Crítica Cultural,
Diante do fascismo, de novo
No plebiscito de domingo, escolheremos não um candidato, mas a continuidade ou a extinção da democracia
30set2026O Brasil de 2026 ameaça reconduzir ao poder a família de fascistas que elegeu em 2018. Naquele momento, o voto contra a democracia até poderia se explicar, no limite, pelo benefício da dúvida. Hoje é inaceitável.
O país que volta a flertar com o precipício, despolitizado, é uma criação coletiva. Na dramaturgia do atraso, produzida numa sala de roteiro lotada, se destacam comentaristas, jornalistas e intelectuais que, batendo na tecla da polarização, passaram os últimos quatro anos igualando esquerda democrática e extrema direita para se proclamar como fiel da balança.
A pretexto de autonomia crítica, funcionários de empresas de comunicação e donos de canais “independentes” (aspas necessárias) seguem um roteiro simples e eficaz: magnificam as falhas do governo democrático e minimizam o avanço autoritário. Os fins justificam o meio.
Os mesmos que há oito anos rechaçavam como exagero ou impropriedade chamar o fascismo de fascismo, hoje nem sequer levantam a voz ao comentar as promessas de anistiar golpistas. À ameaça de construir megaprisões inspiradas no fascista salvadorenho, reagem com urbanidade, como se ditadura fosse um entre tantos temas controversos, passíveis de debate.
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Às vésperas das eleições, a prioridade é imprimir indignação de taxista à cobertura das gravíssimas denúncias contra juízes do Supremo Tribunal Federal. Ao preferir a pieguice à política, o falatório à análise, essa cobertura é instrumental numa campanha contra a corte. Uma campanha que interessa menos à moralidade pública, matéria em que a extrema direita não é exatamente versada, do que a um projeto totalitário de poder.
Enquanto alimentam o niilismo de classe média que demoniza os políticos e dá a política como inútil, parte expressiva desses comentaristas abre uma avenida para o mais tosco salvacionismo, que não exclui a violência de Estado. Ao agir assim, ajudam a urdir a corda que terminará por enforcá-los no caso de os milicianos entreguistas chegarem ao poder.
Em 2018, dois dias antes da votação do segundo turno, publiquei aquela que seria minha última coluna numa revista que já não está mais entre nós. Menos de 24 horas depois da vitória do Führer de Chanchada, fui sumariamente demitido. O título era esse aí de cima: “Diante do fascismo”.
Em 2018 o voto contra a democracia poderia se explicar pelo benefício da dúvida; hoje é inaceitável
Naquela época de trevas, Jason Stanley havia publicado nos EUA Como funciona o fascismo e, num vídeo para The New York Times, apontava o Brasil como uma frente da ofensiva autoritária. O livro me pareceu então um espelho do programa do candidato prestes a vencer. Frente à docilidade reinante, à escolha difícil, decidi levar aos leitores a comparação. O desfecho foi um sinal inequívoco de que Stanley estava certo.
No dia 15 de setembro passado, Naomi Klein e Astra Taylor lançaram End Times Fascism: And the Fight for the Living World. À leitura de um terço do livro, a sensação de déja vu é acachapante. Mais uma vez, intelectuais norte-americanos progressistas, escaldados pelo trumpismo, advertem que o perverso que os governa é apenas a face mais visível de uma ofensiva fascista global.
Fascismo do fim dos tempos e a luta pela vida no mundo, que a Carambaia publicará aqui em abril, mostra como big techs e lideranças políticas e religiosas jogam com ideias apocalípticas: o fim da racionalidade humana tal como a conhecemos depois da ia, a falência da democracia pela deficiência de representatividade, a derrocada de um mundo de privilégios pela revolta de “infiéis” de diversos matizes.
O apocalipse com fins lucrativos é uma profecia que se autorrealiza. “A classe oligárquica, tendo arrogado para si poderes divinos”, escrevem as autoras, “não se contenta em simplesmente construir as arcas. Parece estar fazendo o possível para provocar o dilúvio”.
Cavalão
Em 2018 o Brasil era terreno fértil para a volta do fascismo. Em 2026 é a realização plena dessa possibilidade. Em Fascismo do fim dos tempos, o Cavalão tem momentos de glória. É o político responsável por uma “instrumentalização da identidade trans como estratégia eleitoral”. É o demagogo batizado nas águas do rio Jordão que, tendo sobrevivido a um atentado, é proclamado, pelo “televangelista conhecido como Malafaia”, como um predestinado divino a ocupar a presidência. E, finalmente, mas não por último, o golpista condenado a 27 anos de prisão.
Klein e Taylor sabem que não há tempo para ser pessimista. E lembram que, nos EUA, já vimos a prisão de um gângster pedófilo como Jeffrey Epstein, a eleição de Zohran Mamdani em Nova York, os movimentos populares de resistência às blitze para expulsar estrangeiros. “Uma coisa que esses precedentes nos ensinam é que, para combater o fascismo, temos que saber de onde ele vem”, defendem.
Em Tempo ao Tempo, extraordinário podcast sobre história, Rui Tavares lembrou uma preciosa ideia de Renan, um Renan que presta, o Ernest, historiador francês que viveu no século 19. Numa conferência de 1882, ele alertava: “a existência de uma nação é um plebiscito de todos os dias”.
No plebiscito do próximo domingo, escolheremos não um candidato, mas a continuidade ou a extinção da democracia. E, tendo um mínimo de vergonha na cara, sabemos exatamente de onde vem o que pode destruí-la.
Às urnas, cidadãos.
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