O escritor martinicano Malcom Ferdinand (Bénédicte Roscot/Divulgação)

Meio ambiente,

Amar a Terra, um ato decolonial

Malcom Ferdinand destrincha a prática colonial que transformou Martinica e Guadalupe em bananais contaminados por agrotóxicos

29set2026

No final de agosto, o auditório da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, ficou lotado com o público que queria ver o martinicano Malcom Ferdinand comentar seu mais recente livro, Terra-mundo. Falando em português, com mediação de Guilherme Moura Fagundes, ele explicou o que chama de “habitar colonial” da Terra, que naturaliza a contaminação por agrotóxicos e o sacrifício de populações vistas como descartáveis.

Ferdinand nasceu na Martinica em 1985, se formou em engenharia ambiental pela Universidade College London, no Reino Unido, e fez doutorado em filosofia política e ciência política na Universidade Paris Diderot, na França. Atualmente, é pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris — uma posição de batalha no ambiente acadêmico branco da metrópole, já que é negro e tem origem na colônia.

Ao denunciar os graves danos à saúde humana causados pela contaminação com o pesticida clordecona, destinado a controlar os besourinhos conhecidos como broca-da-bananeira, e explicar como isso afeta a estrutura social antilhana, Ferdinand chacoalha a lógica colonialista que perdura no mundo. Para o leitor brasileiro, é difícil não traçar conexões com as práticas de monocultura em boa parte do país.

Em entrevista à Quatro Cinco Um, Ferdinand, que tem amplo conhecimento sobre a situação nas Antilhas, fala sobre mecanismos de dominação, o cuidado com a terra, a banana e outras maneiras de fazer ciência.

A questão do clordecona nas Antilhas é incomum ou apenas faltam porta-vozes sobre os colonialismos extrativistas em outras regiões?
Por um lado é algo específico, por outro, não é. Ao mesmo tempo que esse livro fala de um caso de duas ilhas, tem uma ambição global. Há lugares, como a Costa do Marfim e o Congo, onde as condições sociais, políticas e econômicas não permitem que o problema se apareçaa. Há países onde o Estado de direito não é suficientemente sólido para que haja a possibilidade de falar ou de escrever o livro. E países onde, se somos muito críticos em relação ao Estado, vamos parar na prisão ou somos até mortos. Há uma situação particular na Martinica e em Guadalupe que me dá certa liberdade. Os tipos de poluição são muito diferentes, mas eu quis mostrar como é possível desdobrar e analisar, estrutura por estrutura, os mecanismos de dominação.

Claro que o caso das Antilhas diz respeito às antigas colônias da França, mas há outros países ocidentais que têm situações semelhantes, como os Estados Unidos com Porto Rico e Guam, e a Dinamarca com a Groenlândia. Esses territórios não são independentes, nem incluídos de fato no conjunto republicano nacional, e têm importância ecológica.

‘Há uma maneira de agir que pode ser transposta para os casos de Mariana e Brumadinho’

O objetivo do livro não é dizer “esta catástrofe é a pior do mundo”, porque não é o que penso. Mas ela revela o que chamo de habitar colonial, uma forma violenta, patriarcal, racista e misógina de habitar a Terra. O objetivo era dizer que temos duas escolhas. A primeira é uma abordagem técnica falando das propriedades dessa molécula organoclorada, centrando a análise na ferramenta técnica. Esse tipo de análise é despolitizante. A outra opção é a que adotei no livro: nos interrogar sobre as relações com Terra, justiça, ciência, língua, produção, indústria, com o consumo que permitiu esse tipo de contaminação.

A partir disso, podemos pensar que o problema é o clordecona, a molécula má, ou podemos pensar que é uma maneira de agir tão problemática que os problemas vão se repetir. Então esse caso pode ser transposto a vários outros lugares. Por exemplo, a ruptura das barragens de Brumadinho e Mariana, no Brasil. Podemos dizer que o problema foi uma falha técnica na construção, que os protocolos de segurança não foram respeitados ou que os responsáveis da empresa agiram conscientemente. Um modo de ler esses acontecimentos está ligado à forma extrativista de habitar a Terra, que faz com que, mesmo que tivéssemos barragens sólidas e pessoas virtuosas, esse tipo de catástrofe necessariamente se reproduziria.

No Brasil vivemos um colonialismo doméstico, das regiões ricas em relação àquelas nas quais praticamos o extrativismo que produz riqueza. É o caso das barragens e também dos canaviais no interior paulista, da soja no Cerrado e na Amazônia. Usamos aqui pesticidas que não são permitidos na Europa. Você vê similaridades com a Martinica?
Sim, completamente. Tínhamos a impressão de que a colonização é um agente externo que invade e faz a mineração, por exemplo. Mas, olhando o que chamo de habitar colonial, ele subordina as áreas que podemos chamar de zonas de sacrifício às zonas metropolitanas. Minas Gerais pode ser considerado um estado de zona de sacrifício que alimenta a indústria dirigida a São Paulo ou outros lugares.

No livro, tento mostrar que nascemos em paisagens que foram trabalhadas, exploradas e talvez contaminadas. As políticas para enfrentar essa contaminação não encontram um estado precedente sem nenhuma poluição e há coisas que não poderão ser retiradas — há poluentes eternos e também os microplásticos. O título em francês — Amar-se a Terra — é diferente do que foi adotado em português. A questão é como ter uma relação saudável, de amor, com uma Terra que não corresponde mais a um imaginário romântico de uma natureza bela e virgem. Essa é a questão que Martinica e Guadalupe confrontam, mas também o resto do mundo.

No começo de cada capítulo há um trecho em crioulo. Isso foi uma questão na edição brasileira?
Sim, são textos meus. Houve uma negociação: precisei ceder quanto ao título e ganhei nisso. Na edição francesa é assim também, sem tradução, e a edição brasileira manteve. Os saberes que têm autoridade sobre um desastre ecológico, uma contaminação, nunca são formulados na língua materna. Isso entra em uma leitura política e linguística da contaminação — as pessoas que falam crioulo no cotidiano são as mais contaminadas.

É como se aquilo que contamina o corpo também contaminasse a língua materna em si. Então, em um gesto de emancipação, de justiça, eu quis ser lido e compreendido nessa língua. Mas tinha outra questão. São catorze anos de pesquisa, e a versão brasileira foi reduzida em um terço em relação à francesa — é um livro grande. Eu quis propor uma leitura rápida nas Antilhas, a meus pais, meus irmãos: se a pessoa lê o poeminha, consegue ter uma ideia boa do argumento naquele capítulo. É um espaço que não pode ser traduzido, são trechos unicamente para eles, mesmo se o resto do livro estiver traduzido em português ou inglês.

Para chegar nessa posição, você precisou sair para estudar. Como foi essa decisão?
Isso tem a ver com a relação entre a França e suas antigas colônias. Estudei engenharia ambiental e depois filosofia, mas não tem departamento de filosofia na universidade da Martinica. É paradoxal, porque celebramos Aimé Césaire e Édouard Glissant como pensamento relevante. O exílio na formação acadêmica nem é tão problemático, porque é normal que existam centros de pesquisa no mundo todo e que possamos circular.

A minha dificuldade foi que há uma aliança desumanizante entre cientistas e políticos, em que a administração colonial desses territórios limita as liberdades acadêmicas. Na minha pesquisa, encontrei muitas pessoas que disseram ter vontade de trabalhar essas questões na Martinica, mas que foram desaconselhadas por ser um tema sensível.

O capítulo 12 do livro se chama “Ciências e branquitude”. Há um sistema colonial que aprisiona o pensamento, de forma que, para falar dessas contaminações, não se pode falar de colonialismo, de escravidão, de racismo. Para mim é isso que justifica, não minha partida, mas o fato de eu não retornar depois. Enquanto pesquisador martinicano nos espaços de produção de pesquisa, sofri discriminação, comentários racistas, formas de violência. Mas tive a coragem de compartilhar isso como um componente da minha pesquisa.

Claro que não fiz só amizades com esse capítulo. Seria de se esperar que Martinica e Guadalupe fossem, na França, polos de excelência do pensamento decolonial antirracista, mas é o contrário. Então foi preciso me deslocar: sou martinicano, tenho ligação com a ilha, minha família mora lá e vou todos os anos, mas não tem curso de filosofia autóctone. Existe uma relação vertical que é um obstáculo à produção de conhecimento, sobretudo conhecimento científico em diálogo com os principais interessados, os habitantes.

Uma coisa muito perigosa é que a ciência é usada para governar, para administrar. Isso catalisa a desconfiança, porque os cientistas que se entendem como neutros e objetivos são utilizados pelo governo colonial.

Aqui hoje se fala sobre a importância de ter uma diversidade de vozes e olhares na produção científica. Como é na França?
No Brasil, quando se fala de diversidade, trata-se de pardo, preto, negro, indígena, comunidades tradicionais. Na França, só se fala de homem e mulher. Ou seja, a cor da pele não existe; a religião, as origens geográficas não existem. Isso significa que os termos para propor o debate nem sequer são aceitos. Ao contrário, quando trago isso, sou o causador da fratura.

No capítulo “Ciências e branquitude”, conto minha experiência: como pesquisador negro, sou associado mais a um homem da segurança do que a alguém que produz conhecimento. O que se ensina aos estudantes é que as pessoas que abrem a sala, que limpam, que servem comida, que são bombeiros, enfermeiros, que imprimem as teses, que conduzem o metrô são as não brancas. As pessoas que têm conhecimento científico são brancas.

Como foi fazer as entrevistas? Foi bem recebido por ser martinicano?
Seria outro risco da fratura colonial eu dizer que, como sou martinicano, negro, enquanto pesquisador está tudo resolvido. Na verdade é um trabalho de consideração da fala da pessoa entrevistada, do encontro. Grande parte delas não são anônimas, pedi autorização para citar o nome e enviei o texto para que verificassem e aprovassem, o que já é um sinal de respeito. Também por meu trabalho ter ficado conhecido por meu primeiro livro, as pessoas têm confiança em falar comigo. Mas para mim é importante que a voz dos entrevistados apareça — são falas às vezes surpreendentes.

No capítulo 2, cito a entrevista com um jovem que tinha sido agricultor e estava doente, que diz que não vê ligação entre seu câncer e o clordecona. Eu poderia dizer que essa entrevista contraria o sentido de ser a pior catástrofe do mundo, mas também posso entender que faz parte da maneira como reagimos a uma coisa tão complexa, a uma contaminação que não vemos, que não sentimos, que não é a enxurrada de lama de Mariana ou de Brumadinho.

Como a família na Martinica vê sua atividade?
Venho de uma família militante, eles me apoiam. Meus livros são bem recebidos na esfera associativa e militante da Martinica e de Guadalupe. É um contexto majoritariamente antilhano, negro, que fala crioulo, mas meu trabalho não é bem recebido só por eu ser antilhano — também porque proponho outra forma de fazer ciência.

Na maneira francesa, só incluímos a população no momento dos resultados. Fazemos a pesquisa, apresentamos os resultados e no fim temos um minuto para fazer uma pergunta, e acabou. Eu participei da coordenação de um projeto do Instituto Nacional do Câncer (Inca), um projeto bem financiado, com 3,5 milhões de euros (algo na ordem de 20 milhões de reais). Questionei isso, dizendo que é uma relação excessivamente vertical com os habitantes, que reproduz uma leitura colonial e não funcionaria. É preciso que os representantes da comunidade sejam envolvidos em todas as etapas da pesquisa, desde o desenho até a avaliação.

Você estabelece um paralelo entre a broca-da-bananeira e a população colonizada sujeita à escravização. Se já é difícil falar de igualdade entre humanos, como é possível sensibilizar as pessoas sobre como colonizamos a natureza?
Na introdução, citei Ruth Wilson Gilmore — escrevo para lutar melhor. O discurso que analisa esse tipo de poluição sem levar em conta a natureza é um discurso que se engana. Porque reproduz uma separação entre os seres humanos e a natureza, e dá como solução que a pessoa se proteja afastando-se da terra. A relação com os agrotóxicos é uma relação de morte.

Eu quis dizer que os seres humanos não são a única vítima da contaminação. Isso não quer dizer que sejam iguais às brocas e a outros insetos. É um gesto um pouco ousado porque a broca não é uma baleia, uma onça, um lobo. É um insetinho de nada. E no entanto faz parte da vida na Terra, desse tecido vivo. Eu quis pensar a política a partir dessa conexão. Reconhecer que habitamos a Terra com diferentes espécies vegetais e animais é hoje necessário em uma filosofia política coerente.

Essa forma de colonização, que transforma tudo em monocultura, é brutal. Como poderia ter sido diferente e como pensar agora uma nova realidade?
A quinta parte do livro se dedica a isso. Há coisas a fazer no horizonte político. No capítulo 17, “Uma política de amor pela Terra”, digo que é preciso pôr no centro das políticas públicas não apenas a descontaminação, mas o cuidado com a Terra. Também falo de uma maneira de habitar a Terra que não tenha tantas plantations, que passe por redistribuição de terras, por justiça social. São aspirações, mas é preciso começar por algum lugar. Também proponho o conceito de corpo-Terra — conseguir compreender o corpo como a Terra e a Terra como uma parte do corpo, de forma que cuidar do seu corpo é cuidar da Terra. É outra maneira de fazer ciência.

Você tem muita atividade no Brasil. Consegue imaginar uma ação semelhante em relação ao colonialismo interno vigente aqui?
Vejo que já há ações em curso no Brasil. Há muito trabalho, inclusive universitário, em comunidades como os quilombos. Vejo o que acontece na ufba [Universidade Federal da Bahia], onde há uma tentativa de reconhecer os saberes de pessoas especialistas em domínios da espiritualidade, da religião. Há uma mudança, enquanto na França e nas Antilhas há muito pouco. Hesito em falar do Brasil porque, mesmo que tenha ido muitas vezes, conheço pouco. Do que vi, é um país de extremos.

Vi resistência e projetos artísticos e culturais extremamente fortes e inspiradores. E, ao lado, vi formas de violência, desigualdade social e injustiça extremas. De qualquer modo, acho necessário pensar os problemas ecológicos com os povos tradicionais e levar em conta a questão do racismo e dos conflitos ecológicos, que até poucos anos atrás era deixada de lado. Nos últimos anos, há uma abertura desse debate a partir do conceito de racismo ambiental. Há um envolvimento mais forte das comunidades quilombolas e da comunidade afrocêntrica. É interessante ver isso e o que produz em termos de discurso.

Você come banana?
Meu filho come banana, então eu também. Mas há bananas diferentes; gosto das que não reproduzem o mesmo tipo de plantation. No fundo, o problema não é a banana em si, mas o sistema de produção que a fruta simboliza. Essa indústria não foi reconhecida como culpada, como fonte de injustiça, e me recuso a celebrá-la. Não como as da Martinica e de Guadalupe.

Quem escreveu esse texto

Maria Guimarães

Bióloga, escreveu Guia dos jardins de Roberto Burle Marx no Instituto Moreira Salles (IMS).

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