A FEIRA DO LIVRO 2026,
Vi na minha história a de outras mulheres, diz Mar García Puig
Escritora catalã e a brasileira Marcella Franco debatem a maternidade e especulam um futuro possível para as novas gerações
31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026As particularidades e os aspectos dissonantes da maternidade foram tema da mesa que reuniu a editora e ex-deputada do Parlamento espanhol Mar García Puig, autora de A história dos vertebrados, e a jornalista e escritora brasileira Marcella Franco, que acaba de lançar Solo, sua estreia na literatura. Os dois títulos foram lançados pela Bazar do Tempo.
Mediada pela jornalista Tatiana Vasconcellos, a conversa lotou o auditório do Museu do Futebol no fim da tarde deste sábado (30) e teve tradução simultânea de Camila Bógea. A plateia ouviu atentamente as histórias e percepções de duas escritoras que mergulharam fundo no que a maternidade e a paternidade têm de insondável até transformar essa linguagem, muitas vezes indizível, em literatura.
Ficar sem palavras não era uma opção para Puig, que aborda no livro duas situações que transformaram sua vida: se tornou mãe de gêmeos no mesmo dia em que foi eleita para ocupar uma das cadeiras do parlamento espanhol. Nasciam ali, naquele 20 de dezembro de 2015, a deputada e a mãe. O período pós-parto, contou, foi uma imersão emocional em si e em outras mulheres.
“Comecei a pesquisar diversos prontuários e, a partir daí, fui pegando o rastro de tragédias gregas, como a tragédia de Eurídice, fui atrás da histórias de poetas, de mulheres como Sylvia Plath e, ao final, cheguei à minha própria história”, contou sobre o processo de criação. “Vi no meu prontuário a história da minha personagem e de todas as mulheres que pesquisei. Expus a minha loucura e segui com a narrativa”, explica a autora.
Em Solo, Marcella Franco desenha a maternidade a partir de duas vozes: a da mãe, que assume sozinha a criação de um bebê; e a do filho, que cresce sob seu cuidado. Apesar de criar uma narrativa que ecoa condições pelas quais passam todas asa mulheres que educam filhos sem a ajuda de um parceiro ou parceira, ela chama atenção para os contrastes.
“Fui mãe solo, deixei de ser depois de um tempo, mas foram dois anos que viraram ficção, foram virando cenas. As mães solo experimentam muita coisa em comum. A minha maternidade solo não é uma maternidade comum, porque cada mulher a experimenta de uma forma. E o livro nasceu a partir desses pontos de vista que se contrapõem”, contou Franco, cujo romance foi ilustrado pela artista visual Paula Schiavon.
Apostas para o futuro
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As autoras compartilham medos, tensões e especulações a respeito de um futuro em um mundo em desequilíbrio, ameaçado pelo avanço de governos de extrema direita. Puig ressalta que, apesar de A história dos vertebrados relatar certo tipo de maternidade, os temas podem interessar a qualquer tipo de leitor.
“O livro fala muito de maternidade, mas fala muito mais sobre o medo, que é universal. Muitas vezes os livros sobre a maternidade são para mulheres, mas é comum livros de pessoas que vão para a guerra ou usam armas, e o medo é comum a todos: seja da morte ou de não saber o que vai acontecer”, disse. “Foi bom descobrir, durante a maternidade, que a morte não estaria à espreita.”
A autora disse ainda que a loucura é um estigma que precisa ser reinterpretado, a partir da escuta de histórias de mulheres, e defendeu a literatura como uma forma de diálogo. “Por um lado, a gente não pode romantizar a loucura, e é preciso escutá-la, porque ela quer nos dizer algo. O delírio é uma linguagem, e a hipocondria não é diferente”, disse.
Ao refletir sobre a complexidade da experiência materna e a criação de meninos e meninas, Franco defendeu que o debate acerca da política do cuidado é uma importante ferramenta para as próximas gerações.
“É uma luta diária e a gente precisa muito da ajuda dos homens, a gente sozinha não vai dar conta de fazer isso. A gente precisa dessa cooperação. Eu estou vendo uma geração mais consciente, buscando uma solução.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Institut Ramon Llull e Bazar do Tempo e teve interpretação de libras da EducaLibras.
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