Autobibliografia,

Coisa de hippie

Entre antropologia, invencionice e alucinógenos, Carlos Castaneda entrou no cânone do desbunde com livros como Uma estranha realidade

31mar2026

Não era fácil ser careta no Rio de Janeiro dos anos 1980.

O cardápio psicoativo daqueles dias oferecia latas de maconha encalhadas nas praias da Zona Sul, chá de trombeta colhida nos arredores das cachoeiras de Visconde de Mauá e cogumelos azuis com denominação de origem controlada do pasto da Universidade Federal Rural.

Uma estranha realidade também passava de mão em mão em rodinhas suspeitas.

A capa antecipa a psicodelia do livro: um homem com roupas ocidentais e um sol no lugar do rosto caminha no ar; um indígena de sombrero levita entre árvores e montanhas, também suspensas no vazio; uma queda d’água jorra de uma fenda no céu.

O homem é Carlos Castaneda, antropólogo da Universidade da Califórnia. O indígena, Don Juan, velho xamã do noroeste do México. O delírio da cena, efeito da mescalina, alucinógeno presente no peiote, cacto utilizado em rituais do povo yaqui.

Aldous Huxley já havia aberto as portas da percepção, mas ninguém falava de sabedoria ancestral quando Castaneda foi atrás dos ensinamentos de Don Juan — ele queria ser um “homem de conhecimento”, capaz de ver a realidade além das limitações do método científico e da lógica cartesiana.

O encontro rendeu A erva do diabo, lançado no emblemático ano de 1968. Três anos depois, o reencontro deu em Uma estranha realidade

Ainda viriam outros dez títulos, como Viagem a Ixtlan e Porta para o Infinito, somando mais de 8 milhões de exemplares vendidos em dezessete línguas. Todos ainda no catálogo da gigantesca Simon & Schuster, a despeito da controvérsia que envolve o autor desde sua estreia editorial.

A pesquisa etnográfica não passava de invencionice, embora Castaneda insistisse que fazia antropologia e não literatura. Don Juan provavelmente nunca existiu. 

Seus livros foram transferidos da seção de “Ciências Sociais” para “New Age”. 

Mesmo assim, ajudaram a definir a era do desbunde, com seu prensadão de Ocidente e Oriente, espiritualidade e filosofia, estados alterados de consciência e paisagens exóticas. Uma mistura irresistível quando se tem dezoito anos: fumei, mas não traguei.

Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.

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