Hafez na corte de Shah Shoja Mozaffari, de Husayn Taher-zadeh Behzad (1887-1962)(Reprodução)

Poesia,

O melhor vinho de Shiraz

Em tradução inédita do persa para o português brasileiro, poemas de Hafez celebram o desejo e o êxtase místico

22jul2026

Vez por outra, aparecem livros pequenos que são, na verdade, imensidões a caminho de um mundo novo: minúsculos na matéria, continentes na potência. Claro que tudo isso depende da recepção, no presente ou no futuro, de um público leitor que perceba esse descompasso. É precisamente esse o caso de Da taverna ao paraíso, antologia brasileira do poeta persa Hafez de Shiraz (c. 1325-1390), com tradução e notas de Nicolas Voss, jovem doutor que em 2024 defendeu sua tese sobre o assunto.

O delgado volume de 96 páginas pode não chamar muita atenção entre as lombadas nas prateleiras onde começa a pousar; no entanto, é um grande, enorme feito poético, tradutório e editorial no Brasil, que preenche uma lacuna de séculos e apresenta novidades trazidas de outro milênio. Trata-se, afinal de contas, da primeira tradução direta do persa da poesia de Hafez para o português brasileiro, prefaciada elogiosamente por Marco Lucchesi e Paulo Henriques Britto, que buscam dar alguma noção da importância de tais obras na cultura persa e mundial, bem como da qualidade da tradução brasileira.

Infelizmente, até o momento, a recepção da poesia clássica persa no Brasil tem sido magra e esparsa. Nomes absolutamente fundamentais, como Ferdusi (c. 940-c. 1020), Omar Khayyam (1048–1131), Nezami (1141-1209), Rumi (1207-1273) e Saadi (1210-c. 1291), continuam sem tradução no país ou contam com pouquíssimas: na maior parte, são traduções indiretas, a partir do inglês e do francês.

Retrato de Sam Mirza, príncipe e poeta safávida do Irã, de Sultan Muhammad, circa 1527. Cópia do manuscrito do Diwan, de Hafez (Reprodução)

Era esse o caso da obra de Hafez, que entre nós existia apenas numa seleção de 1944, intitulada Os gazéis de Hafiz, e em outra de 1946, chamada Vinho, vida e obra de Hafiz e Saadi, ambas feitas a partir do francês, pela pena de Aurélio Buarque de Holanda, que não conseguia atingir linguisticamente vários aspectos da poesia persa no original e, portanto, não buscou recriar nem mesmo parte deles em sua tradução. Foram, afinal, dois volumes de tiragem pequena, que tiveram o importante papel de apontar caminhos tradutórios para quem tomasse para si o desafio linguístico, cultural e poético de recriar poesia persa em português brasileiro. Um desafio que aguardou oitenta anos para ter uma primeira resposta à altura.

De cor

Khajeh Shams-od-Din Mohammad Hafez Shirazi, mais conhecido em português como Hafez ou Hafiz, é, sem sombra de dúvida, um dos pontos mais altos atingidos pela poesia persa de todos os tempos. Ele foi capaz de depurar a tradição persa num verso ágil, simbólico, sensual e conceitual que reformulou todo o campo poético de seu tempo. Tanto fez que recebeu reconhecimento do público ainda em vida, acumulou imitadores ao longo dos séculos e se tornou um nome central da literatura persa, a ponto de receber no Irã um dia específico em comemoração à sua poesia (12 de outubro) e de muitos iranianos até hoje saberem seus poemas de cor. Talvez essa seja a mais profunda marca que um poema pode deixar nas comunidades do futuro.

Sonoridade

Como testemunha ocular e auditiva, confesso que eu mesmo tive a rara oportunidade de escutar, numa fria noite suíça, no cantão de Zurique, mais especificamente na Casa de Tradutores Looren, um tradutor iraniano, cujo nome hoje me foge (para meu desgosto, talvez para sempre), recitar Hafez comovidamente, num ritmo cadenciado que beirava uma cantilena, e depois ensinar a todas as pessoas presentes na sala os rudimentos do alfabeto persa.

Recordo também a impressão coletiva da mera escuta daquela sonoridade incompreensível, das rimas recorrentes, que num ritmo bem marcado, iam costurando uma trama, que depois ele traduziu, um tanto improvisadamente para nós, ao inglês. Talvez seja a coisa que mais ficou daquela noite de muitas conversas e poemas recitados: o som de Hafez e a confirmação de que ele continuava vivíssimo na memória de um povo.

Ele foi capaz de depurar a tradição num verso ágil, simbólico, sensual e conceitual

Para além do impacto contínuo em sua própria terra e língua, o Diwan (Divã), obra provavelmente póstuma que compila suas obras, causou assombro em poetas ocidentais da estatura de Johann Wolfgang Goethe, que compôs todo o seu Divã ocidento-oriental (este sim traduzido ao Brasil por Daniel Martineschen) como uma espécie de resposta tradutória e criativa à poesia de Hafez. Outras figuras notáveis também tiveram sua trajetória alterada pela leitura de traduções desses gazais: é o caso de Henry David Thoreau e Walt Whitman nos Estados Unidos, ou de William Butler Yeats na Irlanda, para nos determos em poucos nomes.

O que eles encontraram nessa obra e que pode ainda hoje nos fascinar é um composto complexo de imagens típicas da poesia amorosa, com a celebração do desejo e do vinho; porém, ao mesmo tempo, confluídas no tradicional jogo de ambiguidades do sufismo (uma corrente mística e contemplativa do islã), que acaba por produzir uma interpretação esotérica, na qual, por exemplo, a lua é também a beleza do ser amado, que é também uma figuração do divino; na qual uma ruína física é também uma alma destroçada; na qual, enfim, o vinho é sinônimo não só da embriaguez alcoólica proibida pelo islã, mas do êxtase místico súfi, bem como a antiga bebida sagrada do zoroastrismo persa, ainda vendida efetivamente em Shiraz por algumas comunidades.

Veja-se, por exemplo, o poema que abre a antologia:

Traz a taça, meu copeiro, e me verte mais um vinho.
Porque amor parece fácil, mas lá vem o descaminho.
Por seus sinuosos cachos sopra a brisa matutina.
No aguardo de tal almíscar, como sangram os amigos!

Tinge o tapete com vinho se o velho mago mandar.
Hás de saber, peregrino, a lei que dita teu caminho.

Na estância do meu amado já não encontro um abrigo.
Bradarem ouço os cincerros, a cáfila está partindo.

Trevas e ondas tão ferozes, turbilhão e vendaval!
O que sabeis de nós, costas-leves em mares tranquilos?

Eu sempre segui meu peito, e lá se foi o meu bom nome.
Como esconder os meus feitos, se a grei faz tanto alarido?

Se a presença dele queres, Hafez, então não te escondas.
Quando achares quem desejas, faz do mundo um esquecido.

Ao todo, são 33 poemas; neles, desejo e sabedoria, mundanidade e transcendência são oposições entrelaçadas numa trama imagética e sonora refinada que recebe a cuidada tradução poética de Voss.

Fragmento amoroso

Na apresentação ao trabalho, “Traduzir Hafez”, Voss explica que o termo “gazal” designa um poema lírico breve de origem arábica. No começo da tradição pré-islâmica, o gênero funcionava como um fragmento de tom amoroso chamado qasida, que foi se desenvolvendo ao longo dos séculos 12 e 13, incorporando outras temáticas. Com isso, podemos entender, ainda que de modo introdutório e breve, como Hafez entrou nessa tradição e ampliou os temas do gazal, ao mesmo tempo que situava seus versos numa espécie de Shiraz imaginária, repleta de místicos, ébrios e libertinos, porém igualmente povoada por alusões aos tempos turbulentos em que Hafez viveu, com trocas de reinados, guerras e violência generalizada.

Importante também é a rápida explicação sobre as diferenças métricas da poesia persa (baseada na oposição entre sílabas longas e breves, ao passo que o português utiliza tônicas e átonas) e sobre o emprego do radif (o refrão ou bordão formado por uma palavra ou fraseado que se repete junto à rima, assim dando forma às estrofes), outra prática sem equivalente típico na nossa tradição vernácula.

Nessa sequência, ganha clareza o modo como Voss argumenta sua escolha por dialogar com formas da tradição trovadoresca galego-portuguesa, a fim de recriar os padrões de metro e rima da obra persa. O resultado é, assumidamente, uma adaptação, que oscila entre estrangeirização e domesticação de formas culturais tão distantes do público brasileiro. São aproximações que começam a mapear caminhos, tal como os trabalhos de Michel Sleiman e outros na poesia de língua árabe.

Uma página do Diwan de Hafez, apresentando um retrato de Sam Mirza com uma amante, desfrutando da dança e da música. Pintada para Mirza por volta de 1533. Coleção particular em Cambridge, Massachusetts (Reprodução)

Não menos relevante nessa introdução é o fato de Voss comentar como o gênero não é marcado na língua persa. Nos poemas de Hafez, nunca sabemos ao certo se o amado do poeta é masculino ou feminino. Nesse aspecto, apesar de assumir que a tradição interpretativa do gazal sempre apontou para um amado masculino e que poderia nos levar a uma leitura homoerótica da obra, Voss é certeiro ao traduzir variando o gênero em português, por vezes aplicando formas mais abstratas (“figura amada”), ou pouco marcadas (“bem-querer”), por vezes assumindo o masculino ou o feminino. Ao fim dessa leitura tradutória, encontramos amores variados, que podem assumir força carnal ou mística, bem como encarnar homens e mulheres, num mundo que parece o tempo inteiro se oferecer e se velar num mesmo gesto. Assim, parte da abertura interpretativa é recriada no presente.

Para encerrar o volume, o tradutor apresenta algumas notas, que ajudam a elucidar certas passagens mais difíceis para o público brasileiro. Fica a sensação de que, num livro tão conciso, não faria mal termos algumas páginas a mais, que nos dessem ao menos alguns rudimentos de interpretação de cada um dos poemas. O livro, no entanto, busca uma abertura poética, e deixa a filigrana para outras leituras, como da própria tese de Voss.

Novo continente

Seja como for, o livrinho em questão é um passo promissor a nos oferecer um Hafez que finalmente se torna um poeta no português do Brasil. Esperamos ver em breve também uma boa antologia de Jahan Malek-Khatun, autora que Voss já andou traduzindo em sua tese de doutorado, para assim podermos ter também publicada uma poeta mulher à altura do melhor da poesia persa.

Divisamos um longo caminho a trilhar, cartografado por mais traduções e mais autorias. Nesse sentido, o Hafez de Voss é o primeiro horizonte de um continente novo que já se anuncia, e é uma maravilha. 

Quem escreveu esse texto

Guilherme Gontijo Flores

Poeta, tradutor e ensaísta, escreveu Brasa enganosa (Patuá), l’azur blasé (Kotter/Ateliê) e carvão : : capim (Editora 34).

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