O ex-deputado flumimense Marcelo Freixo (Marcio Menasce/Divulgação)

Política,

‘É preciso derrotar o crime como projeto de poder’

Marcelo Freixo repassa trajetória em livro e afirma que a disputa política no Rio de Janeiro hoje é contra organizações criminosas

12jun2026

“Eu poderia nunca mais terminar esse livro, porque não para de acontecer coisa.” Na segunda-feira em que Marcelo Freixo falou à Quatro Cinco Um, o Rio de Janeiro estava sem governador. A situação, de tão bizarra, virou meme: “quem é o governador hoje?”. O Estado tem um interino, porque tanto o governador quanto o vice deixaram o cargo, e a disputa para definir o substituto segue travada na Justiça — tudo isso a menos de cinco meses das eleições.

Não é uma crise pontual. “Oito governadores afastados, seis deles presos. Não existe isso em lugar nenhum do mundo”, diz Freixo ao relembrar que a operação no governo Cláudio Castro foi batizada de “Sétimo Mandamento” porque o sétimo mandamento é “Não roubarás”, e ele seria o sétimo a ser preso. “Só não foi por ora.”

O recém-lançado Viver é perigoso é a autobiografia política de Freixo escrita com o jornalista Bruno Paes Manso, autor de, entre outros, A República das mílicias (Todavia, 2020). O novo livro narra a trajetória do ex-deputado estadual e federal pelo PSOL desde a infância em Niterói, passando pelos anos como professor em presídios, a CPI das Milícias e o assassinato de Marielle Franco. É escrito em primeira pessoa, com Paes Manso dando o acabamento jornalístico.

O jornalista Bruno Paes Manso (Fábio Lima/Divulgação)

O relato é honesto sobre o que Freixo viu e ao que sobreviveu e, não por acaso, chega às livrarias em ano eleitoral. “Se a eleição de 2026 der errado, este país vai para um retrocesso inimaginável: literatura, economia, cultura, vida comunitária, vai tudo para o ralo. Então pensei: espero a eleição [passar] para lançar no ano que vem. Mas me dei conta: pode não ter ano que vem.”

É nesse Rio sem governador e com futuro incerto que Freixo — que deixou a presidência da Embratur do governo Lula para concorrer novamente à Câmara este ano pelo PT — fala sobre os acertos, os erros e as contradições do caminho percorrido até aqui e o que ainda pode ser feito pelo estado.

*

Na CPI das Milícias, que você presidiu, um dos nomes citados foi o do ex-militar Juracy, ligado a grupos milicianos. Anos depois, você passou a ocupar um cargo subordinado a uma ministra cujo grupo político tinha relação com esse personagem. Como vê essa contradição entre seu trabalho de investigação e a realidade das alianças políticas?
A Embratur tem muita autonomia. Passei por três ministros do Turismo e nunca precisei pedir nada a nenhum deles. Como qualquer governo, há tensões, conflitos, negociações. É a natureza da política. O governo Lula, com todas as suas composições, enfrentou muita dificuldade. Imagina se não tivesse feito essas composições. Não tem jeito: política é busca de acordo.

Na Embratur, eu estava muito blindado pelo próprio presidente. Consegui montar uma equipe técnica, o maior sinal da autonomia que eu tinha. O presidente da Embratur hoje, Bruno Reis, é um turismólogo que eu trouxe do Rio Grande do Norte, onde trabalhara com Fátima Bezerra. Tinha sido estagiário na Embratur quando começou. Isso só foi possível porque tínhamos uma blindagem real. Os resultados foram muito relevantes: o Brasil bateu todos os recordes de turistas internacionais e o turismo virou motor de economia. Governo tem composição em todas as áreas. Senão não é governo, e também não se ganha eleição.

No livro, você diz que a CPI de 2008 confirmou que “não há crime organizado sem o braço do Estado”, o que permite imaginar que o Estado foi capturado por agentes corruptos, que o problema é o desvio. Hoje, com milícias controlando boa parte do Rio e com cinco ex-governadores presos, dá para falar de desvio? 
Concordo com você e, de alguma maneira, escrevo isso no livro. Acho que mudou. Eu continuo afirmando que o crime organizado precisa necessariamente estar dentro do Estado. Nunca gostei do termo “Estado paralelo”, porque ele pode criar a impressão de que existem dois Estados. Não existem. Só há uma polícia, um governador, um prefeito. Na CPI das Milícias, usamos muito a expressão “Estado leiloado”. Esse termo ajuda mais do que “Estado paralelo”. O Estado é leiloado quando suas funções passam a ser exercidas pelo crime, que por sua vez elege gente para compor esse mesmo Estado.

Mas acho que o quadro mudou. Tinha um setor movido por corrupção, por desvio — agentes que faziam o crime funcionar dentro do Estado. Existe outro cenário, que é quando o crime tem um projeto de poder e entende que o Estado é o lugar a ser ocupado. O Rio bebeu muito da milícia para chegar aonde chegou. A milícia foi um salto enorme na ideia de organização criminosa. Não é que ela captura o Estado — ela nasce nele. 

A milícia foi um salto na ideia de organização criminosa: não captura o Estado, nasce nele

Eu trabalhei dentro das prisões desde 1989, quando tinha 22 anos. Vi como as facções foram se moldando no cárcere. A milícia nasce em outro berço. E o tráfico hoje aprendeu com ela: passou a controlar van, botijão de gás, internet. Isso é recente. O que a gente assiste hoje é a um projeto de poder do crime que fez da disputa política no Rio uma disputa contra o crime organizado. O presidente da Assembleia Legislativa estava ligado ao Comando Vermelho. 

A CPI de 2008 expôs, investigou, indiciou. E as milícias continuaram crescendo, diversificando. Você foi um dos deputados mais votados do Rio em 2010, em parte por causa da investigação. O que isso diz sobre os limites do parlamento como instrumento de combate ao crime?
O parlamento hoje é um espaço usado pelo crime. O que precisamos é fazer o parlamento ser uma ferramenta para combater o crime — e a CPI das Milícias deu um exemplo de que é possível. Mas o parlamento não vai ocupar o lugar de uma Secretaria de Segurança, de um Ministério Público, de uma Polícia Federal. É uma ferramenta importante, mas não é tudo.

O delegado [Alexandre] Capote, que foi um dos nomes importantes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), ficou anos usando a CPI das Milícias como base para as ações que a delegacia fez no Rio. Dezoito anos depois, o relatório da CPI ainda vira notícia. Foram feitas 58 propostas concretas. Quem precisava tirar essas propostas do papel era o governo. E a milícia elege muita gente. Prenderam, mas não fizeram o que tinha que ser feito. O debate do Rio de Janeiro é sobre territórios, que são fontes de voto e de dinheiro. Não tiveram peito para fazer o que era necessário. Os caras ficaram presos dez anos, desmontou-se uma série de estruturas, mas eles se refizeram. Não fecharam a fábrica, só mudaram as peças. Hoje é diferente. Eles se expõem menos. Na época da CPI, o dono da milícia era o candidato.

Tem outro ponto que preciso dizer: meu irmão foi assassinado pela milícia em 2006, cinco meses antes de eu ser eleito deputado. Fui eleito junto com o Natalino [ex-policial, miliciano, um dos criadores da Liga da Justiça], com minha família destruída. Chega uma hora em que a vida exige que você tire a coragem da gaveta e a use. Álvaro Lins (PMDB), Natalino (DEM), Jorge Babu (PT) [todos policiais, foram presos e enfrentaram acusações de ligação com a milícia]: esse era o parlamento quando fui eleito. A CPI foi meu primeiro projeto como deputado; eu o apresentei três dias depois de empossado. Ficou engavetado mais de um ano, até o episódio dos jornalistas do jornal O Dia torturados por milicianos na favela do Batan, na zona norte do Rio, em 2007. Ali a imprensa entrou no debate como nunca havia entrado. 

O Rio está, neste momento, sem governador eleito, sem vice, com o presidente do Tribunal de Justiça no cargo de forma interina e o presidente da Assembleia pedindo ao Supremo para assumir. É uma crise institucional pontual ou o colapso de algo que vinha sendo corroído pelas estruturas que você investigou?
Acho que é estrutural. Na época da CPI, a milícia era defendida publicamente. Bolsonaro deu uma entrevista no dia do relatório, 10 de dezembro de 2008, dizendo que nem toda milícia é ruim. Milícia nem era tipificada como crime — os milicianos eram presos por formação de quadrilha. A CPI foi um marco importante de divisão da opinião pública. Ficou muito difícil defender milícia depois dela.

Mas para derrotar a milícia é preciso derrotar o crime dentro do Estado, derrotar um projeto de poder muito organizado, como nunca houve no Rio. Hoje, o tráfico caminha num sentido muito semelhante ao da milícia, mas aprendeu depois. O resultado está aí.

O maior erro histórico da esquerda foi a tese de que, quando houver justiça social, haverá segurança

O governador interino atual já é considerado o melhor dos últimos anos — e isso apenas porque está desfazendo coisas. Mandou embora uma quantidade enorme de pessoas em todos os setores, e nenhum morador sentiu falta de qualquer serviço. Está desmontando esquemas criminosos em todas as secretarias. O Rio virou isto: crime com projeto de poder. 

Hoje eu digo para o Eduardo Paes, com quem disputei eleições duas vezes: “Eduardo, eu preciso voltar a brigar com você”. Se você pegar as eleições de 2012 ou 2016, havia um debate de cidade: transporte, educação, saúde. Depois de 2016, esse debate desapareceu. A pauta eleitoral do Rio hoje é derrotar o crime como projeto de poder. Não consigo mais brigar com o Eduardo sobre política urbana. Defendo um diálogo amplo no Rio, porque se a gente não derrotar o crime como projeto de poder, não tem debate de cidade, de educação, de nada. O que mudou nesse tempo foi o Rio. E para pior.

O livro narra sua trajetória como uma sequência de apostas corajosas: a CPI, as ameaças de morte, a candidatura a governador. Mas heróis não mudam estruturas. Se tudo que você fez foi necessário e ainda assim insuficiente, o que precisaria ser diferente para que o próximo Freixo não precise existir?
Nunca acreditei muito em ações individuais. Minha formação toda é de trabalho coletivo: movimento de base, de moradores, educação dentro das prisões. A própria CPI foi muito coletiva. O Vinicius George foi um delegado fundamental. Ele trouxe uma parte significativa da polícia e do Ministério Público, pessoas sérias, para trabalhar conosco. Não existiria CPI sem isso. A maior vitória não foram as prisões, que são consequência, mas a mudança da opinião pública. Em 2008, tinha gente que achava que milícia era solução. 

A gente pode ter, neste momento, uma vitória maior no Rio, de uma composição política capaz de recolocar o estado numa prateleira da democracia, da República. Se o Eduardo Paes for governador, vou brigar com ele por causa da educação, não tenho dúvida, mas vou poder cobrar dele que a gente volte a ter um debate sobre o Rio num plano onde o crime não faça parte do governo. Este é o momento.

Segurança pública será o tema central das eleições. O projeto de lei antifacção ainda está em pauta, o pacote de segurança está parado. Muitos policiais serão eleitos. O que a esquerda precisa fazer, de forma concreta, para disputar esse terreno sem imitar a direita?
A segurança virou palco da direita por muita omissão da esquerda, e falo isso há muitos anos. Entendo a origem: a esquerda brasileira nasceu na luta contra a ditadura, e seu berço era de liberdade, não de segurança. O tema não entrou como prioridade nessa formação. E o maior erro histórico foi a tese de que, quando houver justiça social, haverá segurança. É o contrário: para a pessoa ter educação, saúde e transporte, ela precisa estar viva. O debate que mais toca qualquer cidadão é sobre sua própria vida.

Teremos, na verdade, dois grandes temas em 2026: segurança e comunicação. Eles se entrelaçam, porque o debate da segurança hoje é também um debate de comunicação — é um debate de sensação, de como as pessoas recebem as propostas. Se a gente errar na comunicação, não adianta acertar na proposta. O Piauí conseguiu desenvolver tecnologia para devolver celulares roubados. Devolver celular é mais importante do que reduzir homicídio? Não. Mas uma coisa pode acontecer junto com a outra. E, se eu consigo devolver o celular de uma pessoa por meio de tecnologia, crio uma sensação de segurança que dificilmente outra medida vai me dar nessa comunicação com a sociedade.

A direita tem uma resposta fácil: “Tá com medo? Vou entrar na favela e fuzilar todo mundo”. Dialoga com o medo e não só promete — faz. Vai lá e fuzila. O que mudou? Nada. Mas a gente precisa conseguir dialogar com quem assistiu àquilo achando que foi a única coisa que se fez. Se não é para fazer isso, o que é para fazer? Este é o desafio: ter eficiência que se comunique bem com uma população que convive com o medo. Segurança será também um projeto de comunicação. Essas duas coisas vão caminhar juntas no processo eleitoral deste ano e no próximo governo.

Quem escreveu esse texto

Cecília Olliveira

Jornalista e fundadora do Intercept Brasil, é autora de Como nasce um miliciano (Bazar do Tempo).

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