(Ilustrações de Aleksandra Mizielińska e Daniel Mizieliński)

Literatura infantojuvenil, Meio ambiente,

A volta ao mundo em oito parques

Movidos pela amizade, esquilo-vermelho e bisão-europeu viajam entre continentes e descobrem a diversidade da natureza

01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110

Imagine abrir um livro grande, repleto de ilustrações lindas e divertidas, e começar uma viagem por parques nacionais de lugares tão diferentes quanto Polônia, Estados Unidos, Peru, China, Namíbia, Groenlândia, Indonésia e Nova Zelândia. Para crianças interessadas em natureza, é um sonho. E cheio de aprendizado sólido sobre ecologia, evolução, flora, fauna, geologia e outros aspectos da formação dos ambientes. Esse é Qual o caminho para Yellowstone?, dos poloneses Aleksandra Mizielińska e Daniel Mizieliński. Para a viagem, também estão convidados adultos que ainda pratiquem a curiosidade e o encantamento.

Se você conhece Mapas: uma viagem deslumbrante pelas terras, mares e culturas do mundo, dos mesmos autores e publicado em 2020, já começa a imaginar o que vem por aí — aqui em casa é um sucesso absoluto ao longo desses quase dez anos, saindo da pequena infância e entrando pela adolescência de um menino, sem falar nesta adulta. Mas Yellowstone é ainda mais informativo e com um enredo em quadrinhos.

Ula, uma esquilo-vermelho, e Kuba, um bisão-europeu, vivem no Parque Nacional de Białowieża (pronuncia-se bieloviêja), na Polônia. Ela, aventureira e ávida por conhecer o mundo, e ele, cauteloso mas parceiro, partem para encontrar a prima Dakota no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, onde vivem os bisões-americanos. Pegar avião, encontrar os caminhos… Tudo são aventuras e descobertas. Ainda bem que Ula não se intimida com nada.

Também estão convidados para a viagem adultos que pratiquem a curiosidade e o encantamento

O caminho não é direto. Eles vão fazendo paradas e trajetos em busca de Dakota. Saem de Białowieża, onde somos informados de que a floresta europeia abriga árvores enormes, com mais de quatrocentos anos e quarenta metros de altura, e tem sido manejada para uso humano por séculos (mal sabem eles que o mesmo vale para a Amazônia, mas isso é outra história que não aparece nesse livro).

Yellowstone é uma floresta com bichos e plantas diferentes, embora tenha algumas semelhanças, além de aspectos únicos, como gêiseres, que são esguichos de água quente que saem do chão. É a deixa para explicar a geologia por trás dessas particularidades: como a separação de continentes dá origem a novas espécies, como a história da ocupação humana na América do Norte dizimou os bisões e como os lobos são importantes para todos os componentes do ecossistema (inclusive as vítimas desses predadores de topo).

Espécies e habitats

O Parque Nacional de Manú, no Peru, é Amazônia. Por isso tem uma presença forte de rios, além de animais e plantas familiares por aqui também. Os quadrinhos apresentam a dificuldade que é definir o que é uma espécie e contam que existem integrantes de uma mesma espécie que são diferentes entre si, enquanto outros parecidos entre si são distintos na classificação.

Depois disso, Ula e Kuba atravessam o oceano Pacífico para o Parque Nacional Jiuzhaigou (algo como “diúzaigu”), na China, onde, na busca por uma panda-gigante, aprendem sobre bambus, a necessidade de comer o tempo todo quando seu cardápio se restringe a folhas, e os esforços de preservação desses animais por zoológicos mundo afora. Também são apresentados à história geológica que levou à formação de lagos, montanhas e vales nessa região asiática.

Mais um pulo entre continentes e os personagens chegam à Namíbia, no desértico Parque Nacional Namib-Naukluft. Lá, encontram besouros que colhem orvalho para beber, além de outras adaptações à vida no ambiente árido. Numa transição climática drástica, os amigos chegam em seguida à Groenlândia, onde acontece uma aula sobre como se dão as estações do ano na Terra e por que os habitantes polares só veem uma alvorada por ano. As adaptações para a vida na neve também são tema dos quadrinhos nesse trecho da viagem. Mas ali não há só gelo, e a coleção botânica de Ula, que se enriquece a cada parada, conta com folhas e flores da tundra, a vegetação que por ora surge nessas regiões geladas.

Na parada gelada os viajantes encontram Dakota, mas esse não é o fim da aventura. Depois de um longo voo até a Indonésia, chegam ao Parque Nacional de Komodo, onde vivem os enormes e perigosos lagartos conhecidos como dragões-de-komodo. Nessa região de ilhas, a evolução e o surgimento de novas espécies seguem regras distintas, ditadas pela ausência de conexão entre determinados territórios. A última parada, menos distante, é o Parque Nacional de Fiordland, na Nova Zelândia, onde aparece outra particularidade insular: a existência de aves incapazes de voar. Ali, a história fecha a aula com noções sobre como os papéis diferentes desempenhados por animais em um ecossistema permitem que coexistam e se mantenham em abundâncias viáveis.

Naturalistas, ecólogos, museus e estações de pesquisa estão discretamente presentes ao longo do livro. São essas conexões entre a natureza e as pessoas empenhadas em desvendá-la que tornam rica em descobertas essa viagem, cujo foco é a amizade e a curiosidade.  

Quem escreveu esse texto

Maria Guimarães

Bióloga, escreveu Guia dos jardins de Roberto Burle Marx no Instituto Moreira Salles (IMS).

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “A volta ao mundo em oito parques”