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Transcrição: especial Fernando Pessoa no podcast 451 MHz 

Episódio narrativo investiga a vida e o legado do poeta português nos noventa anos da morte do autor

02jul2026

No 174º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros investiga a vida e o legado de um dos maiores poetas do século 20. Conhecido por versos antológicos e mais de cem heterônimos — uma experiência única na história da literatura —, Fernando Pessoa é um quebra-cabeça que vem intrigando e cativando gerações de estudiosos, artistas e leitores. E, segundo o especialista Jerónimo Pizarro, boa parte da obra segue inédita. Ouça a seguir e saiba mais aqui:

Leia a transcrição:

Maria de Medeiros

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Paulo Werneck
Oi! está começando mais um episódio do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda semana a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Hoje a gente tem um programa diferente. Nesse episódio especial em formato narrativo, a gente vai falar de um poeta que foi muitos: Fernando Pessoa. Mas antes de mais nada, eu preciso te dizer que esse episódio tem apoio do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, e também da Lei Rouanet, incentivo a projetos culturais.

A gente tá publicando esse programa nos 90 anos da morte do Fernando Pessoa. É isso mesmo, num sábado, 30 de novembro de 1935, morreu em Lisboa, aos 47 anos, o redator e tradutor de cartas comerciais Fernando António Nogueira Pessoa. As homenagens nos jornais tentaram um tom mais poético para fazer as honras ao falecido. O Diário de Lisboa anunciou assim: “morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, fugindo à publicidade e afogando-se na morte discretamente, tal como passara na vida”. Já no Diário de Notícias, foi assim: “tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.” Hoje, essa mesma pessoa, é incontestavelmente um dos maiores poetas do século 20, ou do século 21, talvez. Já não é mais o mesmo Pessoa.

O poeta português Fernando Pessoa em 1928 (Arquivo Manuela Nogueira/Casa Fernando Pessoa)

Maria de Medeiros
E essa criança, para quem, de alguma forma, os heterônimos amigos imaginários, não é?

Eduardo Gianetti
Ele tinha muito pouco cuidado com a saúde e morreu cedo.

Ida Alves
Uma educação em língua inglesa, de cultura e valores ingleses. Ele pensava também em inglês.

José Saramago
Eu julguei que havia, de fato, um poeta que se chamava Ricardo Reis. Durante alguns meses, acreditei firmemente que era uma pessoa, de fato. Mais tarde que eu soube que era apenas um heterônimo do Fernando Pessoa.

Eucanaã Ferraz
É uma espécie de amigo, né?

Jerónimo Pizarro
Nunca esperou ter uma vida de grandes viagens, de aventuras, de estar em cargos importantes, em ter uma vida diplomática.

Leonardo Gandolfi
Por que o Fernando Pessoa é quase um autor brasileiro também?

Guia turística
Classificado como um caso de esquizofrenia literária.

Paulo Werneck
Muitos escritores mortos são homenageados nas efemérides de data redonda que nem essa. Vão ficando parecidos com aquelas estátuas de bronze que a gente vê nas praças e nos parques e, na verdade, mal repara. Só que com o Fernando Pessoa não é bem assim. Até porque, diante dele, a indiferença é impossível. Daria para dizer que o Pessoa ainda está vivo, muito vivo, em vários sentidos.

Maria de Medeiros
O que nós vemos das coisas são as coisas. Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra? Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos. Se ver e ouvir são ver e ouvir? O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê, nem ver quando se pensa.

Paulo Werneck
A gente convidou a Maria de Medeiros para ler alguns poemas e trechos da prosa do Fernando Pessoa nesse episódio especial.

Maria de Medeiros

Maria de Medeiros
Sou Maria de Medeiros. Sou portuguesa, sou atriz e diretora de cinema, de teatro. Faço música às vezes também.

Paulo Werneck
A Maria de Medeiros está em cartaz no papel de Fernando Pessoa numa peça chamada PESSOA — Since I’ve Been Me, que tem direção de ninguém menos que o Bob Wilson, o grande diretor de teatro que morreu em julho desse ano. Essa peça já passou por Florença, Lisboa, Paris, e em 2026 vai até para Luxemburgo. Mas ainda não tem previsão de estrear no Brasil. Então vamos lá, pessoal, dar um jeito de resolver esse problema, né? Essa relação artística não vem de hoje. Em 1991, a Maria de Medeiros adaptou textos do Pessoa para o cinema.

Fotografia da peça “Pessoa – Since I’ve been me” (Lucie Jansch/Reprodução)

Maria de Medeiros
E o que é bonito é que esse filme, que eu até tinha medo que estivesse meio perdido, a Cinemateca Portuguesa está restaurando. E acabam de restaurar de forma maravilhosa A morte do príncipe. Então, eles, claro, contatam os diretores, para os diretores seguirem os trabalhos e darem suas indicações. Então, eu tive a alegria, o privilégio de retomar contato com essa minha obra longínqua, que está linda porque com estes restauros fica uma coisa realmente maravilhosa e às vezes até permite fazer mais coisas do que a gente fazia na época.

Paulo Werneck
Desde que o filme dela saiu, lá nos anos 90, o Fernando Pessoa já se transformou muito, já é praticamente um outro Pessoa. Foram sendo publicados novos pedaços totalmente desconhecidos da obra dele. Na verdade, a maior parte dos trabalhos do Pessoa só foi publicada depois da morte dele. Poemas e textos em prosa que ninguém conhecia. Um desses textos, que foi publicado pela primeira vez há 43 anos, viralizou na boca de um outro poeta durante a Flip 2010.

Ferreira Gullar
A arte existe porque a vida não basta. É por isso que a arte existe. Porque a vida é pouca. Não nos satisfaz.

Paulo Werneck
Esse é o poeta maranhense Ferreira Gullar citando uma das suas frases mais famosas: “A arte existe porque a vida não basta”. A frase ficou famosa na Flip 2010 e desde então já virou tudo, camiseta, caneca, tatuagem, documentário… Só que tem uma coisa: essa frase originalmente é do Fernando Pessoa e não do Ferreira Gullar. E depois que essa frase viralizou, o Gullar nunca esclareceu essa informação. Ele nunca deu os créditos. Só que essa frase está lá, num texto intitulado Impermanence, que foi incluído no Livro do desassossego. “A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta.”

O meu objetivo aqui não é apontar o dedo para o Ferreira Gullar. A intenção é mostrar como o Fernando Pessoa entrou na nossa cabeça a tal ponto que às vezes parece que a gente nem percebe que ele está sempre aqui entre nós. A verdade é que a criação literária do Fernando Pessoa circula com muito mais liberdade hoje, traduzida em mais de trinta idiomas, do que na época em que ele era vivo. E a imagem que surge por trás de toda essa papelada é surpreendente. É menos um intelectual sisudo e circunspecto que a gente vê nas fotos e mais um cara brincalhão que gostava de fazer molecagem. Vamos ouvir a Maria de Medeiros.

Maria de Medeiros
Mas o que é muito interessante nesta montagem do Bob é que ele intuiu uma coisa que eu acho que é muito certa em relação ao Pessoa. Ele viu a criança, o lado absolutamente lúdico da obra do Pessoa. E, curiosamente, eu agora, claro, voltei a ler praticamente tudo e verifiquei que em todos os heterónimos, de uma forma ou de outra, surge essa criança de que ele fala, que ele deixou no caminho. O Bob foi pegar essa criança nele, não é? E essa criança, para quem, de alguma forma, os heterónimos são amigos imaginários, não é?

Paulo Werneck
Os poemas que o Pessoa publicou em vida não chegam a uma centena, mas centenas de outros foram escritos. E se para o poeta a vida não bastou, dá para perceber que a morte também não basta. Ele tinha total consciência sobre o valor do que estava escrevendo. Ele sabia que um dia ia ser reconhecido. O Pessoa, que era do tipo esotérico, chegou até a fazer mapas astrológicos para cravar o ano em que ele seria mais famoso. Segundo as contas dele, em 2198 ele vai alcançar o auge da fama, 310 anos depois de ter nascido. Só daqui a 173 anos.

Enquanto a gente espera, o 451 MHz contribui aqui em 2025 com um tijolinho a mais para essa grande efeméride. Este é o episódio especial Fernando Pessoa: todos os sonhos do mundo — 90 anos de morte. A gente ouviu grandes leitores da crítica da poesia, das artes, da pesquisa, para montar esse quebra-cabeça que parece infinito. O poeta ainda está surgindo, está se deixando conhecer folha por folha ao longo dos séculos.

O nosso poeta morreu na mesma cidade onde nasceu, Lisboa. Era sábado 30 de novembro de 1935. Não se sabe a causa exata da morte. Oficialmente, ele teve uma obstrução intestinal. Alguns falam em pancreatite, e por um tempo se falou em cirrose, hoje isso é bem contestado — mas não porque o Pessoa fosse abstêmio. 

Naquele último ano, ele sempre parava na leiteria da esquina depois do trabalho pra comprar o básico: um pão com presunto e queijo, um maço de cigarros e 300 mL de bagaceira, que é uma aguardente de bagaço de uva muito popular em Portugal. Em seguida, ele subia um lance de escada até o apartamento onde ele morava, no número 16 da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, que é um bairro de Lisboa. Depois de jantar, escrevia, fumando e bebendo, até a última gota, e então ia dormir.

Esses detalhes vêm de uma biografia minuciosa chamada Pessoa, que foi escrita pelo Richard Zenit e publicada pela Companhia das Letras em 2022, com tradução do Pedro Maia Soares. O Zenith descreve um Pessoa muito debilitado naqueles últimos meses, com muitas dores abdominais e episódios de desmaio, mas que não aceitava se tratar direito. Ele só topou ir pro hospital São Luís dos Franceses um dia antes de morrer. 

E só foi com uma condição: antes, precisava receber uma visita do barbeiro. Por isso ele foi internado de barba feita, perfeitamente escanhoado. Deu tempo até de escrever um último verso, em inglês: “I know not what to-morrow will bring.” “Não sei o que o amanhã vai trazer.” Às oito e meia da noite seguinte, ele morreu.

O funeral no Cemitério dos Prazeres, que fica a poucos quarteirões da casa dele, foi modesto. Umas sessenta pessoas estiveram presentes: parentes, escritores, editores e o pessoal dos escritórios onde o Pessoa trabalhava, escrevendo cartas comerciais em inglês e francês pra empresas portuguesas de importação e exportação. Foi um dos chefes dele, inclusive, que pagou a conta do hospital. O Pessoa era bastante conhecido no mundinho literário, escrevia críticas, fundou duas revistas literárias, mas tinha publicado pouco: alguns poemas na imprensa e o primeiro livro dele em língua portuguesa saiu no ano anterior, Mensagem, em 1934. É nesse livro, no poema “Mar português”, que tá aquele outro verso dele que também viralizou: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Definitivamente, aquele corpo de um metro e setenta e três que jazia no caixão de chumbo tinha carregado uma alma que não era nada pequena.

Não longe do cemitério, a uns dez minutos de caminhada, naquele apartamento da Rua Coelho da Rocha, estavam outros 30 mil papéis, escritos em três idiomas, espalhados pelo quarto e dentro das famosas arcas de madeira. Eram mais de cem autores esperando pela vida após a morte. A gente conversou sobre isso com o filósofo Eduardo Gianetti, que é autor de um ensaio sobre o nosso anseio pela imortalidade. Parece que o Pessoa chegou lá.

Eduardo Giannetti

Eduardo Gianetti
Mas o que mais me chama atenção na experiência, tanto da vida como na produção literária de Pessoa, é o modo como ele sonhou, a intensidade com que ele se dedicou à construção de uma perenidade por meio da sua obra escrita. Ser mais vivo depois de morto do que quando ele estava vivo. Sobreviver na história e na memória dos que vêm depois.

Paulo Werneck
Mais adiante, a gente vai ouvir de novo o Gianetti, mas agora a gente volta lá pro quartinho do Pessoa em Lisboa. A papelada dele ficava num minúsculo quarto que não tinha janela e que só contava com uma cama de solteiro, uma arca de madeira, uma mala pequena e um armário. Nesse prédio funciona hoje a Casa Fernando Pessoa, que é um espaço expositivo bem legal sobre a vida e a obra do poeta.

O defunto deixou 600 escudos de dívida na leitaria da esquina, mas não deixou testamento nem orientação sobre o que fazer com a papelada dele. Ficou a cargo da irmã Henriqueta, a Teca, pagar a dívida e guardar o espólio literário. Na tentativa de descobrir essas coisas, as pessoas embaralhavam os papéis na arca, puxando um ou outro, bagunçando todo o resto. Lentamente, aquela loucura começou a fazer sentido e muitas mãos começaram uma tarefa que o Pessoa tinha deixado para depois, organizar e publicar os seus livros. Esse trabalho dos organizadores ia ajudar a mudar a história da literatura ocidental.

Jerónimo Pizarro
Eu não conseguia perceber como é que eu passava tantas folhas, tantos documentos e continuava a encontrar apenas material inédito. Eu ainda estava a rever os planos de publicação da poesia inglesa, e as tentativas de auto-arquivação, e de auto-registro, e de organização da poesia inglesa que Fernando Pessoa a escreveu no inı́cio da sua vida, porque escreveu em inglês até 1908, e com 20 anos ainda era um poeta de lı́ngua inglesa, e claro que queria publicar os livros que tinha escrito em inglês, e mais de 200 poemas em inglês.

Paulo Werneck
Essa voz é do Jerónimo Pizarro. Ele é o maior especialista na papelada do Fernando Pessoa. O Jerônimo nasceu na Colômbia, e na juventude, durante um intercâmbio acadêmico, se apaixonou pela obra e pela vida do nosso poeta. Antes de explicar essa história de poemas em inglês, eu vou deixar ele se apresentar para vocês.

Jerónimo Pizarro

Jerónimo Pizarro
Bom, sou Jerónimo Pizarro, professor de literatura, muitas vezes portuguesa, tradutor, editor, isso é mais ou menos o que eu faço. E arqueólogo de Fernando Pessoa.

Paulo Werneck
Então, arqueólogo é mesmo uma boa definição para quem se mete a estudar esse material que foi sendo encontrado em caixas e em folhinhas soltas ao longo do tempo. Até meio recentemente, em 2015, foi encontrado mais um baú do Pessoa, esse na África do Sul, com mais de 2 mil documentos, poemas, cartas e até um livro que estão sendo estudados na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Mas vamos voltar para os papeizinhos que tinham sido encontrados lá em Lisboa.

Quando o Jerónimo chegou neles, eles estavam já microfilmados e guardados em pastas. E o Jerónimo teve que fazer um trabalho de detetive naquele espólio, comparando os mínimos detalhes, o que queriam dizer aquelas garatujas e desenhos que ele colocava. Às vezes, a cor da tinta ou o tipo de papel que foi usado trazem as pistas pra determinar a data em que uma coisa foi escrita, ou a qual livro ela pertence. E foi assim, juntando essas peças, que os organizadores como o Jerónimo foram montando o quebra-cabeça da obra do Fernando Pessoa.

Jerónimo Pizarro
Y este tiene una marca de agua como un escudo. Este tiene una que dice Graham Bond es un papel con marca de las tales ficciones del interludio…

Paulo Werneck
Então é por aí: a partir da marca do papel que o poeta usou o organizador pode dizer se um poema pertence à ficções do interlúdio, uma parte importantíssima da obra dele. Esse trechinho em espanhol é do próprio Jerónimo, num vídeo de 2018, mostrando alguns papéis do Pessoa no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal. É lá que a maior parte do espólio dele foi parar em 1979. Mas demorou um pouco até que o Jerônimo pudesse pegar com as mãos os mesmos papéis que o Pessoa manipulou.

Jerónimo Pizarro
Na primeira fase, perto de 2000, 2001, 2002, o meu trabalho foi a partir de microfilmes. E no início, passava dias a ver os microfilmes, a imprimir muitas folhas a preto e branco, a juntar dossiês imensos de folhas, a espalhar folhas pelas mesas ou pelo chão, a tentar organizar o que eu estava a reunir.

Paulo Werneck
Esse material era microfilmado, ou seja, ele era transformado numa imagem minúscula que reduzia cada folha de papel a um tamanho milimétrico. O microfilme permite o manuseio rápido de uma vasta quantidade de material por meio de uma máquina que amplia as imagens dos documentos numa tela. Isso era usado, por exemplo, para arquivar grandes coleções de jornais. Dá para ler tudo, mas um outro tipo de informação que é essencial para pesquisadores que nem o Jerônimo acaba se perdendo: a materialidade, ou seja, o tamanho, o tipo de papel, a tinta, as manchas, a cor da tinta, os sinais microscópicos… Tudo isso fica invisível no microfilme.

Jerónimo Pizarro
É como estar num quarto escuro. O que está a lápis, microfilmado, a leitura é muito, muito complexa, e poder ter o documento original, ter isso, digamos, diariamente, isso é que facilitou muitíssimo relacionar certos documentos com outros. Precisava da materialidade, dos tamanhos, da localização, de poder juntar mais papéis, não apenas no ecrã, digamos, em scrolling up and down, mas poder ter as coisas na mesma mesa.

Paulo Werneck
Já faz 25 anos que o Jerónimo Pizarro vem desbravando a papelada de Pessoa, que já virou pelo menos uns trinta livros. E além de espalhar e depois juntar essa monteira, organizar a obra do Pessoa também significa transcrever cada papelzinho, o que nem sempre era fácil. Alguns deles já estavam batidos à máquina e corrigidos. 

Outros não passavam de uns rabiscos no verso de um recorte de jornal, num envelope usado, em papel de empresas que existiam naquela época e até de empresas que só existiam na cabeça do próprio Pessoa. Pois é, o cara gostava de tirar onda criando empresas fictícias. Ele mandava até fazer cartão de visita, papel timbrado e o escambau. E esse é só um aperitivo das brincadeiras que o Fernando Pessoa gostava de inventar. Bom, mas vamos voltar para o trabalho do organizador.

O Jerónimo transcreve a ortografia do Pessoa tal qual ele escreveu, cheio de phs, letras dobradas e ípsilon. Por exemplo, o conto “o banqueiro anarquista”, que acabou de sair numa edição organizada pelo Jerónimo lá na Tinta-da-china em Portugal, tem no título um C H, “O banqueiro anarchista” — com C H no lugar do Q U. No Brasil e em Portugal, o português já passou por uma meia dúzia de reformas e acordos ortográficos diferentes desde que o Pessoa começou a escrever — e em vida ele chegou a se manifestar contra uma dessas reformas, a de 1911. 

A primeira edição de Mensagem, ignora essa nova ortografia oficial. Ao mexer com os originais de verdade, e não mais com os microfilmes, o Jerónimo conseguiu, por exemplo, determinar a ordem cronológica da escrita do Livro do desassossego. Ao publicar os livros com a ortografia usada pelo poeta e na ordem em que os textos foram escritos, o Jerónimo quer nos dar acesso ao cérebro do Pessoa, com o mínimo de interferências, quase sem filtro, pra que todo mundo possa seguir os passos do poeta. Até porque o Pessoa publicou pouco, mas tinha planos pra publicar tudo.

Jerónimo Pizarro
Fez listas gigantescas com os poemas todos que já tinha, o lugar em que tinha escrito cada poema, a data de muitos dos poemas, os que tinham sido escritos em Durban, os que tinham sido escritos em Lisboa, nesta morada, nesta outra morada, fez listas que pareciam já ser um índice de três, quatro, cinco livros diferentes e depois acabou por não publicar nenhum. E, portanto, nós temos os projetos de livros, nós conhecemos Pessoa enquanto auto-antologista de si próprio, percebemos que imaginou muitíssimos livros, que teve muitíssimos projetos, Até a pessoa brinca e diz que teve todos os projetos que podia ter tido

Paulo Werneck
Estavam lá, trancados na arca, todos os projetos de livro. E, mais do que livros, estavam lá todas as vidas que ele imaginou, todos os sonhos do mundo, os tais heterônimos, aqueles mais de cem autores trancados na arca, que podem ser até 136, segundo o Jerónimo Pizarro. A gente já vai falar mais sobre isso, mas antes vai fazer um desvio pelo Cabo da Boa Esperança. 

Uma das frases de Pessoa que a gente mais ouve por aí é aquela que diz: “minha pátria é a língua portuguesa.” Então se prepara, porque essa próxima informação pode cair feito uma bomba pra você: ele foi educado, primeiro, em inglês. E o primeiro livro que ele publicou, por uma editora criada por ele mesmo, a Olisipo, que é uma corruptela do nome romano de Lisboa, é justamente English Poems, poemas ingleses.

O Fernando Pessoa era geminiano, nascido em Lisboa em 13 de junho de 1888. Cinco anos depois, o pai dele morreu e a mãe dele, chamada Maria Madalena, casou de novo. O segundo marido dela, João Miguel Rosa, era um capitão que foi escolhido para ser cônsul de Portugal em Durban, na atual África do Sul. E a família foi toda para lá. Então, quer dizer que o Pessoa vinha de uma capital de um império que já estava em declínio, um império português, e foi viver na periferia de um outro império, que já começava uma lenta decadência. 

Durban, na época, era a capital de uma colônia britânica chamada Natal África do Sul, que hoje é a província sul-africana de Kwazulu-Natal. E com a exceção de um ano que ele passou em Portugal no meio do caminho, o Pessoa morou em Durban entre 1896 e 1905. Ou seja, ele saiu uma criança e voltou um rapaz de dezessete anos, totalmente transformado pela cultura e pelos valores britânicos. E só pensava naquilo… Isso é, só pensava em poesia.

Jerónimo Pizarro
Mais de 70% dos livros de Fernando Pessoa, da sua formação artística e intelectual, estão em inglês, uma parte está em francês, e uma parte muito, muito pequena está em português. E, portanto, a biografia, digamos, de Fernando Pessoa, quase parece a biografia intelectual de um Eliot, de um Pound. Com vinte anos, ainda sonhava e imaginava ser um poeta de língua inglesa e escrevia em inglês. Em 1908 é que começa a transição para o português, e ainda imaginou em dois ou três momentos da vida, eu acho que isso nunca teria acontecido, mas tinha parte da sua família na Inglaterra, e imaginou que deveria ir para a Inglaterra.

Paulo Werneck
Ainda que fosse parte de um mundo colonialista, o horizonte que o Pessoa conheceu em Durban parecia infinito, universal. E de lá, ao voltar pra Lisboa, ele encontrou uma coisa muito diferente, uma aldeia. Somadas, essas duas experiências marcariam a poesia dele pra sempre.

Jerónimo Pizarro
E começa a conhecer um mundo, muito, muito provinciano, não apenas politicamente, e a sentir que não encontra propriamente o seu lugar, digamos, nesse mundo pequeno, fechado, de uma certa Lisboa muito tipo aldeia.

Ida Alves
Primeiro, vamos pensar Portugal.

Paulo Werneck
Essa é a Ida Alves, que é professora do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense.

Ida Alves


Ida Alves
Portugal é um país diminuto, no canto da Europa, pobre, muito pobre, com uma população que ali no final do século 19, início do 20, tinha uma taxa de analfabetismo superior a 70%. A capital de Portugal, mesmo assim sendo capital uma cidade provinciana em relação a Paris, a Berlim, a outras cidades.

Paulo Werneck
Lisboa era uma aldeia e o Tejo era o rio que passava por essa aldeia. Só que o Pessoa, ao chegar lá, já conhecia o tamanho do mundo. Portugal, naquela época, estava passando por uma baita confusão política. No final da monarquia, que já estava muito decadente, um rei foi assassinado. A monarquia foi derrubada, depois voltou, depois caiu de novo. Os britânicos estavam cobiçando as colônias portuguesas na África. A juventude do Fernando Pessoa aconteceu durante um período muito conturbado no país e também no mundo: a Primeira República. Teve um presidente assassinado, duas revoluções, uma ditadura militar e uma guerra mundial.

Ida Alves
O Pessoa é um escritor moderno. Está ali vivendo. Ele nasce em 1888 e falece em 1935. Portanto, está no início do século 20.

Paulo Werneck
A gente está de novo ouvindo a professora Ida.

Ida Alves
E é o início de uma mudança brutal nas relações capitalistas, nas relações sociais. E é um momento muito dramático em Portugal. Houve a mudança da monarquia para a república. Uma situação política de muita crise. Em 1926, vai entrar em estado de ditadura. Adiante vem o Salazar… É um momento de muita complicação econômica, social e política no Portugal dele e no mundo.

Paulo Werneck
Aquela era a Europa da guerra, do fascismo, do descontrole na economia. Mas também era a Europa das grandes capitais, das avenidas, do modernismo. A cultura e a arte pulsavam nos cafés, nos jornais, nas revistas de vanguarda, nos manifestos futuristas. E em Lisboa não era diferente. Nos cafés do Chiado, o Pessoa encontrava os amigos pra conspirar, lançar movimentos, manifestos, inventar tendências, criar polêmicas etc. e tal. E os principais cupinchas dele eram os poetas Mário de Sá-Carneiro, que inclusive morava oficialmente em Paris, e Almada Negreiros.

Ida Alves
E esses jovens tinham formações diferentes, nós precisamos prestar atenção nisso, porque Pessoa, por exemplo, é português, nasceu em Lisboa, mas ele com cerca de cinco anos, sete anos, ele foi para a África do Sul. Portanto, a educação de pessoa é uma educação em língua inglesa, de cultura e valores ingleses, ele pensava também em inglês. Mario de Sá Carneiro, que era outro jovem, mais novo, de uma classe média alta, e que tinha a possibilidade… Por exemplo, ele estudava em Coimbra, levou chumbo no direito, e convenceu o pai que indo para a França, para Paris, ele retiraria lá o curso dele, e, portanto, vai para Paris, gasta o dinheiro do pai, não estuda nada naturalmente, mas convive com os artistas da época.

Paulo Werneck
O grupo da Orpheu incluía o brasileiro Ronald de Carvalho — que foi um dos poucos escritores que participaram do modernismo no Brasil e em Portugal, e hoje em dia é nome de rua em Copacabana. A Orpheu teve só dois números, lançados em 1915, e pra uma revista literária isso já era o suficiente pra causar um belo estrago. A Orpheu só publicava poesia. E um dos colaboradores era um tal de Álvaro de Campos.

Ida Alves
É uma revista só de poesia. Se você for ler Orpheu, você só vê páginas com textos poéticos, ou seja, não tem crítica, não tem propaganda, não tem nada disso. Mas tem um texto de abertura e eles dizem que eles são uma elite cultural, claro. Ou seja, que eles estão ali juntos num projeto autônomo, diferente, para poucos. Naquele momento Orpheu materializou esse movimento de vanguarda, esse movimento de transformação. Isso que nós chamaremos, em termos de história da arte, de modernismo. Então, realmente, em Portugal é um marco fundamental.

Paulo Werneck
É engraçado pensar que aquele que possivelmente é o poeta modernista mais influente do século 20 surgiu numa das capitais europeias mais distantes de Paris. Os caras da Orpheu destoavam muito da mediocridade a que o pessoal estava acostumado.

Ida Alves
O público da época estava acostumado com o quê? Com uma poesia tradicional, os versos, a rima, os temas, uma versão ainda tradicional, conservadora, do entendimento do que era poético. E eles trazem uma poesia, por exemplo, o Manucure do Mário de Sá Carneiro traz onomatopeias, versos que são placas de loja, que ele transcreve, ou seja, traz uma linguagem completamente diferente. Então, aqueles que leram começaram a dizer o quê? “Mas o quê que é isso? Isso não é poesia, isso é uma loucura!” Aí, por isso que começam críticas contra, dizendo: “olha, esses jovens têm que ir para o asilo de doidos.”

Paulo Werneck
Imagina só: uma revista de poesia causando escândalo na imprensa nacional, ainda mais por causa da forma de um poema. Mas aqueles eram outros tempos, e os “jovens doidos”, como o pessoal da Orpheu ficou conhecido, estavam amando tudo aquilo.

Ida Alves
Os jovens de Orpheu adoraram, porque a revista esgotou, né? Venderam os exemplares todos. A revista era feita com o dinheiro do pai do Mário de Sá Carneiro, sem ele saber, e ele bancava a gráfica da revista.

Paulo Werneck
Quando o pai dele descobriu, foi lá e cortou o dinheiro da terceira edição, que já tava até fechada. O Sá-Carneiro se mandou pra Paris mais uma vez e foi se afundando em crises pessoais e financeiras. Em fevereiro de 1916, ele escreveu pro Pessoa: “Vivo há semanas num inferno sem nome”. Em abril, aquele que era o melhor amigo de Pessoa, e um dos grandes poetas portugueses do século 20, se suicidou. Ele tinha 25 anos de idade. Em vida, o Fernando Pessoa só publicou um livro em português, Mensagem, assinado pelo seu ortônimo, ou seja, pelo próprio Fernando Pessoa.

Os livros póstumos são assinados pelos famosos heterônimos dele, uma família que ele chamava de “pequena humanidade só minha” e “uma explosão para dentro”. Os primeiros heterônimos surgiram bem cedo, ainda nos tempos de África do Sul. O mais famoso dessa época, Alexander Search, é uma espécie de alter-ego do Pessoa. Vários textos são assinados pelo Alexander Search. 

E ele ganhou até cartão de visita já em Lisboa, na primeira década do século 20, recebendo cartas em dois endereços compartilhados com Pessoa: a rua da Bela Vista à Lapa, 17, e a rua da Glória, 4. Num dia triunfal de 1914, conforme relato do próprio poeta, apareceram os três principais heterônimos do Fernando Pessoa, aqueles mais famosos, que a gente aprende na escola: Tem o Alberto Caeiro, que exalta a vida no campo. Ele é o mestre de todos os outros, um naturalista puro, que faz versos livres e uma poesia simples, sem drama. Vamos ouvir a Maria de Medeiros declamando Alberto Caeiro.

Maria de Medeiros
Só a Natureza é divina, e ela não é divina… Se às vezes falo dela como de um ente. É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens que dá personalidade às coisas, e impõe nome às coisas. Mas as coisas não têm nome nem personalidade: existem, e o céu é grande e a terra larga, e o nosso coração do tamanho de um punho fechado… Bendito seja eu por tudo quanto não sei. Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.

Paulo Werneck
Aí tem o Álvaro de Campos, engenheiro que representa o homem moderno, urbano, exuberante, de versos livres e rítmicos, como esses, bem conhecidos, de Tabacaria:

Maria de Medeiros
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Paulo Werneck
E ainda tem o Ricardo Reis, médico de profissão, poeta neoclássico, disciplinado, que só verseja em métrica rigorosa e acaba exilado no Brasil.

Maria de Medeiros
Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias. A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios.

Paulo Werneck
O Ricardo Reis também escrevia em prosa. E o Jerónimo Pizarro, em parceria com o Jorge Uribe, organizou um volume que reúne a obra completa de Ricardo Reis em verso e prosa, que acabou de sair pela Tinta-da-China Brasil, que é o nosso selo editorial aqui da Quatro Cinco Um. Essas biografias fictícias dos heterônimos, que tinham até mapa astral, são uma parte fundamental da auto mitologia criada pelo Pessoa. E com essa auto mitologia, criada meio que do nada, ele fez uma obra muito impressionante.

Como diz um poema do próprio Pessoa: “o mito é nada, que é tudo.” O núcleo central, ou seja, a obra de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, ficou conhecido como “Ficções do Interlúdio”. Interlúdio, no dicionário, significa intermédio, diversão musical, aquela apresentação do intervalo que é feita só para divertir. É engraçado pensar que uma coisa que o Pessoa levava tão a sério fosse chamada de interlúdio, ou seja, diversão, quase uma distração. Interlúdio, ficção, poesia, mitologia, jogo, brincadeira, fingimento, a obra do Pessoa era uma mistura de tudo isso. E ele se divertia muito, disso não tem a menor dúvida.

O Jerónimo Pizarro e outro pesquisador, o Carlos Pitella, reuniram algumas dessas peraltices do poeta num livrinho sensacional, Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida, que foi publicado pela Tinta-da-china em Lisboa e também aqui no Brasil, que conta e até mostra com documentos uma série de excentricidades que ele não só inventava, mas também punha em prática. O Pessoa gostava tanto de jogar que chegou a criar um jogo de tabuleiro inspirado na Primeira Guerra Mundial, em 1914. 

Ele chegou até a escrever pra uma fábrica de jogos pra oferecer a ideia. Além disso, ele gostava de criar personagens e histórias, plantava pegadinhas no jornal… Era um doido. Os heterônimos já identificados na papelada do Pessoa são mais do que quatro. O Jerónimo chegou a identificar 136 pessoas, entre heterônimos e semi-heterônimos, ou seja, aqueles que não chegaram a escrever uma obra inteira, nem tiveram a vida narrada pelo poeta, mas assinaram um poema aqui e outro ali. Ele reuniu todo esse pessoal na coletânea 136 pessoas de Pessoa, que foi publicado pela Tinta-da-china em Lisboa e também no Brasil.

Jerónimo Pizarro
Claro que estão Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, os três heterônimos. Depois, digamos, está o âmbito dos semi-heterônimos, em princı́pio apenas Bernardo Soares como autor de uma parte do Livro do desassossego, mas então ainda poderia estar Vicente Guedes, o primeiro autor do livro, ou ainda poderia estar António Moura, o filósofo do paganismo e o filósofo do grupo e que aparece nas notas para a recordação do meu mestre Caeiro e que é quase um semi-heterônimo. 

E então talvez poderia estar o autor de A educação do estóico, que já há editores que consideraram que a educação do estóico era uma parte do Livro do desassossego. Então teríamos que considerar o Barão de Teive, e depois temos ainda mais 130 autores fictícios, talvez já não heterônimos ou semi-heterônimos, mas com uma obra mais ou menos grande ou pequena ou com algum tipo de referência.

Paulo Werneck
Pra vocês terem uma ideia do ponto a que chegava a maluquice do Pessoa, ele chegou até a fingir que era um psiquiatra, o doutor Faustino Antunes. Ele mandou fazer papel-timbrado com o nome do médico e em nome dele enviou cartas pros ex-professores, ex-colegas da escola lá em Durban, na África do Sul, dizendo que precisava do máximo de informações sobre a personalidade do seu paciente, Fernando Pessoa, que passava por um tratamento. 

O pessoal respondeu, deu vários detalhes e fofocas sobre aquele carinha esquisito da escola. Isso pode parecer pura galhofa, ou, zoeira, trollagem, como a gente diz hoje em dia. Mas ele ao mesmo tempo, leva isso muito a sério. Afinal, o poeta é um fingidor que finge tão completamente que finge que é dor a dor que deveras sente. Olha lá outra citação famosa. E já teve gente real que foi engolida por essa mania. É o caso do Coelho Pacheco.

Leonardo Gandolfi
O Pessoa engole os autores, ele é tão forte que…

Paulo Werneck
Quem tá falando aí é outro poeta.

Leonardo Gandolfi
Meu nome é Leonardo Gandolfi, eu sou professor de literatura portuguesa na Universidade Federal de São Paulo e também sou poeta autor de livros e poemas. O último publicado pela 34, chamado Pote de mel e outros poemas.

Leonardo Gandolfi

Paulo Werneck
O Gandolfi acabou de ganhar o prêmio Literário Biblioteca Nacional 2025 com esse livro, Pote de mel. Agora vamo voltar à história do Coelho Pacheco.

Leonardo Gandolfi
Durante algum tempo, tinha um poema do Pessoa chamado Para além de um outro oceano, assinado por Coelho Pacheco. Esse poema estaria no terceiro número de Orpheu, que o Pessoa organizou, mas que não saiu. E lá no final tinha, Para além de um outro oceano, de Coelho Pacheco para Alberto Caeiro. Olha, Alberto Caeiro nunca tinha nem publicado nenhum poema. Então, assim, quem é que pode saber quem é Alberto Caeiro? É só o Pessoa. E o poema é um poema longo, meio Álvaro de Campos misturado com Ricardo Reis. Então, é o Pessoa. E assim foi. Foi publicado nas edições áticas, na parte lá do semi-heterônimo, das personagens, Coelho e Pacheco.

Nos anos 90, foram descobrir que o Coelho Pacheco existia, que era uma pessoa, que era uma adolescente na época, que depois abandonou a literatura, foi ser representante da Chevrolet em Portugal, uma coisa assim. Tinha uma loja de carro. Ele morreu, dizem que ele morreu em 1940 e tanto… Enfim, ele morreu sem saber que ele tinha virado heterônimo. Não é fantástico isso?

Paulo Werneck
A constelação dos heterônimos de verdade é complexa. Tem vezes que eles conversam entre si ou com pessoa, se alfinetando ou se elogiando. E tem vezes que eles pulam da página. É o caso esquisitíssimo do Álvaro de Campos, que envia uma carta para a Ofélia, a namorada de carne e osso do Pessoa, chamando o escritor de “meliante”.

Leonardo Gandolfi
É, exatamente. Essa história que eu falei antes da ficção ou da biografia mostra isso aí, não é? Porque, como pode o Álvaro de Campos mandar uma carta para a namorada dele, né? Imagina essa namorada, como é que ela tinha que lidar isso. Ea tinha dois namorados? Não, era um só, mas o outro era uma versão do namorado dela e que servia para falar mal dele. Ah, é muito rica essa relação dos heterônimos, porque eles são complementares, eles formam um todo. Acho que o que ele ajuda a gente a entender é que na poesia o “eu” não é nem ficção nem biografia, é uma outra coisa… Uma terceira coisa que é a poesia, e que é tanto biografia como ficção ao mesmo tempo. Na verdade, acho que com pessoa a gente aprende, ou pelo menos eu aprendi um pouco isso, é que essas categorias elas se explodem, implodem, elas não cabem na caixinha.

Paulo Werneck
O Leonardo contou que o Fernando Pessoa pode ter chegado no Brasil meio que de contrabando. A primeira vez que ele apareceu nessas bandas foi pelas mãos da Cecília Meirelles, que em 1944 organizou a antologia Poetas novos de Portugal. Ela inclusive levou um bolo do Pessoa em Lisboa, em 34: eles tinham um encontro marcado num café, mas ele não foi. Deixou um exemplar de Mensagem e um bilhete. Tem também uma história que envolve o Adolfo Casais Monteiro, da revista Presença, que falava de arte, crítica e poesia:

Leonardo Gandolfi
Foi lá que ele publicou o Autopsicografia, E o Adolfo Casais Monteiro era um dos editores da revista Presença, e foi pra quem ele mandou aquela carta dos heterônimos, da Gênese dos Heterônimos, que é aquela carta em que ele vai falando de cada um dos heterônimos, dando a biografia deles, e foi falando, falando como que eles foram aparecendo, e como que os poemas do Alberto Caeiro, ele escreveu em pé, como se ele estivesse recebendo aqueles poemas, criando a própria mitologia de si.

Paulo Werneck
Depois da morte do Pessoa, alguns amigos, entre eles o Casais Monteiro, pediram autorização da família pra organizar e publicar os escritos que estavam guardados nas arcas do poeta. E aí o Leonardo trouxe uma história que não é confirmada, nem desconfirmada sobre a chegada deles por aqui.

Leonardo Gandolfi
O próprio Adolfo Casais Monteiro organiza um livro chamado Poemas de Fernando Pessoa, em 1942, pelo editorial Confluência. E, ao mesmo tempo, outras pessoas que tinham relação com o Pessoa, que é o José Gaspar Simões e o Luiz de Montalvor, estavam organizando nas edições Ática a obra do Pessoa. Reeditar Mensagem… Aí você fazia livro por livro, o Poema do Pessoa, Poema do Caeiro, do Álvaro de Campos e do Ricardo Reis. E começaram, então, as duas publicando mais ou menos ao mesmo tempo.

Paulo Werneck
Com o tempo, essas edições da Ática, que não é a mesma editora brasileira que tem esse nome, teriam se tornado as mais populares.

Leonardo Gandolfi
E esse da Confluência foi recolhida. E eles não destruíram esses livros. Eles mandaram esses livros para o Brasil, esses livros proibidos. Esses livros vêm parar aqui e vem parar na mão do Murilo Mendes, do Mário de Andrade e talvez do Drummond. Por que eu estou falando isso? Porque em 1951, quando o Drummond publica o Claro enigma, é um dos primeiros autores de língua portuguesa a mencionar o Pessoa em poema. Imaginam, um mineiro de Itabira morando no Rio, em 1951 publica o Sonetilho do falso Fernando Pessoa. Quando não existia nada no Brasil publicado do Pessoa, pouca gente conhecia a não ser esses escritores. E esses livros que circularam aqui.

Paulo Werneck
Então, vale a pena ouvir o Sonetilho do falso Fernando Pessoa de Carlos Drummond de Andrade na voz de Maria de Medeiros.

Maria de Medeiros
Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto, muitas há que não vi. Sem mim como sem ti posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. Nem Fausto nem Mefisto, à deusa que se rideste nosso oaristo, eis-me a dizer: assisto. Além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto.

Paulo Werneck
Os Modernismos do Brasil e de Portugal aconteceram praticamente em paralelo, sem muita interação. Os brasileiros queriam dar um grito de independência literária e por isso viravam as costas pra Portugal, já os portugueses viam o Brasil como um país gigantesco e distante. Mas os livros de Pessoa acabaram cruzando o oceano.

Leonardo Gandolfi
Essa é a história de que… Por que o Fernando Pessoa é quase um autor brasileiro também? Porque ele entra de forma formativa, na primeira hora, assim, né? Pra esses poetas brasileiros dos anos 40, né? Então, chegando nos anos 50, ele é um autor mais ou menos lido.

Paulo Werneck
Quer dizer que, ao mesmo tempo que era publicada pela primeira vez, a obra do Pessoa já ia ressoando nas novas gerações de artistas e críticos literários.

Ida Alves
Eu gostaria aqui de lembrar também que no caso do Brasil, a primeira pessoa que fez uma tese sobre o Fernando Pessoa foi a professora Cleonice Berardinelli, não é? Que faleceu com mais de 100 anos, membro da Academia Brasileira de Letras, nossa professora emérita, mais do que emérita na área de literatura portuguesa. Dona Cleonice foi a segunda tese no mundo, a primeira é do Jacinto do Prado Coelho, em Portugal, e a segunda foi feita por dona Cleonice Berardinelli.

Paulo Werneck
Em 1968, um poema de Mensagem foi costurado pelo Caetano Veloso e pelos Mutantes no arranjo da canção É proibido proibir, naquele show histórico que o Caetano deu no TUCA, o Teatro da Universidade Católica em São Paulo.

Caetano Veloso
Caí no areal na hora adversa que Deus concede aos seus, para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos, que são Deus, que importa o areal, a morte, a desventura. Se com Deus me guardei. É o que me sonhei, que eterno dura. É esse que regressarei.

Paulo Werneck
O público não entendeu e vaiou, não deixou a apresentação continuar. E então o Caetano diz aquele discurso famoso que começa com:

Caetano Veloso
Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?

Paulo Werneck
É uma porrada esse discurso do Caetano. E mais adiante, ele diz:

Caetano Veloso
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa.

Paulo Werneck
Bom, realmente aquela plateia realmente não merecia ouvir Fernando Pessoa nem Caetano naquele dia. A irmã do Caetano também ajudou o Pessoa a se popularizar no Brasil.

Maria Bethânia
“Olá, guardador de rebanhos, aí à beira da estrada, que te diz o vento que passa?”

Cleonice Berardinelli
“Que é vento, e que passa, e que já passou antes, e que passará depois. E a ti o que te diz?

Paulo Werneck
Esse é o Guardador de rebanhos poema X, do Alberto Caeiro, lido pela Bethânia e pela professora Cleonice Berardinelli, ela mesma, aquela pioneira que fez a primeira tese no Brasil sobre o Fernando Pessoa no documentário O Vento Lá Fora, que dirigido pelo Marcio Debellian em 2014. Ao longo de uma hora, as duas conversam e declamam Pessoa.

Cleonice Berardinelli
Deixe-me só lhe pedir uma coisa.

Maria Bethânia
Vamos, meu amor, repreenda a sua aluna.

Cleonice Berardinelli
“O mar universal e a saudade”.

Maria Bethânia
Eu não alonguei tanto…

Cleonice Berardinelli
“Sa-u-da-de”. Quatro sílabas você tem que fazer

Maria Bethânia
Tá bom, vou voltar. É pra não quebrar o verso.

Cleonice Berardinelli
Sim, senhora. Porque não se usa mais o trema, mas nós insistimos em pôr.

Maria Bethânia
Por conta da métrica que a senhora quer, né? Vou fazer a primeira estrofe de novo, tá bem? “Senhor, a noite veio e a alma é vil. Tanta foi a tormenta e a vontade. Resta-nos hoje, no silêncio hostil, o mar universal e a saudade.

Cleonice Berardinelli
Quase.

Eucanaã Ferraz
Me lembro perfeitamente de um disco chamado Pássaro da manhã que eu compro o disco e quando ponho na vitrola a Bethânia lê inteiro o Eros e Psiquê. “Conta a lenda que dormia uma princesa encantada a quem só despertaria…”

Maria Bethânia
“Um Infante, que viria de além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado, vencer o mal e o bem, antes que, já libertado, deixasse o caminho errado. Por o que à Princesa vem.”

Eucanaã Ferraz
Enfim, eu sei de cor, mas acho que eu sei de cor por causa da Bethânia, e não por causa do Pessoa, entendeu? Então, assim, de algum modo, para mim, a Bethânia é um heterônimo do Fernando Pessoa, sabe?

Paulo Werneck
Essa voz é do Eucanaã Ferraz, poeta carioca que também dá aula de literatura brasileira. A música ajudou muito a espalhar as palavras do Pessoa aqui no Brasil, mas ele já estava fazendo a cabeça dos poetas brasileiros desde muito cedo.

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz
Olha, eu acho que, de algum modo, Fernando Pessoa influenciou uma parte expressiva dos poetas brasileiros… Pelo menos desde 1960 que os leitores brasileiros têm acesso ao essencial do Fernando Pessoa.

Paulo Werneck
O primeiro a fisgar o Eucanaã na adolescência foi o Mestre.

Eucanaã Ferraz
Isso é uma coisa engraçada. Quando eu comecei a escrever poesia, eu me lembro perfeitamente, os primeiros poemas que eu escrevi eram pastiches do Alberto Caeiro, entendeu? Pastiches mesmo. Se você lê, você diz: “olha, aqui alguém imitando o Alberto Caeiro.” Era óbvio, totalmente óbvio. O Fernando Pessoa, esse nome que engloba uma espécie de biblioteca, ele é uma biblioteca para todo mundo. E eu acho que conforme você vai envelhecendo, o tempo vai passando, ele vai te acompanhando. É uma espécie de amigo, né?

Paulo Werneck
Em 1934, o Fernando Pessoa terminou aquele que seria o seu único livro publicado em português e o inscreveu num concurso literário do Secretariado de Propaganda Nacional, que era o órgão oficial de propaganda. O Salazar tinha acabado de chegar ao poder. O Pessoa fez a inscrição meio a contragosto, porque ele desprezava o Salazar, principalmente pelas políticas de governo contra a liberdade de expressão. Ele chegou até a escrever umas poeminhas contra o Salazar.

Ida Alves
E há poemas irônicos contra Salazar, por exemplo. Há determinadas anotações contra certas situações políticas.

Paulo Werneck
Um deles, com o título bem direto de António de Oliveira Salazar, só foi publicado em 1979, depois da Revolução dos Cravos. Aqui vai um trechinho, de novo, na voz da Maria de Medeiros:

Maria de Medeiros
“Coitadinho do tiraninho! Não bebe vinho. Nem sequer sozinho… Bebe a verdade e a liberdade. E com tal agrado, que já começam a escassear no mercado.”

Paulo Werneck
Ele também chamou o Salazar em outro poeminha de Sal e Azar. Agora voltando à história da publicação de Mensagem:

Ida Alves
Esse livro foi para gráfica em outubro de 1934. Ele morreu em 1935, em novembro, praticamente um ano antes. E é o único livro, realmente, que ele viu, que ele fez as provas, que ele cuidou, que foi realmente publicado, porque todo o resto da obra dele saiu em fragmentos enquanto ele foi vivo… Poema aqui, poema na revista ali e ali… E só depois da morte, a partir dos anos 40, a partir de 1942, é que a obra começou, então, a ser realmente reunida e começou a ser publicada em volumes

Paulo Werneck
Então é isso, o Pessoa detestava o Salazar, mas amava Portugal e o livro é uma grande homenagem à história de Portugal. E como ele não tinha dinheiro, foi convencido a fazer a inscrição. Quem nos conta essa história é a professora Ida Alves, que publicou um texto na edição de Mensagem organizada pelo Jerônimo Pizarro, que saiu no Brasil pela Editora Todavia.

Ida Alves
A ditadura também tinha essa construção de criar uma imagem cultural, como eles queriam. Havia concursos literários e o Antônio Ferro era o diretor desse secretariado da propaganda nacional, o SPN, e era amigo, era um escritor também, era uma figura cultural, e convenceram, então, Pessoa que ele deveria concorrer, mas para concorrer ele precisava apresentar um livro, então ele finalmente reuniu poemas, montou a estrutura dessa obra, que a princípio teria o nome, o título de Portugal, mas que ele riscou e transformou em Mensagem.

Paulo Werneck
O Pessoa ficou em segundo lugar naquele concurso. Em primeiro, ficou um livro bem medíocre, de um frade missionário franciscano chamado Vasco Reis: A Romaria. Então, o Antônio Ferro, que era amigo do Fernando Pessoa, tinha sido editor da Orpheu, e trabalhava lá no Secretariado da Propaganda Nacional, mexeu os pauzinhos dele pra fazer publicar Mensagem, que é um livro cheio de simbologias e de citações a heráldica, a história de Portugal… Um livro mais difícil de ler do que os livros dos heterônimos, por exemplo.

Ida Alves
Eu digo que mensagem é quase como uma resposta aos Lusíadas de Camões. Só que se os Lusíadas fazem todo um andamento histórico, contando rei por rei, todos os reis estão lá, todas as dinastias, algum fato histórico é contado, E claro, com todas as implicações líricas, políticas, que estão ali no maravilhoso texto dos Lusíadas, é mensagem diferente, porque ele não conta historinha de rei por rei, mas ele faz, o que eu digo, nas minhas palavras, uma epopeia da alma. E essa epopeia da alma é uma epopeia cultural.

E dessas dinastias ele escolhe determinadas figuras históricas, que ele escolhe considerando que elas são ou marginais à época, quer dizer, agem de uma maneira diferente da época, ou são figuras que tinham uma utopia. Ele fala ali de um escritor, ele fala do padre Antônio Vieira, o imperador da língua. Então, Mensagem é, como esse título que ele escolheu, uma mensagem. Uma mensagem é de um projeto espiritual, um projeto de grandeza, de um país que já não tinha nada de grandeza, um país completamente pobre, decadente, de imigrantes, mas um projeto que seria a cultura.

Ida Alves
O mundo da língua portuguesa, e ele termina dizendo assim: “é a hora.” É a hora de quê? Da luta? Da transformação de Portugal? Da utopia? De realizar a utopia? Não sabemos. É a hora, né?

Paulo Werneck
Fazendo as contas, o Pessoa escreveu sem parar, num ritmo de cinco a seis páginas por dia, durante uns trinta anos. E guardou muito. Guardou listas, ideias, projetos e um livro impossível, que desassossega muita gente até agora.

Leonardo Gandolfi
O livro dele que vai fazer a cabeça mesmo de todo mundo é um livro que só é publicado em 1982, que é o Livro do desassossego. O Livro do desassossego não existe até 1982. Então veja, o Fernando Pessoa, romancista, se assim a gente pode dizer, ele é contemporâneo do Antônio Lobo Antunes e do José Saramago.

Paulo Werneck
A gente está ouvindo de novo o Leonardo Gandolfi.

Leonardo Gandolfi
Porque é isso, o Livro do desassossego não é um livro possível nos anos 40, nem nos anos 30, porque aquilo ali só pode ser encarado como romance depois do avanço do romance nos anos 50, 60, ou seja, do romance vai se desdobrando. E o Livro do desassossego é uma é uma aventura da linguagem. Se tem um enredo, o enredo é como a linguagem se descortina. Como é que você vai fazer um romance sem fato, né?

Paulo Werneck
O Livro do desassossego é difícil de explicar. São centenas de fragmentos que oscilam entre diário íntimo, a prosa poética e narrativa. É de lá que vêm trechos como esse:

Maria de Medeiros
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.

Paulo Werneck
E existe uma série de versões dele que mudam conforme as escolhas do editor ou da editora.

Leonardo Gandolfi
O Livro do desassossego é sempre um livro em coautoria, porque cada um pode montar o livro do desassossego como quiser. É uma espécie de baralho, de quebra-cabeça, que não tem lugar certo. Essa que é a questão. Cada forma que você monta surge uma paisagem diferente.

Paulo Werneck
E se é verdade que o Fernando Pessoa pode ser considerado uma espécie de contemporâneo do Saramago, no sentido que o Gandolfi falou, o próprio Saramago ficou tão perturbado ao ler o Ricardo Reis pela primeira vez que decidiu se apropriar dele num romance de 1984.

José Saramago
Quando eu tinha os meus 18 anos, encontrei por acaso, li por acaso, o primeiro número da revista Atena — que não era minha, era alguém que a tinha e que me emprestou — vi uma série de odes do Ricardo Reis. E como eu era muito ignorante, mais ignorante nessa altura do que sou hoje, eu julguei que havia, de fato, um poeta que se chamava Ricardo Reis. E durante alguns meses — não foram muitos, é verdade — acreditei firmemente que aquela pessoa que assinava Ricardo Reis era uma pessoa de fato. Foi, repito, mais tarde que eu soube que era apenas um heterónimo do Fernando Pessoa. E a verdade é que esta descoberta me marcou sempre.

Paulo Werneck
A gente está ouvindo o Saramago falando de Fernando Pessoa no documentário Saramago: documentos, da emissora portuguesa RTP2.

José Saramago
Isso está condensado nessa frase detestável que é dele e que eu pus em epígrafe no Ano da morte de Ricardo Reis: “o sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.” E o livro Ano da morte de Ricardo Reis quer ser muito isso, quer mostrar, pretende mostrar a esse homem homem que fez essa declaração, que apetece chamar monstruosa, que afinal de contas, sim senhor, então se ser espectador do espetáculo do mundo constitui a sabedoria, então, meu caro Ricardo Reis, em 1936, aí tens o espetáculo do mundo e agora diz-me se ser espectador disto é ser sábio.

Paulo Werneck
A Ida Alves explicou um pouco mais desse contexto.

Ida Alves
O Ricardo Reis era um heterônimo monarquista e, portanto, como ele vivia numa república, ele não encontrava mais no seu país um espaço para viver politicamente. Mas não há muitas informações a respeito.

Paulo Werneck
O Ricardo Reis era o poeta neoclássico da turma, menos da finitude da vida e mais da contemplação do belo.

Ida Alves
Não é à toa que o Saramago trouxe o Ricardo Reis para ver a morte de pessoa, mas mais do que isso, para entrar em choque com a vida, não é? Com o mundo que estava ali na pré-guerra, pré-Segunda Guerra Mundial, em 1935. Então, Saramago teve uma sacada de gênio, trazendo esse que quer se manter longe do mundo. “Não vou me envolver com nada do mundo, para se meter num mundo que está em completo tumulto.”

Paulo Werneck
Na análise do Jerónimo Pizarro, essa volta do Ricardo Reis é um jeito do Saramago competir com o novo Fernando Pessoa, o Pessoa da prosa e o Pessoa que viria a virar sinônimo de Lisboa.

Jerónimo Pizarro
Na preparação do Ano da morte de Ricardo Reis, o que nós encontramos é Saramago a sublinhar e a copiar trechos do Livro do desassossego, nomeadamente os trechos em que Fernando Pessoa faz uma descrição deslumbrante de Lisboa. E Saramago percebeu que talvez um dos grandes romances do século 20 era o Livro do desassossego e era não por causa de uma personagem, Bernardo Soares, que quase não aparece, era porque era um grande retrato de uma cidade. E Saramago não tinha feito isso, então tenta retratar Lisboa e eu acho que já fica para os leitores qual retrato é melhor.

Paulo Werneck
Um episódio sobre Fernando Pessoa precisa necessariamente passar por Lisboa. Mais especificamente pelo Chiado, que é um bairro importantíssimo na vida do poeta. Foi lá que ele nasceu, no prédio número 4 do Largo de São Carlos. E foi lá que ele se reuniu com os amigos, entre um café e talvez um brandy, discutindo tudo que tinha que mudar. Do lado de fora de um desses cafés, o famoso A Brasileira, fica uma estátua de bronze do Fernando Pessoa, sentado numa mesa. É aquela imagem que a gente conhece bem: um homem de bigode, cara séria, chapéu na cabeça, terno e gravata borboleta. Naturalmente, essa estátua — que é uma obra do escultor Lagoa Henriques que, além do próprio poeta, traz uma cadeira vazia — virou um ponto turístico, com gente sentando lá pra tirar foto com o poeta e postar no Instagram.

Guia turística
[Som ambiente de guias turísticos apresentando a estátua de Fernando Pessoa]

Paulo Werneck
Mais naturalmente ainda, essa estátua virou um ponto turístico, às vezes assim meio aleatório.

Paula Ribeiro
Você conhece?

Entrevistada 1
Não! [Risadas] Tava no nosso roteiro e a gente incluiu, mas eu não faço ideia. Mandou parar aqui no Largo do Chiado, e tirou uma foto com o Fernando Pessoa, só isso.

Entrevistada 2
E aí a gente tirou a foto aqui com o Fernando Pessoa, por ele ser um escritor brasileiro, né, e tá aqui em Portugal.

Paulo Werneck
Brasileiro? Bom, mas isso ele não chegou a inventar, né? E tem também os fãs de verdade, por exemplo, a Rebeca.

Rebeca
Minha relação com o Fernando Pessoa começou com a Isabel, que foi minha professora de literatura no ensino médio, e eu lembro dela apresentar os textos dele para a gente, contar um pouco… Lembro dela mostrar os vídeos da Maria Bethânia, declamando coisas dele… E a gente literalmente acabou de chegar ao primeiro passeio que a gente estava indo. Meu pai falou: “senta aí, vamos fazer uma foto, depois a gente vai entrar, tomar um café.”

Paula Ribeiro
E você sabe algum poema dele?

Rebeca
Posso falar errado, mas eu gosto de: pra ser grande, sê inteiro. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és em tudo que fazes. Algo assim,

Paulo Werneck
Bom, calhou que esse poema sabe de cór, assinado pelo Ricardo Reis, foi gravado na lápide do Pessoa, no Mosteiro dos Jerónimos. Pois é, em 1985, nos cinquenta anos de morte, os restos mortais do Fernando Pessoa… Na verdade o corpo inteiro, praticamente intacto, porque ele foi enterrado num caixão de chumbo, lembra? Foram trasladados para os Jerónimos, que é o panteão dos grandes vultos da história de Portugal. Vamos ouvir o poema na voz da Maria de Medeiros.

Maria de Medeiros
Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago, a lua toda brilha. Porque alta vive.

Paulo Werneck
E apesar dessa esquizofrenia literária, essas múltiplas personalidades, o Pessoa levou uma vida bastante metódica, passada quase inteiramente nas mesmas ruas de Lisboa, explodindo para dentro da própria cabeça.

Jerónimo Pizarro
Digamos, Fernando Pessoa nunca esperou ter uma vida de grandes viagens, de aventuras, estar em cargos importantes, em ter uma vida diplomática. Não é esse tipo de cosmopolitismo de outros escritores que viajaram muito por terem uma ligação política. Não, quer dizer, ele era um empregado de escritório que tinha uma vida monótona.

Paulo Werneck
O Pessoa era um cara afável, querido pelos amigos, mas morreu solteiro, sem filhos ou companhia. E tudo indica que essa foi uma escolha. Com a Ofélia — que era a namorada mais famosa, totalmente apaixonada por ele — ele só trocava cartas de amor. E eram cartas bem melosas, como a gente pode ler no livro Cartas de amor de Fernando Pessoa, organizado pelo Jerónimo Pizarro. O poeta chama a namorada dele, por exemplo, de “meu bebé menininho”, “minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos”, “terrível bebé”, “pequena vespa”, “nininha”, “Ofelinha”…

Roberto Carlos
“Mas afinal, as cartas de amor, se há amor, têm que ser ridículas, não é? Não. Pensando bem, só mesmo as pessoas que nunca escreveram cartas de amor é que são verdadeiramente ridículas.”

Paulo Werneck
E isso não sou eu quem está dizendo, é o próprio Pessoa. Quer dizer, o Álvaro de Campos. Quer dizer, o Roberto Carlos. Isso mesmo, o rei Roberto Carlos. Apesar de ser bem romântico no papel, o Pessoa não foi um grande amante. E os biógrafos acreditam que, na verdade, ele se dedicou mesmo à escrita e possivelmente morreu virgem.

Leonardo Gandolfi
Essa dedicação ao poema, a poesia tem uma entrega muito grande em pensar a poesia… Ele foi editor. Pensar a poesia como uma forma de vida. Eu acho que isso está muito presente nele. Os artistas que acabam me dizendo mais quando eu chego mais perto deles, eu percebo que tem essa entrega, de ser atravessado por aquilo.

Paulo Werneck
Esse é de novo o Leonardo Gandolfi. O Jerónimo vai na mesma linha que ele. E

Jerónimo Pizarro
E entre nós não conhecermos muitos dos autores fictícios, entre nós não estarmos a ler Fernando Pessoa, pelo menos em três lı́nguas e entre uma grande parte do que está ou estava nas arcas famosas estar e continuar a estar inédito… Eu continuo com a sensação que eu tive enquanto estudante de uma certa ignorância, de que Fernando Pessoa, parte da felicidade que pode dar, não está apenas na leitura, mas na descoberta.

Paulo Werneck
O Fernando Pessoa dedicou mesmo a sua vida a essa obra, àqueles mais de 30 mil papeizinhos. A gente fica até se perguntando o que ele estava querendo com tudo isso. A gente fez essa pergunta para o Eduardo Gianetti, economista e filósofo que lançou nesse ano Imortalidades.

Eduardo Gianetti
“Alguém de fato morre?” Pergunta-se Pessoa numa anotação pessoal. Fernando Pessoa nunca se preocupou com a dimensão do prolongar a vida, ele tinha muito pouco cuidado com a saúde e morreu cedo, e ele nunca se dedicou também a buscar momentos de intensidade, e de presente absoluto, seja por meio de amores ou de experiências místicas intensas, ou de uso de substâncias psicoativas. 

O que marca a busca da imortalidade no caso de Fernando Pessoa, e, de fato, eu acho que se trata de um caso singularíssimo, é a intensidade com que ele buscou a sua perenização por meio da realização de obras que o sobrevivessem. E que fossem lembradas eternamente. E por meio também da expectativa supra terrena, de uma esperança supra terrena, que é um aspecto talvez menos conhecido do seu pensamento e da sua obra poética.

Paulo Werneck
E por falar em coisas que vão ser lembradas eternamente, lá no finalzinho da vida, o Fernando Pessoa deixou escapar uma memória de infância dele, dos tempos de criança. A mãe dele tocando ao piano Un soir à Lima, Uma Noite em Lima, essa peça do Félix Godefroy inspirou um poema de mesmo nome que foi escrito em 1934 e a gente usou uma interpretação dessa peça Un soir à Lima pelo pianista inglês Philip Sear para ilustrar esse episódio sobre os 90 anos da morte do Fernando Pessoa. Aqui vai um trechinho lido novamente pela Maria de Medeiros.

Maria de Medeiros
E é uma emissora indiferente que por um aparelho inconsciente em música, só, música me dá a angústia viva que me vem de te ver, por me lembrar, minha mãe, minha mãe, tão tranquila, tocar Un Soir à Lima. Mas entorpeço. Não sei se vejo, se adormeço, se sou quem fui, não sei se lembro, nem se esqueço.Há qualquer coisa que indistinta flui entre quem sou e o que eu era e é como um rio, ou uma brisa, ou um sonhar, qualquer cousa que não se espera, que se suspende de repente e, do fundo aonde parecia ir acabar, surge, cada vez mais distintamente, num halo de suavidade e nostalgia, onde o meu coração ainda está, um piano, uma figura, uma saudade… Durmo encostado a essa melodia — e oiço que minha Mãe toca. Oiço, já com o sal das lágrimas na boca, Un Soir à Lima.

Paulo Werneck
E assim a gente chega ao final do episódio especial do 451 MHz sobre o poeta Fernando Pessoa. Eu queria deixar um agradecimento especial aos entrevistados desse programa: Eucanaã Ferraz, Ida Alves, Jerónimo Pizarro, Maria de Medeiros, Leonardo Gandolfi. E Eduardo Giannetti Eu agradeço também ao Gustavo Marujo, a Paula Ribeiro e todos os turistas que falaram com eles lá no Chiado, em Lisboa.

Neste episódio, você ouviu um trecho do documentário A arte existe porque a vida não basta, da Vila Filmes. Carta de amor, lida por Roberto Carlos, do Centro Cultural Emoções. A Tendinha de Hermínia Silva, da Columbia. O vídeo Jerônimo Pizarro apresenta manuscritos de Fernando Pessoa, de Jerónimo Pizarro. Trechos do documentário O vento lá fora, da Biscoito Fino. Eros e Psiquê, lido por Maria Bethânia, da Universal Music. Um trecho da apresentação de Caetano Veloso no 3º Festival Internacional da Canção. Trechos do documentário Saramago Documentos, da emissora portuguesa RTP2. 

E os poemas de Pessoa, “Antônio de Oliveira Salazar” e “Un Soir à Lima”, e dos heterônimos: “Cartas de amor”, “Tabacaria”, “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos; O guardador de rebanhos, poemas X e XXIV, de Alberto Caeiro. “Segue o teu destino” e “Para ser grande, sê inteiro”, de Ricardo Reis; e ainda “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, de Carlos Drummond de Andrade, que tem sua obra publicada pela editora Record. E trechos de Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, e O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago. As obras de Fernando Pessoa foram citadas segundo as edições de Jerônimo Pizarro, pela Tinta-da-china. A trilha sonora desse episódio foi feita a partir de obra de Félix Godefroid, interpretada pelo pianista britânico Phillip Sear, que cedeu o uso da sua versão para esse episódio.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Direção geral e apresentação: Paulo Werneck
Coordenação geral: Beatriz Muylaert e Beatriz Souza
Produção: Clarissa Stycer e Mariana Franco
Roteiro: Paulo Werneck e Ana Pinho
Entrevistas: Ana Pinho
Edição e mixagem: Claudia Holanda e Ana Sucha
Gravação de locução: Confraria de Sons & Charutos e Audio Rebel
Trilha sonora: Phillip Sear
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais
Para falar com a equipe: [email protected]