Livros e Livres,
A língua traiçoeira
Em ensaio, Camila Sosa Villada reafirma uma escrita travesti que inventa novos caminhos para a criação literária
28maio2026A continuar nesse ritmo, os leitores brasileiros de Camila Sosa Villada vão ficar mal acostumados. Desde a primeira publicação de um de seus títulos em nosso português, em 2021, iniciou-se uma disputa no mercado editorial pelas produções da autora e, hoje, temos todos os seus seis livros, traduzidos, por aqui — o principal deles em mais de uma edição. Um fenômeno que não é exclusivo do contexto brasileiro, já que a argentina desponta como uma das autoras mais lidas mundo afora, com uma obra presente em dezenas de países. Um sucesso surpreendente, ainda mais quando se leva em consideração o componente principal de suas narrativas: a travestilidade.
Tenho defendido a ideia de que, a partir de As malditas (que ficou mais conhecido no Brasil pelo seu nome social, O parque das irmãs magníficas), faz sentido começarmos a falar numa “literatura travesti”, pois a travestilidade agora subverteria não só a construção da trama, como também a própria linguagem. Eis o marco zero, ou pelo menos um divisor de águas, desse novo candidato a gênero literário. Tese sobre uma domesticação, publicado em espanhol no mesmo 2019 do romance de estreia (mas que só chegou por aqui em 2024), e Sou uma tola por te querer (2022), coletânea de contos que saiu no mesmo ano em ambos os idiomas, reforçam a percepção de estarmos diante de uma escrita travesti, trabalho de linguagem que, valendo-se da peculiar experiência da autora, abre novos caminhos para a criação literária.
Poderia uma travesti narrar sua infância sem apresentar-se como uma desajustada de gênero?
Portanto, eram altas as expectativas quando eu soube do lançamento de A traição da minha língua. O título já me intrigou: “trair” e “travestir” são palavras correlatas, seja por dividirem o mesmo prefixo latino (“trans” + “dare”/”vestire”), seja por nomearem um comportamento que, de uma perspectiva normativa, seria indevido (o senso comum, inclusive, costuma retratar a transgeneridade como uma forma de traição de gênero). Mas a traição de Villada vem atrelada à língua. Refere-se ela ao castelhano/espanhol? Talvez sim, visto que o relato inicial fala no desejo de conhecer melhor o próprio instrumento de trabalho, de aprender a usar essa língua de forma menos intuitiva, amadora. Na raiz de tal desejo, está a percepção de que a intuição travesti pode, sim, ser uma ferramenta poderosa, mas, sem a devida orientação, seu alcance é limitado: é preciso treinar o olhar via disciplina e estudo para que essa intuição continue a produzir transformações.
Nas próximas dez páginas do livro é outra traição que começa a se desenhar: a da higienização da narrativa, aparentemente destravestilizada. Estaria Villada buscando se afirmar não mais como autora travesti, mas como autora apenas, sem o incômodo adjetivo? É o que eu pensava enquanto lia os sensíveis registros dessas páginas, uma infância de menina narrada ora em terceira pessoa, ora em primeira, as tensões vividas no seio familiar, as memórias que a assombram. São relatos que lembram um exercício autobiográfico, com histórias irmãs das contadas em A viagem inútil (2024) e As malditas, mas, ao contrário do que vemos nessas duas, agora não há nada que traia a travestilidade.
‘Passabilidade cis’
É direito da autora escrever o que lhe der na telha e eis a expressão que surgirá no relato subsequente (“é hora de escrever o que me der na telha, mesmo que isso não agrade a ninguém”), quando me dou conta do quão precipitados foram meus julgamentos. Dali em diante, A traição… se desnudará uma obra absolutamente travesti, fazendo com que se possa reinterpretar mesmo essa inicial “passabilidade cis” (expressão que marca o quão perceptível é a transgeneridade de uma pessoa trans, ou seja, o quão facilmente a imaginam uma pessoa cis). É como se o texto convidasse à reflexão: poderia uma travesti narrar sua infância sem apresentar-se como uma desajustada de gênero? Faria sentido representar, ao menos via ficção, o desajuste só no mundo ao redor e não nessa criança?
A ideia é instigante, mas não, esse não é um panfleto transfeminista, até porque essa eu anônima que escreve e que por vezes se travestirá de Camila-a-autora agora vai colocar em xeque a própria identidade. É o que acontece quando ela reflete sobre o papel da “palavra” na reprodução das travestis (espécie de fecundação de ouvidos, “feitiço que gera uma nova traidora”…) e, logo depois, define a identidade travesti como “gambiarra, magia barata” e, no limite, “uma prisão”. Avançando nesse ponto, se faz uma pergunta brutal:
Mais Lidas
Se renunciasse à palavra ‘travesti’, se apagasse do meu vocabulário essa experiência e escrevesse sobre o mundo estrangeiro, eu leria a mim mesma?
Quem quer que escreva sob o signo da exclusão vira e mexe se vê às voltas com questões similares. Dúvidas do valor de uma literatura feita de bordas e restos, receios de se tornar um autor nichado. A eu travesti anônima que assume as linhas de A traição… lança uma provocação distinta: questiona se teria ela própria vontade de se ler, caso eliminasse essa experiência de seus textos, caso cisicionasse (um neologismo para designar o contrário de “transicionar”). Parece o exercício trazido na abertura e que será subvertido pelo que vem a seguir, quando a travestilidade contagia a escrita de Villada e nos enreda em belíssimas reflexões sobre a descoberta precoce do desejo, sobre as línguas aprendidas com suas várias mães, sobre a vontade de ver sua obra incrustrar-se “como uma espinha que infecciona sob a pele da memória” de quem se apieda ao ler seus livros.
Comecei a leitura achando que não fazia sentido publicar um livro atrás do outro (se bem que, neste caso, a questão é mais do mercado brasileiro que dela, já que seu livro anterior era de 2022), que Villada talvez tivesse se acomodado, se higienizado, até se vendido, mas encontrei aquela mesma travesti amarga, ácida e picante que me seduziu com seus absurdos romances. E, se As malditas e Tese sobre uma domesticação vinham engrossando as hostes das traidoras de gênero, imagino este novo ensaio reunindo essa legião disforme e provocando-a a exercitar-se na tão poderosa quanto subestimada arma que é a escrita. Numa época dominada por obras inofensivas, insossas, que glória é poder escrever algo que desassossegue leitores.
Porque você leu Livros e Livres
Sem perder a ternura
Historiadora recria o contexto político e social de levante lésbico em 1983 sem esquecer a memória afetiva da vida noturna
JULHO, 2026
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
