Conversa Travessias do sertão no Espaço Motiva Tablado Literário (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Fui uma antes e sou outra depois de Diadorim, diz Bruna Lombardi

Em homenagem aos setenta anos de Grande sertão: veredas, Italo Moriconi, Jacques Fux e a atriz celebram Guimarães Rosa

07jun2026

Num encontro que celebrou os setenta anos de Grande sertão: veredas, os escritores e pesquisadores Italo Moriconi e Jacques Fux e a atriz e escritora Bruna Lombardi declararam toda a sua admiração pelo clássico de Guimarães Rosa no sábado (6), no Espaço Motiva Tablado Literário, durante A Feira do Livro. Com o espaço lotado pelo público, o trio de convidados compartilhou sua experiência de leitura do romance e refletiu sobre o impacto do livro em suas vidas.

A conversa começou com uma pergunta simples: como cada um entrou no sertão roseano. Moriconi contou que já teve uma relação complicada com o romance. A extensão da obra, sua fama de leitura difícil e a distância entre ele e o mundo sertanejo o levaram a adiar a leitura. 

“Eu tinha uma antipatia pelo Grande sertão: veredas. Era muito comprido; era um mundo que parecia não ter nada a ver comigo.”

Jacques Fux n’A Feira do Livro (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

Ao finalmente encarar o desafio, o escritor disse ter descoberto um mundo novo. Da experiência, nasceu Para ler Grande sertão: veredas, misto de diário de leitura e ensaio literário que será lançado em junho pela Autêntica, com a ideia de aproximar novos leitores do clássico.

Ao lembrar de sua história com o livro, Fux disse sentir falta do primeiro contato com o romance. “Eu tenho saudade da minha primeira leitura, da minha primeira entrada no Grande sertão. Eu não queria mais viver no mundo; eu queria viver nos livros.”

Já Bruna Lombardi, atriz que interpretou Diadorim na adaptação televisiva do romance, conheceu, ainda adolescente, o sertão. “Eu me lembro do impacto que ele me causou — o assombro de entrar nesse mundo, nesse universo, nessa linguagem”. 

Eu, Diadorim

Ao falar sobre o processo de dar vida a Diadorim, a atriz contou que inicialmente recusou o convite para o papel por não acreditar que seria capaz de interpretar uma personagem tão complexa. “Eu fui pisando no medo até chegar na coragem”, disse, resumindo sua vivência durante as gravações. Segundo ela, a experiência transformou sua vida de maneira definitiva. “Entrar em Diadorim foi um rasgo. Existe uma eu antes e uma depois”.

A atriz e escritora Bruna Lombardi (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

“Eu virei mandacaru, virei pedra, virei buriti, porque eu não tinha alternativa. Eu precisava compreender aquele mundo para conseguir habitá-lo”, acrescentou a atriz, que relata a experiência das gravações da minissérie no sertão mineiro em Diário do Grande Sertão, relançado em 2026 pela Autêntica. No livro, Lombardi registra as descobertas, os medos e as transformações provocados pelo encontro com Diadorim. A atriz contou que o escreveu para tentar compreender o que estava vivendo. “Eu escrevi esse livro para não enlouquecer”, brincou. 

Guimarães Rosa hoje 

Os autores também discutiram a importância e a permanência da obra de Guimarães Rosa no cotidiano brasileiro. Para Moriconi, os clássicos vivem ciclos de redescoberta. “Vão e vêm — eles são esquecidos, depois são relembrados. Acho que nós estamos relembrando os clássicos agora.” Segundo o crítico literário, o romance continua atual por seguir dialogando com questões contemporâneas. 

Já para Lombardi, o que faz a obra de Rosa ser atemporal são as questões universais da experiência humana que aparecem no livro. “O que sustenta o clássico são elementos temáticos que ultrapassam o tempo, ultrapassam eras. Não é temporal o amor, a morte, a vingança, o segredo, os desafios, os medos — essas coisas profundamente inerentes que nos movem como ser humano.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Malu Vieira

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.