O jornalista e escritor Zuenir Ventura (Divulgação)

Jornalismo, Memória,

Mineiramente, um grande escritor

Morto aos 95 anos, Zuenir Ventura, um ‘garimpeiro que transformava minério em joia’, deixa obra relevante para o jornalismo e a literatura

22set2026

Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, na vaga do poeta e dramaturgo Ariano Suassuna, em 6 de março de 2015, Zuenir Ventura, citando uma piada feita com ele pelo antecessor, disse que se sentia como um “aluno repetente” antes de “prestar seu exame oral”. 

A modéstia bem-humorada, tipicamente mineira, sempre foi da índole do jornalista e escritor, morto nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Zuenir tinha pneumonia e, de acordo com a família, morreu dormindo, sem sofrimento. 

Nascido em Além Paraíba, na Zona da Mata, divisa com o estado do Rio de Janeiro, manteve por toda a vida a simplicidade de sua origem. Na infância vivida em Ponte Nova (MG), estudou em um colégio religioso, de onde a família esperava que ele saísse padre. 

Aos onze anos, mudou-se para Nova Friburgo, cidade fluminense onde trabalhou com o pai como pintor de paredes e contínuo. Ao concluir os estudos com bolsa numa escola particular, descobriu a vocação de professor -— o que o levaria ao curso de letras neolatinas na hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

“Mais do que jornalista, escritor, professor e acadêmico, Mestre Zu foi um grande cidadão brasileiro na luta contra a ditadura e na defesa dos direitos humanos”, lembra o repórter Ricardo Kotscho, que em 2008 dividiu com ele, Caco Barcellos, Henfil e José Hamilton Ribeiro o Troféu Especial de Imprensa da ONU, dedicado aos profissionais da mídia que se destacaram na defesa dos direitos humanos. 

Romance de reconstrução

Zuenir começou no jornalismo em 1956, como arquivista. No início dos anos 60, ganhou uma bolsa do Centro de Formação dos Jornalistas em Paris. Na volta, exerceu cargos importantes no jornal Correio da Manhã, nas revistas Fatos & Fotos, O Cruzeiro e Visão-Rio, antes de se transferir para Veja,passar pela Isto É e participar da reformulação da revista Domingo, do Jornal do Brasil.

Em 1988, lançou seu livro mais famoso, 1968: o ano que não terminou, sobre a aventura da geração que quis mudar o mundo e se viu aprisionada na ditadura militar. A obra, que pode ser definida como um romance de reconstrução, recupera, a partir de entrevistas, documentos, obras de arte e registros audiovisuais, o espírito da época.

1968 teve impressionantes 48 edições e vendeu mais de 400 mil exemplares, além de servir de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo, exibida em 1992, e para o filme O homem que disse não, realizado por Olivier Horn para a televisão francesa.  

Em 1989, ganhou os prêmios Esso e Vladimir Herzog por uma série de reportagens intitulada “O Acre de Chico Mendes”, do Jornal do Brasil. Na ocasião, sua empatia e solidariedade fizeram com que trouxesse do Acre para morar com sua família um adolescente de treze anos que assistira à preparação do assassinato do líder seringueiro. 

Zuenir exercitou o que chamava de ‘alterbiografia’, contando causos de seus sessenta anos de carreira

Em 1995, foi laureado com o Jabuti de melhor reportagem pelo trabalho em que visitou a favela Vigário Geral — famosa pela chacina de 21 pessoas em agosto de 1993, no Rio de Janeiro — e que resultou no livro Cidade partida (1994), outro best-seller que ultrapassou os 100 mil exemplares vendidos. 

O mesmo ocorreria com Mal secreto: inveja (1998), primeiro volume da célebre coleção sobre os pecados capitais, que vendeu 150 mil cópias e ganhou edições em Portugal e na Itália. Em Minhas histórias dos outros (2005), Zuenir exercitou o que chamava de “alterbiografia”, contando causos e histórias de seus mais de sessenta anos de carreira. O autor também enveredaria pela ficção, no romance memorialístico Sagrada família (2012).

A jornalista Laura Greenhalgh lembra também de sua contribuição ao cinema. “Zuenir fez um belíssimo trabalho como roteirista no documentário Paulinho da Viola: meu tempo é hoje. Que incrível aquele encontro de homens tão ternos e sensíveis, Paulinho e Zuenir, resultando num dos retratos artísticos mais envolventes do cinema nacional.” 

A jornalista fala de como foi precioso conviver com ele. “Éramos amigos, sem nos vermos amiúde. Ele atuava no Rio, eu em São Paulo. Mas cada encontro era uma festa, compartilhada com sua mulher e companheira de vida, a Mary. Ambos habitam minhas melhores lembranças”, conta.

Mestre na vida

“Nos conhecíamos há 52 anos. Um mestre no jornalismo e na vida”, conta Ricardo Setti, que trabalhou com Zuenir nos cinco anos em que dirigiu a sucursal do JB em São Paulo. Para Setti, o jornalista era acima de tudo um contador de histórias: “Contava desde que foi aluno do poeta Manuel Bandeira até uma cena passada em Paris, em que viu a calcinha da Jacqueline Kennedy quando ela saía de uma limusine”.

Já o escritor Humberto Werneck lembra dele como um tipo diferente de jornalista. “Foi chefe a maior parte da vida, mas nunca perdeu o tesão pela reportagem. Seus principais livros têm como base a apuração no momento, mas resultam em obras sem prazo de validade.” 

Werneck exalta também a qualidade do texto de Zuenir — talento que o levaria à cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras: “Ele era um garimpeiro que sabia transformar o minério em joia. O texto dele não é enfeitado, mas sedutor, bom de ler, mesmo quando contava uma história terrível. E era uma pessoa que tinha tudo para se jactar, mas nunca vi fazer isso — ao contrário, sempre foi de uma extraordinária simpatia, um coração enorme”.

Ao final do discurso de homenagem a Ariano Suassuna na ABL, Zuenir Ventura registrou que, no Auto da Compadecida, seu antecessor escreveu: “quem gosta de tristeza é o diabo”. E reivindicou seu lugar “no lado risonho e solar, oposto ao do Diabo”.

Quem escreveu esse texto

Ivan Marsiglia

É jornalista, dramaturgo e roteirista.

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