Podcast,
Transcrição: Leonardo Fróes no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #177 do 451 MHz, que reúne dois encontros com o poeta Leonardo Fróes durante A Feira do Livro de 2025
02jul2026Esta edição do 451 MHz presta uma homenagem ao poeta, tradutor e ensaísta Leonardo Fróes, que morreu em 21 de novembro de 2025, aos 84 anos. O episódio reúne os dois encontros de que Fróes participou n’A Feira do Livro 2025. Neles, o escritor compartilha sua visão sobre a natureza, o impulso da escrita e a decisão de abandonar a cidade grande para morar em um sítio no interior do Rio de Janeiro. Ouça a seguir e saiba mais aqui:
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi! Está começando o episódio 177 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Leonardo Fróes [LF]:
Espero que este término da vida seja sorridente como tem sido na maior parte do tempo a minha vida. Eu sou muito grato à vida que levei, que estou levando, e espero morrer também satisfeito, e satisfeito com o que eu consegui fazer.
PW:
Esse que você acabou de ouvir é o grande poeta Leonardo Fróes. Eu já vou te falar mais sobre ele, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet, incentivo a projetos culturais e da Companhia das Letras.
Mais Lidas
PW:
O episódio de hoje é uma homenagem ao poeta, tradutor e ensaísta Leonardo Fróes, que morreu no último dia 21 de novembro, aos 84 anos. Se você ainda não conhece a obra poética dele, é só procurar pelo livro Poesia reunida, que saiu pela Editora 34 e traz os poemas do Fróes, publicados desde 1968 até 2021.
Como tradutor, ele verteu dezenas de livros do inglês, do francês, do alemão pro português. Ano passado, só pra dar um exemplo, o Fróes publicou Ensaios seletos, uma antologia de textos de não ficção da escritora inglesa Virginia Woolf, alguns deles muito pouco conhecidos no Brasil. Ele, inclusive, veio aqui no 451 MHz em maio passado para falar justamente sobre essa tradução que também saiu pela Editora 34.
O Leonardo Fróes, na verdade, era uma figurinha carimbada aqui na Quatro Cinco Um. Ele colaborou desde o início da revista, fazendo longos ensaios, sempre a partir também de lançamentos. Era uma disposição notável para escrever sobre as novidades, sobre os grandes clássicos, o que proporcionou aos nossos leitores a delícia de ler ensaios belíssimos e muita informação, muita inteligência naqueles textos do Leonardo.
Ficamos muito tristes aqui em saber da morte dele, que foi mais ou menos repentina. Estivemos com ele n’A Feira do Livro em 2025 onde ele participou de duas mesas e estava feliz da vida em ter esse corpo a corpo com os leitores aqui em São Paulo. Estamos fazendo aqui essa homenagem ao Leonardo Fróes nesse programa de hoje. O Leonardo ainda trabalhou como jornalista, crítico literário, como editor de livros e foi, como eu falei, colaborador frequente aqui da Quatro Cinco Um.
Nessa homenagem a ele, então, a gente juntou os dois encontros de que ele participou n’A Feira do Livro 2025. Foram duas mesas, aliás, muito concorridas, muito aplaudidas e comoveram muita gente. Na primeira parte desse programa, você vai ouvir a conversa do Leonardo com o editor e crítico literário Schneider Carpeggiani sobre o impulso de escrever e a presença da natureza na obra dele. Na verdade, o Fróes se isolou ali, foi morar num sítio lá em Secretário, no interior do Rio de Janeiro, de onde ele escreveu todas as maravilhas dele ali desde os anos 60, transformou um morro pelado, que era puro capim, em um sítio maravilhoso, cheio de árvores maravilhosas.
E a natureza tem muito a ver com a poesia dele e também com a atividade jornalística, que é o que a gente vai ver no segundo bloco, uma conversa do Fróes com o poeta e editor Tarso de Melo. Nesse bate-papo, o Leonardo fala sobre o período em que ele escreveu a coluna chamada Natureza, que saía no Jornal do Brasil nos anos 70 e 80, que era já no final daquelas décadas gloriosas do Jornal do Brasil. Ele também fala de como ele reflorestou o terreno do sítio na Secretária, como eu já falei, que ele aprendeu com os moradores da região e sobre a visão das plantas como seres vivos que têm direitos como todos nós. Então vamos começar com a conversa do Leonardo Frois com Schneider Carpeggiani.
Schneider Carpeggiani [SC]:
A gente está aqui com essa grande sorte de ter um dos maiores poetas do Brasil ao nosso lado, o Leonardo Fróes, nascido no interior do Rio de Janeiro, em Itaperuna. É muito bom a gente estar aqui com um poeta que tem um trabalho, que eu acho que todo mundo aqui, a maioria das pessoas que estão aqui, tem algum poema ou algum verso do Leonardo Fróes na cabeça. Leonardo, eu queria justamente fazer essa conversa pontuando algumas questões dos teus poemas e, em alguns momentos, eu queria até que você lesse algum desses poemas para a gente, certo?
Primeiro, eu queria comentar sobre um poema que, de alguma forma, ele serve como uma espécie até de autobiografia tua, que é o “Maluco cantando nas montanhas”. Esse poema também flagra uma coisa que eu gosto muito, um poema sobre o ato de escrever e sobre o que tem nesse ato de escrever. Eu queria que você lesse esse poema para nós, gente, e aproveitar também para ver se essa frase “todo mundo nesse mundo tem a sua fraqueza, a minha é escrever poesia”… eu queria saber se isso ainda permanece com você.
LF:
Na verdade, este poema é baseado em um poema chinês de Po Chü-i, que viveu entre os anos 772 e 846 da nossa era cristã. Eu não sei chinês, eu cheguei a começar a estudar chinês, mas não passei do beabá. Mas tenho este poema em diferentes versões, para francês, para inglês, para espanhol e outras línguas às quais eu tenho acesso. E ele me pareceu tão de acordo com o que eu mesmo sentia como poeta que eu não resisti à impulsão de fazer um outro poema baseado neste poema chinês tão antigo.
É, aliás, a grande época da poesia chinesa, não é? É uma época que corresponde, aproximadamente, à Idade Média Europeia. E a China, neste momento, já era um dos principais países do mundo, como está voltando a ser hoje. É a civilização que tem continuidade mais antiga do mundo, daí eu acho que uma certa sabedoria chinesa, que parece que agora se revela de novo, quando a China está se projetando cada vez mais. O poema se intitula “Maluco cantando nas montanhas”, e eu passo a ler.
“Todo mundo nesse mundo tem sua fraqueza.
A minha é escrever poesia.
Libertei-me de mil laços mundanos,
mas essa enfermidade nunca passou.
Se vejo uma paisagem bonita,
se encontro algum amigo querido,
recito versos em voz alta, contente
como se um deus cruzasse em meu caminho.
Desde o dia em que me baniram para Hsün-yang,
metade do meu tempo vivi aqui nas montanhas.
Às vezes, quando acabo um poema,
subo pela estrada sozinho até a Ponta do Leste.
Nos penhascos, que estão brancos, me inclino:
vales e montanhas se espantam com meu louco cantar:
passarinhos e macacos acorrem para me espiar,
eu que, temendo me tornar para o mundo motivo de chacota,
tinha escolhido esse lugar, aonde os homens não vêm.”
Eu tento então responder à pergunta do Schneider Carpeggiani em relação à fraqueza de que o poeta se diz vitimado nesse texto. E, de fato, eu acho que escrever poesia e abrir a boca para falar poesia é uma fraqueza, porque talvez os grandes poetas jamais tenham escrito um verso. Há pessoas que são dotadas deste sentimento poético, do qual eu também participo, mas são dotadas em um nível tão alto que não vou perder tempo escrevendo, não vou perder tempo querendo conquistar a admiração alheia por aquilo que eu acho que escrevi de bonito ou de bem enunciado. Porque todo mundo, todos nós, temos este sentimento poético.
Quem é que não se emociona diante de um raio de sol que vem iluminar a nossa vida? Quem é que não se emociona diante do sorriso de uma criança ou de um casal de namorados que está entregue a uma manifestação de paixão? Todos nós temos esses sentimentos poéticos. E apenas alguns se tornam, devido à sua fraqueza, especialistas em escrever poesia. Não conseguem ficar de boca calada, não conseguem sentir a sua emoção e se bastar e se entregar a esta emoção. Sentem uma necessidade incontrolável de transmitir isso aos outros, de fazer com que as outras pessoas também se emocionem com aquilo que os emociona.
Conto um detalhe biográfico autêntico de minha vida. Uma certa tarde, eu estava na minha casa em Petrópolis, trabalhando, como sempre, como tradutor, no meio de uma tarde. E, de repente, eu fui à janela para dar uma respirada do meu escritório, e vi um arco-íris duplo sobre a cidade de Petrópolis. Talvez a única vez na vida que eu já vi um arco-íris duplo. Não sei se algum de vocês já viu. Dois arco-íris paralelos, um ao lado do outro, absolutamente completos, de um extremo ao outro do horizonte. E aquilo me emocionou de tal maneira que eu parei meu trabalho, eu estava sozinho em casa, bati a porta de casa e saí pelas ruas, chamando a atenção das pessoas, eu abordava as pessoas na esquina, tinha dois ou três conversando, e eu dizia: “desculpe, mas já viram o arco-íris duplo?” E as pessoas ficavam tão encantadas quanto eu.
Então, eu acho que isso é o que eu chamo de fraqueza do poeta. Uma necessidade que você tem de dizer para o mundo… Todo mundo diz que vive num caos, cheio de problemas, cheio de compromissos, cheio de frustrações, e, de repente, o poeta diz: “mas, gente, viver é tão bom, a vida é tão agradável.” Apesar dos pesares é tão bom a gente sentir que está vivo que eu às vezes não me contenho eu sou obrigado a tentar manifestar essas minhas emoções de forma escrita.
SC:
Leonardo, quando a gente lê alguma entrevista tua ou lê algum perfil teu, sempre se fala muito do momento em que você deixa o Rio de Janeiro e vai morar em Secretário. Essa passagem da tua vida virou até uma coisa meio mítica em relação a você. Às vezes, é tratado como uma coisa absurda, as pessoas acham absurdo alguém sair da cidade, que poderia ser uma prosaica mudança de endereço, muitas vezes é tratado como “ele se isolou”, “ele se exilou”.
Eu queria que você comentasse sobre esse tom absurdo em que as pessoas acham, tratam essa tua ida para Secretário. E outra coisa também, sobre esse período da tua vida, tem uma frase tua que é o seguinte: “claro que, simplificando-se a vida, minha linguagem também se simplificou.” Eu queria que você falasse do absurdo do olhar das pessoas em relação à ida e sobre essa mudança, no caso, talvez isso que seja mais importante, na sua forma de escrever.
LF:
Pois é. Eu saí do Rio no começo da década de 1970. Pedi demissão do emprego, diretor editorial de uma editora bastante poderosa, bastante movimentada no Rio, eu tinha um ótimo salário, morava num ótimo apartamento de solteiro na praia do Arpoador, que é o recanto mais sofisticado da Praia de Ipanema, portanto, uma das praias mais encantadoras do Rio. Ganhava como nunca mais voltei a ganhar no mês, um salário fantástico. Mas eu cheguei à conclusão, em primeiro lugar, que ser escritor não era só, no meu caso, escrever as coisas que eu queria e estava escrevendo e tensionava escrever.
Eu também tinha que ler. Para o escritor, ao meu feitio, ler é parte da atividade profissional, se é que a gente pode chamar isso de atividade profissional. Mas, enfim, eu achava que era a minha vocação, que eu tinha que segui-la inevitavelmente, senão eu jamais seria uma pessoa satisfeita com a vida. E não me sobrava tempo como diretor de uma editora. Às vezes, até no fim de semana, eu tinha que receber algum estrangeiro, de editoras estrangeiras, com a qual nós fazíamos negócios, e sair para almoçar com o cara, etc. Então, não me sobrava muito tempo, eu ficava no escritório, na redação da editora, o dia inteiro. Me sobrava muito pouco tempo de leitura. E eu disse: “não, eu quero viver de um jeito que eu possa organizar a minha vida.”
Daí que eu virei tradutor, eu traduzia parte do tempo, e a outra parte do tempo eu podia dedicar às minhas leituras, coisa que eu faço até hoje, todo dia eu leio alguma coisa, estou sempre lendo algum livro, em geral, leio vários livros ao mesmo tempo. Mas todo mundo dizia para mim, os meus amigos: “você é maluco! Como é que todo mundo vem do interior para a cidade grande, e você vai sair da cidade grande para viver no mato, para viver na roça?” Eu tinha morado antes no Rio de Janeiro, onde se processou a minha formação, em Nova Iorque, em Paris e em Berlim. Depois de ter sido tão urbanizado nessas grandes cidades do mundo, em diferentes línguas, eu fui viver na roça, num sítiozinho em Secretário que eu tenho até hoje, onde estou sempre. E ninguém entendia aquilo.
Eu disse: “olha, eu sempre fui muito impulsivo, estou sentindo necessidade de fazer isso.” Mas, quando cheguei lá, em primeiro lugar, eu não fui sozinho, eu fui com a minha grande paixão da época, era uma moça que eu tinha acabado de conhecer, me apaixonei perdidamente, e eu disse: “mais vale viver um grande amor do que ter um bom emprego. Eu quero viver este grande amor o tempo que for possível. Todo minuto, todo instante.” Eu estava começando a conhecer esta moça, que agora está sentada aí entre vocês, mais de meio século depois. É a mãe dos meus filhos e a minha namorada até hoje. Então, nunca tive solidão, porque tinha uma mulher ao meu lado, uma mulher que sabia da minha fraqueza: “ele é poeta, mas se ele não virar um poeta, ele não vai ficar satisfeito.” Me deu toda a força possível, e nos ajustamos.
E lá, quando cheguei no mato, eu descobri o seguinte. Aqui, achei interessante, quando o Paulo me mandou sentar ao lado dessa planta, que é uma planta, não é uma planta de plástico. Eu me sinto muito bem junto das plantas. E, quando cheguei lá, eu vi que não tem solidão na roça, no mato, no campo, porque você está cercado de uma infinidade de espécies. Quando você passa a reconhecer que cada plantinha, cada árvore, cada animal silvestre é um ser, assim como você.
A comunicação, às vezes, é muito difícil. Como é que eu vou me comunicar com uma árvore? Mas eu sei, eu sei isso por experiência vivida, por ter criado centenas de árvores, desde a semente, que hoje são monumentos vegetais neste meu sítio meio século depois, a natureza ao redor da minha casinha, uma casinha super modesta, virou uma mata fechada. Eu acompanhei este processo e estava sempre, como estou até hoje, cercado de companhias, de árvores que eu respeito. Eu sei que é difícil a comunicação com os vegetais, porque o que mais eles têm é a sua carga de silêncio, mas eles são coisas vivas, eles são pessoas vivas, como nós. Isso é muito curioso.
E sobre isso talvez eu fale mais amanhã, quando o Tarso de Melo vai ser o mediador do encontro que vou falar do livro que o Schneider editou pela Companhia Editora de Pernambuco, é A arte de plantar, onde eu falo desse meu envolvimento com a natureza. Mas e quantos animais silvestres, com quantos animais silvestres eu pude conversar no silêncio da mata? Eu sempre passei a caminhar sozinho dentro da mata, e são momentos inesquecíveis, muitos desses momentos se refletem na minha poesia, claro, porque era o que eu estava vivendo.
SC:
Leonardo, antes de fazer a próxima pergunta, eu vou puxar a sardinha, aproveitando que estou contigo. Eu queria fazer uma pergunta justamente em relação ao meu poema favorito teu, que é “A poesia é uma dança dos mosquitos”. Mas, antes de fazer a pergunta, eu queria que você pudesse ler esse poema para nós, que está na página 199.
LF:
“A poesia e a matança dos mosquitos
Cada poema original que escrevo à máquina contém pelo menos 2 ou 3
cadáveres de mosquitos esfregados no rolo.
Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa.
Antes de amanhecer eu apago para espiar a mutação de cores.
Meu editor um dia vai receber a coleção completa.
Parece que Pablo Neruda colecionava por sua vez caramujos.
Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho alma de artista.
Como as pessoas são boas observadoras agora.
Os meus cachorros latem muito de noite quando estou escrevendo.
Eu acho isso muito chato porque fico tenso.
Às vezes eu penso que vai sair do mato um macacão enorme.”
SC:
Leonardo, toda vez que eu leio esse poema, eu fico pensando nesses pequenos assombros que você, como poeta, vai recolhendo, e como, por exemplo, a matança dos mosquitos, que, na verdade, os mosquitos, de alguma forma, acabam se intrometendo no poema e virando uma parte do poema, fica mancha na página.
Uma outra coisa que me chama a atenção nesse poema é essa coisa do assombro que tem. Você tem o cachorro latindo de noite, que incomoda você, mas que entra no poema, e você tem esse medo do macacão enorme surgir e invadir a cena. A gente é cercado o tempo inteiro de pequenos assombros que a gente, às vezes, até não dá nome para eles ou finge que eles não existem ou espera que aconteça uma coisa maior que isso, que seria uma epifania. A gente não vê assombro porque a gente fica doido esperando que seja lá por uma epifania. Você podia falar desses assombros e desse poema especificamente?
LF:
Eu vou contar, eu gosto muito de referenciar sempre as coisas que eu digo a fatos vividos, porque fica claro que eu não trabalho no abstrato. Embora às vezes o poema meu pareça até um pouco um ou outro poema literatura abstrata, porque a gente não entende muito bem, nem eu entendo muito bem de que se trata, eu acho que o problema é fazer uma composição com palavras que se sustente, que aquilo você não possa contar, aquilo só existe naquela forma vocabular que o poeta consegue criar, como se estivesse construindo uma escultura em madeira ou em pedra. É uma coisa, é um objeto verbal.
Mas, em geral, esses poemas, como neste aqui, a senhora que me visitou outro dia, que achou que eu tenho alma de artista, existiu. Foi uma senhora, provavelmente das vizinhas, não sei mais quem era, que me disse isso. Foi lá à minha casa me visitar e com alguma coisa que eu disse ela fez esse comentário. “Ah, você tem alma de artista.” E claro que isso entrou no poema, e não foi invenção minha, eu estava apenas registrando aquilo. E quanto a essa intervenção casual do mosquito, do macacão enorme, que pode aparecer, poderia aparecer, eu me lembrei, enquanto você falava, que numa dessas madrugadas, geralmente era de madrugada, eu acordava muito cedo e ia para o escritório, e, em geral, ia para traduzir, mas, de repente, baixava o poema.
E numa dessas manhãs, três, quatro horas da manhã, de luz acesa, o meu escritório tinha a frente toda envidraçada, dando para a mata. Nesse dia, eu vejo um coelhinho branco, do lado de fora, em cima de uma pedra, olhando para mim, com muita atenção, que eu digo: “mas que diabo veio fazer esse coelho aqui a esta hora?” Porque coelho não é bicho silvestre. Coelho, em geral, na noção da fauna local devia ser de alguma criação de coelhos, aí que tinha coelho, coelhos criados em gaiolas, presos, etc. Provavelmente esse coelho fugiu de alguma criação, saiu por ali pelo mato, de repente foi atraído pelo meu escritório, que estava com a luz acesa, e, de repente, eu vejo aquele bichinho tão lindo olhando para mim com o mesmo interesse com que eu olhava para ele.
Isso é que eu acho, sabe, que é a coisa que você viver na natureza, em contato tão íntimo com a natureza, muda muito a sua maneira de pensar, de se colocar diante do mundo, porque aqui na cidade grande a gente está sempre no palco, como eu estou aqui hoje, não é? A gente não tem um momento de recolhimento diante da natureza, diante do arvoredo, diante das cachoeiras, dos rios. E são momentos mágicos. Eu tive o privilégio de poder me dar esta vida, sem deixar de ser o profissional que eu fui, traduzir dezenas e dezenas de livros para poder pagar esse luxo de poder viver em um sítio, poder viver em contato com a natureza.
SC:
Só o fato de você descrever com atenção o que você está olhando ao seu redor, a gente que lê, a gente começa a achar… A gente lê esse poema até como um conto de detetive, porque dá medo. Parece que alguma coisa vai romper na hora e vai atacar o poeta. E, na verdade, é só observação. E você falou esse negócio do coelho, veio na minha cabeça. Eu não sei aonde eu vi, mas uma frase tua, que eu acho maravilhosa, que é: “em geral, as abelhas não são corruptas.”
LF:
E a sociedade consegue sempre estar colaborando uma com a outra, não é? A coisa social. E na sociedade humana, os sentimentos negativos atuam de tal forma que tanta gente está querendo prejudicar intencionalmente o outro. Os insetos não, em geral. Você vê até a formiga, se tem uma formiga acidentada, a outra vai e carrega a formiguinha que está com a perna machucada nos ombros. São muito prestativos e são muito… Quer dizer, eles têm formas de convivência social muito mais desenvolvidas do que os humanos conseguiram fazer. Os humanos se sentiram sempre os reis da criação, mas eles têm muito a aprender com as demais espécies, eu acho.
SC:
Leonardo, a próxima pergunta é sobre o poema “Justificação de deus”. Você podia ler para a gente? Ele está na página 133.
LF:
“o que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.”
SC:
Uma coisa que chama atenção nesse poema, Leonardo — e isso aparece várias vezes na tua poesia —, que é entender o mundo, ou tentar entender o mundo. Talvez seja a melhor explicação. Pela ideia da metamorfose, uma coisa vai virando a outra. A alma pode ser uma planta, a alma pode ser uma montanha, Deus pode ser uma montanha e Deus pode ser uma casa de marimbondo na chuva também. Eu queria que tu comentasse sobre essa ideia de metamorfose que atravessa muitas vezes os seus poemas.
LF:
Eu tenho uma visão de que nenhum de nós existe isoladamente. A gente, na cidade, é forçado até pelas circunstâncias, pelo tipo de vida que se leva, há uma necessidade muito grande de autoafirmação. Todo mundo diz: “eu preciso ocupar o meu espaço.” A gente precisa se afirmar socialmente para que nos levem a sério, para que a gente possa crescer profissionalmente, para que a gente possa ser respeitado socialmente.
É inevitável isso, não é? A sociedade se estrutura de tal forma que o compromisso que cada um de nós assume com o seu desenvolvimento, com a sua personalidade, é uma coisa fundamental para a existência de cada um de nós. É um processo até quase biológico, natural, mas o exagero desse processo leva a gente a se levar muito a sério, a achar que nós somos a nossa personalidade.
Porque, no fundo, nós não sabemos absolutamente nada sobre quem somos, de onde viemos para onde vamos. A vida é um absoluto mistério. A ciência pode dar todas as explicações possíveis e vem fazendo isso há séculos e séculos e séculos. Mas jamais ninguém conseguiu dizer por que existe a vida, por que uma primeira ameba saiu da água e se transformou pouco a pouco em uma planta ou em um animal? E por que os animais são tão diferenciados de uma formiga a um elefante, de um canarinho a uma baleia? Se a gente pensa nas formas animais e vegetais, a variedade infinita, a gente diz: “puxa, não há explicação possível.” Existe um grande mistério que nos envolve. E, para mim, a visão que eu tenho, que foi sendo elaborada ao longo de tantos anos de vida, é que eu não existo isoladamente, eu sou parte de um todo. Eu sou parte das pessoas.
Por exemplo, eu vou sendo mudado ao sabor das circunstâncias, dependendo das pessoas com as quais eu estou convivendo. Se eu convivo com os meus filhos, eu sou uma pessoa. Se eu convivo com os vizinhos, eu sou outra pessoa. Se eu convivo com estrangeiros, eu sou outra pessoa. Ou seja, a minha personalidade não é um dado imutável, ela vai variando de acordo e ao sabor das circunstâncias. E esta compreensão, para mim, é fundamental, o que você chamou de metamorfose.
Quer dizer, de repente, eu sou a montanha. Quantas noites eu dormi subindo, escalando montanhas, no alto da montanha, ao ar livre, sob o céu estrelado, e eu não tinha noção que eu sou aqui o Leonardo, que é fulano de tal, que faz isso, que faz aquilo, que é tradutor, que é poeta, etc. Não. Eu sou parte dessa coisa grandiosa que eu vejo aqui e que eu não conseguirei jamais entender em termos racionais, mas que eu posso sentir, eu estou sentindo aquele espaço estelar, aquela coisa infinita. Eu digo, isso não dá nem para conceber até onde vai isso, isso vai acabar, parece que não acaba, que não tem fim, que não tem limite, e eu sou parte disso. E a parte mais importante, no meu entender, é eu poder contemplar isso, saber que eu sou parte disso e ter essas sensações tão maravilhosas de estar vivo.
SC:
Leonardo, aproveitando, pegando a deixa que você falou de montanha agora, a gente vai ler a “Introdução à arte das montanhas”, que a próxima pergunta é sobre ele. Está na página 241.
LF:
“Um animal passeia nas montanhas.
Arranca a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima o animal é um imã,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.”
SC:
Leonardo, sobre esse poema, tem um comentário do crítico Ivan Junqueira, que diz o seguinte: “Leonardo, às vezes, escreve poesia como quem conversa, como quem conta, entre esquivo e distraído, uma história que só pode ser contada ao pé do ouvido.” Eu fico sempre pensando, quando eu leio esse poema, ele também tem uma estrutura de uma fábula. E, na verdade, é isso que é uma coisa, que é a coisa mais simples, talvez, que é, se você aprende a subir, você vai ter que aprender a descer. Acho que essa talvez seja a lógica da vida. Somente que a forma como você constrói isso, a gente lê e vê um mistério, da mesma forma como a gente vê o mistério do macacão podendo entrar na casa da gente no meio da noite.
LF:
Eu queria aproveitar uma deixa que você falou do estilo tipo uma conversa, como se fosse uma conversa, porque eu acho que um segredo da poesia, e, aliás, um segredo de toda manifestação artística, seja a dança, seja o desenho, seja o teatro, é o ritmo. Uma obra de arte, seja um poema, seja um filme, ela se estrutura, ela se torna convincente pelo ritmo que nela se expressa. À medida que a minha vida se simplificou enormemente, quando eu fui para o campo, a minha linguagem também passou a ser mais simples.
A gente percebe isso, eu acho, ao longo do meu livro de poesia completa, a gente percebe, aos vinte anos, eu usava palavras muito mais complicadas do que aos quarenta, aos cinquenta, aos setenta. O próprio vocabulário foi se tornando mais conversa e menos literário. Felizmente, porque eu acho que aos vinte anos eu tinha necessidade até de fazer uma poesia mais curta, usar palavras mais difíceis, etc., talvez para ocupar o meu espaço, como eu disse antes.
Agora, como eu falei também antes, e é o caso deste poema, “Introdução à arte das montanhas”. Muitas vezes o que o poema está descrevendo é uma experiência vivida. O que este poema descreve foi uma ascensão que eu fiz a uma pedra, uma pedra lá de Petrópolis, que se chama Maria Comprida. O nome já dá ideia do que seja. É um cone de granito monumental que tem 1.900 metros de altitude. E não tem vegetação. A gente vê a pedra nua, como se fosse uma escultura de Brancuși, numa escala monumental, só tem um pouco de vegetação na base. E depois a gente tem que subir na pedra nua.
Consequentemente, subindo, à medida que o sol vai esquentando, a pedra vai ficando quente, a sede de quem está fazendo a ascensão vai se tornando absurda. Você sente cada vez mais sede até chegar ao cume. E, nesta ascensão que eu fiz, era a primeira vez que eu subia nessa pedra, eu bebi toda a minha água, eu levava um cantil com água, tipo um litro de água, e eu bebia a minha água toda na subida. Depois fizemos lá um lanche no alto da montanha etc., “vamos descer.” E eu não tinha uma gota d ‘água para a descida. E matei a minha sede graças à caridade do grupo com o qual eu estava, cada um me dava um golinho d ‘água, para eu poder matar a minha sede até chegar à base, que era o único lugar onde eu podia encher o meu cantil.
Então, daí, essa história de que se esquece que ainda tem de aprender a descer. Eu tinha errado, porque eu não tinha reservado uma quantidade de água mínima que fosse para a descida. E, ao mesmo tempo, o poema pode ser lido de diferentes maneiras, muitas pessoas já me falaram isso, cada qual interpreta à sua maneira. Eu acho que essa é a graça da poesia. O poeta vê de um jeito e cada leitor vai ver a sua maneira, baseado na sua experiência, na sua capacidade de interpretação.
Porque, no final, quando dizem que ainda falta aprender a descer, pode ser considerada uma coisa relativa à própria existência. Que a gente vai subindo, vai subindo, como já me aconteceu, e agora que eu já passo dos 80 anos, eu tenho que aprender a descer, que é o término da vida. E espero que este término da vida seja sorridente como tem sido na maior parte do tempo a minha vida. Porque eu sou muito grato à vida que levei, que estou levando, e espero morrer também satisfeito com o que eu consegui fazer.
PW:
Agora, vamos para o segundo bloco do programa, que traz a conversa do Leonardo Fróes com o Tarso de Melo, que aconteceu lá no auditório Armando Nogueira, o auditório do Museu do Futebol, lá n’A Feira do Livro de 2025.
LF:
Mas hoje o tema principal da nossa conversa seria este livro, Natureza, a arte de plantar, que só existe graças ao trabalho paciente e meticuloso que o Victor da Rosa teve. Ele é o professor e crítico excelente, crítico literário e é professor da Universidade Federal de Ouro Preto. Eu não o conhecia, mas um belo dia, ele me contactou por e-mail, primeiramente, dizendo que tinha acessado essas crônicas que estão neste livro, toda a coluna que eu fiz durante uns 13 anos está hoje digitalizada pela Biblioteca Nacional.
E ele mora em Belo Horizonte, é professor em Ouro Preto e Mariana, não é? Mas mora em Belo Horizonte, ele lá em Belo Horizonte, onde ele reside, ele acessou, gostou do material e me perguntou se ele podia organizar um livro. Eu disse, olha, eu fico muito contente porque eu já não tenho, essas crônicas todas foram escritas em máquina de escrever. Eu entregava o meu original no jornal, não fazia cópia, não existia nem xerox ainda na ocasião e, claro, o que eu tinha como meu original eram as páginas do jornal onde saíam as minhas matérias. Mas até isso eu perdi com o passar dos anos.
Então, o trabalho que o Victor da Rosa fez foi a recuperação deste material, que eu mesmo já não tinha, não tinha mais nada. E ele teve uma paciência infinita, não nos conhecíamos pessoalmente, ele organizou o livro, ele tratou com a editora, que é a Companhia Editora de Pernambuco, sediada no Recife, naturalmente, e cuidou de tudo. Eu já recebi o livro pronto, me pagaram pelos meus direitos etc., todo o trabalho dele. E só então foi que ele veio a Petrópolis com a mulher dele para me conhecer pessoalmente. E ficamos muito amigos, ele passou uns dias lá, um fim de semana conosco em Petrópolis, fomos para o sítio. E é uma pessoa a quem eu sou muito grato por esse trabalho que ele teve de recuperar este material. E este material define muito bem o que foi a minha transição tão brusca de vida.
É curioso, eu dei uma olhada no livro nesses últimos dias, para me recordar de certas coisas, que a primeira matéria que aparece chama-se Estado de Sítio. E era uma ironia, porque era durante a ditadura militar. O Estado de Sítio, naturalmente, era aquilo que eu estava vivendo no meu sítio. Mas o título fazia uma ironia, porque o país vivia em Estado de Sítio sobre a ditadura militar, era uma confusão medonha. E, neste Estado de Sítio, eu falo muito da mudança que foi para mim. Eu nasci no interior, numa pequena cidade, Itaperuna, no norte do estado do Rio. Mas de lá, meus pais se mudaram para o Rio e me carregaram junto. Com vinte anos, dez anos depois, eu fui para Nova Iorque.
Com trinta anos, eu voltei para a roça. E aí, é claro, eu não tinha muita vivência da natureza. A não ser dos dez primeiros anos de vida. Mas eu acho que aos dez anos de idade — aconteceu comigo — um ser humano já está mais ou menos formatado naquelas inclinações fundamentais, pelo menos. Ele vai mudando, é claro, vai mudando no interior da sua permanência, mas já tem uns dados essenciais. Eu acho que isso talvez tenha acontecido comigo. Porque quando eu voltei com trinta anos a viver no interior, numa zona rural, eu tive a sensação de que eu estava voltando para a minha infância, para os dez anos iniciais, onde eu andava pelo mato, eu sabia onde tinha um pé de pitanga, onde tinha um pé de jambo, e eu ia lá, garoto, chupar fruta no pé.
E passei a fazer isso depois dos trinta anos, porque todas as fruteiras que estão lá no sítio hoje, tem uma variedade infinita de fruteiras, foram plantadas por mim mesmo, com as minhas mãos. Eu comecei a pegar na enxada, a fazer o trabalho de um lavrador. Era engraçado, um intelectual, um homem livresco, de formação muito livresca e muito urbana, de repente voltar para um tipo de existência rural. E foi uma mudança fabulosa para mim, porque eu não me limitei a ir morar no campo, eu tive que trabalhar o campo.
O terreno que eu comprei, que é muito grande, tem quase cinquenta mil metros quadrados, tinha sido transformado em pasto para engorda de bois. O boi de engorda, eles soltam num capinzal, não precisam nem dar ração para o boi, o boi se alimenta ali, quando está gordo, vai para o abatedouro.
E aí, claro, estava lá, comprei assim, estava arrendado para um criador de bois, e logo eu pedi que retirasse os bois, porque aquele terreno tinha um novo dono agora, que era eu. E daí para frente eu fui fazer o que eu queria Eu disse: “não, está bom um terreno assim.” Estava só com capinzal. “Porque o que eu quero é reflorestar esta área.” E comecei a plantar mangueiras, abacateiros, jabuticaba, pitanga, uma infinidade de frutas, caju, cacau, uma variedade enorme de fruteiras que eu tenho lá hoje e deixei que as árvores nativas crescessem. E essas, claro, cresceram com muito mais rapidez, porque elas estavam no seu habitat natural.
Quando era pasto, eles não deixavam as nativas crescerem, porque, se uma árvore cresce no meio do capinzal, o capim morre, porque o capim precisa de sol pleno o tempo todo. E eles roçam as mudinhas de árvores que nascem para que não haja sombra sobre o capim, porque eles querem o capim para engordar o boi. E aí eu deixei que as nativas crescessem. Hoje tem árvores gigantescas, quer dizer, um pouco mais de meio século, eu pude comprovar como a natureza se regenera, como é rápido o processo de regeneração.
Qualquer terreno que você deixar em paz, não é não mexer, não roçar, não derrubar mais árvores, em pouco tempo ele começa a se restaurar. Porque a quantidade de sementes que cada árvore nativa desprende é impressionante. Eu ouvia o tempo todo aquele plaque, plaque, plaque. Eram vagens contendo as sementes da árvore, que se abriam. E o barulho era ensurdecedor. No fim do outono, então, quando as vagens já estão maduras, elas têm que abrir para expelir semente. E as sementes de uma árvore, de repente, você olha, tem dez da mesma espécie em volta. E isso foi acontecendo.
E, claro, mentalmente, eu fui passando a ver as plantas de uma maneira diferente. Chegar à conclusão, por exemplo, que hoje é parte das minhas convicções, de que as plantas são seres vivos, não são autômatos, não são objetos de decoração, são seres vivos, com necessidades especiais, e que devem ser respeitados, porque eu acho que eles têm o mesmo direito à existência que cada um de nós tem, como os animais silvestres.
E o que aconteceu? Como eu plantei muita fruteira, tem lá muita manga, muito abacate em quantidade, a gente não come nem 2% ou 3% do que as árvores produzem, mas os animais silvestres passaram a frequentar cada vez mais o meu sítio, porque tem alimento para eles, tem um pequeno rio na frente, na entrada do sítio, que corta toda a frente do sítio, tem água para beber no rio e tem frutas em quantidade para eles comerem. E os animais silvestres, comendo as minhas frutas, me ajudaram a reflorestar a área.
Eles vinham, por exemplo, a uma mangueira muito próxima à casa, eles pegavam a fruta e corriam o morro acima, sempre teve umas trilhas que eu abri, corriam o morro acima para ir comer no mato, escondido, e largavam a semente por lá. Um caroço de manga ou um caroço de abacate, inevitavelmente vai enraizar e vai virar uma outra árvore.
Então tinha de início, digamos, dois pés de abacate e quatro mangueiras, mais ou menos. Hoje são dezenas de pés de abacate e dezenas de pés de mango. Eu não sei nem calcular mais a quantidade. E jabuticaba também, que é outra planta que se multiplica da semente com muita facilidade. Então, foi isso. Isso eu acho que deu uma rotação de 360 graus na minha mentalidade. Porque quem vive na cidade não tem essa vivência. Na cidade, a cidade é toda ajardinada. As plantas, ainda bem que existem plantas na cidade, mas elas são organizadas sempre de uma maneira muito racional. Não se pode deixar uma floresta crescer no centro. Nem há espaço mais para isso.
Tarso de Melo [TM]:
Entendi que a vida do mediador é fácil demais, porque eu não falei nada ainda ele já explicou tudo. Podem ir passear n’A Feira, vamos embora! [Risadas] Leonardo, já que a gente adiantou vários pontos aqui, eu queria falar um pouco da estrutura desse livro que o Victor da Rosa montou, e que é muito curioso porque o Victor menciona que são mais de quinhentas colunas publicadas nesses treze anos, das quais ele escolheu quase setenta, que são as que compõem esse livro, contando a sua experiência anterior a viver em Secretário, a se instalar lá para montar o sítio, construir sua casa.
Tem uma coisa muito interessante, que é essa vivência internacional também, não só de viver no Rio e dos trabalhos que você tinha em editoras e jornais, mas também de ter vivido fora do país, ligado com esse mundo editorial e jornalístico. Quando você se instala em Secretário, e logo em seguida começa a escrever essa coluna, entre o início dos anos 1970 e o início dos anos 1980, você vira uma espécie de correspondente, se não internacional, mas interespécies. Porque você vai falar desses assuntos todos que estão no livro e sempre com a erudição, com a organização, com o estilo mesmo que você tem de escrita, mas para um público que não vive nem de perto aquela experiência. Ou seja, você estava vivendo durante os anos 1970 um mergulho profundo nisso, de estar com a mão na terra mesmo e fazendo tudo.
E uma coisa que você destaca muito e que é muito bonita é que é aprendendo com esses homens e mulheres que viveram ali sempre e que têm um conhecimento absurdo daquilo, e eram a sua enciclopédia ali. Mas o resultado disso era falar para um público que tinha, no máximo, um vaso em casa, ou dois. Essa articulação entre esses dois mundos é muito decisiva, eu acho, para o que acontece nas crônicas.
LF:
É verdade. E é curioso a origem de tudo isso. Pouco depois de eu estar em Secretário, eu recebi a visita de um querido amigo, um arquiteto do Rio, que era muito meu amigo na época, que foi passar o fim de semana com a namorada conosco, e ele me viu. Nós saímos para dar uma volta e eu vi um pé de manacá, que é uma planta que eu adoro. Saímos para dar um passeio, nós quatro, eu, a minha mulher e o meu amigo com a namorada, e eu vi um pé de manacá com mudas de mergulhão.
E pedi à dona da casa se ela podia me ceder uma muda, me emprestar uma enxada para eu tirar a muda de mergulhão. O meu amigo arquiteto, que era tipicamente urbano, ficou assombrado com aquela minha capacidade, e eu disse: “não, eu vou levar para plantar na minha casa, porque eu não tenho ainda manacá.” E levei a muda. Aí ele disse: “ah, o Jornal do Brasil está querendo contratar alguém para fazer uma coluna de plantas e de jardinagem, etc. E é o Grisoli.”
O Grisoli, que era daqui de São Paulo, aliás, que foi muito meu amigo também, já era meu amigo, e era o editor do segundo caderno, o caderno de variedades, onde eles estavam planejando e à procura de alguém que fizesse esta coluna. Aí o Grisoli me chamou para ir conversar com ele no jornal e já saí contratado por eles para fazer o trabalho. E tinham sugeriram-me, um título para a coluna, que era “Natureza para o homem do asfalto”. Eu disse: “olha, natureza, tudo bem, mas por que para o homem do asfalto? E a mulher do asfalto?” Em geral, as mulheres eram mais interessadas em plantas pela tradição do que os homens. Eu disse que ia ficar muito restritivo.
“‘Para a mulher e o homem do asfalto’ vai ficar uma coisa enorme. Por que vocês não deixam só ‘Natureza’?” E eu estava espertamente já pensando nisso. Eu digo: “não adianta, porque as plantas para cultivo em apartamento, em poucos meses eu esgoto o elenco, eu não vou ter mais assunto. E ‘Natureza’ não, vai abrir o campo para tudo. Aí eu posso escrever sobre árvores, sobre árvores decorativas, árvores floríferas, tipo o flamboyant, uma paineira, ou trepadeiras floríferas grandiosas, como a bougainvillea.”
E assim foi, eles concordaram comigo. Eu digo: “olha, quem se interessa por plantas? Geralmente também tem uma casa de campo ou tem um sítio. Eu preferia que eu pudesse ter um universo mais amplo.” Eles concordaram comigo, disseram: “tudo bem.”
E aí também eu passei a escrever algumas crônicas dessas histórias sobre animais. Escrevi sobre coruja, sobre papagaio, sobre tia sangue, que é um pássaro vermelho lindíssimo, que é um pássaro de mata — não é tão frequente mais lá na minha região, ele aparece muito raramente hoje, na época era muito frequente. Eu caprichava muito, procurava fazer da melhor forma possível, e as colunas se tornaram muito lidas.
No mesmo Jornal do Brasil, escreviam dois grandes cronistas, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. E, muitas vezes, a minha matéria saiu na mesma página que as crônicas deles. Aquilo me enchia de entusiasmo, porque eram dois escritores que eu adorava. Um belo dia, aconteceu o melhor de tudo. O Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica falando da minha matéria. Aí, então: “não sei o quê, lembro-me do Leonardo Fróes para consultar sobre isso, sobre aquilo da natureza.” E elogiando muitíssimo o meu trabalho.
TM:
No caso do Drummond, pode dizer que a carapuça serviu, porque ele está reclamando justamente disso, de que o que sobrou para ele, que era o cara do apartamento, naquela fase, era ter um vaso em casa.
LF:
Mas é a tal história. Ele, como eu, nasceu no interior, ele nasceu em Itabira. Já era adulto quando foi para Belo Horizonte, e de Belo Horizonte chegou ao Rio. Eu não o conhecia. Quer dizer, nunca tinha falado com ele, eu o conhecia de vista na fila de colaboradores de jornal, porque havia uma pequena agência bancária dentro da redação, no térreo, e os colaboradores, que era ele e eu, nós não éramos empregados de jornal, ganhávamos pelo trabalho mensal, em dinheiro. A gente entrava numa filinha…
TM:
Imagina essa fila. Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Leonardo Fróes, Rubem Braga.
LF:
Era uma fila bem curiosa. Clarice Lispector, todo mundo lá na fila. Então, várias vezes eu estive atrás do Carlos Drummond de Andrade, na fila, mas nunca ousei…. Ele era muito reservado, não era de abordagem muito fácil. Então, não vou dizer: “senhor, muito obrigado pelos elogios que me fez.” Sempre fiquei muito envergonhado de abordá-lo. Enfim, nunca o conhecia oficialmente. Mas foi uma força extraordinária que ele me deu, porque ele era muito lido como cronista, muito admirado. Depois publicava as crônicas em livro. E eu acho, até hoje, que ele foi mais lido como cronista do que como poeta. E é um poeta extraordinário.
TM:
Mas é algo que também é importante notar nesse trabalho aqui, que tem tanto da sua poesia nele, e o Victor também, no texto de pós-fácil do livro, ele menciona isso. Você sai do mundo da poesia em que os livros têm trezentos exemplares, até ali, do que você tinha lançado, para um universo em que seus textos vão ter duzentas mil cópias circulando e tratando de assuntos práticos que você não sabe onde pode chegar com aquilo. Então, é um alcance tremendo que, no seu caso, vai fazer com que você queira depois se esconder ainda e inventar um pseudônimo para assinar as colunas. Porque ele falava que ia ficar conhecido só como jardineiro, ninguém vai querer mais saber da minha poesia.
LF:
É verdade. Esse é um detalhe curioso também da história deste livro desse trabalho, porque, depois de alguns anos, já foram treze anos de coluna, depois de alguns anos, logo no início, o Jornal da Tarde começou a republicar o meu material em São Paulo, numa coluna que eles intitularam Verde. O Jornal da Tarde, na ocasião, era um dos jornais mais avançados graficamente do país. Era muito bem feito, era um jornal de vanguarda. E a minha coluna lá saía com destaque enorme, e, a partir de alguns anos, não sei mais quantos, uns cinco anos ou por aí, a coluna começou a fazer tanto sucesso, o jornal chegava a tirar mais de trezentos mil exemplares nessa ocasião. Então, era uma quantidade extraordinária de gente que me lia e que lia com interesse pelo texto. É claro que eu não deixava de ser poeta escrevendo em jornal. Não há como você deixar de ser poeta.
TM:
Posso ler um pedacinho para eles saberem do que a gente está falando?
LF:
Pois não.
TM:
Um dos textos assinados pelo Solano de Castro, em 1982, chama “O problema sexual do mamão”. Vejam, imaginem vocês abrindo o jornal, deixem-me ver o que tem nessa coluna aqui. E o texto é assim, vou ler dois parágrafos. “Não há fruta mais fácil nem mais gratificante de plantar do que o mamão, que um ano depois de semeado já está dando frutos, quando até mesmo as laranjas de enxerto, que também são precoces, precisam de pelo menos uns três. A rapidez com que o mamoeiro cresce para chegar à maturidade em tempo recorde explica-se principalmente em função de seu caule, que, sendo oco e mole, fabrica sua consistência e altura com muito mais facilidade do que as plantas de lenho rígio. A umbaúba e a mamona, com caules do mesmo tipo, e identificam-se ao mamão quanto a isso. Disparam cedo, maturam sem maiores esperas e têm, por consequente, uma vida infinitamente mais curta do que as árvores que dão madeira maciça.”
“O maior problema do mamão é o sexo. Quase sempre, a planta é de tipo dióico, ou seja, há pés masculinos, ou com estames, e femininos, ou com pistilo. Nem todos estão treinados para distinguir esses órgãos que as flores protegem, mas há um modo bem mais fácil de saber quem é quem. Nu mamão fêmea, que é o mais gostoso e o único que geralmente se come, as flores nascem grudadas no caule, sob as axilas dos pecíolos das folhas, enquanto numa mão macho ou de corda elas se formam a palmos de distância na ponta de extensões fibrosas que se projetam dele. Como os frutos sucedem às flores nos mesmos pontos, os da planta fêmea também dão junto ao caule, enquanto os do mamão-macho ficam pendurados.”
LF:
É o problema sexual do mamão. E, de fato, a maioria das pessoas não se dá conta disso. Há árvores que são bissexuais, elas têm flores machas quanto flores fêmeas. Então, o cruzamento é mais fácil. Qualquer abelha, qualquer inseto, carrega o pólen de uma flor para a outra e fecunda a planta. Agora, algumas plantas dióicas, que é o caso do mamão, têm pé fêmea e pé macho. O mamão-macho, geralmente, não sempre, está pendurado em uma espécie de corda que se distancia do caule. E o mamão fêmea dá grudado no caule do mamoeiro. É muito interessante tudo isso. Enfim, são essas coisas que quem começa a se interessar pela natureza vai aprendendo na prática.
E muitas coisas sobre as quais eu escrevia eram coisas que eu estava aprendendo. Então, eu passava para os leitores do jornal aqueles ensinamentos, como o Tasso lembrou, que muitas vezes eu aprendi com senhores, lavradores, gente simples da terra, mas que sabiam tudo sobre plantação. Sabiam tudo. E muitos deles analfabetos, de não saberem sequer assinar o próprio nome. Seu Alcides Passarinho, seu Chico Machado, seu Roque e vários outros, que eu até menciono na nota introdutória que eu fiz no livro, agradecendo os ensinamentos que esses homens simples da Terra, às vezes analfabetos, me transmitiram. Eles tinham um conhecimento vivido daquilo que eu estava querendo aprender. E eu retransmitia aqueles ensinamentos através das minhas matérias de jornal.
Mas eu queria lembrar antes a história da mudança de nome. É que, a partir de um determinado momento, a coluna ficou fazendo tanto sucesso, tantos leitores e cartas de leitores que mandavam para o jornal, que eu procurava responder também pelo correio, sendo sempre atencioso com todo mundo que me lia, eu comecei a ficar muito conhecido. O Leonardo Fróes era o Seu Planta, até o apelido que me puseram na redação do Estadão, toda semana, toda sexta-feira eu ia lá entregar a minha matéria e brincavam me chamando de Seu Planta.
Aí fui falar com o meu editor, Humberto Vasconcelos, disse: “olha, eu não estou gostando disso, porque eu estou ficando cada dia mais conhecido como especialista em jardinagem, ecologia, etc. E eu até gostaria de ser conhecido como poeta, como escritor, porque foi para isso que eu me destinei. A coluna aqui era só o meu ganha-pão. E eu não estou com vontade de continuar, não, porque estou ficando muito famoso como jardinista. E o jardinista está se tornando mais famoso que o poeta, então não está batendo bem.” E ele me ouviu atentamente e disse: “não tem problema, o que nós queremos é que você continue a fazer essas matérias, porque elas estão sendo muito lidas, muito procuradas, e o resto do jornal está à sua disposição, você pode fazer os artigos literários, que também caem muito bem, etc. Você faz o seguinte, muda o nome da coluna e inventa um pseudônimo, não tem problema nenhum.” Aí ficou combinado assim, eu continuava a receber os meus devidos, e inventei um novo personagem, que era o Solano de Castro. E aí mudei o nome da coluna, por isso que o livro se chama Natureza, e o subtítulo é A arte de plantar.
TM:
Alguém perguntou qual era o nome do livro, é isso, Natureza, a arte de plantar.
LF:
É, que é o segundo estágio da coluna. Aí eu acabei com “Natureza”, Leonardo Fróes, e entrou “A arte de plantar”, um nome novo para a coluna, assinado Solano de Castro. Solano de Castro, o nome me foi sugerido pelo nome latino de um arbusto, que, aliás, é venenoso, é muito comum no mato, chamam de arrebenta-cavalo. Ele dá uma frutinha amarela venenosa. Por isso o nome arrebenta-cavalo.
Se o cavalo comer, ele vai passar mal. Não creio que dê para matar um cavalo que é tão grande, mas, pelo menos, ele vai ter alguma complicação. E este arrebenta-cavalo, em latim, se chama Solanum capsicastrum. É o nome técnico dele em botânica. Então, Solanum capsicastrum ia ficar ruim, dá para botar Solano de Castro, vira um nome razoável, e assim foi. E, daí a pouco, pronto, começou, começaram a me mandar cartas: “querido professor Solano…” Era eu, mas aí mudei de nome e continuei trabalhando ainda muito tempo, e foi muito bom.
Tarso de Melo:
Eu vou fazer as perguntas que chegaram da plateia. Tem duas que eu vou juntar, uma é da Diana. “Ontem o senhor falou sobre a importância do ritmo na escrita. Em minha opinião, que sou caipira, nada ensina mais sobre ritmo do que o cultivo de um jardim. Então, poesia e contato com a natureza fazem-nos sentir parte de algo sagrado.” E veio uma pergunta, sem assinatura, que dá para ir para o mesmo caminho. “Quais as semelhanças e diferenças entre plantar e escrever poesia?”
LF:
De certa forma, escrever poesia é plantar palavras. Nos meus poemas, acho que isso fica evidente, eu nunca estou escrevendo de uma forma usual, eu estou tentando fazer enxertos de palavras, plantações de palavras, semeando palavras. E a poesia tem essa capacidade mágica que você junta preto e branco e dá certo, forma um sentido que não pode ser narrado, como você pode narrar um filme, narrar um romance, contar com outras palavras uma determinada obra de arte. É como um quadro de arte.
Ontem, por exemplo, eu fui ver a bela exposição do Monet no Masp, pela manhã eu tive um tempo livre, e fui lá ver os Monets, que são maravilhosos. Mas como é que eu vou descrever um quadro daquele? São indescritíveis. Depois fui ver a exposição do Renoir, que também é um grande pintor. São pintores da época de ouro da pintura. São pintores que nunca tiveram sucessores tão grandiosos como eles conseguiram fazer.
O século 19, na verdade, também foi a idade de ouro da poesia. Os poetas do século 19 eram incensados, viravam nomes de rua. Os nossos românticos morreram quase todos jovens. Em todo lugar do Brasil se encontra uma rua Casimiro de Abreu. Aliás, Casimiro de Abreu, no estado do Rio, se tornou o nome do município onde ele nasceu. Uma rua Castro Alves, uma rua Gonçalves Dias. Tem bustos, tem estátuas. Estes poetas tornaram-se figurões da pátria. Mas, enfim, hoje os poetas já não são tão incensados, é melhor assim, porque a gente pode ter uma vida mais tranquila. Porque, no século 19, eles eram rodeados, o poeta ficava famoso, virava uma personalidade exaltada, admirada.
TM:
Leonardo, aqui tem uma pergunta que talvez tenha muito a ver, curiosamente, com um aspecto do que você falou. A Joana lembrou da sua apresentação na Flip, que foi em 2018 ou 2016, por aí, em que você falou sobre como você aprendeu a consertar coisas.
LF:
Ah, sim. Isso foi muito… É verdade. Hoje já tem outros sítios ao redor, a civilização se aproxima cada vez mais do meu pedaço de mata. Mas, quando nos instalamos lá, não tinha nada, nem ninguém ao redor. A gente vivia num vale, éramos os únicos moradores neste vale, sem ninguém para pedir ajuda. Então, eu tive que aprender também a fazer coisas. Havia uma ruína, uma casa de colono, o piso era de terra batida e o telhado tinha afundado, estava desabitado há muito tempo.
A parte essencial da casinha, os alicerces e as paredes externas, nós conseguimos recuperar e estão lá até hoje, mas tive que mandar refazer o telhado. Outras muitas coisas, eu comecei a aprender com os pedreiros que trabalharam para mim de início, eu comecei a aprender como é que faz massa, hoje também você já compra a massa pronta, na época tinha que misturar o cimento com a areia que eu ia pegar no rio e com o barro vermelho que eu tirava de um barranco, e eu tinha que fazer a massa, fazer parede, assentar janela, que eu fiz.
Cheguei a fabricar uma porta, porque a porta da cozinha tinha o caixilho original, mas não tinha mais a porta. E o caixilho é tão pequeno, a entrada da casa é tão baixinha da porta da cozinha, que eu não encontrava uma porta pronta naquela dimensão. Então, só tive um jeito, tive que comprar uma tábua grande, e a serrote dividia a tábua em três partes para fazer uma porta, a única porta que eu fiz na vida. Mas fiz, está lá até hoje, botei fechadura, fiz tudo, depois pintei, está lá bonitinha até hoje. Então, isso para mim também foi muito importante, porque eu tornei a minha vida mais interessante, ou a vida me tornou mais interessante, porque eu era obrigado a fazer essas coisas, e eram coisas que eu estava aprendendo.
E, quando você consegue resolver um problema desses, ou consertar uma ligação elétrica, ou instalar uma janela, você se sente muito poderoso, porque são coisas que antes você dependia dos outros. Então, o seu grau de autonomia em relação à sobrevivência se tornava muito maior. Até em carro, que é uma coisa que eu nunca gostei, mas como nesta ocasião eu andava com um jipe muito velho, o jipe estragava, até isso eu aprendia a consertar. E é uma coisa que eu não gosto, que eu não gosto de lidar com máquina. O meu carro, hoje eu tenho um carro novo, mas eu nunca abro o motor do carro, não gosto de mexer em carro. Mas eu lá fui forçado até a fazer isso e em geral dava certo, o carro saia andando.
TM:
Muito obrigado, Leonardo. Obrigado a todos vocês.
LF:
Muito obrigado a todos pela paciência em me ouvir. Muito obrigado. Foi uma alegria estar com vocês aqui.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451MHz que traz o melhor da literatura LGBTQIA +, de todos os tempos. LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. A cada episódio, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores. A dica de hoje é da atriz Verónica Valenttino. A gente conversou com ela depois da participação dela numa mesa d’A Feira do Livro desse ano sobre literatura travesti. Ela indicou três livros nessa temática. Vamos ouvir.
Verónica Valenttino:
Olá! Eu sou Verónica Valenttino, sou atriz, sou cantora, interpreto Brenda Lee, que é um dos livros que eu indico, Brenda Lee e o Palácio das Princesas, que também é um musical, o musical mais premiado no Brasil no ano de 2023. Também tem o livro Cláudia Wonder: a flor do asfalto, de Dácio Pinheiro. E um terceiro livro, que é de Dediane Souza, uma mana travesti do Ceará, que acabou de lançar, Dando o nome: narrativa de humanidade de travestis. Então essa é a dica para a gente resgatar e deixar viva a memória travesti do Brasil.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Podcast
Transcrição: especial Fernando Pessoa no podcast 451 MHz
Episódio narrativo investiga a vida e o legado do poeta português nos noventa anos da morte do autor
JULHO, 2026
