Ilustração de Veridiana Scarpelli

Laut,

Intervenção americana

Felipe Loureiro analisa arquivos diplomáticos dos EUA e compõe um testemunho de como se escreve a história da ditadura militar no Brasil

26ago2026 | Edição #109

No ano de 1964, no Rio de Janeiro, eu cursava a Faculdade de Direito da PUC-Rio. A memória do início do golpe militar na madrugada de 31 de março permanece viva: a confirmação da adesão do general Amaury Kruel em São Paulo, seguida pela notícia do incêndio da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo. Dias depois, passei por uma pequena multidão em Ipanema, basbaque em frente à casa de esquina do general Castello Branco, futuro primeiro ditador.

Entre 1964 e 67, participei ativamente das campanhas de Márcio Moreira Alves, Hélio Pellegrino e Hermano Alves para a Câmara de Deputados. Me aproximei de intelectuais da primeira resistência à ditadura: o historiador José Honório Rodrigues e os escritores Carlos Heitor Cony e Antonio Callado. Passei a frequentar círculos de oposição de esquerda que se reuniam no apartamento de Marie e Marcito Moreira Alves na avenida Vieira Souto, em frente à praia.

Todo esse horizonte de experiência vivida voltou nítido ao ler Olhares ianques, de Felipe Loureiro, que revisita a ditadura brasileira fundamentando-se em arquivos diplomáticos americanos sobre o Brasil de 1964 a 85. O autor utiliza um corpus documental raramente mobilizado com tal densidade interpretativa, diferentemente do período anterior, de 1920 a 45, que pesquisei cinquenta anos atrás no mesmo National Archives, em Washington, cuja correspondência diplomática era bem mais limitada. Loureiro se beneficiou de uma estrutura institucional diplomática norte-americana mais capilarizada no Brasil inteiro.

Em 1967, a embaixada dos Estados Unidos no Brasil era a segunda maior no mundo, atrás apenas da embaixada norte-americana na Índia. Essa presença incluía consulados em São Paulo, Rio de Janeiro e mais seis grandes cidades. Somavam-se os Military Assistance Advisory Groups (MAAGs), a missão naval, a cia, a United States Information Agency (USIA), centros binacionais dedicados ao ensino de inglês e captação de informações sociais. Diplomacia e inteligência se entrelaçando organicamente.

A originalidade de Loureiro está em tratar documentos como produtos de interesses e disputas

No final de 1966, a presença americana abrangia cerca de 2,5 mil funcionários, entre norte-americanos e brasileiros, integrados às dinâmicas locais e com acesso privilegiado a diferentes setores da sociedade e do Estado. Olhares ianques demonstra que essas práticas foram decisivas para legitimar o golpe de 1964 e a ditadura no plano da opinião pública.

Cada capítulo funciona como uma instalação artística: uma assemblagem de documentos inéditos e vozes diversas — militares, civis, intelectuais, empresários, religiosos. A narrativa polifônica revela percepções contraditórias nos diálogos do embaixador americano com direita e esquerda: Mário Covas otimista com Costa e Silva; Mino Carta avaliando Geisel; Dom Paulo denunciando torturas; Carlos Castello Branco, o Castelinho do Jornal do Brasil, relatando conflito entre Geisel e o general Frota, que solicitava ao general-presidente suspender as eleições porque o “sistema” estava muito alarmado com seu eventual resultado. Geisel retrucou que os únicos sistemas que ele conhecia eram o sistema penal e o elétrico. Essa multiplicidade de vozes mostra diplomatas americanos recolhendo impressões de diferentes setores, compondo um mosaico de expectativas e tensões.

A originalidade de Loureiro está em tratar os documentos como produtos de interações permeadas por interesses e disputas, superando usuais análises literais. Sua escrita combina elegância literária com coloquialismos, rigor analítico com erudição, livre de formalismos acadêmicos. O resultado é a história relacional da política externa, articulando estruturas institucionais, trajetórias individuais e conjunturas críticas.

O livro mostra como Washington oscilava entre apoio e hesitação. Ao longo de duas décadas, seis presidentes americanos acompanharam a ditadura brasileira. Em 1964, havia planos de contingência para intervenção militar, mas prevaleceu a recomendação de discrição e “legitimidade” dos conspiradores. Nos anos de Médici e Costa e Silva, intensificou-se o apoio à ditadura da segurança nacional. Com Carter, ressurgiu a pauta dos direitos humanos, especialmente diante das denúncias de tortura sob Geisel.

A documentação revela o mal-estar americano diante das torturas, mas também a complacência: protestos diplomáticos inócuos, fornecimento de gás lacrimogêneo para as polícias. Empresários brasileiros e americanos em São Paulo financiaram o DOI-CODI, estrutura de repressão das forças armadas, sob disfarce de fundo educativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Entre esses, Nadir Dias de Figueiredo, seu presidente emérito; Luís Dumont Villares, das Indústrias Villares; Carlos Eduardo Paes Barreto, da Refinaria União; Daniel Machado de Campos, presidente da Associação Comercial Paulistana; José Papa Júnior, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo; e Justo Pinheiro da Fonseca, presidente da Associação de Bancos Paulista.

Tensões

No contexto atual, em que se disputam memórias e legados, Olhares ianques oferece novos instrumentos analíticos fundamentais. Loureiro demonstra que a política externa não operou como vetor unívoco de dominação, mas agiu num campo interno de tensões, hesitações e ajustes contínuos em meio a uma realidade brasileira em permanente mutação, apesar da inamovível continuidade do regime de exceção. Por isso, Olhares ianques não é apenas um livro de historiador. É testemunho sobre como se escreve a história da ditadura. Mas Loureiro mostra que compreender o Brasil exige olhar para fora, para os arquivos externos, para as redes de poder que rompem fronteiras. Ao fazê-lo, nos relembra que a democracia continua precária aqui e agora, que o autoritarismo pode renascer e que só a memória crítica nos protege. Um estudo que fala ao passado, mas remete trepidantemente ao presente e ao futuro incerto.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Paulo Sérgio Pinheiro

Professor aposentado de ciência política da USP, foi coordenador da Comissão Nacional da Verdade.

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Intervenção americana”