Memória,
Caio Fernando Abreu, trinta anos depois
A literatura do escritor gaúcho ganha força com os novos tempos, e sua personalidade segue viva na memória de quem o conheceu
04ago2026Trinta anos após sua morte, Caio Fernando Abreu (1948-1996) permanece como uma das vozes mais intensas e singulares da literatura brasileira contemporânea. Como esquecer Onde andará Dulce Veiga? (1990), Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e O ovo apunhalado (1975)?
Dulce Veiga foi adaptado para o cinema, em 2008, por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença no papel da protagonista. E acaba de ganhar uma versão em quadrinhos pelo selo Quadrinhos na Cia, da editora Companhia das Letras, que lançou uma nova edição do romance no final de maio. Onde andará Dulce Veiga? evidencia uma particularidade da poética de Caio: a construção de narrativas em que a fronteira entre o imaginário e o real é borrada.
Tanto no livro quanto no filme, somos convidados a mergulhar na vida da atriz e cantora, que desapareceu misteriosamente na década de 60. Caio compõe uma trama metafórica da nossa busca por um sentido (ou inúmeros) em meio ao tsunami de informações de uma cultura saturada de imagens, memórias e fake news.
Em sua obra, Caio explorou visceralmente, com lirismo e humor ácido, temas como amor, cotidiano, marginalidade e sexualidade em um mundo assolado e fragmentado pela vertigem de décadas, capturando o espírito da época. Sua atualidade e importância vão além da preciosidade literária; têm uma dimensão simbólica, já que, no período, questões de diversidade sexual, identidade e gênero ganhavam protagonismo no debate público. Ele ultrapassa o que se chamou de literatura marginal ou maldita, e a produção em diversos gêneros literários reverbera até hoje com suas inquietações afetivas, existenciais e políticas do hic et nunc.

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Ao longo de sua trajetória, Caio construiu uma escrita profundamente marcada pela experiência subjetiva e pela sensibilidade urbana. Em contos, romances, crônicas e textos para teatro, sua obra permanece firme como território de reconhecimento para novas gerações de leitores, o que fica evidente com sua intensa circulação no século 21, quando a cultura digital é o deus ex machina. Fragmentos, frases e passagens de seus livros são constantemente compartilhados nas redes sociais, ampliando o alcance da produção, transformando sua figura num ícone cultural que ultrapassa o circuito estritamente literário e mantendo viva a presença do autor no imaginário coletivo. Caio é pop.
Ele foi um escritor que soube transformar experiências íntimas em linguagem universal. Sua obra permanece como testemunho sensível do que ele pensava e sentia ao escrever sobre afetos que se equilibravam numa estabilidade instável e sobre identidades/gêneros em contínua transformação. Caio foi precursor de debates que ocupam lugar central na reflexão cultural — e essa singularidade sempre teve a dissidência, o inconformismo e a rebeldia como faróis em meio à atmosfera carregada dos anos de chumbo. Eram tempos de urgências e Caio ofereceu epifanias para os leitores ao retratar a urbanidade célere.
Arquivo emocional
Sua literatura segue revelando, a cada interpretação, a força de um vocabulário tão pessoal que, paradoxalmente, também nos pertence. Suas palavras parecem ter sido concebidas para o futuro, que, na verdade, é um presente contínuo. Três gerações após sua partida, sua obra se consolida como força crítica e sensível, mesmo que, durante sua vida, sua escrita tenha sido associada a uma literatura confessional ou geracional. O distanciamento histórico permite o reconhecimento da complexidade estética do autor, que transformou a experiência íntima em substância literária. Um testemunho que é um arquivo emocional das inquietações de um Brasil que mostra a sua cara para ver quem paga, até hoje, para a gente ficar assim.
É preciso reforçar uma característica literária que contribui para a atualidade e a permanência da obra: sua vasta correspondência. O gênero epistolar — em sua maioria, confidências e desabafos no caso de Caio — cria uma relação de proximidade entre autor e leitor. Zuenir Ventura comenta, na orelha da compilação de cartas de Caio, que ele “fumava que nem um condenado e quando não sabia o que dizer murmurava um & tudo & tal”. Publicado pela Aeroplano, em 2002, com organização e introdução de Italo Moriconi, Caio Fernando Abreu: cartas conta quase quinhentas páginas e ordena a correspondência cronologicamente, como um “romance fragmentado” do panorama da vida literária no Brasil entre os anos 70 e 90.
A sua escrita se desdobra no século 21, quando a cultura digital é o ‘deus ex machina’
Os destinatários eram a fina flor não só das letras, mas também da música, do teatro e da televisão: Adriana Calcanhotto, Bruna Lombardi, Cida Moreira, Flora Süssekind, Guilherme de Almeida Prado, Hilda Hilst, João Silvério Trevisan e Maria Adelaide Amaral, entre outras personalidades que agitavam o cenário cultural e hedonista do período. E todos os seus leitores: em agosto de 1994, em sua coluna quinzenal de crônicas no Estadão, Caio quebrou um tabu ao revelar, com extrema franqueza, ser portador do vírus da Aids e compartilhou as consequências físicas e emocionais. “Cartas para além dos muros” foi um soco na sociedade e no mundo das letras — ele rompia o estigma e o silenciamento sobre a doença que o assolava, assim como a inúmeras pessoas.
Astrologia
É notória a paixão de Caio pela astrologia, que deve ser entendida no contexto da efervescência da chamada geração x (os nascidos entre 65 e 81), principalmente a que atravessou a década de 70 e a posterior, marcada pela contracultura, pelo ativismo, por confissões, desejos, inquietações e uma intensa busca espiritual como forma de autoconhecimento.
A ficção é povoada por personagens em estado de transição, como planetas em órbita
Surgia um ambiente fértil para a astrologia como linguagem possível para interpretar e traduzir as emoções, relações e os caminhos pessoais. Não à toa a ficção de Caio é povoada por personagens em estado de transição, como planetas em órbita. Vide o conto emblemático “O dia em que Urano entrou em Escorpião”, em Morangos mofados — publicado pela Brasiliense, em 1982, e reeditado pela Companhia das Letras, em 2019 —, e o livro Triângulo das águas, publicado um ano depois. Caio confere à sua literatura um caráter quase oracular, como se cada narrativa fosse uma tentativa de decifrar (e devorar) os sinais invisíveis da vida. Como afirma a cantora Cida Moreira, sua amiga de longa data, “nesse mundo completamente distópico, o Caio continua sendo uma referência de beleza, delicadeza e loucura. Ele era muito fiel a si próprio, incrivelmente fiel. Esse era o Caio”.

Assim como Cida, Caio tornou-se grande amigo, no começo da década de 70, da carioca Claudia Lisboa, uma das astrólogas mais renomadas da época. O primeiro encontro foi em Porto Alegre, por intermédio de uma turma de amigos em comum. Numa conversa sobre a paixão dele por astrologia, Claudia relembrou que Caio estudava astrologia com Emma Brepohl Costet de Mascheville (1903-1981), “mais conhecida como Dona Emy”. “Triângulo das águas é dedicado a ela. O volume reúne três contos relacionados aos signos de Peixes, Escorpião e Câncer. Ele pretendia escrever os outros triângulos — o da terra, o do ar e o de fogo —, mas infelizmente não deu tempo”, relembra. A astrologia foi um grande motor da vida de Caio, inclusive como escritor. Claudia lembra que ele dizia sempre: “eu escrevo para não enlouquecer”.
Nunca imaginei que eu estaria frente a frente com Caio Fernando Abreu, em seu quarto
“Nós somos fruto da mesma inspiradora, da mesma mentora, que transformou a astrologia tradicional em uma astrologia contemporânea, que ela chamava de astrologia humanista. Um entendimento do simbolismo do céu, dos movimentos e das equações que ele forma para que possamos entender nossas angústias, nossa criatividade, nossos questionamentos e possibilidades. O Caio, com o Sol em Virgem na casa 12, é um amigo dos valores femininos, numa artesania que se dá não somente através das palavras, mas da sua própria espiritualidade”, completa Claudia.
Caio & eu
Maceió, Alagoas, 1983. Eu tinha catorze anos e lia Morangos mofados. Caio Fernando Abreu tinha 34 anos quando publicou o livro que, para mim, foi um romance de formação. Retrata as angústias, os desejos e a solidão nas metrópoles, aborda temas lgbtqia+ e tem como contexto histórico a redemocratização pós-ditadura.
Corta. Nunca imaginei que, já morando em Campinas (SP), doze anos depois, eu estaria frente a frente com o autor, em seu quarto, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre (RS), num inverno de 1995, junto à fotógrafa Dominique Torquato. O motivo: uma entrevista com Caio para o extinto jornal Diário do Povo, do qual eu era repórter de cultura. Isso só foi possível pela intermediação de Hilda Hilst (1930–2004), que eu havia conhecido no final de 1990 e com quem havia passado a morar e trabalhar na Casa do Sol, atual Instituto Hilda Hilst.
Caio sabia que eu era o “novo pupilo” de Hilda, o novo residente na casa, e tinha ciúmes de mim, mesmo sem ainda ter me conhecido ao vivo. Ele viajava muito e, quando estava na Europa, enviava cartões-postais e cartas, e algumas vezes ligava para ela. Geralmente era eu que atendia o telefone e chamava Hilda, que vinha alegre conversar com ele. Ela dizia: “Ju, não liga para a secura do Caio. Ele é ciumento. Tenho certeza que uma hora vocês vão se encontrar e ele vai se encantar com você”. Lembro que, nos dois primeiros anos com Hilda, eu ia com o Dante Casarini — seu ex-marido, que continuou a viver com ela, como um dos amigos mais próximos, mesmo após o fim do casamento — na caixa postal, na sede dos Correios em Campinas (na época não havia carteiro na área rural da cidade). Uma vez ou outra, tinha um cartão do Caio enviado da Alemanha, França ou Holanda, países em que fez residências ou leituras, com bolsas que ganhou em 1992 e 1993.
Primeiro e único
Tanto ele quanto eu sabíamos um do outro, mas era nosso primeiro encontro ao vivo. Rolou match e conversamos muito sobre Hilda, literatura, vida e morte. Logo no início da entrevista, Caio disse a Dominique que não queria ser fotografado, principalmente devido às lesões ao lado do nariz decorrentes do sarcoma de Kaposi (um câncer que afeta as células dos vasos sanguíneos e linfáticos, causando manchas ou nódulos azulados ou roxos na pele). Ele estava bem debilitado por causa das complicações relacionadas ao HIV, que na época era uma sentença de morte.

Mas Dominique conseguiu convencê-lo, reforçando que só iria fazer fotos em preto e branco ou em sépia, na contraluz, perto da janela, com poucos registros de rosto e com closes da sua mão e do seu quarto. Numa entrevista que a fotógrafa deu para alunos da PUC de Campinas, em novembro de 2016, ela relata nossa jornada até a publicação da entrevista exclusiva para o caderno de artes e cultura Plural:
Fomos para Porto Alegre entrevistar e fotografar o Caio. Chegamos de manhã muito animados e fomos direto para a casa dele, um sobrado com janelas e um jardim bem cuidado; batemos na porta e a mãe dele nos atendeu dizendo que ele não estava muito bem no momento, mas que ia nos atender dali a algumas horas. Resolvemos dar uma volta no entorno e retornamos depois do horário do almoço; subimos para o andar onde era seu quarto, que tinha uma cama de casal antiga e era cheio de fotografias nas paredes, onde encontramos o Caio sentado na cama com as pernas cruzadas e fumando um cigarro.
As imagens que acompanham este texto são fotografias feitas na ocasião que permaneceram inéditas.
Eu havia me preparado muito para a entrevista e tinha um foco: seduzir Caio, impressioná-lo e desfazer toda a atmosfera de ciúmes. E assim foi. Passamos a tarde toda juntos. Com o título “Há montes de coisas para organizar; vou deixando as coisas acontecerem”, a entrevista foi publicada no dia 13 de agosto de 1995, menos de sete meses antes da morte de Caio, aos 47 anos, no dia 25 de fevereiro do ano seguinte. Na matéria original, havia um texto complementar com depoimento de Lygia Fagundes Telles (1918-2022).
Elegante e assertivo
Para este texto, conversei com Cida Moreira, que, além de grande amiga de Caio, foi vizinha dele. Ela lembra que se conheceram no início da década de 70, numa viagem de verão para Porto Alegre. Foram apresentados por um ator de teatro, amigo em comum. Tempos depois, Caio passou temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a amizade se consolidou. Cida menciona os releases que Caio escreveu para os seus primeiros discos, no começo dos anos 80, e discorre sobre a personalidade e o cotidiano do escritor. “O Caio, no dia a dia, era um homem muito discreto, elegante e recolhido; às vezes ele passava por fases em que não queria ver ninguém e por fases em que tinha uma vida social muito forte, que ele adorava”, lembra. “Ele gostava de estar com muita gente e não gostava de estar sozinho. Ele fumava muito e ouvia música o tempo inteiro; não gostava de televisão. Falava muito baixo e era muito assertivo com as palavras.”
‘Ele foi embora como o gigante que sempre foi. Soube viver e soube morrer’, diz Cida Moreira
Cida conta de quando, no começo da década de 80, levou Caio até a Casa do Sol. Ele era fascinado por Hilda, a quem considerava a maior intelectual do país, e ambos tinham uma ligação muito forte com a astrologia e o esoterismo. “Quando fui levá-lo, tive certeza que aquele era o ambiente perfeito para ele: sóbrio, isolado, longe das loucuras coletivas.”
Quando foi diagnosticado com Aids, Caio estava em uma residência na França e, segundo Cida, “telefonou para todos os amigos contando que estava com o vírus”. Logo depois retornou a São Paulo, onde ficou internado no hospital Emílio Ribas. A situação se complicou e ele resolveu voltar para a casa dos pais, onde permaneceu até morrer.
Cida rememora seu último encontro com ele, em setembro de 1995, quando ela estreou em Porto Alegre, junto com Denise Stoklos, um espetáculo sobre Jorge Luis Borges, num festival de teatro: “O Caio foi na estreia, com todos os cuidados, com enfermeiro e tudo. Sentou-se num cantinho do teatro — e até hoje eu tenho a imagem do Caio muito debilitado, mas ao mesmo tempo grandiosamente sentado ali, um gigante. E, para mim, foi assim que ele foi embora, como o gigante que sempre foi. Ele soube viver e soube morrer”.
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