Literatura,
A linguagem do deslocamento
Aglaja Veteranyi, que cresce em uma família de artistas de circo na ditadura de Ceaușescu, volta às livrarias em dois romances de formação
21set2026Aglaja Veteranyi é um nome que já circulou no Brasil. No começou dos anos 2000, a escritora romena de expressão alemã chegou às livrarias em uma seleção de poemas, na tradução de Fabiana Macchi, publicada na revista Inimigo Rumor, editada por Carlito Azevedo e Augusto Massi, em 2003. No ano seguinte, a dba lançou o seu título mais celebrado, Por que a criança cozinha na polenta, também traduzido por Macchi. Agora, em 2026, ela volta ao país em duas edições da Relicário, que republica o romance mais conhecido e traz a obra póstuma A estante dos últimos suspiros, ambos com tradução primorosa de Fernando Klabin.
Talvez um dos temas mais debatidos nos últimos tempos seja a autoficção: é ou não um gênero literário válido e quais seriam suas limitações? A obra de Veteranyi transcende tal discussão, pois, embora seja inegável a correlação dos fatos narrados e a vida da autora, é fundamental pensar em como a obra é influenciada pelo plano político: a ditadura de Nicolae Ceaușescu entre 1965 e 89, que forçou a família a deixar o país na condição de refugiados políticos e a sustentar sua arte circense de forma diaspórica mundo afora.
Nos romances de Veteranyi, elementos ficcionais são entrelaçados às representações realistas e subjetivas do eu autoral, distorcendo também a representação exata e imparcial dos fatos. Sua prosa, que segue quebras semelhantes às da poesia, entrega um texto de estilo seco, cruel e essencial, impregnado de beleza e conduzido por uma bússola em busca de um sentido de verdade.
O silêncio e a impossibilidade de dizer espelham a desintegração do sujeito em exílio
Na maioria das vezes, a conexão entre ficção e realidade provém do efeito libertador da transposição do eu para um universo ficcional. Os romances Por que a criança cozinha na polenta e A estante dos últimos suspiros são narrativas complementares que, juntas, constituem uma espécie de romance de formação. O âmago é uma busca por certo pertencimento linguístico e territorial, mas também existencial. A figura materna é central nos dois romances, deslocando-se entre a mãe no primeiro e a tia no segundo. O silêncio e a impossibilidade de dizer, assim como a estrutura da página e sua fragmentação, de certa forma espelham a desintegração do sujeito em exílio.
Peregrinos
Veteranyi nasceu em Bucareste, no seio de uma família de artistas circenses: o pai era um palhaço de origem romani, a mãe uma artista cujo número principal era a suspensão capilar. A família deixou a Romênia em 1967, peregrinando pela Europa, pela África e pela América Latina. Algum sentido de ancoragem chega tardiamente para Veteranyi, a partir da separação dos pais, em meados da década de 70, quando ela se estabelece com a mãe primeiramente na Espanha e depois na Suíça, onde reencontra a tia e a professora do internato onde já havia estado com a sua meia-irmã.
No recém lançado A língua materna: e sua relação com o inconsciente (Zahar), Nina Virgínia de Araújo Leite e Paulo Sérgio de Souza Jr. circunscrevem o conceito que dá título ao seu livro: “Quando falamos em língua materna, estamos falando de algo mais do que um idioma — do nosso senso de nós mesmos nas mais profundas camadas do nosso ser”. Essa é uma questão fundamental para a escritora romena, e nela reside o coração da sua indagação entre ficção e memória.

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Em Por que a criança cozinha na polenta, acompanhamos o deslocamento interno de Veteranyi. Analfabeta também em sua língua materna, o romeno, idioma que ela domina oralmente e cuja incapacidade de escrita é repreendida duramente pela mãe, que nunca lhe ensinara a escrever, mas que possuía uma ótima caligrafia — prova de que havia passado por alguma escolaridade. É só quando mãe e filha se fixam em Zurique que a jovem aprende a ler e escrever em alemão, já adolescente.
A esta altura, os pais estão separados e ela fica com a mãe. Raramente voltará a encontrar o pai até o fim dos seus dias, razão pela qual a narrativa centra-se sobretudo nas figuras maternas. O masculino funde-se às memórias do pai, lembranças opacas carregadas de ambivalência mas que, em alguns momentos, ressurgem com alguma lucidez. A língua do pai é outra, ele vem de um lugarejo periférico na Romênia. A língua paterna também é objeto de interdito da mãe, que não o deixa transmiti-la às filhas como língua de herança. Destas lacunas, contudo, emergem falas registradas como amuletos, que ajudam a descrever o perene estado de exílio e inadequação vivido pela família:
As pessoas buscam a felicidade assim como nosso
sangue busca o coração.Se não fluir mais sangue
para o coração, a pessoa resseca, diz meu pai.
O estrangeiro é o coração. E nós, o sangue.
Por que a criança cozinha na polenta é a história de uma menina que busca um lar e, com ele, um sentido de pertencimento em um mundo onde nenhum lugar oferece repouso. O romance articula-se através de fragmentos de lembranças narrados em uma voz que soa infantil, com cenas que também se oferecem como revelações proustianas, habitadas intensamente pela culinária romena, os cheiros e sabores inescapáveis que provocam uma sinestesia: o caos da vida familiar é também o sabor da casa perdida, a vida no internato, e a comida “tem o mesmo gosto de desmontar/ da lona do circo”.
A escritora herda uma tradição que não separa realidade de magia e vê o mundo através de símbolos
O título remete às histórias sombrias que a irmã conta à protagonista para acalmá-la, imagens que se repetem ao longo do texto como cifra do trauma. O medo é uma experiência afetiva fundamental, identifica ameaças físicas e existenciais: a criança constrói narrativas de estabilização para tentar domesticar este pavor sem nome que surge no círculo familiar, no entorno social e na impossibilidade existencial de pertencer.
A língua materna, o romeno, também se torna uma barreira impenetrável quando Veteranyi, ainda criança, começa a aprender o alemão no internato e não consegue se comunicar com a mãe por escrito, sendo sempre preciso contar com a tradução da meia-irmã. O alimento também serve como uma metáfora paralela, pois é a mãe quem domina a língua e o receituário do país deixado para trás (sopas, berinjelas assadas). Ela oferece nutrição, mas sufoca: “só conheço meu país pelo cheiro. Cheira como a comida de minha mãe.”
Mortos têm fome
A estante dos últimos suspiros aprofunda o retrato de uma jovem que recusa a mãe, que recusa deliberadamente o romeno e o seu passado. Esse segundo romance narra também a inversão das funções, a filha que deseja ser mãe da mãe, salvá-la ou destruí-la num gesto de ambivalência que nunca se resolve, assim como sua a dupla filiação: é filha também da tia que a criou na primeira infância enquanto a mãe viajava com o circo.
O livro é também uma meditação sobre a morte: é a morte da tia que faz com que sejam retomadas imagens presentes no primeiro romance: “Os mortos têm fome. A terra tem fome” está em relação com uma das narrativas da infância, a morte não como epílogo, mas como estrutura:
Quando a criança morreu, Deus a cozinhou na polenta.
Deus é cozinheiro, ele mora embaixo da terra e
come os mortos. Com seus grandes dentes ele consegue
triturar qualquer caixão.
Veteranyi trabalha com uma economia de linguagem extrema. Parágrafos curtos, frases únicas que com frequência ocupam sozinhas uma página. A brancura se inscreve como silêncio e impossibilidade de dizer e a força da narrativa vai surgindo em seu estilo paratático, desprovido de subordinações que criariam causalidade ou explicação. Não há porquês, há apenas o que acontece. A imaginação é obscura e onírica, enraizada em crenças populares e tradições: serpentes brotam das bocas, a mãe é um crocodilo que devora, a polenta ferve com carne de criança. Veteranyi herda uma tradição oral que não separa realidade de magia, que vê o mundo através de símbolos e presságios, é isso o que ela inscreve em sua obra. Cada palavra é sopesada e deliberada.
Na primeira década deste milênio, quando Veteranyi foi publicada no Brasil pela primeira vez, o diretor Nelson Baskerville e a companhia teatral Mungunzá adaptaram Por que a criança cozinha na polenta para os palcos. Será curioso ver os desdobramentos de agora, quase vinte anos depois, das novas traduções, em um mundo de onde novamente se multiplicam os migrantes e pessoas em situação de refúgio e no qual, mais uma vez, erguem-se fronteiras entre países onde há até pouco tempo o livre trânsito era um direito consagrado e corriqueiro. Inserida nessa mesma circularidade histórica, a obra de Veteranyi permanece mais atual do que nunca.
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