Literatura,

“Um ano travesti equivale a sete anos humanos”

Em livro autobiográfico, a argentina Camila Sosa Villada conta sobre sua reconstrução e seu processo de ruptura com o mundo dito normal

23jul2021 - 04h00 | Edição #48

Ainda que eu defenda que as palavras “travesti” e (mulher) “transexual” devam ser tratadas como sinônimos, sempre me surpreende ver o quão mais fácil é recorrerem a esta, ou a variantes suas como “trans” e “transgênero”. Qualquer uma, menos travesti. Mesmo que estejamos falando de um texto que se valha, ao longo das suas mais de duzentas páginas, tão somente dessa palavra.

Refiro-me às resenhas que O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada, têm recebido. Resenhas belíssimas no mais das vezes, mas que parecem não entender o motivo de insistirmos no termo: romper com o processo de estigmatização e apagamento que segue em curso contra a comunidade e a cultura travestis.

No começo, eram todas travestis e a forma quase única de viabilizar sua existência era a prostituição. Anos se passaram, mas até há pouco tempo quase nada havia, principalmente se a travesti fosse pobre. E é disso que nos fala a protagonista desse romance autobiográfico: “No porão desta história, não existe absolutamente nada para mim. Apenas o meu corpo, que vendo para poder viver como mulher”.

Na segunda metade do século 20, a medicina entra em cena dizendo-se capaz de construir uma vagina no lugar do nosso pênis e, com isso, foi inventado um nome para a clientela interessada no milagre: “transexual”. Segundo o sexólogo Harry Benjamin, um dos principais responsáveis pela disseminação do termo, “verdadeiros transexuais sentem pertencer ao outro sexo, querem ser e funcionar como membros do sexo oposto, não apenas aparentá-lo” e, em função disso, “depositam toda a sua fé e futuro nas mãos do doutor, especialmente o cirurgião”. Travestis, ao contrário, “se sentem homens e sabem que são homens”. Ainda segundo o sexólogo, o travesti “nada demanda da profissão médica, a menos que queira um psiquiatra para tentar curá-lo” (The Transsexual Phenomenon, 1966).

Como é possível que, diante de tudo isso, ainda tenhamos a audácia de sobreviver?

Essa diferenciação capenga e transfóbica acabou pegando e ainda somos reféns de uma imaginação que só consegue nos conceber dessa forma: de um lado, as que estão confortáveis com o genital com que nasceram (travestis); de outro, as que gostariam de possuir o genital que mulheres legitimadas possuem (transexuais).

É preciso resistir a esse discurso e rechaçar qualquer tentativa de nos diferenciarem pela relação que temos com nossos genitais. Até porque uma das principais reivindicações transfeministas é de que gênero e genital não possuem relação de tipo algum. E pode-se ser travesti, uma identidade evidentemente feminina, mas que em muitos casos acaba também significando uma posição deliberada de não querer mais caber nas normatividades de gênero que fundam a nossa sociedade.

Eis onde se enquadram as personagens de O parque das irmãs magníficas. Como qualquer criança que desde cedo se entende por gênero distinto do que lhe foi designado, a protagonista sonha em poder ser vista da forma como se ela própria se vê. Ao perceber que isso não acontece, começa a sonhar com a transformação desse corpo: “Quando começo a florir, rezo para que as tetas cresçam em mim durante a noite, para que meus pais me perdoem, para que nasça uma vagina entre minhas pernas”.

Não houve o perdão dos pais. Houve, isso sim, violência, tão imponente que fez com que, anos depois, seu pai seguisse como o principal fantasma: “Não teve polícia nem clientes nem crueldades que me atemorizaram mais que meu pai”. Esse temor não era de mão única: “Em honra à verdade, acredito que ele também sentia um medo pavoroso de mim. É possível que aí seja gestado o pranto das travestis: no terror mútuo entre o pai e sua cria travesti”.

Em meio ao medo, o sonho de ver-se outra. Um dia ela descobre que, se o problema era o corpo, agora era possível transformá-lo. Primeiro com as roupas das amigas, depois com as que ela própria foi arranjando para si, muitas vezes por meio do furto, e por fim com os hormônios, as cirurgias e o silicone industrial.

Clima mágico

Essa parte se dá quando já aconteceu a ruptura com o mundo dito normal, a sujeita tendo que reconstruir sua vida a partir desse outro universo (o marginal, travesti) atravessado por medo, violência, precariedade, mas também por solidariedade de umas com as outras, atitude de permanente deboche perante o mundo e uma nova — e absolutamente radical — noção de família. O clima mágico irrompe na narrativa a partir da combinação desses fatores, pois como é possível que, diante de tudo isso, ainda tenhamos a audácia de sobreviver?

Nossa existência é, em si, subversão. Como disse Paul B. Preciado: “A revolução homossexual foi começada pelas lésbicas, pelas bichas afeminadas e pelas travestis — as únicas que necessitavam da revolução para sobreviver” (Terror anal, 2020). E essa revolução se fez abrindo caminho para o fantástico, um dos aspectos mais marcantes da narrativa de Villada. Travestis personificam o sonho: se elas existem, tudo é possível.

Um último comentário: O parque das irmãs magníficas traz lampejos dessa linguagem que foi se forjando no seio da comunidade travesti argentina e que, na excelente tradução de Joca Reiners Terron, foi aproximada do pajubá brasileiro. Lógico que a tradução ganharia muito com uma consultoria travesti, mas os (poucos) deslizes dificilmente serão notados por quem não é do meio.

E isso me deixa imaginando o dia em que veremos obras como essa não apenas num português pintalgado de pajubá, mas também num pajubá salpicado de português. E não somente essa e outras obras travestis, e sim Shakespeare, Sófocles, Machado de Assis. Já imaginaram?

Quem escreveu esse texto

Amara Moira

Crítica literária, escreveu E se eu fosse puta (Hoo).

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.