Ciências Sociais,
O eu empoderado
Paula Sibilia investiga desencontros de uma sociedade que mira ostensivamente o sucesso, mas precisa da fragilidade para funcionar
16jun2026 | Edição #107Na década de 70, numa agência de publicidade da avenida Madison (sim, aquela da série Mad men), uma mulher chamada Ilon Specht criou um slogan tão icônico quanto profético: “porque eu mereço”. A ideia veio rápido, na força do ódio. Cansada de ver homens definindo o universo da beleza feminina, ela propôs que as consumidoras deveriam ter acesso à melhor e mais cara coloração de cabelos porque mereciam, ponto-final.
A assinatura criada para a marca de cosméticos L’Oréal triunfou a ponto de encontrar vocabulários e anseios em mais de quarenta idiomas. O documentarista Adam Curtis recorda uma entrevista em que Specht conta como foi decisivo pensar que aquelas mulheres pintavam os cabelos não porque quisessem elogios dos homens. Para ela, o circuito do desejo passava pela aspiração de ser sujeito, não objeto, de suas vidas. A sacada marcou uma intervenção feminista no processo criativo e na estrutura de consumo. Talvez ela não imaginasse que, cinquenta anos depois, a ideia do merecimento seria ardilosamente explorada, tornando-se fio condutor da existência neoliberal.
A criação da publicitária me veio à mente diante de Eu mereço!: da velha hipocrisia aos novos cinismos, de Paula Sibilia. No livro, a antropóloga argentina analisa as derivações sintomáticas de uma sociedade que acredita poder ter tudo porque seu merecimento é ilimitado. “Eu mereço” tornou-se expressão definitiva, que dispensa causalidade ou explicações. Se antes a benesse ou a punição decorria de uma ação nobre ou de comportamento errado, respectivamente, agora o simples fato de existir assegura o prêmio e dispensa o castigo.
Na terra do ‘eu mereço’, não espanta que influenciadores sejam os embaixadores dos ideais de vida
Esse ponto de partida generoso e supostamente universal — qualquer um de nós podendo reivindicar que o mundo se dobre aos nossos caprichos — fomenta uma busca insaciável e a qualquer custo pelo êxito e pelas milhares de “melhores versões de nós mesmos”, quando curiosamente a melhor versão sempre terá sido um rascunho perante o eu maravilhoso e semidefinitivo que há de vir. A felicidade será perseguida, com o afinco da certeza, porque tudo pode ser, só basta acreditar, como rege a letra de “Lua de cristal”. No entanto, no meio do caminho aparecem pedras sísifas e a aposta turbinada no bem-estar é surpreendida por um intenso sofrimento, que os diagnósticos muitas vezes categorizam como patologia ou fracasso individual, na forma de depressões, ansiedades e transtornos.
“Somos mais livres e felizes do que nunca, ou jamais nos sentimos tão frágeis e frustrados?”, pergunta Sibilia, que é radicada no Brasil e leciona na Universidade Federal Fluminense. Com referências múltiplas e orquestradas de modo estimulante, ela toma esse desencontro, entre uma sociedade empoderada e sua “impotência paralisante”, como a sofisticada amarração de um sistema de valores que ostensivamente afirma mirar no sucesso, mas precisa da fragilidade e da fragmentação para funcionar. Teorizado por vários campos, esse tema, no livro, tem seu diferencial no acento à primazia do cinismo como resposta à erosão das bases que coordenavam as relações entre as pessoas, a saber: a subordinação à lei, a não satisfação das pulsões e o sentimento de culpa.
Repressão e recalque
Em 1930, três anos antes de Hitler vencer as eleições alemãs, Freud publicava O mal-estar na cultura, em que refletia sobre a função social da culpa, da vergonha e do constrangimento. Uma tríade de sabor amargo, mas que assinalava condições para se viver em sociedade, tendo a renúncia pulsional como determinante, isto é, os mecanismos de repressão e recalque como freios às satisfações. O oposto disso foi ilustrado, de modo tragicômico, no filme argentino Relatos selvagens (2014) ou, de modo catastrófico, com a anabolização do “faço o que eu quiser”, que vemos nos fascismos, ontem e hoje.
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O ingresso na sociedade tem uma taxa de inconveniência nomeada por Freud como mal-estar. De certa forma, é o preço psíquico pago pelo desfrute das relações sociais, que, claro, são complicadas, mas igualmente fonte de prazer e de harmonia. Sibilia recupera a matriz social freudiana e aponta para uma modernidade em que as normas tinham algum valor e a hipocrisia era a forma de dar vazão aos impulsos mais condenáveis, às escondidas.
Só que esse “solo moral” desabou e um novo chão foi montado, com contraofensivas virulentas; nele, o cinismo nada de braçada. As mais estapafúrdias e odiosas manifestações ganham espaço cumulativo, pois engajam, e não é preciso cobri-las com um véu, já que a transparência e a falta de filtro dão verniz de autenticidade. Mais: o cinismo encoraja a radicalização como a negação do comum, posto que o extremo rende lugar ao sol.
A estrutura anterior tinha o propósito do bem comum, mas não era lá essas coisas, adverte Sibilia. Premissas iluministas — como o humanismo, a igualdade e a liberdade — orientavam a moralidade da época, mas o desacordo entre teoria e prática revelou as rachaduras na fachada. A justiça falhou, a equidade não saiu do papel, a opressão e a desumanização desencadearam escravização e genocídios, e o repúdio à hipocrisia parecia ser a denúncia de que o trem desgovernado não escaparia de seu destino errático sem uma remoção total dos trilhos.
Junto a uma hiperconexão e uma aceleração do tempo jamais vistas, o piso foi reconstruído com assoalhos nada firmes. O que é fato e o que é mentira? A internet, que se propunha ser praça, foi engolida por redes sociais com propósitos cada dia mais antissociais. Não deve ser estranho que, na terra porosa do “eu mereço”, influenciadores e suas rotinas monetizadas sejam os embaixadores dos ideais de vida.
No diagnóstico de Sibilia, o cenário atual é sombrio, mas há esperança. O ponto fraco da lógica merecedora é justamente o inflacionamento do eu e o cinismo de desprezar o outro. Nossa sorte é que somos seres contraditórios por excelência. O inconsciente aparece onde menos esperamos, apontando para nossas identificações e antídotos adotados para o desamparo. A divisão subjetiva, portanto, é uma vacina à radicalização: há sempre algo que fica de fora, que não adere, passível de se descolar de uma ideia ou identidade. Quem sabe seja um recurso para fazer furos num solo tão afeito à desagregação.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “O eu empoderado”
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