(Ilustração de Veridiana Scarpelli)

Laut,

Divididos pela fé

Juliano Spyer convida o Brasil progressista a ouvir a população evangélica, mas equipara diálogo a eliminação do dissenso

28set2026 | Edição #110

Forte no debate público dos últimos anos, a ideia de um Brasil dividido em grupos que se antagonizam ou se desconhecem mutuamente não é nova, tampouco tributária da ascensão do bolsonarismo. Desde ao menos Os sertões, livro de Euclides da Cunha publicado no começo do século 20, a imagem de um país cindido em duas metades — uma litorânea, entendida como moderna, e outra interiorana, lida como atrasada — ecoa no imaginário político-social e nas interpretações que produzimos a respeito dos problemas que atravessam nossa sociedade.

O Brasil dos evangélicos, de Juliano Spyer, também apresenta um país cindido. Fruto de anos de pesquisa de campo em territórios periféricos majoritariamente evangélicos, o livro busca, nas palavras do autor, “aumentar a tolerância e o diálogo entre evangélicos e não evangélicos” a partir da escuta dos primeiros e do convite à reflexão sobre as diferentes forças, interesses e visões de mundo que compõem o segmento religioso que mais cresce no país e representa uma importante e cobiçada fatia do eleitorado brasileiro nos últimos pleitos.

Juliano Spyer (Thais Rocha/Divulgação)

Em cinco capítulos, que organizam textos de Spyer publicados na imprensa durante três anos, o livro desafia estigmas, preconceitos e equívocos em relação ao mundo evangélico. Um dos fios condutores é a defesa de que o enfrentamento das forças antidemocráticas que crescem no país exige a compreensão do universo protestante em sua polissemia, como o antropólogo lembra aos leitores em diferentes momentos. Dito de outra forma, o livro pode ser entendido como um convite ao diálogo e um apelo aos segmentos progressistas da sociedade, “pessoas identificadas com valores como justiça social e combate à desigualdade”, para que abandonem a noção enviesada de que bolsonarismo, reacionarismo e protestantismo são sinônimos. Assim, Spyer convida o Brasil progressista a ver e escutar o país que, em muitos territórios, já é majoritariamente evangélico.

Como diferentes estudos apontam, a população evangélica cresceu significativamente nas últimas décadas, devido a uma série de transformações demográficas do século 20. À medida que se urbanizou, impulsionado pela migração de populações do campo para os grandes centros urbanos do Sudeste, o Brasil se tornou mais evangélico. A escassez de templos católicos nas periferias, onde grande parte da população migrante se concentrou, abriu espaço para o florescimento de diferentes denominações, engrossando as fileiras de fiéis protestantes que hoje, de acordo com o último censo, representam mais de 25% da população.

Preconceito

Majoritariamente preta, pobre, periférica, feminina e jovem, a população evangélica, segundo Spyer, aparece, aos olhos das elites laicas, como sinônimo de pastores midiáticos e de lideranças bolsonaristas. Na raiz dessa metonímia estaria o preconceito de classe, que impede a mídia e o campo progressista de enxergar tanto a diversidade de visões de mundo e interesses políticos do campo evangélico quanto os impactos positivos das igrejas na vida dos brasileiros. Nos termos do autor, “quem vê o fenômeno de fora e à distância, não enxerga que a igreja evangélica é muitas coisas ao mesmo tempo, mas que ela, sobretudo, atua como um centro cívico” e um espaço de ajuda mútua.

Nas periferias, diz Spyer, igrejas são espaços de alfabetização, disciplina de estudo e gestão

É justamente essa dimensão positiva da influência das organizações evangélicas nos “domínios da vida”, para além do político, que O Brasil dos evangélicos procura ressaltar. A cada capítulo, Spyer valoriza os “milagres sociológicos”, ou seja, as transformações de vida que as igrejas evangélicas são capazes de produzir. Ao citar o economista britânico Paul Seabright, o autor sustenta que as igrejas podem ser vistas como prestadoras de serviços materiais e espirituais, ao promover encontros que só se tornam possíveis quando há um espaço de convivência. Essa função “revolucionária” transformaria as mais de 162 mil igrejas protestantes brasileiras em “162 mil espaços de convívio que provêem cuidado, facilitam encontros e também estimulam, treinam, reúnem e interligam algo em torno de 70 milhões de brasileiros”, sobretudo em territórios negligenciados pelo Estado.

Nas periferias, observa Spyer, as igrejas são espaços de alfabetização e aprendizado de oratória, disciplina de estudo e gestão. Também acolhem crianças e adolescentes no contraturno escolar; oferecem aos pais alternativas para que seus filhos não sejam atraídos pelo crime ou vitimados pela violência; e proporcionam às mulheres um ambiente mais seguro, com maridos menos violentos e afastados do álcool. Assim, creche, escola e assistência social coexistem nos templos, que funcionam como rede de cuidado, proteção e sociabilidade. Eles seriam, ainda, um “ponto de partida para falar de racismo onde o debate intelectual não chega”, espaços de reflexão sobre questões ambientais e lugares acolhedores para mulheres, haja vista elas serem “a maioria dos evangélicos brasileiros”.

Conflitos

O diálogo defendido por Spyer é urgente para o fortalecimento da democracia e do estado de direito. Certeiro em diversos pontos — principalmente na associação entre elitismo progressista e miopia em relação ao fenômeno evangélico —, seu diagnóstico, entretanto, negligencia questões essenciais para a preservação da democracia e para a construção de uma sociedade mais justa, plural e menos desigual. Em diferentes momentos, sobretudo ao elencar pontos estratégicos para o diálogo entre o governo Lula e o público evangélico — entre os quais o atendimento às populações vulneráveis, a pacificação do país, o apoio à rede assistencial das igrejas, impostos, educação pública, liberdade de consciência e crença, proteção da família e combate às drogas e à pedofilia —, o livro toma como sinônimos diálogo e diluição de conflitos normativos fundamentais.

Buscando explicitar vias de intercâmbio e possíveis convergências entre evangélicos e a esquerda, o trabalho deixa de problematizar os projetos políticos defendidos por evangélicos conservadores e questões como igualdade de gênero e diversidade sexual. Spyer lista os milagres sociológicos que as igrejas evangélicas inauguram na vida de mulheres evangélicas, mas pouco discute problemas como o controle patriarcal, as desigualdades de gênero e os direitos sexuais e reprodutivos nas comunidades evangélicas. Além disso, pouco aborda a oposição de setores evangélicos ao avanço de pautas voltadas à promoção desses direitos. Repete, diversas vezes, uma máxima que explica quase nada: as igrejas não são lugares ruins para mulheres; caso contrário, as mulheres não seriam a maioria dos fiéis protestantes.

A busca por interlocução não significa abrir mão da luta por questões sensíveis a grupos religiosos

Já a complexa relação entre protestantismo e diversidade sexual é ligada à esfera das consciências individuais, apresentada como “um segredo aberto” ou um entrave à liberdade de crença e expressão. Quando sexualidade e gênero esbarram na educação, as disputas em torno da discussão nas escolas públicas — essencial para o enfrentamento de alguns dos problemas mais pungentes do nosso tempo, como o feminicídio — são apresentadas em termos de “militância lgbtqia+” versus demandas das famílias evangélicas.

Ainda no campo dos direitos fundamentais de minorias e maiorias minorizadas que enfrentam oposição de grupos religiosos por contrariar sua visão de mundo, um dos pontos mais controversos do livro é a defesa do apoio estatal à rede assistencial das igrejas. Spyer apresenta, em particular, o investimento em comunidades terapêuticas que tratam pessoas com dependência química como possível ponto de convergência entre o governo Lula e setores evangélicos.

Baseadas em práticas de disciplina, abstinência e religiosidade, as comunidades terapêuticas ganharam espaço nas políticas de saúde mental e de combate ao alcoolismo e outras drogas durante o governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo que esses espaços passaram a receber mais recursos públicos — apesar das críticas de profissionais de saúde, assistentes sociais e pesquisadores ao seu caráter moralista e, muitas vezes, opressor —, equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial foram sucateados, reduzindo as alternativas de cuidado ofertadas.

Campos de disputa centrais da dinâmica política atual, essas questões dividem opiniões e, em muitos casos, opõem evangélicos alinhados ao conservadorismo e o campo progressista. Reconhecer as igrejas evangélicas como espaços múltiplos, respeitá-las e abandonar a visão preconceituosa e míope que reduz o campo evangélico ao bolsonarismo passa por compreender as demandas dos mais de 25% dos brasileiros que se identificam como evangélicos.

A construção do diálogo exige disposição para ouvir, negociar e reconhecer diferenças. Isso, porém, não significa que, na busca por interlocução, o campo progressista deva abrir mão da luta por questões sensíveis a grupos religiosos. Diálogo e flexibilização de valores democráticos fundamentais, como a igualdade de gênero e a neutralidade religiosa em serviços financiados pelo Estado, não são sinônimos. Em tempos de ameaça autoritária, o enfrentamento das crescentes forças antidemocráticas não pode prescindir da busca pela expansão da democracia. O caminho para uma sociedade pluralista, que não esteja mais cindida entre duas metades antagônicas, não envolve a eliminação do dissenso, como O Brasil dos evangélicos sugere em alguns momentos, mas, sim, a capacidade de conviver com ele, enfrentá­-lo e disputá-lo democraticamente. O confronto entre posições, quando balizado pelo estado de direito e pelo respeito aos direitos fundamentais, não é uma ameaça à democracia, mas uma de suas condições.     

Editoria especial em parceria com o Laut

O LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Ana Silva Rosa

É pesquisadora de pós-doutorado da Fundação Casa de Rui Barbosa, coordenadora do Laut e coautoras de A lei da bala, do boi e da Bíblia (Tinta-da-China Brasil).

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “Divididos pela fé”