Paisagem (1919), de Arthur Timótheo da Costa (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Conhecer uma casa

Conhecer o lugar onde se vive é questão de escuta e rendição, de enamoramento e trégua

08out2026

Vou conhecendo as sombras, aprendendo os barulhos do prédio. Os passos a custo da cadela de vinte anos, o castelhano dos ocupantes do apartamento do fundo do corredor, a zanga do vizinho zangado, o olhar do velho senhor de pijama, que me observa à mesa da varanda, detrás do vidro, enquanto fumo. Somos nós que vamos conhecendo o nosso abrigo ou é ele que nos vai descobrindo? Já conhece o nosso corpo e a figuração das nossas alegria e tristeza, conhece as modulações da nossa voz. Mas o que terá aprendido sobre a nossa alma? Será que a nossa casa me ouve rezar? Será que te consegue escutar quando bichanas, enquanto escreves?

Casas onde cresci ou as das pessoas que me rodeiam, também elas conservadas no momento em que foram mobiliadas, com os móveis que se usavam à época, entretanto datados. As casas da classe média conservam a história do tempo em que foram ocupadas, forma que, como um palimpsesto criado por um amante de bricolage ensandecido, vai adquirindo a configuração de uma obra de arte feita num sonho, com justaposição de estilos imitados, desgaste e arranques de iniciativa, sinais de obras há muito aguardadas, entretanto fora de moda, a cor dos armários já não se usa, os tectos estão amarelados, as portas e os rodapés incharam, há rachas nas paredes, camisolas de lã e projectores antigos esquecidos no fundo dos guarda-fatos.

Uma vez, uma mulher disse-me que a sua casa era o único ser que nunca a tinha desiludido

Talvez uma casa leve tanto tempo a conhecer-nos quanto nós levamos a conhecer a casa onde vivemos. Não é necessariamente um namoro, por vezes é uma batalha entre contrários. Não é necessário nem que a casa vença sempre, nem que não a abandonemos se ela nos derrota. Mas também as casas conquistam as pessoas, também as casas têm querer, também elas nos pedem coisas em troca. Conhecer a casa onde se vive é questão de escuta e rendição, de enamoramento e trégua. As casas ensinam-nos quem somos.

Reconsidero o gesto habitual, menos comum à medida que a idade avança, de mudar a mobília de sítio, tentando mudar de sítio alguma coisa dentro de nós. Reconheci­-o em mulheres e homens depois de divórcios, crianças entediadas ao domingo, casais a braços com a rotina conjugal. E aí a casa funciona como prolongamento, esperança, a mobília adquire a função de um dispositivo espiritual que enceta, ou tentamos que encete, uma reconfiguração interior.

Todos precisamos de viver em algum lugar, mas somos uma minoria no mundo os que temos uma casa onde viver. Uma vez, uma mulher disse-me que a sua casa era o único ser que nunca a tinha desiludido. Depois de a recuperar, após tê-la perdido, deitou-se no chão frio, na casa vazia, como se dormisse ainda ao relento: “e a minha casa abraçou-me toda a noite, feliz de me rever”.

Quase todas as noites sonho com casas. A busca foi tamanha que talvez o meu interior não saiba que já sei onde quero viver. Esse destino não corresponde a nenhuma morada, mas ao acordo entre a mulher e o seu lugar. Passo em revista os anos sem-abrigo e concluo que, nunca tendo estado sozinha, foram anos resguardados. Que era então a vida sem casa senão uma fantasia? E entendo que uma casa é uma pessoa e que saber onde quero viver é estar ciente de quem quero ter por companhia.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

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