunca foi pela fonética que eu tentei apresentá-lo. tento sempre a via da poesia, as letras melancólicas, as imagens simples e sinuosas, tentando fazer chegar a outros os relentos que desde o início senti nas músicas e nas musicalidades de palma. grandes filmes, para não dizer grandes teatralidades, se escondem e se revelam quando lemos ou escutamos palma. noves fora as estórias que quase toda a gente viveu ou ouviu contar deste cantautor português.
eu próprio posso contar duas. uma na noite em que, pela primeira vez, o vi ao vivo. e, nesse tempo, era habitual que ele se atrasasse. e assim foi. a sala, ali pros lados da praça da alegria, não era grande e nem estava abarrotada. bebíamos ao balcão enquanto esperávamos pelo sr. palma, que depois entrou calmamente e fragilizado. tocou a primeira música ao piano e interrompeu-a antes de chegar ao fim. e todo o mundo aplaudiu. “esta vocês conhecem de certeza…, passa numa telenovela”, tentou. beliscou o piano com os dedos e, quando já estávamos bem embalados, disse abruptamente: “epá, pessoal, desculpem lá, mas isto não vai dar…”. não posso garantir que tenham sido duas, mas não foram mais de quatro canções. e decidiu retirar-se do palco. eu fiquei atónito, pensando na coragem daquele homem e em qual seria a reacção do público. quase todos se riram. e batemos palmas. lá se foi o palma embora.
a vida é feita de pequenos nadas, diria o Sérgio Godinho, mas Palma foi feito de delicados versos
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noutro momento, na “aula magna” (lisboa), demorou muito, mas muito para entrar. depois entrou e foi se convencendo a ficar mais sóbrio. tocava com o filho, muito novo. foi um concerto lindo, lindo.
vi muitos concertos de Jorge Palma. o último foi na ilha da madeira. em todos esteve presente a sua poesia, a sua voz atravessada por certa tristeza, certo peso. a vida é feita de pequenos nadas, diria o sérgio godinho, mas palma foi feito de delicados versos.
“os sinais habituais” ficavam evidentes quando ele cantava ou (nos) tocava. mais ou menos sóbrio, é uma questão de “opiniães”. nenhum marasmo era capaz de nos atordoar ao frequentar “a canção de lisboa”. nunca pude ficar indiferente aos versos “inscrevemos no espaço/ um novo alfabeto. já passaram mil anos/ sobre o nosso encontro./ mas mil anos são poucos ou nada/ para a estrela do mar”. (que bela) a surpresa na arritmia com que por vezes ele (a)traía a própria música, apenas para surpreender os que pensavam que ele seria igual a si próprio. como os grandes, sem medo de se reinventar e com a coragem de dizer o que disse sobre o país português em “nossa senhora da solidão”, “portugal, portugal” ou “o lado errado da noite”.
a 2 de outubro de 2002, num poema em prosa, aconteceu-me dizer: “Jorge Palma tirou a mão do queixo, olhou para a multidão confessando uma bebedeira à moda antiga. o piano que lhe desculpasse os dedos. foi um momento ardente, propício à poesia. à música. ele inventava passos novos, suava os dedos, golpeava a lógica. ele regressava — sem nunca ter saído da terra dos sonhos”. desculpem a autocitação; a tristeza não me permite dizer melhor do que já havia dito. o que mais não sei dizer é da saudade, esse território súbito que nos invade, ácido, quando alguém parte. a incerteza desses passos que já não voltam. quando o ouvirmos, saberemos: Jorge Palma, o que disse “não” à engrenagem, o amigo do zé-da-guiné, “abriu a janela e voou”. os dois na mesma linda peça. espero que contentes.
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