Onde Queremos Viver,
Ser levado, deixar-se ir
Foi preciso estar alterado pela febre para notar a ironia: para escrever, devo perder as rédeas
08out2026Numa noite de febre em São Paulo dei-me conta de um conflito inerente na minha vida, ou uma ironia. Poderia ter sido deste lado do Atlântico? Não sei. Sei que era preciso atravessar aquela repentina febre, naquela circunstância onírica que é o Brasil visto da janela do autocarro para um português visual.
Sol inclemente — oito sinuosas horas desde a Mata Atlântica ao centro da metrópole — paisagem, paisagem, paisagem — paraíso na terra — igrejas e sucatas — nomes nativos — rimas lusitanas — estações de serviço — despedidas — ar condicionado — visões infernais. Fuselagem de janelas sujas reflectindo os vincos da história, o autocarro parecer-se-ia um pouco comigo, visto de fora. À chegada a Higienópolis, o eu já não era um precipitado de memórias e desejos, mas pura retina.
De dentro do autocarro eu via um Brasil não turístico, cinema não narrativo
Por dentro, o autocarro era uma placa de Petri forrada a estofos e cortinas, parque temático dos anos 1990 cheio de personagens literários e ruídos parasitas, do qual eu via um Brasil não turístico, cinema não narrativo. Os meus olhos agitavam-se como jovens morcegos em direcção a acidentes humanos ao longo da Costa Verde. Meus gestos diziam que sim com a câmara aos impulsos fotográficos de uma criança desenfreada. Oh, fotografar o que não pode ser fotograficamente habitado. Fotografar, não aquilo que vejo enquanto objecto (e que poderia fotografar se me apeasse), mas a forma enquanto feixe — ou peixe — da “modernidade”, reverberação e fantasma, não-sei-quê febril que se forma no instante em que desaparece… Levava a câmara à janela e quem me visse pensaria que sou louco: fotografia atrás de fotografia, aceitando o erro, o tremor, a velocidade, a contingência, a ingerência, a sujidade dos vidros, incómodos reflexos — a desnecessidade de todas aquelas imagens, que todavia me não nasciam do tédio, mas da avidez e do exterior estrangeiro e da câmara delirante e do ar condicionado…
À chegada, um denso abafado paulista: a avenida cheirava a flores. A longa viagem merecia um mergulho na piscina. Enquanto me trocava, senti um arrepio. “Será boa ideia?” Tínhamos uma hora livre: fui nadar. Flutuando de costas, de óculos postos e boca fechada, uma nesga de firmamento acobreava as altas empenas dos condomínios em redor. Minutos depois, um amigo veio buscar-nos para jantar em sua casa. Ainda antes de o jantar ser servido, eu tremia de frio. Ao regressar ao hotel, ardia de febre. Seguiram-se três dias e três noites sem sair do quarto: sonhos delirantes sobre ser levado e deixar-se ir.
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Acordava com ideias para romances e fotolivros, num pânico que a febre intensificou. O de a minha vida se tornar (se ter já tornado) uma deriva sem eu dar por isso — e apesar de mim. Às vezes, espero de escrever que isso seja, no arco geral da vida, um tomar as rédeas a si mesmo. Não conseguir fazê-lo como imaginávamos, um arrepio da deriva. Mas foi preciso estar longe de casa e alterado pela febre para notar a ironia: para escrever, para escrever como quero, devo perder as rédeas — permitir-me e namorar a deriva, sem que ela dê cabo de mim.
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