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Transcrição: Marina Lima, Arthur Nogueira e Alice Sant’Anna no podcast 451 MHz

Em uma homenagem ao poeta Antonio Cicero, Marina Lima lê poemas do irmão e conta histórias da parceria deles em encontro com Arthur Nogueira, Alice Sant’Anna e Bruna Beber

02jul2026

Esta edição traz uma homenagem ao poeta Antonio Cicero, morto aos 79 anos, em 23 de outubro de 2024. Os convidados são a cantora Marina Lima, sua irmã e parceira musical, o compositor Arthur Nogueira e a poeta Alice Sant’Anna. Eles se juntam à colunista do podcast Bruna Beber para ler poemas de Cicero incluídos na coletânea Fullgás: poesia reunida, publicada pela Companhia das Letras. Ouça a seguir e saiba mais aqui.

Leia a transcrição: 

Paulo Werneck [PW]:

Oi! Está começando o episódio #168 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Marina Lima [ML]: 
Por mais que ele admirasse outros grandes escritores, poetas e letristas, o que ele escrevia era sobre a vivência dele, sobre aquilo que tocava ele.

PW:
Bom, essa voz que você acabou de ouvir é uma das mais marcantes da música brasileira. É da cantora e compositora Marina Lima. Eu já vou te falar um pouco mais sobre ela, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet. Mas antes de apresentar os nossos convidados de hoje, eu tenho um recado da Associação Quatro Cinco Um pra você.

PW: 
Bom, a Marina Lima dispensa apresentações, como diz o clichê, né? Ela é uma das cantoras mais queridas do Brasil e uma das mais tocadas na minha vitrola ao longo de toda a minha vida. E esse ano eu tive o privilégio de contar com a presença dela n’A Feira do Livro, que é o festival literário que a gente faz aqui em São Paulo no mês de junho, em parceria com a Maré Produções, lá no Pacaembu. 

Marina Lima n’A Feira do Livro 2025 (Flavio Florido/A Feira do Livro)

A Marina participou de uma das mesas mais emocionantes, que é uma homenagem ao grande poeta Antonio Cícero, irmão dela e autor de muitos poemas que viraram músicas inesquecíveis na voz da Marina e também de outros intérpretes, por exemplo, o “Fullgás”, para começar, e “À francesa”. É esse encontro que a gente publica hoje aqui no 451 MHz. O Cícero morreu no dia 23 de outubro de 2024 — já está fazendo um ano — aos 79 anos. E foi uma morte muito diferente da que a gente está acostumado, porque ele escolheu morrer em uma clínica especializada nessa morte assistida de pessoas que estão muito doentes e que preferem ter um fim digno. E essa notícia impactou muito os leitores do Cícero e muito mais gente ainda pensando no fim da vida. E para lembrar um ano dessa perda, mas também dessa grande figura que está viva na nossa cabeça de leitor, a gente preparou um episódio diferente: a Marina Lima lendo a poesia do Cícero com três grandes leitores dele. O compositor, cantor e poeta paraense Arthur Nogueira, a poeta e editora Alice Sant’Anna e a poeta e colunista aqui do 451 MHz, Bruna Beber. Ela foi a mediadora do encontro, além de ler os poemas e falar do Cícero também. 

Marina Lima, Alice Sant’Anna, Bruna Beber e Arthur Nogueira na homenagem a Antonio Cicero (Flavio Florido/A Feira do Livro)

Cada um deles escolheu cinco poemas da coletânea Fullgás: poesia reunida que foi lançada este ano pela Companhia das Letras para ler e comentar. Essa coletânea, inclusive, ela é lançada junto com os áudios dos poemas que o próprio Cícero gravou antes de morrer. Vejam só que beleza esse cuidado que ele teve de gravar toda a poesia dele na própria voz antes de morrer para publicar isso postumamente. Então, vamos lá para a primeira parte dessa homenagem ao Antônio Cícero.

Bruna Beber [BB] : 
Uma alegria imensíssima estar aqui com o Arthur, com a Alice e com a Marina. A gente vai começar com a palavra do poeta. Então, a gente vai fazer a leitura. Marina, por favor, quer começar?

ML: 
Pediram para a gente escolher cada um cinco ou seis poemas para ler do Cícero. Então, eu vou começar com o primeiro que eu escolhi, que foi a razão de iniciarmos a nossa parceria. Porque, como a maioria de vocês sabe, o Cícero é meu irmão, dez anos mais velho que eu. Desde que eu nasci, que ele existe. Éramos três, ele, um do meio com cinco anos de diferença e o Cícero. E numa das viagens dos meus pais e nossas, meu pai viajava muito para fora… Numa das viagens, o Cícero com 26 e eu com 16, eu estudando música no conservatório, e ele estudando lógica matemática na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. 

Nessa viagem, nesse período, ele com 26 e eu com 16, nós dormíamos no mesmo quarto, porque tinha um hóspede na casa, então dividimos o quarto. E um dia, eu acordei e havia no chão vários papéis, jogados assim, e eu peguei um, na beira da cama escrito “alma caiada”. E eu estava aprendendo música no conservatório e tal, leitura de música, falei: “olha, um soneto!” E tal, era fácil de musicar. Então, eu peguei e coloquei música naquele soneto. E a partir dessa indiscrição, “furto”, como ele diz, deu-se a nossa parceria. A partir dali, nos encontramos, ficamos, além de irmãos, amigos, cúmplices, parceiros, pelo resto da vida. Então, eu queria começar lendo esse soneto que eu encontrei no quarto e que eu musiquei, que foi o início de toda a minha parceria com Cícero. 

Chama-se “Alma caiada”, e aqui no livro, “Canção da alma caiada”. 

Canção da Alma Caiada

Aprendi desde criança

que é melhor me calar

e dançar conforme a dança

do que jamais ousar

mas às vezes pressinto

que não me enquadro na lei:

minto sobre o que sinto

e esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar:

sem me poder vencer,

tento afogar no mar

o fogo em que quero arder.

De dia caio minh’alma.

Só à noite caio em mim:

por isso me falta calma

e vivo inquieto assim.

Alice Sant’Anna [AS]: 
Boa tarde a todas, a todos. Eu estou muito feliz e muito emocionada de estar aqui. É uma honra enorme. Muito obrigada pelo convite, Paulo, Arthur, Bruna, Marina. Eu vou ler o primeiro poema do primeiro livro do Cícero, Guardar, que é um poema muito conhecido, talvez o mais famoso dele. É uma responsa, mas, enfim, é só para as pessoas lembrarem desse poema maravilhoso e que não se esgota. Se chama “Guardar”. 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não

  se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto

                 é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,

velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela

                                    ou ser por ela.

          Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

                         Do que pássaros sem vôos.

  Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se

                          declara e declama um poema:

                                     Para guardá-lo:

            Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

                  Guarde o que quer que guarda um poema:

                              Por isso o lance do poema:

                       Por guardar-se o que se quer guardar.

BB: 
“Solo da paixão”. 

“O solo da paixão não dura mais que um dia antes de afundar, não mais que esta noite ou esta noite e um dia e o clarão da noite antes de amargar. Um dia solar eu vou lhe entregar: Que ela seqüestre o mundo por um dia (um dia só será que já vicia?) Depois devolva tudo: terra, céu e mar.”

Arthur Nogueira [AN] : 
Boa tarde! “Balanço”. 

A infância não foi uma manhã de sol:

demorou vários séculos; e era pífia,

em geral, a companhia. Foi melhor,

em parte, a adolescência, pela delícia

do pressentimento da felicidade

na malícia, na molícia, na poesia,

no orgasmo; e pelos livros e amizades.

Um dia, apaixonado, encarei a minha

morte: e eis que ela não sustentou o olhar

e se esvaiu. Desde então é a morte alheia

que me abate. Tarde aprendi a gozar

a juventude, e já me ronda a suspeita

de que jamais serei plenamente adulto:

antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos

os deuses façam felizes e maduros

Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.

ML: 
Eu escolhi um poema curto. O título é“Síntese”. Mas é porque, como nós somos, temos o mesmo DNA, e sinto o que ele está falando. Eu acho esse poema lindo. Chama-se “Síntese”. É assim:

“Pai, mãe, céu, chão. Mãe, céu, pai, chão”

Eu vou ler um poema que é uma canção que todo mundo aqui conhece. Então, eu vou tentar ler sem cantar para o bem dos ouvidos de todos aqui, mas nem todo mundo sabe que essa música maravilhosa foi escrita pelo Cícero. Então, acho que vale o recado. Chama-se “Inverno”. À Susana Morais. 

“No dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir de lá pra cá não sei caminho ao longo do canal faço longas cartas pra ninguém e o inverno no Leblon é quase glacial. Há algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei? Lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só no deserto sem saudades, sem remorsos, só, sem amarras, barco embriagado ao mar. Não sei o que em mim só quer me lembrar que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois pouco antes do ocidente se assombrar.”

BB: 
Eu vou ler um poema que também é uma canção, foi gravado, não é tão conhecido. Mas, é um dos poemas do Cícero que eu mais amo, se chama “Quase”. 

“Por uma estranha alquimia (você e outros elementos) quase fui feliz um dia. Não tinha nem fundamento. Havia só a magia dos seus aparecimentos e a música que eu ouvia e um perfume no vento. Quase fui feliz um dia. Lembrar é quase promessa, é quase quase alegria. Quase fui feliz à beça mas você só me dizia: ‘Meu amor, vem cá, sai dessa’.”

AN: 
“Buquê”, para Sérgio Luz.

 “Ó Sérgio, Sérgio, somos ainda crianças. Nossas almas são novas. Não chegamos a adquirir antigas ciências. Dizem que o que destroça de tempos em tempos nossas crenças são catástrofes, que nos impedem de amadurecer. Mas quem se lembra mesmo ou se importa se, ao que parece, o que nasceu merece morrer? Desprezar a morte, amar o doce, o justo, o belo e o saber: esse é o buquê. Ontem nasceu o mundo. Amanhã talvez pereça. Hoje viva o esquecimento e morra o luto.”

ML: 
“Onze e meia”. 

“Quando a noite vem um verão assim abrem-se cortinas varandas janelas prazeres jardins. Onze e meia alguém concentrado em mim no espelho castanho dos olhos vê finalidades sem fim. Não lhe mostro todos os bichos que tenho de uma vez. Armo o circo com não mais do que uns cinco ou seis leão camelo garoto acrobata e não há luar e os deuses gostam de disfarçar.”

AS: 

Eu vou ler um poema que é uma letra das minhas músicas preferidas da vida, acho que de muita gente aqui também. É “À francesa”. 

“Meu amor se você for embora sabe lá o que será de mim, passeando pelo mundo a fora na cidade que não tem mais fim. Ora dando fora, ora bola. Um irresponsável pobre de mim. Se eu te peço para ficar ou não, meu amor eu lhe juro que não quero deixá-lo na mão e nem sozinho no escuro. Mas os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro. Meu amor não vai haver tristeza. Nada além de fim de tarde a mais. Mas depois as luzes todas acesas. Paraísos artificiais. E se você saísse à francesa, eu viajaria muito mais, muito mais.”

BB: 
“Sair”. 

“Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia – mergulharam até a próxima aurora; a noite está radiante e Deus não existe nem faz falta. Tudo é gratuito: as luzes cinéticas das avenidas, o vulto ao vento das palmeiras e a ânsia insaciável do jasmim; e, sobre todas as coisas, o eterno silêncio dos espaços infinitos que nada dizem, nada querem dizer e nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.”

AN: 
“Huis Clos”. 

“Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosch (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos a tempo: por não considerarmos as saídas disponíveis dignas de nós, que em meio a fezes e urina, sangue e dor nascemos para lendas, mares, amores, mortes serenas.”

ML: 
Esse é um poema curto também, mas tão inteligente. Chama-se Voz

“Orelha, ouvido, labirinto: perdida em mim a voz de outro ecoa. Minto: perversamente sou-a.”

AS: 
“O país das maravilhas”. 

“Não se entra no país das maravilhas pois ele fica do lado de fora, não do lado de dentro. Se há saídas que dão nele, estão certamente à orla iridescente do meu pensamento, jamais no centro vago do meu eu. E se me entrego às imagens do espelho ou da água, tendo no fundo o céu, não pensem que me apaixonei por mim. Não: bom é ver-se no espaço diáfano do mundo, coisa entre coisas que há no lume do espelho, fora de si: peixe entre peixes, pássaro entre pássaros, um dia passo inteiro para lá.”

BB: 
“Diamante”. 

“O amor seria fogo ou ar em movimento, chama ao vento; e no entanto é tão duro amar este amor que o seu elemento deve ser terra: diamante, já que dura e fura e tortura e fica tanto mais brilhante quanto mais se atrita, e fulgura, ao que parece, para sempre: e às vezes volta a ser carvão a rutilar incandescente onde é mais funda a escuridão; e volta indecente esplendor e loucura e tesão e dor.”

Arthur Nogueira
Eu vou ler um poema que está nessa sessão no livro de inéditos, e tem uma historinha que eu gostaria de contar rapidamente, que foi um dos momentos mais especiais que eu pude viver com Cícero. Num dia na pandemia, cada um na sua casa, a gente se falava quase sempre por telefone, e num desses dias, eu falei para ele que o Brasil, era como se o Brasil estivesse se perdendo, o que significava o Brasil e o que nós somos. E eu falei para ele: “vamos fazer uma canção sobre isso?” E ele disse que ele não tinha condições de escrever, que ele estava deprimido, e aí eu insisti, ele disse que não, e desliguei. E aí, eu senti que ele ficou assim um pouco também chateado de não topar. E aí, no dia seguinte, quando eu acordei de manhã cedo, eu abri o meu e-mail e tinha um e-mail dele que dizia assim: “ontem acabei escrevendo.” E fizemos uma canção que se chama Brasileiro profundo. “Um brasileiro profundo, é o que sou. Tenho em mim todas as raças e nenhuma. Tenho em mim todos os sexos e nenhum. Tenho em mim todos os deuses e nenhum.”

Bruna Beber
Vamos pra última rodada de leituras.

Marina Lima
“O fim da vida”. “Conhece da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.”

Alice Sant’Anna
“Presente” a Eucanã Ferraz. “Por que não me deitar sobre este gramado, se o consente o tempo, e há um cheiro de flores e verde e um céu azul por firmamento e a brisa displicentemente acaricia-me os cabelos? E por que não, por um momento, nem me lembrar que há sofrimento de um lado e de outro e atrás e à frente e, ouvindo os pássaros ao vento sem mais nem menos, de repente, antes que a idade breve leve cabelos sonhos devaneios, dar a mim mesmo este presente?”

Bruna Beber
Eu vou ler um da sessão de inéditos e esparsos também que eu conheci essa semana, quando eu fui ler o Fullgás. “Sofá”. “Depois de um almoço gostoso logo ao chegar em casa, não penso em deitar-me na cama perfeita do nosso quarto, mas sim no sofá tão belo e nas almofadas fofas da sala. Lembrando o passado recente e o antigo passado e o futuro iminente e o promissor futuro da gente e em sonhos de pensamentos sobre árvores, penes e tudo me perco e me acho em poemas como este”

Arthur Nogueira
E pra terminar, da sessão de inéditos também, é um poema que o Marcelo encontrou no escritório do Cícero, que eu acho que resume bem três amores, grandes amores do Cícero, o mar, no sentido poético também, não só físico, Marina e Marcelo, que ambos contém o mar. Então, ele fez um poema que diz assim: “Mar. Ontem, ao mergulhar passei horas a viajar junto a Marina, Marcelo e o mar. Junto a Marcelo, Marina e o mar.”

Bruna Beber
Ainda não acabou, tem um pouquinho. Agora, a gente vai falar desse livro um pouco. Estamos aqui também em virtude do lançamento da obra reunida do Antônio Cícero, e esse livro que se chama Fullgás. Eu acho que ele representa também quão indissociável é a Marina do Cícero, e o quanto essa parceria lítero-musical tão profunda e tão bela compõe, na minha opinião, uma das obras mais relevantes da música popular brasileira. E a Marina, em 21 discos, o seu parceiro mais costumeiro é o Cícero. E como já soubemos que o poema da Alma caiada foi encontrado no chão, e com isso a Marina desmentiu uma história que o Cícero contava que havia sido numa gaveta, já sabemos que a parceria não começou com um furto, começou com um tropeção, um encontro.

Marina Lima
É, mas essa coisa de ele dizer que… Ele criou essa história depois, porque, ele é mais velho, né? Vaidoso. Então, o homem, né? [Risadas] “A minha irmã mais nova foi na minha gaveta.” Isso nunca aconteceu, mesmo, realmente. Mas, eu dizia: “Cícero, para de ficar falando isso!” E ele: “não…” Mas, enfim, agora eu estou aqui para desmentir! [Risadas] 

Mas eu queria te falar, Alice, que é da Companhia das Letras, que eu fiquei tão feliz de ver… Porque esse livro são poesias reunidas, Cícero escreveu três livros de poesias, fora toda a produção de letra de música comigo, com vários parceiros… Mas eu fiquei feliz e emocionada do livro de poesia reunida dele se chamar Fullgás, porque “Fullgás” é o nome de uma canção nossa. Até, Bruna, você me perguntou como foi, né? Foi o seguinte, a gente estava compondo para esse disco que é o quinto disco da minha carreira, eu tenho 23 discos. Então, no quinto disco da minha carreira, e a gente, nos primeiros, sei lá, os primeiros quinze discos, a gente compunha sem parar. Tudo era desculpa e motivo para encontrar, conversar, se abrir, beber, sair, dançar… Uma loucura, né? 

O Cícero me aproximou da poesia, e eu a ele da música. Mas quando a gente compunha, ele gostava de botar letra em melodias que eu criava. Ele gostava de me ouvir cantar, cantarolar uma melodia já com ritmo… Porque música é matemática, ela é rítmica. Música é o ritmo um, dois, três, quatro, semitom, tom, tal. E poesia é o ritmo, e poesia também, de certa maneira, é ritmo também. O que você quiser inventar. Então, eu tinha acabado de compor, com bateria eletrônica e uma melodia, a música de “Fullgás”, e a gente estava sentados os dois num tapete branco assim, num estudiozinho que eu criei pra gente criar, pra gente poder trabalhar juntos, os dois no chão do estúdio, fumando, bebendo uísque e tal, e eu cantarolando a música e ele começando a botar letra, e quando ele chegou na parte que ele falou assim: “tudo em você é fugaz, tudo você é quem lança.” Ele tinha escrito “fugaz”, F-U-G-A-Z, “fugaz” em português, né? E eu fui criada, alfabetizada em inglês primeiro, eu fui para os Estados Unidos com 5 anos de idade, e o Cício já tinha 15. Então, eu falei… Então, quando ele falou “fugaz”, eu falei: “Hm, vamos falar ‘fullgás’?” De tanque cheio, full gas e ele gostou. Aí, ele escreveu Fullgás. Então, eu fiquei feliz, fiquei emocionada e honrada do livro de poesia dele se chamar Fullgás.

Bruna Beber
Vamos falar um pouco, então, da edição, Alice? Você como poeta, leitora do Antonio Cícero, e há alguns anos editora dele, fala um pouco de como foi fazer esse livro.

Alice Sant’Anna
Puxa, eu estou muito feliz de saber que você ficou contente, Marina.

Marina Lima
É uma coisa linda, achei maravilhoso, a capa, tudo.

Alice Sant’Anna
Essa capa é uma obra do Luciano Figueiredo, né? Que é um grande artista plástico e foi um amigo muito próximo do Cícero, e esse livro só foi possível porque ele teve muitas pessoas maravilhosas e muito ligadas ao Cícero. Bom, Marina, para começar, Luciano Figueiredo, o Arthur, foi um parceiro fundamental, sem o Arthur não teria livro, e o Marcelo Pies, que é o parceiro da vida toda do Cícero, e é uma pessoa espetacular, que foi muito bacana e atencioso.

Marina Lima
Ele gosta muito de você, te admira muito.

Alice Sant’Anna
Imagina, eu que sou fã.

Marina Lima
Alice, o posfácio da Noemi também, que é maravilhoso.

Alice Sant’Anna
Exatamente, o posfácio da Noemi Jaffe.

Marina Lima
Maravilhoso.

Alice Sant’Anna
É maravilhoso, exato. A Noemi foi fundamental, porque ela consegue fazer um panorama dos três livros do Cícero.

Marina Lima
É, ela é poeta também. Você também é poeta, não é?

Alice Sant’Anna
Eu sou.

Marina Lima
É poeta sim, e soube o que das boas!

Alice Sant’Anna
Imagina. Mas é isso. E acho que também vale dizer do apoio do Mariano…

Arthur Nogueira
Eu li o livro dela, Acrobata.

Alice Sant’Anna
Ai, meu Deus! [Risadas]

Arthur Nogueira
Eu olhei e vi!

Alice Sant’Anna
Obrigada! E só para falar também do incentivo do Omar Salomão E do Mariano Marovatto, que foram pessoas que deram muita força. E é isso! É um livro que foi feito a muitas mãos, pela equipe da Companhia das Letras, e estou muito contente.

Marina Lima
A Bruna também está aqui, que é uma excelente poeta também, está aqui mediando a gente… Tudo isso, o Cícero, ele atraía pessoas interessantes, ele era muito interessante, muito talentoso, ele atraía pessoas especiais, com particularidade, sabe? Então, estar aqui é um grande prazer, fico muito feliz! Obrigada, viu?

Bruna Beber
E o Arthur que é cantor, compositor, também poeta, publicou livros de poesia. E o Arthur também fez a seleção das letras, que foram inseridas aqui na parte final daPoesia reunida. E o Arthur também gravou um disco só de parcerias dele com o Cícero, que virou um show. Na verdade não é um disco, é um show.

Arthur Nogueira
É, quando ele fez setenta anos.

Bruna Beber
Esse foi o disco de 2016, não foi?

Arthur Nogueira
Foi.

Bruna Beber
E recentemente você fez o show que é “Arthur Nogueira canta Antônio Cícero: embarque para Citera”. E você fez esse show em São Paulo, e está viajando com ele por aí. Então, conta um pouco dessa parceria.

Arthur Nogueira
Olha, o Cícero foi meu maior amigo e meu maior parceiro. Mas eu acho que tudo que a gente fez junto partia de uma amizade, de um encontro, que foi muito legal para os dois. Então, nunca foi sobre “vamos fazer canções” ou “vamos fazer livros”. Não, as coisas aconteciam. Às vezes, a gente estava em um lugar e chegava alguém e dizia: “você podia fazer uma reunião das suas entrevistas.” Ele dizia: “o Arthur faz.” E era assim que as coisas aconteciam com a gente. Quando surge um convite para fazer uma canção para Gal, e várias coisas que aconteciam da nossa amizade. E eu conheci o Cícero quando eu era adolescente, eu tinha 14 anos, eu estava querendo começar a compor, fã da Marina, fã do Cícero, e aí fui em um evento que ele estava fazendo em Belém, onde eu nasci. E na fila de autógrafos, ele ficou impressionado ao ver uma criança, eu tinha 14 anos ali, me deu o e-mail dele e disse que eu poderia procurá-lo com dúvidas. E assim a gente começou a se corresponder. Então, eu sempre homenageei o Cícero porque ele foi a pessoa que esteve desde essa idade, desde os 14 até agora. 

Então, eu não poderia fazer outra coisa que não agradecê-lo e homenageá-lo, sempre. Então o show, esse show e todas as outras coisas, são uma forma de lidar com a ausência dele e também de agradecer por tudo que ele fez. Então daí tem esse show, tem canções, tem um livro de entrevistas dele que eu organizei, tem, enfim… A gente tem também um material inédito, nós dois no palco do Sesc Pompeia, que eu pretendo lançar como um trabalho, um álbum ao vivo. Então, a gente fez muita coisa, eu tive o privilégio dessa amizade.

Bruna Beber
Se a Marina quiser ler o Manifesto fullgás, eu acho que a gente fecharia essa mesa com a chave correta.

Marina Lima
Quando eu fiz o disco Fullgás, eque a gente estava compondo para o disco… Acho que eu lancei em 1984… Acho que foi 1984, eu pedi ao Cícero para a gente criar um manifesto, porque quando a gente surgiu, quando eu surgi, havia muito no Brasil uma coisa da música popular brasileira, e eu era mais pop, eu era 10 anos mais nova da geração que estava ali dominando tudo, e eu queria música pop. Então, a minha musicalidade era diferente, e também a poética dele também era diferente. Porque o que ele escrevia não parecia… Por mais que ele admirasse outros grandes escritores, poetas e letristas, o que ele escrevia era ele. Era sobre a vivência dele, sobre aquilo que tocava ele. Então, eu falei: “vamos fazer um manifesto!” Distinguindo o nosso trabalho do que há por aí, para não acharem que a gente… Já quem não gosta implica. Vamos dizer que realmente somos diferentes, vamos explicar, vamos falar sobre isso. Então dentro do disco — que era um era LP ainda na época, foi antes do CD — vinha esse papel com o manifesto, escritos Fullgás. Dizia assim… Fizemos juntos, claro que ele dando um tom, mas houve uma frase ou outra… Tudo era muito junto, era importante a mistura da gente, sabe? Dava um swing, uma textura diferente. A minha pretensão é a dele. 

Então, o manifesto: 

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes. Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia. Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua “ordem”. E a ordem dos caretas e, e sempre foi, a da fidelidade às tais “raízes” ou “purezas” ou sabemos lá o que… Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer “arte”, mas de viver. Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave… Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um. Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente. Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da “vanguarda” sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais “vulgar” que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo. Fullgás.”

Bruna Beber
Viva Antonio Cícero! Viva Marina Lima! Muito obrigada pela presença de todos.

Paulo Werneck
E antes de me despedir Eu quero passar para o quadro do 451 MHz que traz o melhor da literatura LGBTQIA+ de todos os tempos. LGBTQIA+ dignifica lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. Nesse quadro, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores. A dica de hoje é do escritor e poeta Caetano Romão. Ele é autor de Escrevo seu nome no arroz, que foi publicado em 2025 pela Fósforo. Ele conversou com a gente lá n’A Feira do Livro desse ano e indicou o escritor chileno Pedro Lemebel, que morreu em 2015, cuja obra chegou ao Brasil oito anos depois com a coletânea de crônicas Poco hombre. Esse livro foi organizado pelo espanhol Ignacio Echevarría, traduzido pela Mariana Sanchez e publicado pela Zahar, do grupo Companhia das Letras.

Caetano Romão
Olá, pessoal! Meu nome é Caetano Romão, eu sou escritor e poeta e estou aqui para deixar uma indicação de um poeta LGBT maravilhoso, que me inspira bastante, que é o Pedro Lemebel. Um escritor, cronista, performer que escreveu ali durante o período da ditadura militar no Chile e depois. Ele tem uma obra extremamente visceral e disruptiva.

Paulo Werneck
Então, essa foi a dica do Caetano Romão, o escritor chileno Pedro Lemebel, autor de Poco hombre, que foi publicado em 2023 pela Zahar, na tradução da Mariana Sanchez.

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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]