Estado de Crônica,
O leitor futuro
Naquela tarde, o antigo proprietário foi garantir, com 26 anos de antecedência, meu exemplar da Correspondência: Mário de Andrade & Manuel Bandeira
22out2026 • Atualizado em: 21out2026 | Edição #1111.
Ando com uma febre chamada Mário de Andrade. De tempos em tempos, ela me volta. É de natureza epistolar, pois tem a ver, acima de tudo, com a correspondência de Mário de Andrade.
Dois anos atrás pus as mãos numa primeira edição de Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas do poeta recifense. Encontrei o exemplar numa biblioteca amiga. Pedi emprestado para exame e nunca mais devolvi. A biblioteca amiga vez por outra protesta, mas digo que ando realizando uma pesquisa importante e que, infelizmente, a edição deve permanecer sob minha custódia.
A verdade é que não estou realizando pesquisa nenhuma. Ler comovidamente não configura pesquisa. Apenas me apetece ler as cartas de Mário de Andrade nesse livro “impresso nas oficinas da Revista dos Tribunais, à rua Conde de Sarzedas, 38, São Paulo”, no ano de 1958. Se me apetece, é talvez porque Manuel Bandeira, naquele ano de 1958, ainda estava no Rio de Janeiro — viveria mais dez anos —, e esse objeto é seu contemporâneo. É um livro que bem poderia ter sido manuseado pelo próprio Bandeira, que, ao folheá-lo, talvez pesasse se agiu corretamente em publicar aquelas cartas, enviadas ao longo de tantos anos pelo amigo Mário, morto em 1945.
A resposta é óbvia: fez bem.
2.
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Cartas a Manuel Bandeira tem, porém, um inconveniente: não constam na edição as cartas que Manuel Bandeira escreveu, apenas as de Mário. O título de fato não tenta nos enganar. São as cartas a Manuel Bandeira e só. Por um bom tempo li apenas as cartas de Mário e deduzia pelas entrelinhas os comentários e argumentos de Bandeira. Ou seja: eu lia como os leitores de 1958 leram essas cartas pela primeira vez.
Por um bom tempo li apenas as cartas de Mário e deduzia pelas entrelinhas os argumentos de Bandeira
A certa altura, esse procedimento conservador — ouvir fofoca pela metade — já não me bastou. Precisei escutar a voz de Bandeira nessas cartas, saber exatamente como o poeta, por exemplo, desancava nesse ou naquele debate o tom professoral, mas sempre delicioso, de Mário. Decidi comprar a Correspondência: Mário de Andrade & Manuel Bandeira, volume de copiosas notas organizado por Marcos Antonio de Moraes e editado pela Edusp em 2000.
Não foi tão simples: a edição está esgotada. Escrevendo para a editora, fui informado de que uma nova edição não estava nos planos: questões contratuais. Fui aos sebos. Hesitei durante meses, pois os preços não eram imediatamente acessíveis. Não eram aqueles preços que, nos sebos, nos dão a sensação do bom negócio, de que no fundo estamos fazendo o livreiro de trouxa. Nenhum livreiro estava disposto a ser feito de trouxa.
Mas não teve jeito: comprei.
Logo nas primeiras noites de abajur com minha Correspondência, compreendi algo que hoje me parece óbvio: a Correspondência é o grande monumento literário do modernismo brasileiro, junto com Macunaíma e “Na boca”.
Mas não é disso que quero falar. Quero falar do meu exemplar da Correspondência.

3.
Com os livros comprados nos sebos, há sempre a questão dos antigos proprietários. Em geral, prefiro que os antigos proprietários tenham sido pessoas tomadas de uma profunda reverência pelo livro, incapazes de rasurar suas páginas com trechos sublinhados ou marginália. Prefiro que tenham intuído a vinda desse leitor futuro, comportando-se apenas como guardiões do precioso objeto.
Não é assim que me comporto. Sublinho e marginalizo à larga, entro em conflito com o livro, questiono o estabelecimento final do texto. Nesse quesito, o antigo proprietário da minha Correspondência era um moderado. Mas era, sem dúvida, uma figura peculiar.
Tão logo tirei do plástico o livro e o abri, me deparei com uma reportagem da Folha de S.Paulo de 16 de junho de 2015. O título anunciava: “Carta de Mário de Andrade vetada por herdeiro tem acesso liberado”. O antigo proprietário tinha decidido complementar o livro, acrescentando a notícia sobre a carta secreta. Fez isso com todo o zelo, fixando o recorte entre a guarda e o falso frontispício. Só posso crer que, nesse gesto, preocupava-se com o esclarecimento total do leitor futuro a respeito da correspondência marioandradina. Não toleraria lacunas.
(Existe outro recorte de jornal, mais antigo, de 2011, guardado apenas como uma flor seca entre as folhas do livro. Diz respeito ao quadro Futebol, de André Lhote, que Mário comprou em 1923 e que à época iria a leilão. O antigo proprietário achou que também essa notícia seria do interesse do leitor futuro — e era.)
4.
Há outros detalhes da presença de seu antigo proprietário na minha Correspondência. Eu já estava com o volume havia um bom tempo quando, numa noite, caiu do livro um recibo. O papelzinho tinha me escapado até então. Nele constavam todas as informações da compra.
Minha Correspondência foi adquirida pelo antigo proprietário às 15h13 de 17 de maio de 2000, na Livraria Loyola, localizada à rua Quintino Bocaiúva, 234, não muito distante, aliás, da rua Conde de Sarzedas, 38. O antigo proprietário pagou a soma de 58 reais. Esse episódio aconteceu há 26 anos. Eu morava em Fortaleza, Ceará, cursava o terceiro ano do ensino médio e tinha recentemente me convertido à poesia de Manuel Bandeira (era indiferente a Mário).
Naquele outono de 2000, enquanto o antigo proprietário se dirigia à rua Quintino Bocaiúva, eu muito provavelmente me encontrava em casa, alheio tanto ao outono quanto a esse evento — um evento que, no entanto, dizia, sim, respeito à minha vida, por uma razão simples: do meu ponto de vista, o que o antigo proprietário foi fazer na Livraria Loyola naquela tarde foi garantir, com 26 anos de antecedência, meu exemplar da Correspondência, do qual foi seu guardião por anos a fio, tendo esperado pacientemente que os sucessivos episódios da minha biografia, em grande parte fora do meu controle, me levassem por fim a uma paixão insistente e lamentavelmente tardia pelas cartas de Mário de Andrade.
Pelo zelo com que desempenhou sua tarefa, eu devoto ao antigo proprietário toda a minha gratidão. E deste ponto na trajetória dessa cópia da Correspondência, aceno para o leitor futuro.
Matéria publicada na edição impressa #111 em outubro de 2026. Com o título “O leitor futuro”
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