Onde Queremos Viver,
Nova Europa
Para onde iremos quando morrermos? Para um parque de casas de plástico ou outro continente?
22set2026 • Atualizado em: 21set2026 | Edição #110Quando regressei ao bairro, o papá tinha partido para a Nova Europa. Onde fica?, perguntei. A leste, disseram-me. Mas pelo jeito como ela me dizia que não queria que mais nenhum homem se juntasse a ele na aventura — exortação que o papá lançava em cada um dos seus frequentes telegramas chegados ao bairro, agora irreconhecível e tornado um parque de casas de plástico, contornadas por canteiros com flores de plástico —, pelo jeito como ela me falava e eu e tudo estávamos mudados, a nova Europa talvez fosse a morte. Fazia contas pelos dedos, somando anos, o papá teria mais de cem, para onde chamaria ele os homens da casa, diáspora opaca, senão para o lugar de onde não se regressa?
Mas que a morte fosse um continente ou um novo continente fazia-me pensar no lugar onde morrem e são enterrados aqueles que jazem longe do lugar onde nasceram. E a esperança de que, na morte, os sujeitos da diáspora se constituíssem em colonos, num território que replicasse o continente que os subjugara, de que seriam entretanto senhores-fantasma, tudo isso enchia aquele sonho de tremendo pavor e júbilo genuíno, porque ela apresentava a partida do papá menos como uma aventura e mais como recolhimento a uma última morada, que, vista dali, parecia feliz.
Para onde iremos quando morrermos? Para um parque de casas de plástico, ladeado de flores de plástico, circundadas por arruamentos cobertos de relva artificial, ou para outro continente? Nova Europa, mas o que seria, como seria, uma Europa à imagem do conhecido ou um lugar outro, regido por outras leis, inteiramente diferentes, habitado por quem?
Ela apresentava a partida do papá menos como uma aventura e mais como recolhimento a uma última morada
E então esse novo lugar não me chegava, talvez pelo jeito dela, e pelo seu tom de voz, como uma última morada, nem sequer como purgatório. Sentia-me chegada já a um estranho continente. A Nova Europa que o papá anunciava parecia ser o lugar onde desde logo me via, sentia-me chegada a uma casa final, a casa onde passara os verões da minha infância, espaço do qual os meus haviam sido subtraídos pela passagem do tempo (não me lembro da última vez que aqui estive), cemitério sinistro de jazigos familiares plastificados, cuja beleza havia sido toda substituída pela funcionalidade.
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Os meus homens, não. O meu genro não vai para a Nova Europa. E, à medida que ouvia essas palavras dela, parecia-me mais e mais que as ouvia a um fantasma, e que a minha mãe, que as dizia, estava prestes a morrer também, ou que já havia partido. Nem depois de mortos os justos encontram descanso. E a inexistência cabal de uma noite de sono para os justos dançava em mim ao mesmo tempo que atentava nesse continente novo para onde o papá havia partido. Estranhava que chegassem de lá telegramas. Mas que é o namoro da morte senão correspondência nervosa? Então, a custo, desci a escada íngreme e fui-me embora para longe a fugir aos vultos encasacados do caminho. E acordei da sesta.
Matéria publicada na edição impressa #110 em setembro de 2026. Com o título “Nova Europa”
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