Literatura, Memória,
A reinvenção da solidão
A escritora Siri Hustvedt, viúva de Paul Auster, fala sobre seu Histórias de fantasma, uma dissecação da intimidade e do luto
24set2026Além de vinte romances e de mais de uma dezena de títulos entre poesia, ensaio e uma biografia, o estadunidense Paul Auster (1947–2024) publicou cinco livros de memórias a partir de A invenção da solidão, sua estreia oficial em prosa, em 1982, mesmo ano em que se casou com a também escritora Siri Hustvedt.
Afora o relacionamento com o pai e as dificuldades no início da carreira literária, duas temáticas recorrentes em seus textos autobiográficos, o escritor também deixou registrados os critérios de escolha e as condições de pagamento com que, no começo dos anos 90, o casal comprou uma casa construída em 1901, com tijolos brownstone, no bairro Park Slope (Brooklyn, NY), para onde se mudou com a filha pequena, a hoje cantora pop Sophie Auster, de 39 anos.
Foi de seu escritório no quarto andar do imóvel, de estilo derivado do vitoriano, que, via Zoom, Siri Hustvedt, de 71 anos, deu uma entrevista à Quatro Cinco Um para falar sobre o comovente Histórias de fantasma, seu segundo livro de memórias, dedicado às mais de quatro décadas de intimidade e cumplicidade com o autor de A trilogia de Nova York (1987), e também aos dois primeiros anos de luto após a morte do marido, decorrente de um tumor no pulmão.
Assim como em A mulher trêmula: ou uma história dos meus nervos (2010), Siri Hustvedt — doutora em língua inglesa pela Columbia e vencedora do prêmio Princesa das Astúrias 2019 pelo conjunto da obra, que hoje inclui uma seleta de poesia, sete romances e oito livros de não ficção — combina seu vasto repertório cultural e científico (da psicanálise à neurologia e, agora, à oncologia) com reflexões existencialistas e descrições sensoriais.
‘Eu queria Paul de volta. Esse foi meu impulso para o livro, mas não há como trazer os mortos de volta’
Ao vasculhar fundo as caixas da família, a romancista e ensaísta resgata fotos e bilhetes corriqueiros, transcreve cartas de amor (recebidas e entregues, respeitando eventuais erros de pontuação) e e-mails enviados a amigos diretamente da “Cancerlândia”, assim como as últimas palavras escritas pelo marido, dedicadas ao neto Miles, nascido no primeiro dia de 2024 — a tempo de conhecer o avô e conviver com ele por quatro meses quase completos.
Nos últimos dois anos e quatro dias de vida, Paul Auster enfrentou uma sucessão avassaladora de eventos. Recebeu a notícia da morte do seu primogênito (do casamento anterior, com a escritora Lydia Davis), Daniel Auster (1977-2022), por overdose, horas depois de ter sido liberado, sob fiança, da prisão onde respondia pela morte da filha, Ruby, em decorrência da ingestão acidental de heroína e fentanil, aos dez meses de vida. Enfrentou quinze meses de tratamento para o câncer, entre sessões de rádio, químio, coquetéis medicamentosos pesados e uma cirurgia cancelada em cima da hora — a doença pode ter contribuído para a fratura que sofreu na coluna. E deu boas-vindas ao segundo neto, sempre com a companheira ao seu lado.
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Além de recorrer aos princípios da biologia celular para examinar o amor (e o tumor), a viúva intercala passagens lúgubres com momentos de humor, que ela também demonstra na entrevista a seguir, na qual disseca a fenomenologia do luto, discute ciência, espiritualidade, a ascensão do fascismo e as fronteiras da ficção, e relembra a Flip 2004, quando o casal veio a Paraty.
No início da conversa, digo que já a havia entrevistado, por telefone, em 2011, e que estive em sua casa para entrevistar Auster em 2014, a propósito do lançamento no Brasil de Diário de inverno, na biblioteca do terceiro andar, minuciosamente descrita no livro sobre envelhecer — o mesmíssimo cômodo onde, exatos dez anos e dezenove dias depois, o autor daria seu último suspiro. Ao final da entrevista, levanto meu notebook de modo a mostrar a ela o pequeno altar em homenagem a Paul Auster na estante do meu escritório, com todos os seus livros empilhados, duas latinhas de cigarrilhas Schimmelpenninck e o porta-retrato com uma foto tirada em seu quintal em 2014. Siri suspira: “Aaahhh. Essas latinhas costumavam ficar espalhadas pela casa. Paul às vezes tirava o papel que embrulhava as cigarrilhas para fazer anotações. Essas Schimmelpennincks eram parte da decoração”.
*
Histórias de fantasma nasceu dos seus diários pessoais, o que dá ao leitor a impressão de estar acompanhando os eventos em tempo real. Quando você decidiu que transformaria os diários em livro?
Assim que Paul morreu, eu sabia que precisava escrever e que só poderia ser sobre ele, sobre mim e sobre o que havia acontecido. Logo no começo, decidi que queria utilizar documentos.
Por anos, Paul falava: “Você não quer ver aquelas cartas que escreveu para mim em 1981?”. Eu respondia que não, que me faziam pensar o que devia fazer com elas. E também havia, claro, as “Cartas para Miles”, que me faziam pensar “o que devo fazer com isso?”. São 35 páginas de um livro pensado para ter entre cem e duzentas. Ficou um livro pequeno, mas, ainda assim, um livro.
Eu sabia que seria um livro desde a primeira frase que escrevi. Não estava escrevendo para mim mesma. A estrutura foi definida basicamente a partir de um tipo de ritmo que eu queria estabelecer. Também queria que a problemática do tempo estivesse incorporada à forma do livro. E que ele se movesse entre os tempos; portanto, não segue uma cronologia. Quis ainda recuperar algo dessa pessoa que eu amava — eu o queria de volta. Esse foi meu grande impulso em direção ao livro, mas infelizmente não há como trazer os mortos de volta.
Mais tarde, me ocorreu que talvez tenha sido o mesmo impulso de quando ele me deixou durante aqueles dias de maio de 1981 [conforme relatado no livro, para reatar por dez dias com a mãe do seu então único filho]. Fiquei escrevendo para ele. É impossível, mas houve um ímpeto de ressurreição, que está impresso no livro.

Como Paul disse em algumas entrevistas, escrever se tornou questão de sobrevivência? O processo de escrita te ajudou a elaborar o luto?
Senti que, de alguma maneira, o livro tinha mais coerência do que a escritora [risos] e que estava me salvando de diferentes formas de desintegração — o que de fato não altera o luto. Escrevi um ensaio, “The Writing Self and the Psychiatric Patient” [O eu que escreve e o paciente psiquiátrico], que surgiu do meu trabalho voluntário como professora de pacientes da ala psiquiátrica de um hospital. Entendi que escrever tem valor terapêutico.
Eu chamava de “o eu” esse alienígena familiar, aquilo que surgia quando os pacientes escreviam na primeira pessoa sobre a própria vida. “O eu” na página não é de fato a pessoa incorporada, respirando. É a representação, um símbolo. Essa distância da página cria aquilo que eu considero um afastamento gradual. Isso pode ser muito útil. Você está escrevendo e todas as formas de representação são uma espécie de consciência de si, certo? Posso refletir a mim mesma enquanto um outro. Gosto disso. Um trabalho artístico, estruturado, eu acho, é algo bom que foi produzido a partir da dolorosa experiência de luto.
‘A concentração necessária para escrever me ajudou a dormir; me ajudou a seguir em frente’
Todo dia eu podia voltar ao livro. Estava com dificuldade para dormir, então eu deitava na cama e escrevia. A concentração necessária para escrever até me ajudou a dormir; me ajudou a seguir em frente.
No livro você revela que Iris Vegan, personagem do seu romance de estreia, The Blindfold (1992), tem o seu primeiro nome ao contrário e o sobrenome de solteira da sua mãe. Você também conta como a emprestou para Paul Auster usá-la como a esposa de Peter Aaron, narrador de Leviatã (1992). Embora nenhum dos seus romances seja considerado autoficção, uma tendência que surgiu bem depois, tanto você quanto seu marido se notabilizaram por confundir os limites entre realidade e ficção.
É verdade, mas isso se aplica a todos os escritores. Agora há pouco conversei com um jornalista que falou: “A gente sabe o quanto seu trabalho é autobiográfico”. E eu falei: “Na verdade não, muita coisa eu inventei”. Claro que, em certos momentos, recorri a aspectos da minha biografia, mas, essencialmente, é ficção.
E quanto ao Paul? Muitas características e histórias dos personagens ficcionais remetem à biografia dele: a cena em que aparecem você, seu enteado, Daniel, e o próprio Paul, em Cidade de vidro (1985), o avô Harry Auster, evocado em Baumgartner (2023)…
Algumas coisas acabam entrando. E são geralmente uma tradução de algo. São reimaginadas, reconfiguradas. É um pouco como sonhar acordado. No mesmo sentido que Freud falava sobre os sonhos, de como há neles deslocamento, condensação, todos esses termos para descrever o que acontece oniricamente quando, por exemplo, duas pessoas se transformam em uma. Algo fica deslocado, embora tenha sido extraído de uma memória ou uma experiência — é reconfigurado na ficção. Escrevendo memórias, porém, eu procuro ser o mais fiel possível à minha recordação dos fatos.
Em Histórias de fantasma, você resvala em outro elemento central na obra do Paul: a música do acaso, termo que ele usava para definir os mecanismos e sincronicidades que, na visão dele, operam a realidade.
Sim, também gosto da definição mecânica da realidade. Paul era uma pessoa que enxergava essas sobreposições. Para a maioria das pessoas, esse tipo de coisa passa completamente batido, mas ele estava sempre alerta para esses padrões e coincidências.
Lembro que, quando estive na sua casa, ele não se descrevia como uma pessoa espiritualizada…
Ele não acreditava que esses fenômenos tinham algum significado; não acreditava em destino nem era uma pessoa religiosa. Era apenas uma pessoa para a qual esses padrões apareceram ao longo da vida — ele sentia grande prazer em notá-los.
No livro há uma passagem em que você sente a presença de Paul no seu quarto após o funeral. Em certos momentos você sentiu o cheiro das cigarrilhas Schimmelpenninck [reincidentes na obra austeriana] por toda a casa — isso apesar de ele ter passado os últimos nove anos de vida fumando vape. Você ainda sente o cheiro de tabaco pela casa?
Sim, mas com menos frequência. E não é só em casa. Há pouco tempo eu estava na Itália e me peguei dando uma cafungada. Eu gosto disso, não vou mentir, me traz um conforto. Embora seja uma alucinação olfativa, é agradável.
Isso afetou a sua visão sobre espiritualidade?
Não. Como aparece no livro, eu construí uma hipótese a partir da neurobiologia e da fenomenologia. Vai saber, é uma hipótese, mas eu explico como uma perda de percepção, a perda do Paul e da minha realidade perceptiva. Todo dia ele estava aqui. Ele era parte da minha fenomenologia. A hipótese é que, quando o sistema nervoso fica privado dos seus estímulos habituais, ele passa a criá-los.
‘Quando o sistema nervoso fica privado de estímulos, ele os cria, nos fazendo sentir a pessoa ausente’
A sensação de presença no luto, que muita gente tem, é tão emocional quanto uma desregulação do sistema nervoso. É assim que a gente sonha. Quando sonhamos à noite, não há estímulo vindo do mundo externo. O cérebro está criando imagens, preenchendo lacunas.
Freud dizia que os sonhos protegem o sono. Somos criaturas que precisam fabricar imagens. É complicado. O que de fato estamos vendo quando acordados? Qualquer um que entra em um tanque de privação sensorial [usado em experimentos médicos e, inclusive, terapias de wellness] começa a alucinar espontaneamente. E não é gente louca ou anormal, é simplesmente qualquer um. A privação parece gerar algo; e durante o luto pode ser específico.
A literatura de neurologia que venho lendo há anos está repleta de alucinações pelo luto e do sentimento de presença. O fop [sentimento de presença, na sigla em inglês] é um termo clínico. Quando aconteceu comigo, tive certeza de que era o Paul, mas é parte da experiência.
Então não podemos dizer que Siri Hustvedt acredita em fantasmas?
A verdade é que a gente não sabe. Acho honesto me posicionar como intelectualmente humilde. Precisamos de humildade intelectual para conseguir mover nosso pensamento adiante. Resolver todos os problemas e possuir todas as respostas é o seu fim enquanto acadêmico. Pode muito bem se aposentar. Essa é uma postura terrível de se assumir.
No livro você comenta como o espiritualismo gozava de muito mais dignidade intelectual no início do século 20.
Com certeza. Havia sociedades, tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, dedicadas a fazer essas perguntas. O filósofo pampsiquista William James acreditava piamente na possibilidade de existir consciência depois da morte. Ele pediu que sua esposa tentasse contatá-lo. Eles buscaram auxílio de um médium logo que o filho deles morreu. Ele era muito inteligente, um sujeito brilhante, e não estava só: havia muitos pensadores que, durante esse período, se interessaram pelo espiritualismo. O que inclui gente como o dinamarquês Niels Bohr, entre muitos físicos que tinham esse interesse, ou a escritora russa Madame Blavatsky. Havia um mundo de curiosidade intelectual que em algum momento acabou. Mas acho que está renascendo. Não é a mente em desfavor da matéria — somos sujeitos incorporados; não há uma entidade separada de nós. Nossos pensamentos são incitados biologicamente dentro do nosso corpo.
Inclusive, você critica o cartesianismo da medicina moderna.
Não sou reducionista, deixo isso bem claro no livro. Mas tampouco sou religiosa, não me identifico com nenhuma fé.
Embora você descreva Paul como uma espécie de Bartleby, “que se recusa a ceder”, ele chegou perto dos oitenta anos mantendo uma mente aberta, se engajando nas pautas progressistas do nosso tempo, como desarmamento, feminismo, aborto etc.
Ele foi se tornando mais e mais feminista com o passar dos anos. Acho que morar comigo teve esse efeito [hesita]. Não, meu marido era um feminista de verdade, pelo que sou grata, pois acho que não teria conseguido ficar com ele se fosse diferente.
Ele era teimoso, mas, como eu aponto no livro, nunca esqueceu aquele momento em 1968 na Universidade Columbia [onde o autor cursou a graduação e o mestrado, em inglês e literatura comparada], quando uma jovem se levantou e começou a falar sobre os direitos das mulheres. Ele nunca tinha ouvido nenhum dos colegas se posicionar daquela maneira, o que lhe causou forte impacto. E tinha o quê, vinte, 21 anos? Ele não vaiou nem deu risada, então o feminista dentro dele já estava em formação. Ele falou muitas vezes sobre aquela jovem; realmente a admirava. Ela talvez tenha sido a semente do feminismo do Paul.
Que notícias você acha que fariam o Paul esbravejar à mesa do café da manhã hoje em dia?
Ele estaria horrorizado, mas não surpreso. Tanto ele quanto eu estávamos perfeitamente cientes de como o fascismo tem crescido nos Estados Unidos. E, claro, ele testemunhou o 6 de janeiro [de 2021, o Ataque ao Capitólio] comigo.
Acredito que, naquele momento, a violência transformou o populismo autoritário em um movimento fascista. E essa opinião não é só minha. Robert Paxton, um estudioso que eu admiro muito, passou a considerar o Make America Great Again [maga] um movimento fascista a partir do 6 de janeiro. O Paul não ficaria surpreso por quão terríveis as coisas estão. Mas que este país se tornaria fascista… Acho que ficaria chocado pela facilidade com que escritórios de advocacia, pessoas do tech que professavam posições liberais e as universidades simplesmente passaram para o lado de lá neste novo regime. Como meu pai costumava dizer, “quando o fascismo chegar à América, vão chamar de americanismo”.
E não chegou só aos Estados Unidos…
Está em todo lugar, é inacreditável! Temos visto a Saxônia [estado com forte presença da extrema direita] na Alemanha; na França há uma preocupação terrível com o que vai acontecer nas eleições de maio. E tem o [primeiro-ministro Narendra] Modi na Índia. O fascismo se move lentamente, porém com absoluta determinação. Na América Latina ele vai e volta, mas vocês pelo menos colocaram o Bolsonaro na cadeia.
‘Quando Paul estava morrendo, eu falei a mais pura verdade: Meu Deus, como a gente se divertiu’
Mas agora tem o filho dele.
Aqui também temos toda uma dinastia. Mesmo se o pai morrer, ainda ficam essas crianças-problema. Acredito que a pandemia teve muito a ver com isso. O fascismo na Europa — com seus tentáculos abertos para o mundo todo — surgiu depois da pandemia de 1918 [da gripe espanhola], que durou três anos, exatamente como a nossa. Ninguém queria pensar sobre isso, mas acho que criou muito medo. E Trump cresceu durante a pandemia. Gente com medo tende a gravitar para esses líderes fascistas, esses caras nefastos. Ou mesmo a [líder do Reagrupamento Nacional (rn), legenda francesa de extrema direita] Marine Le Pen, que é mulher.
Do que você mais se lembra de quando veio com o Paul ao Brasil para a segunda edição da Flip, em 2004, junto com Ian McEwan, Martin Amis, Colm Tóibín…?
Foi maravilhoso, Paraty é linda! Margaret Atwood estava lá e tínhamos todos esses autores ótimos com a gente, nos divertimos muito. Lembro que as ruas da cidade receberam o nome dos escritores que estavam lá, e a minha piada interna com o Paul era que a minha rua estava na periferia, enquanto ele e McEwan estavam no Centro [solta uma gargalhada].
Foi um festival incrível e tomamos muitas caipirinhas. E a brincadeira entre os escritores era: uma caipirinha é muito pouco, duas é demais e três é simplesmente perfeito [risos]. Lembro que estávamos tomando uma caipirinha no almoço e eu falei com o Paul: “Aqui é como se estivéssemos sempre um pouco bêbados”. Nunca vou esquecer aquela sensação de paz e felicidade.
Nosso voo de volta do Brasil foi cancelado e tiveram de nos levar a um hotel para passar a noite — foi um daqueles transtornos. Mas, na manhã seguinte, abri as cortinas — estávamos em um andar bem alto —, olhei para São Paulo e chamei o Paul para ver aquele lugar. Era uma vista estonteante de uma cidade que nós nunca teríamos conhecido se não fosse o cancelamento.
São coisas que você não esquece; elas se tornam parte de um passado romântico [suspira]. Guardo essas memórias com muito carinho. Quando ele estava morrendo, eu falei e era a mais pura verdade: “Meu Deus, como a gente se divertiu”. Para mim, foi muito importante dizer isso ao meu marido no leito de morte. Levarei sempre comigo a diversão, as piadas, as brincadeiras. Nunca ficamos entediados um com o outro.
Além das “Cartas para Miles”, Paul deixou outros manuscritos a serem publicados?
Por sorte, a cada cinco anos, Paul vendia lotes dos seus textos para a Biblioteca Pública de Nova York [os Paul Auster Papers, que integram a Berg Collection e somam 610 caixas de papel impresso e quase 2 mil arquivos digitais, entre outras mídias, datados entre 1963 e 2022]. Mas ainda ficou muita coisa em casa, que ele escreveu de 2020 até a sua morte, textos artísticos e outros mais pessoais, que ele queria que fossem para a biblioteca. Após sua morte, vasculhei grande parte desse material e há manuscritos abandonados que logo estarão disponíveis na biblioteca para consulta por pesquisadores.
Romances?
Sim, romances que ele escolheu abandonar, mas estão aí e uma parte desses trabalhos é muito interessante. Entre esses papéis também há várias anotações de projetos que ele tinha em mente.
E você, já está trabalhando no seu próximo livro?
Sim, é um romance político que já está pela metade. Paul leu o que eu tinha escrito e amou, o que não deixa de ser uma espécie de imprimátur. Mas agora eu não sou a mesma pessoa e acho que essas páginas serão editadas de maneira ligeiramente diferente. Gosto da história, que permanecerá a mesma, exceto o final. O que vem acontecendo nos Estados Unidos é tão dramático que a trajetória precisa mudar.
