The Watcher, Tynemouth (1882), pintura de Winslow Homer (Art Institut of Chicago/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Uma dádiva

Viajo e conheço leitores que não sabia que tinha e os meus dias desabitados povoam-se

25ago2026 • Atualizado em: 24ago2026 | Edição #109

Viajo e regresso e dou comigo a considerar a sorte que tenho de ter aonde regressar. Quando na minha vida esse porto de retorno se perdeu, quase me perdi. Lamentava então o desaparecimento do lugar de regresso, enquanto me ia apercebendo de que eu não lhe pertencia, vivendo o paradoxo de querer tanto a uma casa que nunca havia sido minha, a uma terra que apenas me tolerava.

Pertenço à minoria que tem uma casa e um travesseiro dos quais ter saudades quando está longe. Quantas coisas humanas me serão alheias, mesmo que goste de imaginar que não são, apenas por essa razão? Na vida, faltou-me, por vezes, compreensão, solidariedade, amizade, cuidado. Mas nunca me faltou uma almofada, privilégio primeiro, o de podermos gozar o nosso sono.

Voltar a casa, mas qual é o significado de voltar, depois de a viagem nos ter mudado? Trago a bagagem cheia de livros, carinhos, ideias, aromas, abraços sentidos. Adio o momento de desfazer as malas, a roupa espalhada pelo quarto à espera da paciência, recordo conversas, esgares, nomes. Regressei, mas quem somos quando voltamos, se não somos mais quem partiu? Onde terá ficado a mulher que saiu de Lisboa — se esta, que regressa, e que trouxe comigo para casa, é tão mais leve?

Não chego a perder-me no meu destino, mas talvez as visões me tenham mudado por dentro. A moça, não tinha mais de quinze anos, que fazia a cama no viaduto; a graça, beleza, simpatia de Alexandra, mulher negra que me serviu à mesa e que talvez fosse Helena de Troia.

Tudo o que possa ter dado aos outros nos meus livros é-me devolvido em viagem

Será que para uma escritora é mais fácil do que para as outras mulheres? Será que temos tantas casas quantas casas têm os nossos livros? Atento então neste delicado jeito desapegado que é o meu, de dividir os meus males pelas aldeias, espalhar meus medos pela areia, deixar que o mar os leve para longe. Subtil esconjuro este, de nos deixarmos ler pelos outros. À medida que a circunferência se expande e os livros vão viajando, sinto cada vez menos as dores que os suscitaram até que, por inteiro, as estranho. Não acredito que as transfira aos leitores, apenas que ser-se manuseado por muitas mãos, algumas delas amigas, acredito que esse dissipar colectivo purifica.

Muitas vezes quando escrevo, a partir da casa da partida, imagino que estou sozinha e que não há ninguém do outro lado. Viajo e entendo que escrevo acompanhada, maior lição de humildade que se pode receber de um estranho. Conheço leitores que não sabia que tinha e os meus dias desabitados povoam-se. Estou sozinha no meu espaço, as mãos nas teclas, parece não haver ninguém por perto, mas os leitores salvam-me de me imaginar dedicada à ocupação excêntrica de falar sozinha para sempre.

E tudo o que possa ter dado aos outros nos meus livros é-me devolvido, em viagem, por pessoas que apenas agora conheço, aqueles que os leem e os aproveitam. Como entender o mistério que é um livro, um silêncio (o de quem escreve) que se torna vivo através de outro silêncio (o do leitor), por via de uma voz? E, já em casa, dou-me conta de que é isso que tenho em redor, olhando livros sobre a mesa à qual escrevo, dádivas de vida.           

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Uma dádiva”

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