Onde Queremos Viver,
Animais domésticos
Aquele cenário fazia lembrar um filme gravado por cima do descrito na caixa, filmado de um Fiat
22set2026 | Edição #110Em pequeno, enjoava no banco de trás. Em parte, do andamento e do para-arranca; em parte, dos fumos, dos cheiros: limpa-vidros, pó de tapete, tabaco entranhado nos estofos, jornais a desbotar sobre o painel de instrumentos (tinta); borracha vulcanizada; arbre magique; chauffage — o saco da piscina cheirava a cloro e toalhas; fundo da mochila: grafite, lancheira, materiais escolares, banana esborrachada. No trânsito e na estrada, tudo isso me era excessivo e sedava numa dilatada náusea. Então, colava a cabeça à janela fria, dedava desenhitos no vidro embaciado pela respiração; ou, rodando a manete, descia-a até meio e sentia nas pálpebras o assobio da aragem fresca, que me salvava de golfar.
Numa dessas manhãs, o motor, de repente, miou.
A mãe encostou o carro. Foi ver. (De pescoço esticado na direcção do capô, a mana seguia todos os seus movimentos. Tinha um olho preguiçoso, mas nada lhe escapava.) “É boa!, um gato. E não se deixa apanhar.” Abrigara-se na barriga do Fiat. Apareceu ajuda. Podia ter morrido, etc. Seguiram-se descrições da tragédia evitada. Estropiado pela ventoinha, esguicharia sangue e vísceras, como a moderna ficção portuguesa. Juvenil, escanifrada, cheia de pulgas, metia dó. Lá a puxaram; lá a secaram com semanários. Era afinal uma gata. A um canto do Fiat, miava uns ralos gemidos. Dizíamos nomes amorosos em voz alta, a ver se respondia. “Tirem daí o cavalinho!”, atalhou a mãe. “Não quero cá animais em casa. Os animais querem-se à solta. Animais em casa é uma crueldade.”
De vez em quando, aparecia o pai.
Estropiado pela ventoinha, esguicharia sangue e vísceras, como a moderna ficção portuguesa
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Em 1986, apareceu numa Opel 1204, cobre, de 1976. “Caravan” — a que avariava (essa mesmo): quantas vezes a empurrámos diante da escola, cheios de vergonha. Apareceu uma tarde e no porta-bagagem havia um… alguidar? Nesse alguidar havia um… cágado? Um cágado. Não era um gato. Mas era um cágado. Queríamos amá-lo como se ama um gato, unidos numa compreensão que não saberíamos verbalizar.
Mais tarde, nesse dia, Opel e Fiat seguiram em direcções separadas. Este, em vez de um gato clandestino, transportava agora um cágado. Ora, o cágado não ladrava, o cágado não miava, o cágado não tossia, podia ficar em casa sem chatear — jamais um membro da sua espécie fora representado por duas crianças em tribunal de família —, basicamente, um cágado era só vantagens. Mas o cágado deitava cheiro, mas o cágado transtornava, mas o cágado era um recado, mas a mãe não gostou do recado, como tal, o cágado passou duas noites na banheira e foi ser feliz com outros cágados e uma turma de tartarugas num tanque-fontanário numa pastelaria-clube-de-vídeo, no bairro de São Nicolau. “Viremos visitá-lo ao fim de semana”, prometeu. Sábado seguinte, cumpriu. Só que, distinto embora das tartarugas — e por muito que eu farejasse respostas abrindo e tragando as caixas das vhs —, já ninguém saberia qual dos cágados no tanque correspondia ao símbolo; e todo aquele cenário (cheirando a bolos quentes e plantas mortas) fazia lembrar um filme gravado por cima do descrito na caixa, filmado de um Fiat, a caminho daqui.
Matéria publicada na edição impressa #110 em setembro de 2026. Com o título “Animais domésticos”
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SETEMBRO, 2026
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