Política,
Alucinação conservadora
Fascinação nostálgica por gerações anteriores remete a um passado em que escravidão e direitos das mulheres não eram sequer discutidos
30set2026Ano eleitoral: algum candidato dirá que vai se empenhar em preservar ou, se possível, ampliar as desigualdades econômicas e sociais. Ele dirá também que vai se dedicar à anulação das conquistas das mulheres nas últimas décadas. Como parte do plano de governo, ele vai prometer trabalhar contra a boa qualidade da educação e dos serviços de saúde. Deverá combater os incômodos e os limites impostos pela imprensa e por um Judiciário independente. É claro que nada disso será enunciado. O discurso virá encoberto e deformado pela promessa de combate à corrupção, aos comunistas e aos que pretendem subverter os bons costumes das pessoas de bem. Além disso, o plano vai destacar o uso da violência para enfrentar a criminalidade e reduzir a sensação de insegurança que permeia o ambiente.
Nosso candidato vai se associar a denominações religiosas tradicionalistas, análogas às que fundamentam diferentes teocracias. Kim Ghattas, jornalista libanesa, autora de Black Wave (sem tradução no Brasil), afirma que o controle das mulheres é um pilar central dos regimes fundamentalistas do Oriente Médio. A subjugação das mulheres é indispensável para a preservação, segundo esses governos, da ordem e da moral. Ecos desse pensamento alimentam os conservadores ao nosso redor.
A ampliação das diferenças remete a períodos em que o privilégio da classe dominante era direito natural e a legitimidade de práticas como a escravidão ou a asfixia da atuação das mulheres não era sequer objeto de conflitos. A drapetomania, um diagnóstico psiquiátrico, designava a estranha tentação que levava escravos a fugir da tirania dos patrões.
Um dia, na clínica, um homem com cerca de sessenta anos me disse que bons eram os tempos em que a instituição familiar era mais digna, mais imaculada — havia uma hierarquia que impunha limites às “imoralidades” dos nossos tempos. Ele se referia não apenas a uma delirante integridade ética familiar, mas também à existência de somente dois sexos biológicos e nada mais, como me disse também um adolescente que regurgitava o discurso de pais conservadores. Essa espécie de fala se alimenta de uma fascinação nostálgica, comum, por um passado — falso, inexistente — em que se vivia melhor. A maioria das histórias de gerações anteriores que nos chegam nos atendimentos em psicanálise remontam à primeira metade do século 20 e se prolongam pelas décadas que se seguem à Segunda Guerra.
No tempo em que as famílias eram paradigma de honradez, a sociedade censurava as transgressões
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Esses romances familiares comportam um número expressivo de abusadores, alcoólatras, viciados em drogas e jogos, pedófilos, torturadores, casais infelizes atormentados por traições, filhos ilegítimos, incestos e crimes que se estendiam desde o que, segundo a lei, seriam simples contravenções até estelionatos e homicídios. Não faltam, em todas as classes sociais, filhos e filhas que vivem os efeitos de abandono, negligência ou maus-tratos. O domínio sobre o corpo das mulheres, sua objetificação e uso impregnavam a sociedade patriarcal como água em um pântano.
A hipótese de um passado em que conservadores alucinam o respeito a princípios éticos e morais, portanto, é como o anseio pelo período do regime militar, em que, eles também asseguram, não havia corrupção. Nas ditaduras, não há corrupção porque não há imprensa. No tempo em que as famílias eram paradigma de honradez, a sociedade exercia controle e censura sobre a divulgação e a tematização das transgressões que atravessavam as gerações. Com exceção de alguns escritores e artistas, ninguém falava disso.
Em uma parcela relevante dos mais ricos, o acordo político pela preservação das desigualdades costuma ser tácito. Não precisa ser enunciado. Por outro lado, não é fácil conseguir os votos justamente da camada da população que será a mais oprimida pelos governantes que prometem beneficiá-la. Isso demanda a preservação da ignorância e da carência cultural de um número expressivo de eleitores. O principal objetivo de um ensino precário é a ausência de espírito crítico e a sujeição alienada à propagação de mentiras.
Assim, uma vez no poder, esses governos, que representam o entrelaçamento de fascistas com o populismo, trabalham ativamente pela desmontagem da educação e da assistência à saúde dos mais pobres. Condenam-se todas as atividades culturais que não sejam simpáticas ao governante de plantão. Como disse Freud ao saber dos livros queimados pelo regime nazista: se fosse na Idade Média, o queimado seria ele. A imigração e a acolhida de refugiados são demonizadas, pois, ante a criminalização do racismo, seriam eles o corpo estranho que chega para manchar a nossa história.
Esses regimes se associam às religiões no que elas podem contribuir para a sedação das massas e para a repressão às mulheres.
Sintomas
Posições políticas ou crenças religiosas são, como as escolhas profissionais, sintomas: na maioria das vezes elas representam a preservação de um elo com um pai ou uma mãe que, em outros aspectos, foi descuidado(a) ou até mesmo cruel.
Júlio (nome fictício), dedicado ao agronegócio, tinha um pai violento, sem escrúpulos, incansável em ver no filho um incapaz e em repetir que ele seria um fracassado. Com amigos e no ambiente familiar, Júlio defendia, como o velho tirano, convicções políticas reacionárias, extremadas, acrescidas de um machismo truculento e uma visão radicalmente restritiva dos costumes. O caminho da análise levou a um arrastado e doloroso distanciamento do pai, resultando, por fim, não apenas em uma convivência muito reduzida, mas numa separação subjetiva, representada pela (auto)autorização ao sucesso profissional, que se deu pela resposta a um anseio da infância.
Como dizia Freud, felicidade é a realização de um desejo da (nossa) pré-história. O efeito colateral da ruptura com o pai, do reconhecimento de que a esperança de um dia ser amado por ele era ilusória, foi a mudança progressiva da posição política, que nunca havia sido tema relevante na análise, mas aparecia de maneira fragmentada na narrativa de acontecimentos em que as questões discutidas eram outras.
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