O autor líbio-britânico Hisham Matar (Diana Matar/Divulgação)

Crítica Cultural,

Uma história íntima da ditadura

Em Meus amigos, Hisham Matar mapeia os conflitos do intelectual diante das exigências de seu tempo

20ago2026 • Atualizado em: 18ago2026

Desde 2006, quando estreou na literatura, Hisham Matar escreve um mesmo livro, exemplo admirável de um gênero a ser sistematizado, a história íntima da ditadura. O ponto de vista é o regime de Muammar Gaddafi, que, em 42 anos no poder, destroçou a Líbia e a família Matar. Exilado no Egito, ativo nas articulações da oposição, Jaballah Matar, o pai de Hisham, foi sequestrado em 1990, provavelmente torturado e morto no país em que nasceu e a que dedicou a vida. Seu corpo jamais foi localizado.

As nuances do luto terrível, para sempre inconcluso, são detalhadas no magistral O retorno, premiado com o Pulitzer de biografia em 2017. Antes e depois desse longo ensaio pessoal, que é o centro de sua obra, Matar preferiu evitar os atalhos da primeira pessoa para capturar a vida vivida nos caminhos intricados da fabulação. Os romances No país dos homens (2006), Anatomia de um desaparecimento (2011) e Meus amigos (2024), que acaba de ser traduzido, partem da memória e do contexto histórico para atar as pontas da experiência individual e coletiva. Em determinado momento da narrativa, um locutor da bbc observa: “acreditamos que, às vezes, uma obra da imaginação é mais pertinente do que os fatos”.

Muammar Gaddafi em reunião com o então presidente da Comissão Europeia Romano Prodi, em 2004 (European Commission/Reprodução)

Em Meus amigos, mais de trinta anos se passam na noite em que Khaled rememora a intensa convivência com Hosam e Mustafa. Os três se conheceram nos anos 1980 e enfrentaram juntos a dureza do exílio. Hosam pegou em armas para derrubar Gaddafi, foi ministro da Cultura do novo governo e, desiludido com o sempre acidentado exercício do poder, optou por viver na Califórnia. Depois de se despedir do amigo, Khaled caminha por Londres reconstituindo cada momento decisivo de vidas inseparáveis das convulsões de seu país.

Aos dezoito anos, Khaled deixa Bengasi, onde vive com a família, para estudar em Edimburgo. Filho de um professor do ensino médio que leva vida modesta e discreta para evitar confrontos diretos com o regime, ele vê seu interesse pela literatura assumir um aspecto muito particular depois de ler um artigo sobre ficção pós-colonial. Essa é sua primeira e mais explícita referência à política até que, rosto coberto por uma balaclava, participa de um protesto em frente à embaixada da Líbia em Londres. Manifestante incidental, ele visitava a cidade pela primeira vez, guiado por Mustafa, e ir à St. James Square era um programa entre outros.

Matar preferiu evitar os atalhos da primeira pessoa para capturar a vida vivida nos caminhos da fabulação

Naquele 17 de abril de 1984 — e aqui a precisão histórica é importante recurso —, um atirador postado dentro da representação diplomática disparou deliberadamente na direção do protesto. Yvonne Fletcher, uma policial britânica de 25 anos, foi morta e onze manifestantes foram atingidos, entre eles Khaled e Mustafa, na mais engenhosa das costuras entre história e ficção que estruturam Meus amigos.

Gravemente ferido, solitário num hospital londrino, Khaled ganha proteção do governo britânico. A partir dali, é forçado a reescrever a própria biografia. Nos telefonemas ocasionais para a família, simula outra vida, sob pena de se expor e expô-la à incansável vigilância do regime líbio, que exerce controle implacável sobre correspondência e comunicações.

O que se configurava como romance de formação clássico, gênero consagrado a uma trajetória de iniciação, ganha tonalidades políticas sombrias. A descoberta do mundo em Londres é de certa forma a revelação de uma Líbia que, vista de longe, sem a mediação do afeto familiar e das referências primeiras, é um pesadelo de arbitrariedade, corrupção e violência. Descobrir o próprio país é descobrir a própria identidade, e, para Khaled, essa tomada de consciência se dá por uma pedagogia do medo, das ameaças concretas até a autocensura.

Apelidado pelos amigos de “Khaled, o relutante”, esse narrador muitas vezes melancólico não tem dúvidas do horror à ditadura, mas tampouco certezas sobre as formas de, no exílio, se relacionar com ela. Intoxicado de literatura, de referências intelectuais, Khaled parece ter cogitado uma vida à distância segura dos conflitos da Líbia. Até sentir, literalmente na carne, a impossibilidade de viver apartado de seu tempo. Afinal, observa Hosam, é “bobagem pensar que estamos livres da história ou da gravidade”.

Em momentos agudos, o escritor se confronta com a exigência de se posicionar como intelectual público

Assim como leva tempo para se acostumar à cicatriz no abdômen, Khaled se constitui aos poucos, e a seu modo, como um sujeito engajado. Ao rememorar em detalhes a manifestação, Matar faz seu narrador ponderar sobre a “distância enorme entre um manifestante e o seu slogan”, chegando assim à cristalina definição de seu próprio romance: “a história toda da política se constrói nesse intervalo”.

Tio velho

Outra data é essencial para Meus amigos: 20 de outubro de 2011, quando as forças rebeldes chegaram a Sirte, cidade de Gaddafi, e o encontraram escondido numa manilha. Em telefonemas entrecortados e e-mails, Khaled fica sabendo, por Hosam, que o homem tão odiado — “o cerne da nossa dor” — fora capturado “inseguro como um tio velho e frágil”. E o poeta, investido pela força de guerrilheiro, se pergunta: “e para nós ele não era exatamente isso, menos um político do que um parente louco?”.

As cenas impressionantes de Gaddafi linchado e executado por uma turba, que correram o mundo como as mais violentas da chamada Primavera Árabe, ganham, nas palavras do personagem, a força de uma reflexão sutil e complexa sobre momentos extremos. Relata Hosam:

Mesmo que gritássemos uns com os outros e houvesse um conflito ininterrupto entre aqueles que queriam protegê-lo, levá-lo a julgamento e arrancar as respostas possíveis, e aqueles que queriam devorá-lo vivo, nas nossas cores e origens diferentes viramos naquele instante uma só criatura, uma besta voraz e corrosiva cuja fome era insaciável e cuja presa tinha apenas um destino. Por isso não se poderia fazer com uma única bala, limpa, na cabeça.

E completa: “Você e eu sempre detestamos a violência. Mas o que destruiu Gaddafi foi o que nos destruiu. A nossa raiva, como as nossas divergências. Aqueles que buscavam justiça na lei e aqueles que a buscavam na revanche”.

As diferenças, conflitos e cumplicidade entre Khaled, Hosam e Mustafa dramatizam as dificuldades e impasses do escritor que, em momentos agudos, se confronta com a exigência, mais ou menos premente, de se posicionar como intelectual público. “Ser de países como o nosso é se sentir o tempo inteiro na obrigação de explicá­-los”, diz uma personagem, no que vale para a Líbia, o Brasil e a vasta periferia do mundo desenvolvido. Ignorar a história, adverte Hisham Matar, é correr o risco de ser tragado por ela. A esse vórtice nem todos sobrevivem.   

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

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