A autora japonesa Mieko Kawakami (Divulgação)

Literatura japonesa,

Artimanhas da sororidade

Mieko Kawakami fala sobre novo romance, As irmãs de amarelo, e de como busca explorar sentimentos (mesmo os inconfessáveis) na ficção

31ago2026

Mieko Kawakami aparece na tela vestindo roupas leves (é verão no Japão) e reflete por um bom tempo sobre cada pergunta, especialmente para responder sobre como superou a pobreza em sua vida, tornando-se uma escritora bem-sucedida e rompendo um ciclo de privações que costuma se perpetuar por gerações.

“Ao falar de dificuldades e contar histórias de superação, a literatura pode ser uma fonte de coragem”, afirma. “Ler não é só diversão”, acrescenta a escritora, que, durante a conversa por Zoom com tradução consecutiva japonês-português por Anna Ligia Pozzetti, critica a onda recente no seu país da chamada literatura de cura. “São histórias que não salvam ninguém.”

Como algumas de suas personagens, a autora nascida em Osaka, em 1976, começou a trabalhar cedo, numa fábrica e como recepcionista de boate, para ajudar nas despesas em casa. Antes de se tornar uma escritora conhecida dentro e fora do Japão — apontada por Haruki Murakami como sua autora contemporânea favorita —, teve uma breve carreira como cantora, com três álbuns lançados, e iniciou a trajetória na literatura como poeta e blogueira, com publicações que alcançaram mais de 200 mil acessos por dia.

As postagens deram origem ao primeiro romance, uma versão inicial de Peitos e ovos (Intrínseca, 2023), que trata da intimidade de um pequeno núcleo familiar constituído por duas irmãs e uma filha adolescente, a vida precária delas e os dilemas em torno da aparência física e da maternidade. Pela história, recebeu o pretigioso prêmio Akutagawa em 2007.

As irmãs de amarelo, que chega agora ao Brasil, ganhou em 2024 o prêmio Yomiuri. No novo romance, a autora volta ao tema das relações femininas, explorando a fundo os sentimentos de quatro mulheres que, para lidar com a pobreza e o abandono, decidem viver juntas em uma espécie de irmandade.

‘Quando você lê uma história em que tudo dá certo, isso não é positivo para as pessoas’

“Acho que meus livros têm este pressuposto: nós morremos, a vida é finita, mas também há esperança”, diz ela, que rejeita a ideia de que sua escrita tenha algo de autobiográfico. “Mas é impossível me dissociar do que escrevo”, ressalva.

Na conversa com a Quatro Cinco Um, Kawakami fala ainda sobre suas referências literárias, a rotina de escrita, o feminismo e as pressões para o casamento e a maternidade sofridas pelas mulheres no Japão. Ao final, revela o seu desejo de vir ao Brasil, onde tem muitos leitores, com os quais se comunica pelas redes sociais.

Sua obra é consistente ao abordar questões éticas e dilemas da vida contemporânea, com atenção à vida interior das personagens, sobretudo as femininas. Quais são suas principais influências literárias?
Tive a influência de muitos grandes escritores. Mas queria começar dizendo que, quando eu era criança, nunca pensei em ser escritora. Isso nunca fez parte do meu cotidiano. Eu era uma criança interessada em questões filosóficas. Quando eu tinha oito anos, escrevi uma redação na escola em que perguntava: “Por que a gente tem que morrer se a gente nasceu?”. Prosseguia dizendo que, se tivesse que passar pela dor de ver minha mãe ou minha avó morrendo, eu preferiria morrer antes. Esse foi o tipo de infância que tive.

Essa coisa de refletir sobre vida e morte é muito anterior ao interesse pela literatura. Lia mais textos relacionados à filosofia, que me dava respostas para o que eu estava buscando. Só depois entrei em contato com a literatura e percebi que essa era uma forma em que eu também poderia me expressar e encontrar respostas para as minhas questões.

Entre diversos autores, Dostoiévski, com certeza, e Kurt Vonnegut me inspiraram. Depois que me acostumei a esse tipo de leitura, comecei a ler James Joyce e assim por diante, aprendendo com grandes histórias. Entre os escritores japoneses, Haruki Murakami foi uma grande referência para mim em termos de estilo de escrita, estrutura de frases e para aprender de que forma o autor pode manter distância do tema tratado.

Você disse em uma entrevista que seu papel como escritora é “sacudir a certeza das pessoas que acham que podem distinguir com clareza entre o bem e o mal” e, por outro lado, suavizar um pouco a vida dos que vivem em permanente medo e ansiedade. Como isso se dá?
Se pudéssemos simplesmente viver nossa vida em paz, provavelmente escreveríamos histórias divertidas, que fazem as pessoas se sentirem mais felizes, achando que essa felicidade durará para sempre. Existem tantas histórias assim por aí, não é? Quando se fala em literatura japonesa, as pessoas costumam dizer que ela é terapêutica. Referem-se a essa literatura de cura, mais comercial, que busca trazer conforto, em que tudo dá certo no final.

Não gosto de falar que elas não são úteis, mas acredito que, quando você lê uma história em que tudo dá certo, em que tudo vai bem, isso não vai ser positivo para a maioria das pessoas. São histórias que não salvam ninguém. Nossa vida é um ciclo finito. Nós envelhecemos, nosso coração é partido, a gente se despede de pessoas e também morre ao final.

De vez em quando, as pessoas falam que ler os meus livros é doloroso. Há neles muito sofrimento. Mas acredito que, quando se lê sobre o sofrimento alheio, consegue-se relativizar o próprio sentimento, perceber que a vida é feita de muitos momentos difíceis e que não se está passando sozinho por essa situação. Meus livros têm este pressuposto: nós morremos, a vida é finita, mas também há esperança. Minha literatura tem essa função de trazer um pouco de esperança. É esse tipo de literatura que vou passar a vida toda fazendo.

Mieko Kawakami (Divulgação)

Como é sua rotina de escrita?
Escrevo todos os dias por um período. Isso se torna mais intenso se estou serializando ou se tenho prazos a cumprir. Os escritores japoneses produzem muito, tendem a ter muitas demandas, estão sempre escrevendo ensaios e outras coisas.

As irmãs de amarelo tem sido descrito como um romance de crime e suspense, protagonizado por quatro mulheres que se envolvem em práticas ilícitas. Entretanto, você disse em entrevistas que é sobre o processo de amadurecimento da protagonista. Há muitas formas de ler o romance?
Com certeza. Fiquei surpresa quando o classificaram como um romance de suspense e mistério. De modo geral, minha motivação ao escrever é explorar os sentimentos humanos de forma literária. Não pensei em As irmãs de amarelo como um romance de entretenimento, não me encaixo nesse tipo de literatura. Mas, mais uma vez, me surpreendi e confirmei que quando escrevemos não sabemos direito como o público vai receber.

O romance foi inicialmente publicado em capítulos diários em um jornal japonês. Você já tinha o enredo todo ao começar os capítulos ou ele tomou forma durante a escrita?
Normalmente, em um romance, decido todos os detalhes antes de escrever. Mas em As irmãs de amarelo, por ser seriado, só decidi a estrutura mínima, os personagens e a extensão, pois para uma série é preciso saber aproximadamente quantas páginas terá. Mesmo assim, não se sabe realmente como as coisas vão se desenrolar.

Conforme avançamos, aquilo que se tinha pensado no começo vai sendo ajustado. Eu tinha uma base bem estruturada, sabia que ia ter quatro mulheres e que elas iam morar juntas. E, dentro dessa comunidade de mulheres, quis trabalhar um tema que estava em alta na época, que é o da sororidade, solidariedade entre mulheres. Quando o escrevi, a ideia de sororidade era considerada incondicionalmente boa. Entretanto, eu sabia que havia questões literárias escondidas nisso, interessantes de serem abordadas.

Coisas tanto boas quanto ruins acontecem dentro de uma comunidade. Por exemplo, mesmo sendo apenas um grupo de mulheres, havia ali as referências do patriarcado que acabaram fazendo parte daquele cotidiano. Formas de dominação vão surgindo, mesmo entre mulheres, e eu queria tratar desse tema. E, dentro desse contexto, queria transmitir como essas pessoas vivem, de onde tiram força, como a gente pode se inspirar nelas.

Outra coisa importante para mim é o tema da casa [o título original do livro traduz-se literalmente por Casa amarela], ie em japonês. Talvez as pessoas fora do Japão não entendam bem esse conceito, porque não é simplesmente uma casa ou lar. É mais que isso, pois evoca um senso de pertencimento a um coletivo que é mais importante do que as individualidades. A Yakuza [a máfia japonesa], por exemplo, também traz as referências de um ie, embora não envolva compartilhar o mesmo espaço físico.

Tanto Peitos e ovos quanto As irmãs em amarelo têm personagens que são mães solo, trabalham em casas noturnas para ganhar a vida e são obrigadas a deixar suas filhas sozinhas durante o dia, gerações de mulheres aprisionadas em um ciclo de pobreza. Há aspectos autobiográficos nos romances?
Não são de modo algum autobiográficos. No entanto, sendo autora e mulher, ao escrever busco minhas memórias e sentimentos. É impossível me dissociar do que escrevo. Não escrevo sobre mim, reforço, não sou eu, mas acabo buscando o que tem dentro de mim como informação. Por exemplo, em Peitos e ovos tem um momento em que a personagem fala sobre seus sentimentos em relação à avó. Então fui a fundo sobre o que eu sentia pela minha avó e usei isso como fonte de informação para escrever da melhor maneira possível.

Você já disse que viveu uma condição de pobreza na infância e na adolescência, tendo que trabalhar cedo, em uma fábrica e como recepcionista de clube noturno, para ajudar nas despesas de casa. Como conseguiu sair desse ciclo?
Em primeiro lugar, a pobreza tem diferentes camadas. Ter saúde física ou não, por exemplo, faz uma enorme diferença. No meu caso, felizmente, eu tinha saúde e conseguia trabalhar. E sempre fui muito boa em me comunicar com as pessoas, o que me ajudou. No entanto, como escrevi em As irmãs de amarelo, a pobreza definitivamente rouba muitas possibilidades desde o início, isso é inegável. Dizem que você tem que trabalhar duro, mas isso não garante que você vá sair da pobreza. Existem as pessoas que podem trabalhar duro e as que não podem, não é?

‘Meus romances não são autobiográficos, mas é impossível me dissociar do que escrevo’

De todo modo, você tem que buscar energia em algum lugar, ninguém vai viver a sua vida por você, ninguém vai morrer por você. Trata-se de ser capaz de fazer isso a partir desse estado, dessa sensação de fome extrema, da incapacidade de proteger alguém que você ama. Não se sentir mais miserável. Ter um pouco de força para estender a mão a alguém necessitado. E ser capaz de dormir em paz todas as noites porque há muita gente que não tem nem onde dormir. É claro que o Estado precisa fazer o seu trabalho, mas sabemos que o Estado por si só não vai resolver.

A literatura tem papel nessa luta?
Às vezes, as pessoas me perguntam: diante desse mundo tão complicado, qual é a função da literatura? Ler não vai encher a barriga de ninguém, não é? Mas acredito que a literatura, ao falar de dificuldades e contar histórias de superação, pode ser uma fonte de coragem. É uma forma de mostrar que você não está sofrendo sozinho, que tem outras pessoas que também estão passando por dificuldades. Então, mesmo sendo ficção, a literatura é capaz de transmitir esse sentimento. Ler não é só diversão. Não vejo dessa maneira. A literatura nos ensina a buscar em algum lugar a energia para seguir caminhando. Muitos dos meus leitores são jovens e muitos deles estão passando por momentos difíceis. Mas eles pensam: “Se a Mieko conseguiu, eu também consigo”. Isso é uma das coisas que me deixam feliz.

Você também toca em temas que parecem atuais na vida das mulheres japonesas, como a rejeição ao sexo, ao casamento e à maternidade, presentes também na ficção de autoras contemporâneas como Sayaka Murata e Yoko Ogawa. Como vê essas questões para as mulheres japonesas hoje?
Existe uma questão de idade. As escritoras mencionadas, quando escreveram algumas de suas obras, estavam na casa dos trinta anos. Acho que esses temas começaram a aparecer em seus escritos devido a esse momento que estavam vivendo, pensando sobre os seus limites biológicos e sofrendo forte pressão social para engravidarem. No Japão, a decisão de ter filho ou não é um evento, não só para a própria mulher, mas social. Em resposta a isso, acho significativo que atualmente tendemos a expressar pensamentos alternativos, ou contraculturais, na literatura.

Diante das condições patriarcais da sociedade japonesa, você acha que a luta feminista e uma escrita feminista estariam propondo a dessexualização feminina e a rejeição ao casamento como forma das mulheres se libertarem?
Eu me considero feminista, sou a favor do avanço dos direitos das mulheres. No entanto, isso não significa que eu seja uma romancista que escreve romances feministas. Faço uma distinção clara entre o que é minha opinião e o que é minha literatura. Em nenhum momento, quando escrevo, estou pensando nessa parte mais ideológica. Quero escrever sobre seres humanos de quem nunca se escreveu antes, sobre suas emoções naquele momento. Não é uma forma de expressar a minha opinião ou de querer participar de certos debates. Tento me colocar na pele dessas pessoas, em seu lugar, e escrever a partir de seu ponto de vista. Quando escrevi Heaven [romance inédito no Brasil], por exemplo, sobre jovens que sofrem bullying na escola, tentei transmitir os sentimentos deles, e o mesmo acontece quando escrevo sobre mulheres.

Ao me preparar para esta entrevista, reli Peitos e ovos e seus romances disponíveis em inglês. Mesmo conhecendo os enredos, fiquei novamente tomada pelos sentimentos dos personagens e os livros se tornaram novos para mim. Você imaginou que sua literatura capturaria leitores em tantas partes do mundo?
Muito obrigada! Atualmente estou em turnê por vários países e espero que um dia eu possa encontrar todos vocês no Brasil. Hoje, com as redes sociais, recebo fotos de leitores brasileiros com o livro na mão e mensagens de agradecimento, de meninas, homens e mulheres. Falam que os personagens, vivendo seus altos e baixos, mas seguindo, sobrevivendo, buscando superar as dificuldades, dão muita força para elas. Eu realmente acredito que esse é o poder de contar histórias. Sinto que eu e os leitores estamos em um relacionamento, não em uma via de mão única de escrita e leitura, mesmo que existamos nos confins mais distantes desta Terra. Uso isso como energia para continuar escrevendo.    

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).