Estado de Crônica,
Tom Zé e as maritacas
‘Desapareceram a farmácia, a rua, o bairro. Só havia o pós-neoultraconcretista de Irará e sua improvável viseira’
30set2026 • Atualizado em: 28set20261
Quando me mudei para a rua de Tom Zé, vivi na expectativa do avistamento. Numa bela manhã, eu o flagraria ao longe, seguindo caminho pela calçada oposta, talvez entrando na padaria. Habitei essa iminência, a manifestação anunciada de Tom Zé.
Passaram-se dois anos e nunca aconteceu. Tom Zé me escapava, Tom Zé me eludia. Para desabafar, escrevi uma crônica sobre o caso. Um leitor respondeu: “Você não merece ver Tom Zé”. Eu andava ouvindo “Correio da estação do Brás” e concordei. Ninguém merecia. Bastava uma vaga suspeita de seu rastro. Resolvi seguir a vida
banal de quem jamais tinha visto Tom Zé na rua, que era afinal a vida que eu tinha levado desde sempre até ali.
Essa decisão teve um efeito apaziguante. Não vendo Tom Zé, eu via mais o bairro, a espatódea da esquina, os sobrados remanescentes. Estava mais aberto à conversa alucinada das maritacas. Era o que havia de mais precioso: o pequeno cotidiano, sem avistamentos importantes, o mundo em estado de crônica. Não ver Tom Zé passou a ser meu misticismo.
2
Às vezes, um amigo comentava ter ouvido que Tom Zé morava na minha rua. Eu dava de ombros. “Não gosta de Tom Zé?” Eu dizia que sim, mas que pouco me importava onde ele morava ou deixava de morar. “O que me importa é a grande obra de Tom Zé, não seu paradeiro”, eu anunciava, solene. O amigo se retirava com o orgulho ferido, sentindo-se menor por ter se deixado emocionar pela presença do estudante do samba, do pagode e da bossa nas redondezas. De mim não recebia nenhuma palavra de consolo.
Mais Lidas
Um dia, uma bicicleta me atropelou na calçada do prédio. Não era um entregador buscando um atalho para a sobrevivência; era apenas um esportista. Não havia redenção moral para o meu atropelamento. O esportista repetia: “Eu errei, eu errei!”, como se o mais urgente ali fosse a atribuição da culpa, seguida da grandeza da admissão. Meu corpo estatelado representava apenas uma oportunidade para a evolução cívica do esportista.
Era o que havia de mais precioso: o pequeno cotidiano, o mundo em estado de crônica
Enquanto isso, eu me aculturava à calçada, começava a entender aquela existência horizontal. Há sempre a beleza da luz peneirada pela copa das árvores. Um cachorro ameaçou dar uma interpretação territorial à minha perna, mas foi puxado pela dona. O ciclista repetia: “A irresponsabilidade foi minha. Eu errei”. Dali a pouco, a dialética natural dos debates questionaria minha forma displicente de andar pelas calçadas.
Quando já estava quase plenamente convertido ao solo, ouvi alguém dizer, num tom entre o casual e o gozado: “Olha o Tom Zé”. Era ele mesmo que passava entre o aglomerado de curiosos. Uma dor cervical me impediu a angulação de pescoço que me mostraria Tom Zé. Tenho a impressão de que ele cantava um tema de 1998:
Meta sua grandeza
No Banco da esquina
Vá tomar no Verbo
Seu filho da letra
Meta sua usura
Na Multinacional
Vá tomar na virgem
Seu filho da cruz.
3
Como era inevitável, acabei vendo Tom Zé. Foi na farmácia. Podre de gripe, reuni as últimas forças, calcei um tênis e fui comprar analgésico. Passei pela esquina onde um dia fui condenado pelo meu próprio atropelamento. Na fila do balcão, depois de dois anos de ocultamentos, lá estava enfim Tom Zé, de casaco velho e viseira. Meu misticismo sentiu o golpe. Desapareceram a farmácia, a rua, o bairro. Só havia o pós-neoultraconcretista de Irará e sua improvável viseira. Na condição de vetor viral em que eu me encontrava, não ousei me aproximar. Saí da farmácia e acompanhei de longe seu trajeto pela rua.
Desde então, tudo mudou. Passei a vê-lo regularmente. Eu voltava do supermercado, topávamos. Na academia, eu arriscava o delicado repouso da minha lombar numa série de perigosas remadas curvadas, e lá vinha ele de novo, passando pela calçada em frente. Na minha vida, havia agora uma abundância de Tom Zé.
Aos poucos, o efeito epifânico foi se extinguindo. A presença farta de Tom Zé foi uma oportunidade para minha evolução cívica, que envolvia permitir que ele se tornasse apenas mais um dado da estranha realidade. Livre da usura do meu olhar, o Tom Zé que passa hoje é como a espatódea da esquina, os sobrados remanescentes. É a conversa alucinada das maritacas.
Ilha visitável
Carlos Drummond de Andrade entendia a crônica como uma “ilha visitável, sem acomodações de residência”, uma espécie de locus amoenus em meio às notícias tantas vezes terríveis que os jornais são obrigados a repercutir em nome do esclarecimento da sociedade. Não é possível morar nessa ilha: só aos verdadeiros náufragos cabe essa honra. (Às vezes gostamos de nos imaginar revestidos da nobreza dos náufragos, quando na verdade estamos com água apenas pelas canelas.)
Fora rápidas visitas, só vemos a ilha de longe, e essa miragem é cada vez mais arredia, pois a ilha visitável tem diminuído de tamanho: o volume dos mares aumenta, catástrofes se aproximam e nossa atenção se exaure. O locus amoenus se vê rodeado não por singelos tubarões, mas pelas mais monstruosas criaturas que o desvario humano foi capaz de conjurar. É preciso catalogá-las, estudá-las,
lutar contra elas.
A ilha visitável ficaria abandonada, caso essas visitas não fossem necessárias ao próprio ritmo da respiração humana. Vez por outra convém ir lá, ler as mensagens dentro das garrafas que encalharam na praia. Não sei bem como disporei deste espaço que a Quatro Cinco Um presentemente me oferece, mas, além de falar de livros, pretendo fazer visitas à ilha. Sou mau navegante, analfabeto em estrelas; felizmente, para chegar à ilha visitável, a forma mais segura é viajar à deriva.
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
