The Watcher, Tynemouth (1882), pintura de Winslow Homer (Art Institut of Chicago/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Os comerciais

Nada, ninguém adora uma praia repleta de corpos negros como o espectador europeu

25ago2026 • Atualizado em: 24ago2026 | Edição #109

“Espanha está aberta.” Devido a uma mentira nas redes sociais, 60 mil jovens desesperados atravessam a nado uma linha imaginária entre Ceuta e Marrocos. Dezenas morrem. Tudo se passa em directo e em poucas horas. Seguem­-se pequenos tumultos ao longo de vedações, confrontos com as autoridades. Então, as televisões — que os filmam como ratos — vão ao outro lado do planeta perguntar a um velho demente (que de resto adora Espanha) o que acha ele das imagens de Ceuta — porque ninguém sabe o que vai dizer. “Espanha está mal fechada”, rumina, “parece uma invasão.”

Europa fora, deputados guincham, influencers convocam protestos, protestos comparecem com adereços da Copa, e súbito a Espanha parece que perdeu para a Argentina e o árbitro era Pedro Sánchez. Pedem a sua cabeça. Um reformado dispõe-se a morrer pela pátria. Surge um bando de moderados, ao que parece, muçulmanos. Há empurrões, parte-se uma garrafa, deflagra-se uma escaramuça amarelo-rubra. Vamos para os comerciais.

Elites brancas interrompem mojitos e sunsets, organizam-se em painéis, a partir de estúdios climatizados. Em parte, sofrem; em parte, adoram o caos. Gravata ou não, eis a questão. É verão, mas estamos na Europa, é a televisão. Antes de entrar em directo, têm pensamentos brancos como a rainha de Inglaterra. E então: falam, falam, falam. Nada adora tanto ouvir­-se falar quanto a inteligência branca. Não, não se trata de vergonha de ser branco, mas vergonha de seres brancos. De passagem, nada tão nauseante quanto o rapazito de direita, que em geral desconhece a vergonha (mas faz amor de luz apagada). Tanta certeza concentrada em alguém cuja posição no mundo nunca foi posta em causa. Fala, fala, fala, sem que alguma vez se canse da própria voz. Segue para os comerciais.

Que será daquela gente? Quantos os mortos, quais seus nomes? Ninguém sabe, ninguém saberá

Na volta, a emissão vai, em loop, para um retardatário moreno, confuso, de tronco nu, olhando por cima dos ombros, no instante em que pisa as areias de Ceuta. Assim encharcado, com aquele ar de atrasado para a festa, podia ser português, podia ser espanhol. “O que fazem aqui tantas câmaras?”, pergunta-se, averiguando se há polícia. Não lhe disseram. Em menos de 48 horas, a juventude a nado foi repatriada a pé. Os marroquinos, salvo fugitivas dúzias. Pela praia, em pequenos grupos, sobra a grande minoria. Marrocos não os quer, a Europa rejeita-os. Jovens negros em busca de ajuda, de asilo. Exaustos, famintos, traumatizados pela guerra e pela fuga.

Nada, ninguém, como se sabe, adora uma praia repleta de corpos negros como as redes, como a televisão branca, como o espectador europeu. O lado ultracatólico da Igreja empenha-se no acto cristão de correr com eles. A elite conservadora trata de os representar ora como intrínsecos criminosos, ora como “recursos” para a economia. Os progressistas contorcem-se. Temem perder votos com bons sentimentos. Temem perder bons sentimentos com votos. Então falam, falam, falam. Uns para os outros. Talvez entendam um dia que uma coisa é um problema de fronteiras; outra, uma crise de hospitalidade. Que será daquela gente na praia? Quantos os mortos, quais os seus nomes, quem avisará as famílias? Ninguém sabe, ninguém saberá. “Por hoje é tudo”, diz o figurão da tela. “Seguem-se os comerciais.”

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Os comerciais”

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