Ilustrações de Daniel Caballero

Literatura brasileira,

Guia para se perder melhor

Italo Moriconi utiliza diferentes abordagens para ajudar na leitura de um dos maiores romances brasileiros de todos os tempos

01ago2026 | Edição #108

Setenta anos depois de publicado, Grande sertão: veredas segue célebre por dois motivos principais: por ser uma obra-prima — romance único, universal, grandioso, inovador — e pela propalada dificuldade de leitura que oferece. 

O romance logo causou pasmo no meio literário brasileiro. Em carta a Fernando Sabino, assim que o livro foi publicado, Clarice Lispector exclamava: “Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos!”. E confessava: “Estou até tola […]. Fico até aflita de tanto gostar”. Poucos dias depois, em outra carta, a Rubem Braga, a escritora voltava ao tema: “Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e estou fascinada, é tão bom que nem tenho adjetivo”. Mas Clarice não estava sendo original, afinal esse foi o tipo de reação mais comum entre os leitores de Grande sertão ao longo daquele ano. 

Na crítica literária não foi diferente. Em um dos primeiros comentários sobre o livro, Antonio Candido, que nem sempre era elogioso nas suas resenhas, imediatamente reconheceu, na primeira linha do seu texto, que “o romance é uma das obras mais importantes da literatura brasileira”. Para o crítico, o livro transformava a realidade brasileira particular em substância universal, como acontece com os clássicos. Ao aliar refinamento técnico e força criadora, Rosa concebeu uma história que “não segue modelos, não tem precedentes”. 

Junto a declarações como essas, surgiram alegações, cada vez mais e frequentes, mesmo na crítica, sobre o desafio de enfrentar a leitura do calhamaço. No ano da publicação, o crítico Múcio Leão escreveu que a linguagem do romance é “dificílima”, por se tratar de uma “língua nova, inacessível à maioria dos leitores, senão a todos eles”. Confessou que ele próprio, leitor experiente, mesmo tendo achado o livro “pura delícia”, encontrou muitas dificuldades: “Iniciei-lhe a leitura várias vezes, e desanimava logo às primeiras páginas”. 

Para o crítico, a dificuldade nascia não da temática nem da extensão da narrativa, mas da linguagem totalmente inventiva do autor. Passou a apreciar mais a leitura ao compreender que devia ler o livro como se fosse escrito em uma espécie de língua estrangeira. 

Esse duplo estatuto da recepção do romance, em diferentes perspectivas, acompanhou as leituras e os comentários sobre o livro, cujo aniversário é comemorado com novas edições, traduções e uma série de textos críticos, entre os quais um pequeno volume que busca servir justamente como “resumo guia” da intrincada história de Riobaldo.

Trata-se de Para ler Grande sertão: veredas, do crítico literário carioca Italo Moriconi. A classificação dada pelo próprio autor — “Um diário pessoal, um resumo guia” — designa bem a que se propõe: oferecer um roteiro de leitura principalmente para os leitores mais desavisados. E, antes disso, é um diário de leitura no qual o crítico compartilha anotações fragmentadas que fazia ao ler o “romanção” de cabo a rabo. 

O crítico literário carioca Italo Moriconi (Divulgação)

Na explicação inicial do volume, Moriconi esclarece que o seu livro é uma espécie de “díptico”, composto de duas partes independentes, mas relacionadas entre si. Diz que o diário, que vem primeiro, narra sua “primeira experiência de leitura completa do romance […], já em plena idade madura”, aos setenta anos, enquanto a segunda parte “pretende-se mais objetiva, apresentando um resumo comentado do romance, destinado a servir de guia auxiliar de leitura para quem também se aventura a ler pela primeira vez a grande obra de João Guimarães Rosa”. 

O leitor pode explorar uma ou outra parte, ou as duas, indiferente à ordem. Cada uma delas conta com mais ou menos cinquenta páginas, o que confere ao livro uma leveza que destoa dos volumes tradicionais de crítica, mas também alguma superficialidade.

Métodos

Moriconi elucida que quis escrever um livro útil e simples. Procurou ler o romance de Rosa não como um especialista, chegando a confessar que nunca o havia lido antes, mas segundo um “método selvagem”, de acordo com a sua própria expressão, ou simplesmente um método “impressionista”, “entre a hora da lição e a hora do recreio”. O autor pouco dialoga, por exemplo, com a imensa e variadíssima fortuna crítica do livro, embora chegue a citá-la aqui e ali, sendo o seu diário repleto de comentários como este: “Não tive ânimo de tirar da estante-fetiche e abrir uma das obras magnas da fortuna crítica de Grande sertão”. 

Para ler Grande sertão: veredas destoa do vocabulário crítico tradicional e, em diversos momentos do diário, o autor se permite usar expressões como “broderagem”, para se referir à relação entre Diadorim e Riobaldo, que sente vontade de “pegar” o amigo jagunço. Passa algumas páginas justificando que, no “corre do dia a dia”, não é fácil enfrentar as mais de seiscentas páginas da edição. Comenta “posts que leu não sei de quem”. O estilo pode ter certa graça — chega a soar provocativo — e a ideia parece ser a de escrutinar o “classicão” de Rosa com a rubrica do professor, assim como encenar uma prática amadora e supostamente mais livre de leitura.

Há vantagens e desvantagens no método. Por um lado, conforme reconhece o próprio crítico, não há a promessa de “nada especial” em seu livro. Por outro, a abordagem garante a Moriconi algumas liberdades que certamente não teria caso seguisse os protocolos acadêmicos de leitura.

A narrativa tem leveza, que destoa da crítica tradicional, mas também alguma superficialidade

Um exemplo é que a forma do diário lhe permite voltar atrás em interpretações e mesmo em preconceitos nutridos por ele sobre o romance — como é o caso da “gastura” que lhe dava, nas tentativas de leitura anteriores, o “discurso carola de Riobaldo”, seu tom “excessivamente beato”. Ele se dá conta, ao avançar na leitura de Grande sertão, que não é exatamente disso que se trata.

O estilo diarístico também permite ao autor tocar em temas sensíveis da obra sem maiores prestações de contas com a crítica. Por exemplo, ao se perguntar sobre um tema de que grande parte das interpretações do romance passou ao largo: “Qual valor ou interesse intelectual pode ter para os leitores do nosso século um romance de amor gay enrustido, escrito para reafirmar a moral heteronormativa?”. Nessa perspectiva, Moriconi faz comentários sob a clave da androginia, do travestismo, “cuir ou queer, não binárie”. Seja como for, não chega a elaborar com profundidade nenhuma dessas questões. 

Na segunda parte, autointitulada “resumo guia”, o crítico divide o texto em sete subpartes, que são organizadas sob a forma da paráfrase da trama, que, como se sabe, é farta de personagens e subtramas. Nessa parte, repleta de spoilers, naturalmente, o estilo do autor fica mais comportado, mas não chega a alcançar grande densidade crítica — acrescentando pouco aos leitores mais habituais do romance. 

Para quem nunca leu Grande sertão, sem dúvida o guia proposto por Moriconi pode orientar a leitura e ser esclarecedor, tendo em vista que a narrativa de Riobaldo, como o próprio crítico observa, não é nada linear — a história se inicia pela metade dos acontecimentos, in media res, ou melhor, “no meio do redemunho”, e só depois de umas duzentas páginas o narrador passa a relatar a sua infância e a vida antes da jagunçagem, o que costuma confundir muitos leitores de primeira viagem. 

Moriconi também relembra e comenta alguns dos episódios e das situações mais marcantes do romance: a paixão entre Riobaldo e Diadorim, o célebre julgamento de Zé Bebelo, as principais batalhas no sertão, o improvável encontro do protagonista com o Diabo, entre outros. E traça um perfil dos principais personagens, que é útil. Ele trata pouco, no entanto, da linguagem intrincada e inventiva de Rosa, que mereceria algum tipo de atenção em um livro dessa natureza.

Seja como for, o guia de Moriconi chega para suprir uma lacuna importante nas leituras do romance. E também para lembrar que nunca é tarde para enfrentar um dos maiores monumentos da literatura brasileira.

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Guia para se perder melhor”

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