Ilustrações de Mariana Zanetti

Arte, Literatura infantojuvenil,

O mundo visto pela onça

Livro convida a enxergar a vida pelos olhos do maior felino das Américas

01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110

A onça é o maior felino do continente americano. Essa presença física e simbólica, ainda que ameaçada, diz muito sobre esse grande território: a onça está na linguagem (cuidado senão viro uma onça!), nas ruas, em lambes, grafites e artes de várias naturezas. Está também no vestuário, que toma de empréstimo para estampa suas manchas, que se chamam rosetas e que são tão únicas, como impressões digitais. Está ainda nas brincadeiras (como no jogo da onça), nos mitos, na vida espiritual, no cancioneiro popular e até impressa na cédula de dinheiro.

Para se ter uma ideia dessa poderosa presença, há no Brasil 352 formas de designar a Panthera onca, o nome científico dado à espécie: de jaguaretê a pintada, de pixuna a sororoca, de malhada a canguçuzinha-do-campo. Coisas da colonização: embora mais conhecida pelo mundo como jaguar, do tupi ya’wara, cujo significado é fera, no nosso país a palavra que designa o grande felino mais popularmente é mesmo onça, do latim luncea, emprestado do lince europeu.

O fato é que, com seu passo macio, a onça dá voltas e voltas em nosso imaginário. Em Desenhar a ferocidade de uma onça em 10 passos, ela atua como uma mestra de cerimônias que provoca e convida o leitor não a caçá-la, não a prendê-la, mas talvez a farejá­-la, se acercando dela, dos seus movimentos e da sua beleza e, claro, da sua altivez selvagem, que é, em igual medida, impiedosa e fascinante, ao mesmo tempo que propõe uma aproximação da poética da natureza e dos seus enfrentamentos.

O texto de Nurit Bensusan, bióloga de profissão, é acompanhado pela ilustração impetuosa e bravia de Mariana Zanetti, com bocarras de onças e outras feras, com dentes pontiagudos e muitas manchas. Palavra e desenho como partes inseparáveis de um mesmo corpo. De onça? De livro?

Desenhar o inapreensível, seja a ferocidade ou a fome, a proteção ou a ameaça, é a proposta desse anti-manual de desenho. Antimanual porque não se trata de oferecer tecnicamente uma receita pronta de como desenhar ou aprisionar um bicho nas grades de uma folha de papel, mas de investigar curiosa e politicamente a inteireza dessas existências, da onça, dos outros bichos, das árvores e até mesmo da minúscula vida, de insetos a vírus, que fazem parte do nosso planeta e que, por isso mesmo, têm todo o direito de usufruí-lo.

Desenhar o inapreensível, seja a ferocidade ou a fome, é a proposta desse antimanual de desenho

É um livro de perguntas e elas se multiplicam, se congregam: “o que é preciso para desenhar a ferocidade de um bicho?”, “será que listras são tão ferozes quanto pintas?”, “será que os vírus também podem ser ferozes?”. E com elas se vai tecendo o emaranhado da nossa relação com a diversidade do planeta que coabitamos.

As questões propostas, de maneira divertida e inteligente, trazem em si pistas, indícios que levam o leitor a entender como somos afetados e como afetamos a delicada teia da vida. Árvores caídas em uma tempestade no espaço urbano podem ser uma resposta contundente às políticas públicas que não protegem nem o meio ambiente nem as pessoas. Animais e biomas inteiros queimados surgem fragilizados nos noticiários, e, no entanto, a ferocidade deles não pode ser abafada e atingirá a todos. E nós? Quão ferozes somos diante da pluralidade de seres com os quais deveríamos conviver respeitosamente e que também deveríamos proteger?

Brincadeira

Podemos chamar Desenhar a ferocidade de uma onça em 10 passos de livro, manual, antimanual e até mesmo de manifesto, porque de fato é tudo isso. Mas trata-se, sobretudo, de uma brincadeira, um jogo. E brincadeira, todos sabem, é coisa muito séria. É brincando que a criança aprende e apreende o mundo. Foi brincando ou jogando que cultura e civilização se fundamentaram, como ensina o historiador holandês Johan Huizinga no seu Homo ludens. É também no jogo, no brincar, que nos aproximamos mais da animalidade, do espírito selvagem do mundo. Precisamos aprender como crianças e bichos. Ou reaprender.

É o que esse livro — que nas prateleiras das livrarias vai aparecer com a etiqueta infantojuvenil, mas que é mesmo para toda e qualquer idade —propõe: que nos façamos as perguntas mais simples, que elas possam puxar outra e mais outra; que elas, seja pela repetição, seja pelo inusitado, se entrelacem, se enredem, como na cama de gato, aquele jogo tradicional de barbantes, para que se transformem em outra coisa, quem sabe em respostas, quem sabe em uma onça. E com a onça a nos guiar por essas páginas, tão ricamente ilustradas e coloridas, por palavras tão sagazmente curiosas e provocativas, possamos ser levados a enxergar a vida pelos olhos de um bicho. Só assim, “oncificados” desde criancinhas, para poder ver o mundo, este grande onçaral, bonito, perigoso e sobretudo diverso, para além do umbigo do bicho-gente.

Quem escreveu esse texto

Micheliny Verunschk

É autora de O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “O mundo visto pela onça”

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