Autobibliografia,

Muito prazer, Orides

Flip faz homenagem a Orides Fontela, mas quem ganha é você — que vai descobrir, se é que já não descobriu, uma autora imensa e pouquíssimo lida

22jul2026

Conheci Orides Fontela em Ipanema, embora nada possa ser menos Orides do que Ipanema.

Impossível imaginar a garota de São João da Boa Vista, cidadezinha paulista encarapitada na serra da Mantiqueira, passando num doce balanço a caminho do mar justamente no mais mundano e galhofeiro dos bairros cariocas.

(O modelo de poeta local era Vinicius de Moraes, com suas farras, diminutivos carinhosos e casamentos em série, verso e reverso de Orides e sua timidez, fúria ocasional e aparente celibato.)

Porém, a poesia é impossível e só existe o impossível. Existia, também, a Dazibao. 

A pequena pero cumplidora livraria ficava na rua Visconde de Pirajá, 571. Eu morava no número 559 e passava por lá quase todos os dias. Numa dessas, avistei Trevo: a sobrecapa de acetato, marca da coleção Claro Enigma, fazia o livro brilhar em meio aos outros volumes.

Nunca tinha ouvido falar da autora daquela coletânea, que reunia Transposição, Helianto, Alba e Rosácea. Mas já sabia de Antonio Candido, que na orelha garantia estar ali “a quintessência das melhores linhagens modernas e a capacidade de lhes imprimir um cunho pessoal inconfundível”.

Por bem menos que isso já cedi a impulsos consumistas mais frívolos. Desde então, não perdi mais seu rastro lírico e filosófico, pois tudo que Orides precisa é de uma chance. 

Quem resiste a versos como “Eis a carta dos céus: tudo/ se move”, “A mente/ mente/ e o corpo/ (ah)/ consente”, “Não amo/ o espelho: temo-o” ou “Margem de/ erro: margem/ de liberdade”?

Sua escrita selvagem e contida, metafísica e concreta, parece não ter sofrido qualquer angústia da influência — noves fora os acenos a Drummond. Também não deixou marca evidente em quem veio depois.

Ainda guardo Teia, seu quinto e último livro, na edição original de 1996 — embora essa e todas as obras anteriores estejam em meu exemplar de Poesia reunida, publicada uma década depois pela 7Letras em parceria com a Cosac Naify. 

Ou seja, tenho duas versões de todos os seus livros. Sou um acumulador de Orides. Mas Orides nunca é demais.

Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.

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