Ministério da Cultura apresenta
A chef paulistana Bel Coelho (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Não temos na nossa mesa a biodiversidade brasileira, diz chef Bel Coelho

Em mesa com Inara Nascimento e Rute Costa, pesquisadoras discutiram como a alimentação se entrelaça com preservação socioambiental e colonialismo

30maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Quem assistiu à mesa Floresta na boca, que reuniu a chef paulistana Bel Coelho, a antropóloga amazonense Inara Nascimento e a pesquisadora fluminense Rute Costa no Palco da Praça d’A Feira do Livro neste sábado (30), saiu com fome e provavelmente não olhou para o prato do almoço da mesma maneira.

Na conversa mediada pela jornalista Isabelle Moreira Lima, não faltaram menções a ingredientes e pratos da rica biodiversidade brasileira e ficou o recado de que comer é um ato político.

“Comida é relação. Quando a gente olha para um prato de comida e não consegue saber de onde veio o que a gente come, nem estabelece uma relação com esse território, com os corpos que produzem essa comida, a gente começa a primeira ruptura”, afirmou Nascimento.

A antropóloga amazonense Inara Nascimento (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Ela, que é mulher indígena sateré-mawé e se apresenta como amazonense de umbigo e roraimada de bucho, lembrou que essa ruptura “gera uma série de violências, que vão chegar nos nossos territórios, nos adoecimentos que nos acometem”. “Não ver esse caminho faz parte dessa estratégia, que segue sendo colonial”, arrematou.

Costa puxou esse fio. “A colonização nos fraturou. Ela se encerra do ponto de vista jurídico e político, mas a colonialidade segue como herança nos dias atuais, ordenando essa relação que a gente coloca aqui de devorar o mundo, de utilizar o máximo, de olhar para as pessoas e para a natureza como recurso”, afirmou a pesquisadora, que é mulher negra, cria do morro do Caonze/Kwanza e professora adjunta do Instituto de Alimentação e Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

As duas são autoras do recém-lançado Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil (Elefante), que traça o caminho da comida a partir da cozinha, da roça, do quintal e do terreiro para pensar nos alimentos como território de conhecimento.

Descolonização

“A colonização nos fere nesse ponto, da existência, porque condiciona a forma de viver a partir dessa lógica do acúmulo, do capital, dessa comida que não tem alma. Os ultraprocessados não têm alma. Não são nem alimentos. São produtos majoritariamente feitos a partir de compostos retirados a partir de substâncias do alimento, de produtos à base do petróleo e do carvão. Não tem vida”, afirmou Costa.

A pesquisadora fluminense Rute Costa (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Coelho recordou uma visita que fez a uma escola ribeirinha na região do rio Iriri, um braço do Xingu, no Pará. Todos os alimentos usados no preparo das merendas eram oriundos da roça do entorno, fomentando uma economia circular, oferecendo alimento de ótima qualidade nutricional e fortalecendo a cultura alimentar do local.

“Ver isso numa reserva extrativista a 12 horas de barco de Altamira foi muito emocionante, de cair em lágrimas, com a diversidade do que eles estavam comendo, e que não tinha nada a ver com a alimentação escolar que a gente vê aqui em São Paulo”, disse a chef, autora de Floresta na boca: Amazônia – pessoas, paisagens e alimentos (Fósforo). Nesse relato de viagem pelo Pará, ela retrata a sociobiodiversidade amazônica sob o prisma dos sistemas alimentares locais e conta histórias de quem atua no começo dessa cadeia.

Bel Coelho, Rute Costa, Inara Nascimento e Isabelle Moreira Lima (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Como um refrigerante chega com tanta facilidade em territórios ribeirinhos, em comunidades tradicionais, e corrompe hábitos do suco de açaí?”, questionou Coelho. “Isso a gente precisa pensar, então tributar, outra política pública, os industrializados, isso seria fundamental. Não estou falando só dos territórios, das pessoas que estão produzindo alimentos e mantendo a floresta em pé, mas também nos grandes centros urbanos, da gente se alimentar de menos industrializados, porque todo mundo está adoecendo com essa prática.”

Coelho reconheceu que a culinária europeia tem “coisas deliciosas”, mas afirmou estar num caminho contrário, de “descolonizar o próprio paladar”. “O nosso gosto foi muito colonizado e a gente não tem na nossa mesa a biodiversidade brasileira. Isso é um dos problemas para a conservação socioambiental.”

A paulistana confessou que vem de um “meio muito individualista, muito egoico, o mundo dos chefs de cozinha”. Ela pensava em escrever um livro de receitas tradicional, mas, à medida que mergulhou na pesquisa, isso perdeu o sentido. “Quanto mais eu pesquisava e mais relação eu tinha com produtores ou extrativistas, pensava que o que a gente faz é muito menos trabalhoso do que o que essas pessoas fazem: produzir alimento com floresta em pé.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Fósforo e Elefante e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.