Autobibliografia,

Make Orwell Fiction Again?!

Como o Grande Irmão, 1984 de George Orwell está em todos os lugares — tevê, cinema, meme e até Carnaval

26fev2026

Não quero parecer paranoico, mas George Orwell está de olho em você.

A mim, pelo menos, ele não dá folga. E não só nas vinhetas de tevê anunciando mais uma edição do Big Brother, o Grande Irmão de seu livro mais célebre.

Esbarro com a obra do escritor britânico por todos os cantos. Até no Carnaval.

No fim de semana, enquanto suava num bloco em homenagem a Gal Costa, a bateria deu a deixa para a cantoria: “Meu amor/ Tudo em volta está deserto, tudo certo/ Tudo certo como dois e dois são cinco”.

A faixa do disco –Fa-tal- Gal a todo vapor faz referência a um dos trechos mais conhecidos de 1984. Winston é torturado por O’Brien, que mostra os quatro dedos da mão esquerda e pergunta:

– Quantos dedos tenho aqui?

– Quatro?

– E se o Partido disser que não são quatro, mas cinco… Quantos?

– Quatro.

Depois de uma persuasiva sessão de choques, ele enfim se convence de que, pensando bem, às vezes dois e dois devem ser cinco — como cantei debaixo de confete e serpentina.

Longe do calor das ruas, no ar-condicionado de um cinema na avenida Paulista, vi o documentário Orwell: 2 + 2 = 5. Desde o título, 1984 é a principal referência do filme de Raoul Peck.

A novilíngua do romance, por exemplo, aparece no filme com Vladimir Putin chamando de “operação militar especial” a Guerra da Ucrânia ou nos “fatos alternativos” de Donald Trump.

Aliás, agorinha mesmo, em meio ao scroll infinito das redes sociais, vejo um camarada vestindo uma camiseta com o meme estampado: “Make Orwell Fiction Again” – uma MOFA com o movimento MAGA.

As histórias de Orwell, claro, nunca foram exclusivamente ficção. 1984 já era hiper-realista na primeira publicação, em 1949: uma lente de aumento escrutinando o fascismo, o nazismo e o stalinismo.

(Só Marshall McLuhan antecipou com a mesma clareza o pouco admirável mundo novo que começava a se formar em meados do século passado — e que deu no capitalismo de vigilância desta nossa aldeia global.)

1984 está na minha estante desde 1989. Parecem cinco anos de atraso em relação ao próprio título, mas esse livro está sempre adiantado.

Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.

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